Os magos da Bíblia
Moisés...
Diz o relato bíblico que depois de quarenta anos exilado ele vai ao deserto e
em meio àquela paisagem, que supomos fosse desoladora, vê uma árvore que ardia
em fogo e não se consumia, ademais, que de lá se fazia ouvir uma voz. Interessante
a leitura que Heidegger (A Caminho da Linguagem) faz da ardência espiritual e
que Derrida (Do Espírito) propõe uma leitura a seu
estilo intrigante, vala a pena ler. Mas, retornando a Moisés,
diz o relato que ele se aproxima daquela sarça e tira as sandálias dos pés,
pois o solo que estava pisando era santo – aqui cabe outro detalhe, como dizia
meu amigo Texidor, ali não era uma igreja, ou lugar
de oração, era apenas um deserto, mas que se tornou santo por duas coisas:
primeiro por conta da presença de Deus, segundo pela presença de Moisés, pois
foi ele quem ouviu e relatou sobre a santidade daquele espaço -, e voz que já
havia falado com ele diz para que ele retorne ao Egito e tire o povo de Israel
daquela escravidão.
Moisés
questiona a voz da sarça e busca pelos recursos que poderiam libertar tal povo
das mãos poderosas daquele rei-deus e sua nação de guerreiros. Tudo que tinha
em suas mãos era uma vara. Pois bem, diz o irrequieto YHWH, esta vara servirá
como recurso. Um pedaço de uma árvore, provavelmente ressequida, que ele
transformou em uma vara, um cajado, uma bengala mais comprida, um apoio a um
velho caminhante dos desertos. Era tudo o que dispunha para enfrentar a Faraó.
Pensemos melhor. O que de fato ele tinha era aquele fogo que arde sem queimar,
a voz que dali emanou e o encontro entre as lembranças de um povo oprimido,
escravizado por um poder usurpador religioso e a voz libertária. O cajado, a
vara, o pedaço de árvore trabalhada era um marco, uma memória, um rastro desta
ebulição audível: o espírito do ide.
Aquele
exilado retorna à terra em que nasceu, a fim de falar àquele
que, provavelmente, já conhecera demandando a liberdade de um povo feito
escravo e que ele, por dever, era irmão. Não importa se Moisés era ou não
descendente de Abraão, como questiona Freud, ele toma a descendência como
cimento posto entre um relacionamento que o faz participar do sofrimento do que
sofre. Moisés não está indo libertar Israel; antes, a chama que viu arder em
si, diante de si, e a voz que ouviu da chama, reclamava a libertação do
escravo, sem que este precisasse passar por um exame de DNA. Moisés está diante
daquele que poderia ser seu parente, daquele que poderia ter parte genética,
mas apresenta-se como um escravo liberto que retornar para reclamar a libertação
de todos. Moisés é como as primícias dos que estão presos, cativos, aprisionados,e como livre deve libertar.
Moisés,
ou qualquer que fosse seu nome no Egito, conhece a linguagem do Egito, e sabe
que aquele povo religioso, profundamente religioso crê na magia. A magia e a
religião se interpenetram. Ele toma a sua vara e solta ao chão e esta se
transforma magicamente em uma víbora. Prontamente os sacerdotes de Faraó fazem
o mesmo, e suas varas (eles também tinham varas) se transformam em víboras. Conta o
relato que, entretanto, a víbora de Moisés engole as víboras dos sacerdotes. É
como se a mágica da liberdade fosse mais forte que a sedução mágica do poder e
da força.
Olhamos
para Moisés e não vemos nele nada além de um homem, apenas um. Olhamos a vara
de Moisés e apenas vemos nela um pedaço de madeira trabalhada para dar apoio a
um velho andarilho. Olhamos para aquele velho e não vemos Deus, pois este não
se dá pelos sentidos. Damos crédito a Moisés, pois ele dizendo ter se encontrado
diante de uma árvore em chamas e que não se queimava, e que de lá se podia
ouvir uma voz, e esta como de um livro escrito na experiência desértica,
deu-lhe a intrepidez de reclamar por liberdade alheia. Moisés em nada difere
dos sacerdotes a não ser sua ausência institucional e a chama que lhe ardia com
a lembrança da voz, a qual dizia: vai a Faraó e diz a ele para deixar meu povo
ir.
