A Idolatria da Palavra de Deus
...o qual também nos
capacitou para sermos ministros dum novo pacto, não da letra, mas do espírito;
porque a letra mata, mas o espírito vivifica. II Cor 3: 6
Estávamos
todos reunidos, se é que podemos chamar assim, como quase sempre fazemos nas
noites de domingo, em torno do que temos buscado nestes dezessete anos. O
domingo é escolhido pela facilidade do encontro, dos descompormissos
que marcam esta data, pela disposição própria de uma data sem agenda. Quando
nos encontramos – e talvez seja mais apropriado chamar de encontro - assim, tudo
é muito simples, sem hora para começar e nem terminar, sem rotinas e roteiros
prévios, apenas vamos ocupando os lugares no lugar que escolhemos para
conversar ou para ficarmos calados. Como se o encontro estivesse ecoando o
próprio domingo. Nem mesmo o lugar tem sido o mesmo, como cada data carregasse
seu próprio descompromisso e singularidade. A
presença não é obrigatória, pois por vezes faltam um, dois, três, ou todos. O
que pretendemos é estar reunidos como família e conversarmos. Os assuntos
gravitam ao redor de um texto extraído da Bíblia, mas não como quem vai
apresentar uma doutrina, ou mesmo uma revelação, nem mesmo uma firmeza que
mantém o texto sempre na primeira pessoa. A referência primária ao texto é
apenas um portal para tantas palavras quantas se forem apresentando por ali.
Tudo se passa como se dá aos cometas, sua órbita o coloca perto, assim como o
distancia lançando-o na escuridão do universo, movido pela força de uma
gravidade solar. Gravitamos ao redor do Texto, mas nem sempre citamo-lo
expressamente.
De fato
não é nem mesmo uma reunião, pois esta pretende que haja uma des-união, uma separação, um distanciamento para que depois
possamos nos unir novamente, nos re-unir. Unimo-nos de tantas diversas maneiras
que aquele encontro, aquele momento em torno do Escrito não é uma re-união, mas
um dos encontros dentre tantos por meio do qual voltamos a estar numa
proximidade sensível. Reunimo-nos traduzindo por diversas faces o Texto e encontramo-nos
no domingo para gravitarmos em torno dele. Por isso quase nunca há novidades a
serem apresentadas. Talvez rememorações, lembranças de compromissos, atenções
diante de desafios, brincadeiras e trocas amistosas. Menos importante, ou mesmo
desimportante é a revelação, o desvelamento
da novidade imposta por uma tecnologia da obsolecência,
e mais caro a nós é o encontro como lugar em torno do qual nos dispomos.
Naquele
lugar quem chega antes ocupa as cadeiras e as camas. Quem ainda estava enroscado
com outra atividade e não ouviu o chamado, vai se acertando com o chão frio,
mas não menos aconchegante. Somente ela, que na maioria das vezes convoca-nos
para esta pausa em que os relógios são desligados e o tempo se eterniza, exige
uma poltrona, ou um lugar privilegiado, retirando alguém de seu conforto. Mas
isto já faz parte do acordo tácito. Espalhamo-nos pelos quatro cantos da sala
ou do quarto. Minha esposa, meus filhos e eu para conversarmos e orarmos, tendo
como interesse uma inspiração divina para a vida contemporânea. Inspiração que
é bem-aventurança mas não é novidade, embora traga a
promessa do novo. Não delegamos este direito aos educadores cristãos, tão pouco
pesa-nos este dever. Apenas entendemos e cremos – ou seria, cremos e entendemos
– na conversa gravitacional em torno da possibilidade de uma palavra que
procuramos o Espírito vivificante de Deus.
Temos
conversado sobre o Gênesis e chegamos ao Êxodo. No último domingo que nos
reunimos conversamos sobre os dez mandamentos. No livro do Êxodo, capítulo 20,
versículos de 1 a
17, está escrito:
“Então falou Deus
todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra
do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás
para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em
baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas,
nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a
iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me
odeiam. Eu uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus
mandamentos. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não
terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão. Lembra-te
do dia do sábado, para o santificar.Seis dias
trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor
teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua
filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro
que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a
terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o
Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou. Honra a teu pai e a tua mãe,
para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Não
matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não dirás falso testemunho contra o teu
próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu
próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento,
nem coisa alguma do teu próximo.”
