IV
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e
não se sente;
é um contentamento
descontente,
é dor que desatina
sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário
entre a gente;
é nunca contentar-se
de contente;
é um cuidar que
ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem
vence o vencedor;
é ter, com quem nos
mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos
amizade,
se tão contrário a si
é o mesmo Amor?
(CAMÕES, Luís Vaz de;
Versos de Amor e Morte; São Paulo: Peirópolis, 2006,
pg. 53)