Resenhando a Aliança
Olá,
Marcos.
[...]
gostaria de algumas informações.
Estou
fazendo um curso de capacitação ministerial e li o seu livro sobre Aliança;
tenho que apresentar uma resenha e alguns dados estão faltando
para que eu complete o trabalho. Se tiver a disponibilidade de mandá-los
agradeceria. Dados que necessito:
-
pessoas que exerceram influência teórica sobre sua obra, fatos que marcaram sua
vida e sua forma de pensar.
-
perspectiva teórica sobre a obra.
O
livro de sua autoria é ótimo, me deu visão nova e entendimento
real do meu papel enquanto corpo de Cristo, nesta Aliança que mantenho com
Deus.
Obrigado
Minha
amiga,
Muito
bom saber que de algum modo aquele texto foi positivo em sua experiência
cristã. Esta era a intenção que tive quando o escrevi: auxiliar-nos nesta busca
de uma fé contemporânea, mas que tivesse vínculos com a história dos
relacionamentos de Deus com os homens.
As duas
perguntas que você propõe para mim são de difícil resposta. A primeira por
excesso e a segunda por falta. Contudo, procurarei de maneira breve e sucinta
apontar algumas saídas para este impasse.
1- Pessoas que exerceram influência teórica
sobre minha obra, fatos que marcaram minha vida e minha forma de pensar.
É
importante saber que naquele momento de minha biografia, quando escrevi o
referido livro, estava perto de algumas pessoas que buscavam ao mesmo tempo
fazer uma crítica ao cristianismo evangélico, propondo algumas alternativas. Nem
sempre conseguimos fazer isto de maneira adequada e estruturada, mas alguns
tentam. Tentarei tratar destas alternativas na segunda questão que você
apresenta. Nossa comunidade chamava-se Tabernáculo
Real, era proveniente de outra que se chamava Verbo da Vida. Estávamos ligados
a dois “ministérios apostólicos”: Voz no Deserto de Rinaldo
Texidor Jr e Rede de
Rompimento Global de Noel Woodroffe.
O Verbo
da Vida é uma comunidade que tem sua origem marcada pela vinda ao Brasil de um
homem que participou dos cursos de treinamento, nos EUA, com Kenneth Hagin, da Palavra da Fé.
Ele trouxe na bagagem todo o material de estudo deste seminário americano e
traduziu-o para o português, iniciando um seminário análogo em Guarulhos-SP,
para brasileiros. Entre tantos que fizeram tal curso, estavam presentes Ohanes Karagulian e a Pra Ermany B Renzo. Ohanes tornou-se pastor do Verbo da Vida em Guarulhos,
enquanto a Ermany já era pastora de uma outra
comunidade em São Paulo. O
Pr Ohanes iniciou um trabalho com o propósito de
abrir um Verbo da Vida em São
Paulo. Neste tempo eu freqüentava a Igreja
Metodista no bairro do Itaim Bibi (minha história com a Igreja Metodista data
de meu nascimento), São Paulo, mas participava de algumas reuniões que o Pr Ohanes realizava no bairro do Paraíso, São Paulo, motivado
por amigos que tínhamos em comum.
Neste
mesmo tempo o Texidor fazia viagens freqüentes ao
Brasil e palestrava na comunidade do Verbo da Vida em Guarulhos, na comunidade
da Pra Ermany e na Comunhão Cristã nos Jardins (CCJ)
do Pr Arles. A CCJ estava iniciando um seminário nos
moldes daquele do Verbo em
Guarulhos. As pregações do Texidor
visavam romper com a crença numa Igreja que espera Jesus voltar para levá-la ao
céu, e não efetiva nada do Reino em meio ao Mundo. Enquanto o Kenneth Hagin falava de
Prosperidade e Palavra da Fé, Texidor falava de
efetividade da Igreja em meio à vida. Isto criou sérias tensões entre aqueles
que seguiam o primeiro, com aqueles que seguiam o segundo. No entanto, ambos
tratavam, a seu modo, da questão da aliança.
Na
mesma proporção que as tensões eram acrescentadas entre estas duas correntes de
crenças, o trabalho do Pr Ohanes em São Paulo também
cresceu. Eu havia me desligado da Metodista e nós conseguimos nos firmar como
Igreja Local Verbo da Vida, tendo como pastores o Pr Ohanes,
o Pr João Staub e a Pra Ermany.
Mas, alguns eventos ocorreram que anteciparam a ruptura do Verbo da Vida com o
que viria se chamar Tabernáculo Real. Texidor e Woodroffe não mais
falavam ao Verbo em Guarulhos, e vinham no Tabernáculo
Real em São Paulo,
além da CCJ e de outra comunidade em Osasco do Pr Gilson de Oliveira.
