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Arquitetura funcional

PARA FERNANDO CORONA

E ANTONIETA BARONE

Não gosto da arquitetura nova

Porque a arquitetura nova não faz casas velhas

Não gosto das casas novas

Porque as casas novas não têm fantasmas

E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares

Que andam por aí...

E não-sei-quê de mais sutil

Nessas velhas, velhas casas,

Como, em nós, a presença invisível da alma...Tu nem sabes

A pena que me dão as crianças de hoje!

Vivem desencantadas como uns órfãos:

As suas casas não têm porões nem sótãos,

São umas pobres casas sem mistério.

Como pode nelas vir morar o sonho?

O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso

(Como bem sabíamos)

Ocultá-los das visitas

(Que diriam elas, as solenes visitas?)

É preciso ocultá-lo das outras pessoas da casa,

É preciso ocultá-lo dos confessores,

Dos professores,

Até dos Profetas

(Os Profetas estão sempre profetizando outras cousas...)

E as casas novas não têm ao menos aqueles longos, intermináveis corredores

Que a Lua vinha às vezes assombrar!

(QUINTANA, Mário; Apontamentos de história sobrenatural; São Paulo; Ed Globo, 2005, pg. 50)