Conversamos
por um tempo que não sei precisar e oramos. Falamos do regime da Lei e da
Graça. Falamos da Lei que nos traz condenação, mas também da Graça que a
ninguém encarcera. Falamos que o céu não é habitado por gente obediente, mas
por gente agraciada. Ademais, que o céu não é uma instância atemporal e sobrenatural,
mas lugar da presença do encontro gracioso. Falamos que os dez mandamentos já
não nos valem para efeito de salvação eterna, mas, como inspiração. Valemo-nos
dela a fim de pensarmos as relações entre nós humanos com Deus, consigo, com o
próximo e com tudo que nos rodeira e do qual somos parte. Lembramo-nos das
palavras de Santo Agostinho quando disse algo como: ama e faz tudo o que
quiser. Pensamos que caso amemos, temos como valor supremo tudo aquilo que de nós está próximo e este amor é fundado no amor
divino. Lembramo-nos que Paulo disse aos Gálatas que os meninos precisam do aio da Lei, mas em Coríntios 13
ele nos diz que quando amamos deixamos de ser meninos e nos resta
a fé, a esperança e o amor. Terminamos as lembranças retornando aos Gálatas e
aos filhos maduros que dependem apenas da Graça.
Contudo,
ainda girando sobre Gênesis, pensamos que o amor não é algo que possamos
colocar sob a tutela de um “ágape” idealista, um
fantasma que nos assombra e que paira sobre nós, nos atormentando e dizendo:
não amaste! O amor não é algo transcendente, sobrenatural, ideal, imaginário,
perfeito e inalcançável. Buscamos o sentido que se pode conferir ao “ágape” e encontramo-nos com o sentido da palavra “ágape”
como ‘festejar a presença do outro que se aproxima’. “Ágape” seria, assim,
alegria da proximidade do encontro com o outro. Por isso os primeiro cristãos
faziam, toda vez que se encontravam, a festa do “ágape”.
Desta
maneira entendo que como festa – e a festa já é algo que deveríamos nos deter
mais amiúde – cada um preparava antecipadamente um mantimento que seria
compartilhado, tornado comum. Podemos perceber isto presente na carta de Paulo
aos Coríntios. Diz ele que cada um preparava algo a
ser posto sobre a mesa, e que estes alimentos seriam partilhados por todos
festivamente. Nesta festa, neste encontro como “ágape” cada um deveria
discernir o Corpo. Discernir o corpo é discernir, para mim, duas coisas:
primeiramente que cada um é um membro do Corpo, mas que cada membro
individualmente e em separado é uma parte de um cadáver esquartejado, assim, o
ágape se faz no encontro que a parte se percebe no todo e se une ao todo do
Corpo, como encontro festivo com o outro; em segundo lugar que a festa do
encontro é a alegria de estar com o que está fisicamente próximo e com o que está
próximo, mas se encontra disperso.
“Ágape”
não é um amor espiritualizado, sublimado, intangível, mas é alegria de
encontrar com aquele que totalmente outro, aquele que
é totalmente diferente, aquele que está disperso, distante, mas que alegra-se
na proximidade. Deus “ágape” o Mundo exatamente neste sentido, de vir ao
encontro do que lhe era totalmente outro e faz-se outro para congregar os
dispersados: eu e você, por exemplo. A Lei exclui, a Lei bane, a Lei cria
fronteiras, a Lei normatiza relacionamentos, a Lei
civiliza condutas, a Lei conforma indivíduos ao seu regime, a Lei totaliza
comportamentos, etc. O “ágape” tudo espera, tudo
suporta, a todos acolhe, se alegra com o que está distante e com o que está
perto. O “ágape” agasalha o nu, alimenta o faminto,
pois o Espírito de Deus envia o Corpo Ungido para libertar cativos e apregoar o
ano aceitável do Senhor. A Lei afirma: não matarás! O “ágape”
pergunta: por que matar? A Lei afirma: não adulterarás! O
“ágape” pergunta: para que adulterar? A Lei afirma: não cobiçarás! O “ágape” pergunta: o que cobiçar? O
“ágape” não define previamente fronteiras permissíveis de ações, mas
abre-nos ao jogo das traduções pentecostais diante dos estrangeiros, como nós,
que festivamente encontramos.
Desde
então fiquei pensando: a Idolatria da Palavra de Deus é a Lei. A Lei é idólatra
em sua demanda por obediência. Israel foi convidado a sair do Egito, segundo o
relato bíblico, e neste percurso aprender a viver sem templos, sacerdotes,
ídolos, etc. Mesmo as tábuas da Lei dadas por Deus a Moisés ele as quebrou,
dando sinais de que aquilo, a escritura não era o cerne daquele movimento. Mas
aquele povo passou a idolatrar o texto mais do que amar a Deus. O próprio texto
guardava a lembrança a ser rememorada sempre: “amarás o Senhor YHWH acima de
todas as coisas”. A Lei condena-nos a sair dela mesma, de promovermos Êxodos
freqüentes para fora e para longe dela. A Lei diz: lembra dos dias de sua
servidão! Contudo confundiram o Criador com a técnica e o texto foi divinizado,
fazendo o povo retornar à escravidão da Lei. O protestantismo retorna a esta
gravidade ao dizer “Sola Scriptura” e o
Fundamentalismo radicaliza ao ratificar esta tese do século XVI e determinar a inerrância da Bíblia: as Escrituras é a Palavra de Deus e
nela não há erro algum. Tomaram a Bíblia como um Deus. A liberdade que o
movimento iniciado por Moisés inaugurou é ocultada pela liberdade para ser
servo. O único sim que se ouve é o “sim” do escravo da Lei.