A mesma
razão que precipitou nosso distanciamento do Verbo da Vida, fez com que o Pr Ohanes deixasse a liderança do Tabernáculo,
fazendo com que eu me tornasse o pastor local (ano de 1996). Estive à frente
deste trabalho, co-pastorado pela Pra Ermany, durante
cinco anos. Período este que estivemos muito próximos aos ministérios de Texidor e Woodroffe, participando
anualmente de encontros no Caribe, Porto Rico e EUA, em que se tratavam, entre
tantas coisas, da crítica á inoperância da Igreja no Mundo, das questões
apostólicas (como eles entendiam) e de alianças.
Além da
Igreja Metodista (28 anos em diversos lugares do Brasil, tais como Brasília e
São Paulo) e Presbiteriana (2,5 anos em Belém do Pará), que freqüentei desde o
meu nascimento, também tive o prazer e honra de conhecer a Mocidade Para Cristo
no Brasil, tendo ouvido o Pr Abrão Soares da Silva, Rev. Paul e Marcelo
Gualberto. Ao fim de meu pastorado presencial na liderança do Tabernáculo Real, iniciei pesquisa sobre o uso de internet
(por volta do ano 2001) e em 2001 e 2002 fiz um curso de Ensino a Distância
pela UFPr, quando houve outra mudança em minha
biografia. Descontinuei a igreja local na maneira que estava operante e propus
Grupos Familiares suportados por alianças entre os
participante, ou seja, pequenas igrejas voltadas para o co-pastoreamento.
Entendo
que deste breve relato você pode perceber as influências históricas e pessoais
que tive na escritura do texto: Igreja Metodista e Presbiteriana (com a idéia
de comunidade local), a Mocidade para Cristo (com a vivência da informalidade e
da disponibilidade pessoal), Kenneth Hagin (com o tema da aliança, mas de maneira problemática),
Ohanes, Ermany, Texidor, Woodroffe, Staub e Gilson com pregações que tangenciavam o tema de uma
dada maneira, e minhas próprias experiências com o texto bíblico. A Pra Ermany tinha um estudo básico sobre a Aliança, mas duas
coisas me levaram a escrever aquele livro: 1- ela nunca deliberou transformar
suas anotações em um texto estruturado; 2 – eu tinha algumas considerações
pessoais que distanciavam daquelas que a Pra Ermany
adotava. Então, devo dizer que o texto tem uma influência marcante de meu
relacionamento pastoral com a Pra Ermany, mas não de
adoção, antes, de busca de uma interpretação pessoal e que creio ser mais
relevante.
Enfim,
outros dois fatores que marcaram minha vida e maneira de pensar, e que são relevantes
na escritura da Aliança. Um foi a minha viuvez aos trinta anos e meu segundo
casamento. Esta passagem marcou a perspectiva que adoto de dois modos, pelo
menos: 1 – a questão da dor pessoal e intransferível e da fé na presença de um
Deus que sofre conosco; 2 – a questão de uma aliança renovadora que se abre
quando abrimo-nos à vida com Deus. Outro fator é minha formação em Engenharia
de Produção pela USP e minha carreira como Gerente Corporativo e depois como
empresário junto com minha segunda esposa. Entendo que falar mais é entrar em
detalhes enfadonhos. No entanto, se você ainda tiver dúvidas, favor
perguntar-me.
2 - Perspectiva teórica sobre a obra.
Quando
deixei a Metodista, foi, entre outras coisas, motivado por uma querela entre o
Bispo da Região e o Pastor local (e reitor da UMESP). Entrei no Verbo que
estava impregnado da doutrina do Kenneth
(Prosperidade e Palavra da Fé), mas com forte crítica do Texidor
e Woodroffe.
A fim
de resumir o cerne de meu livro, ou seja, a referência teórica que adotei, e
apontar as diferenças entre ele e os demais relatos propostos por Ermany, Texidor, Woodroffe e Kenneth, diria que é
a questão da Graça e da humanidade de Jesus. O ponto central que me ative é
pensar em Deus como o que se fez carne e habitou entre nós, ou seja, ao
esvaziar-se desfaz as diferenças a fim de andar conosco, entre nós. O Reino não
seria nem algo que vivenciaremos apenas num plano, dimensão, status para além
da existência física e temporal, mas um desafio a ser procurado hoje. O Reino
não seria uma ordem hierarquizada e de estruturas formais de poder, mas um
reino de irmãos, reunidos ao redor da mesa e celebrando a vida e buscando
encontrar o melhor do Pai para todos. O meu texto parte da fé num Deus que se
coloca na horizontal em seu relacionamento com o homem-mulher e convida-nos a
trabalharmos juntos para um mundo melhor.