Os
sacerdotes com suas varas mágicas representavam o poder e a força; Moisés com
sua vara mágica representava a demanda de liberdade de todo o cativo, escravo e
prisioneiro dos reis-deuses, seus sacerdotes e suas instituições religiosas. Não
é a vara, a magia, ou mesmo a referência aos deuses que distinguiam os
sacerdotes de Moisés. Mas, a chama que ardia e a memória de uma voz que
demandava liberdade.
Podemos,
agora, caminhar a frente centenas de anos e pensar
sobre outros magos. Lembramos daquele relato de Atos dos Apóstolos que nos fala
que Felipe estava em Samaria pregando a libertação de
espíritos cativadores e realizando feitos para além
das explicações possíveis àqueles homens e mulheres à época. Também o relato
nos fala de Simão Mágico, o qual, de igual maneira, fazia prodígios com sua
magia. Este Simão dizia fazer tudo aquilo pelo Poder de Deus que se chama
Grande. Diz o relato de Lucas que Simão fazia pasmar grande multidão e que
dizia ser um grande personagem. Sua mágica fazia com que as pessoas, grandes e
pequenos, uma grande multidão a ele afluísse e dele esperasse a realização de
coisas sobrenaturais, ou mágicas.
Felipe
e Simão, homens que realizavam coisas extraordinárias. O primeiro pregava a
Cristo, e podemos ainda ouvir o eco de Jesus em Felipe, aquele de sua voz que
diz: se eu vos libertar, verdadeiramente sereis livre.
O segundo pregava um “vinde a mim”, venham e aqui vocês encontrarão e verão
coisas extraordinárias, sobrenaturais. O primeiro dizia: estão curados, agora
vivam intensamente com a liberdade de Cristo. O segundo dizia: vejam como o
Poder de Deus está comigo, fiquem comigo e atendam ao que eu vos pedir, para
que tenham cura. Felipe é um homem perseguido que conhece a dor dos
perseguidos. Simão é um homem importante que quer garantir seus projetos. Simão
é um homem do poder e da barganha, o qual entende de comércio e de troca de
bens. Ele diz: eu te dou o dinheiro e tu me dás o poder de Deus.
Ambos
fazem mágicas, isto é, coisas extraordinárias e
inexplicáveis para aqueles de sua época. Felipe com seus atos e com sua pregação
liberta os oprimidos e doentes, participando de suas dores e auxiliando-os para
que suas vidas sejam plenas e livres. Simão com seus atos e com sua pregação se
apodera da multidão, cativando-as como seguidores de pendentes de seus poderes.
Em ambos não vemos diretamente Deus, mas em Filipe encontramos o amor gracioso
de Deus e em Simão a destruição, o roubo e a morte. Simão está para os
sacerdotes do Egito, como Felipe está para Moisés.
Podemos
ainda caminhar por mais dois mil anos e pensar como é difícil para nós hoje. Tantos
mágicos e suas magias. Tantas pessoas se deixando seduzir pelos poderes dos
grandes deuses, já seduzidas pelo desejo de participar da festa. Neste panteão
pós-moderno de nossa contemporaneidade podemos nomear
os deuses e deusas. Hoje eles se chamam Apóstolos(as),
Bispos(as), Pastores(as), Profetas, Missionários(as), Evangelistas e podem ser
vistos todas as horas nas TVs. Vemo-los todos os dias na televisão, em seus
templos, rodeados de pequenos e grandes, negociando com o poder de Deus,
fazendo suas magias e seduzindo multidões. São os sacerdotes que falando em
nome de uma crença no sobrenatural, realizam coisas que aos olhos de tantos é
algo miraculoso, como transformar varas em serpentes, ou curar, ou ainda outras
coisas. São sacerdotes que espoliam o pobre, que seduzem o carente, que mentem
dizendo falar a verdade.
O que separa Felipe de Simão o Mágico não são
os feitos extraordinários, a magia que ambos realizam, mas é para onde o
primeiro aponta: para a graça libertadora de Cristo. Se igreja é a tradução de ecclésia (no grego) e esta palavra significava um “sair para fora”, eu te convido: saia para fora deste lugar
que te aprisiona e realize tua fé em relações onde a liberdade tenha primazia
sobre a instituição.