A
Bíblia passou a ser adorada, idolatrada, venerada como o Único Deus na terra
que requer a submissão absoluta e incontestável. Além das Escrituras não há
outra coisa. Jesus já havia dito algo como: não será necessário que sejam
ensinados o que falar, mas o Espírito vos guiará, fornecendo-vos uma palavra
adequada a cada situação. Nesta fala de Jesus não há uma referência exterior a
um livro, a um texto, a uma Escritura, apenas a novidade vivificada pelo
Espírito. Paulo também percebeu isto e escreve que a igreja não tem mais um
livro escrito em pedras ou papiros, mas os crentes são,
eles mesmos, cartas vivas.
Enquanto
o trabalho milenar do clero é retornar à Lei e se apoderar dos crentes fazendo
com que estes sejam servos obedientes, o des-trabalho
da Graça é festejar a presença do outro em sua contribuição para a partilha
deste encontro festivo da vida. Enquanto as pregações que se fazem nas
Babilônias contemporâneas, - cujos reis são os Apóstolos, Bispos e Missionários
- visam, não uma moralidade e uma ética vivificada graciosamente pelo “ágape”, mas, um controle e submissão à padrões prévios
de conduta que possam conferir santidade, salvação, espiritualidade como
conformação a estes idéias. A Graça chama-nos ao “ágape”,
não aquele civilizado pelos padrões da Lei, mas aquele original da festa pelo
encontro pentecostal. O pentecostal, para mim, é o falar em línguas, tantos
quantos forem os estrangeiros que diante de nós se apresentarem.
É falar uma língua que não compreendemos, mas que traz encontro com o
diferente. O Corpo de Cristo é branco, negro, índio, árabe, indú,
chinês, aborígene australiano, homem, mulher, GLS,
etc.
A Lei,
enquanto letra rígida e ultrapassada pela cruz, mata, como um ladrão que vem
matar, roubar e destruir. A Lei conforma, controla, julga, condena e pune. A
Lei para poder efetuar seu destino é, antes de sua eficácia, adorada como inerrante Palavra de Deus. A idolatria da Lei, da Palavra
de Deus, da Bíblia ultrapassa os limites de um sinal do movimento divino em
direção do homem a fim de libertá-lo. A Lei, que serviu como um deserto humano
temporário e finito, a fim de colocá-lo no Canaã de sua liberdade a ser
conquistada contra os poderes que ali se apossaram, aprisionou o mesmo homem a
um deserto em meio às emanações de leite e mel. A Lei encerra o trânsito
enquanto a Graça é um despoderamento daqueles que se
fazendo legalmente possuidores dos direitos sobre a terra, nada possuem. A
Graça não traz vida a Lei, antes a Graça mata a morte, trazendo-nos liberdade.
Somos
livres para dizer não a todo poder mortífero da Lei e dizer sim a todo sentido
de vida que na Graça encontramos. Confrontar a Lei não é denunciar um modelo
que gravita em torno de um poder obsoleto, como quem diz: “os templos são obras
romanas, ou o clero é instituição posteriores, ou as teologias são invenções
deles e daqueles”. Encontrar-se com a Graça é mover-se para fora de Jerusalém,
a Cidade Santa, como quem faz um leitura nova do sermão
profético de Jesus, tal qual se lê em Mateus. A Igreja que
pode ser entendida como um “sair para fora”,
entende-se como um quem sai para fora das estruturas legais que sistematizam
hierarquias, doutrinas, dogmáticas, patrimônios, valores, segregações entre
salvos e perdidos, etc, em nome de Deus. Sair para fora, mover-se como igreja é a coragem de
encontrar-se no deserto da existência e encontrar ali todas sorte de
estrangeiros e suas mais diversas línguas e maneiras de falar, e nesses
encontros procurar traduções pentecostais. Não é discursar criticamente em meio
ao legalismo religioso reproduzindo como novos nomes
o mesmo legalismo. Mas, é agir criticamente, saindo para fora enquanto se critica. É desconstruir
o modelo de Igreja vigente à 1.700 anos, suas
fronteiras de exclusão, suas ortodoxias, suas hierarquias fundadas no clero,
seus patrimônios que sustentam a falácia da Casa de Deus, tendo a liberdade de
propor novos modelos de encontro que já nascem como seres postos à morte. É
antes ler a obra dos hereges do que as dos doutrinadores.