Neste
texto tento apontar para a possibilidade do homem-mulher ao estabelecer com
Deus uma aliança, não deve estar motivado pelo medo, pela carência ou por
obrigação. A aliança é motivada por um sentido de responsabilidade amorosa da
fé daquele que se vê diante de um Deus gracioso e que se entrega a fim de
melhorar nossa existência, em meio a nós. É o encontro com um Deus presente que
nos convida a andar juntos pois isto é bom. E andar
com Deus é andar com quem Deus anda. E com quem Deus anda? Vamos aos evangelhos
e perguntemos: com quem Jesus andou? Com as prostitutas, os doentes, os
excluídos, etc. Contudo ele não andou como quem estivesse sobre eles, mas com
eles.
Por isso
penso e creio que a aliança não se faz entre o Maior e o menor, mas entre
pessoas que entendem o princípio da complementariedade.
Não é aliança entre alguém que tudo tem e outro que nada tem, mas entre um que
tem coisas e outro que tem outras coisas e se complementam. No limite, não é
uma aliança entre Deus e eu, mas Deus, você e eu. É uma aliança tríplice, como
já percebemos no Eclesiastes, mas que se realiza no você e eu, cujo vínculo encontramos em Deus. Desta maneira compartilhamos recursos e
carências e, assim, não há submissão, antes aliança. Num sentido mais próximo
de nossa história, cada um de nós oferece ao outro algo (recursos e carências)
e o outro oferece também algo (recursos e carências).
A
diferença crucial é que, tomando o Velho Testamento como referência primária,
eles falam em alianças entre o mais forte e o mais fraco, entre o Rei e o
súdito, entre o poderoso e o despoderado. A aliança
para eles é aquela que promove um Reino com Leis e suas hierarquias de unções. Aliança
feita sobre a base do medo do inferno, sobre a consciência da pobreza e a busca
por salvação. Penso em uma aliança que é feita sobre o amor e a
responsabilidade, oriundos da Graça. Penso numa aliança centrada no Evangelho
de Cristo Jesus, que não usurpou o ser igual a Deus, mas esvaziou-se tomando
forma de homem, e como homem, servo, e como servo, crucificado. Creio numa
aliança que se constrói todos os dias a qual demos
nosso sim a um convide à Lei do Amor em que a única Unção é Cristo o Messias e
que a todos cobre, desde a cabeça até os pés.
Desta
maneira apontaria para a segunda base teórica que adoto: Jesus é a chave
hermenêutica de toda a minha leitura da Bíblia. Dizer que Jesus é chave é olhar
para Jesus na história e ler os demais textos submetidos a esta história. Quando
penso em Davi e Jônatas, penso em Jesus e nós. Mas,
penso em Davi não como alguém superior a Jônatas, mas
como seu amigo. Aquilo que não se encaixa nesta leitura cristocêntrica,
para mim fica problematizado. Jesus, sobretudo, é um homem histórico (esta é a
terceira referência teórica), e como tal, foi visto como homem, andou como homem e viveu como homem. Em tudo ele foi
tentado, como nós, e é apto a nos socorrer. Fundado nestas três bases posso
adotar uma conseqüência: Jesus é primeiro de todos os que o seguem. Isto quer
dizer que devemos pegar nossa cruz e segui-lo. E seguir Jesus é amar. Veja,
tudo gira em torno de Jesus Cristo como Amor Gracioso de Deus. Em amor somos
livres e não nos submetemos a nenhuma ordem Veterotestamentária
de sacerdócio. A relação de aliança é sempre de co-dependência e não de
subordinação e submissão. Esta era uma ordem que foi abolida em Cristo. “Não
vos chamo de servos, mas de amigos...” e “meu mandamento é este, que vos
ameis...” e “conhecereis que sois meus discípulos se vos amardes...”
O cerne
da aliança é o relacionamento horizontal de co-dependência a fim de edificarmos
um mundo melhor, pois, como Jesus, somos seres
históricos. A aliança é uma “estratégia” divina pois
operando no mundo, desfaz o poder do mundo pelo amor. Podemos exemplificar isto
no casamento e no texto de Pedro: se o homem tratar inconvenientemente a sua
esposa, então suas orações não serão ouvidas. A aliança que fizeram é
estratégia de vida espiritual. A vida espiritual requer uma existência vivencial segundo esta reciprocidade e co-dependência
horizontal. A chave da relação entre homem e mulher no casamento esta na
relação de Cristo e a Igreja. Contudo não numa relação de Senhor e Servo, mas
de amigos, pois ele não nos chama de servos, mas de amigos.
Por fim
Espero
ter auxiliado de alguma maneira em seu trabalho, tanto com o livro, que é
nosso, quanto nestas considerações rápidas que fiz. Peço em retribuição, se
possível, que me mande o texto final, aquele que você vier a entregar ao
professor. No mais, agradeço seu contato e a honra de tê-la como leitora
crítica de meu escrito.
Marcos Nicolini