Segue abaixo um texto inspirado
nestes nossos papos iniciais. É um texto, como todos os que
escrevo, de difícil leitura, mas é assim que escrevo como marca de meus
momentos. Por outro lado tentei pontuar uma série de questões que envolvem tudo
isto que pode ser nossa amizade a vir ser. Para mim o homosexualismo,
a homosexualidade, ou a homoafetividade
(tudo depende do que queremos encontrar e escrever) está hoje no lugar que antes
foi ocupado pelo feminismo, pelo debate do divórcio e outros temas sensíveis no
tempo. De igual maneira temos hoje a questão da relação ciência x fé e outras
querelas mais. Mas sei que tua questão é mais existencial: homoafetividade
e cristianismo. A minha linha não é esta, ou seja, de dizer isto ou aquilo,
isto e aquilo, homo x hetero como debate de um
cristianismo contemporâneo, mas visa encontrar este tema por uma via transversal. O
que pergunto é, ou, a pergunta que persigo é: o que é traduzir o cristianismo
no século XXI, isto é, tradução da fé cristã num mundo pós-religioso. O
cristianismo ainda hoje tem sido uma tradução da Bíblia para o grego dos
primeiros quatro séculos depois de Cristo. Contudo os debates mudaram, menos a língua cristã que ainda é grega antiga. Em
outra hora tentarei traduzir isto para você e você me ensina a entender de
música. O fato é que naquela época a filosofia e a teologia estavam preocupadas
em determinar a idealidade do mundo, portanto, responder, entre outras questões,
a questão: o que é o homem. O Homem, e, portanto, sua natureza, de alguma
maneira no cristianismo helenizado, determinou, penso
aqui, os limites da sexualidade. Não é apenas dizer “o homem é um animal
racional”, mas é descrever e prescrevê-lo na sociedade. Na Grécia não era assim
(isto é, o homem como hetero, pois como sabemos Sócrates
tinha lá suas quedas por Alcebíades), mas no cristianismo sim (pois é inconcebível
pensar em Agostinho tendo inclinações homosexuais).
Questionar os fundamentos do cristianismo é questionar a naturalidade dos
gêneros. Mas questionar os fundamentos do cristianismo é por uma cunha que vise
separar o que é moral transitória de um lugar fundamental para dizermos: isto é
de fato cristão. Então segue.
Ao meu amigo YLLOX
Estamos
de volta. Assim é possível que possamos dar continuidade a estas nossas
conversas, as quais você deu início. Ou teria sido eu quem ofereceu um início,
abrindo a porta para você entrar em minha casa e falar comigo? Mas não teria
sido você, primeiro, como o que antecipou em mim a esperança de leitura,
fazendo-me dar-me à escritura destes textos? A minha escritura já não teria o
rastro de uma expectativa? Por outro lado você não teria vindo a este sítio
apenas porque estes escritos estavam previamente endereçados, postados, a você?
Deixando isto para outro momento, entendo, outrossim,
que neste momento não devo falar, outra vez, de minha biografia, pois por aqui
há alguns textos que tratam disto. De fato o site é 100% auto-biográfico
e é assim que penso-o e por meio dele penso e me penso, ou seria escrevo,
escrevo-o e me escrevo. Sei lá.
Apesar
desta pretensão de negar-me a, mais uma vez, ser autobiográfico, devo notar e
ressaltar que estive tentando representar a função pastoral por alguns anos e
cheguei à conclusão que isto não era eu, antes, não trazia a alegria e o prazer
correspondente àquele que faz o que sabe e quer fazer a despeito de... Dizer
que não era eu, fala-nos de representar sem um representado, apontando para a
frieza e a pobreza com que tratamos as questões, sem o ardume motivador. Enquanto
que o encontro com o eu seria pontuado por uma chama e pelo inflamar próprio do
espírito que nos move e envia. A questão sempre premente de um espírito que nos
funda e nos arde no envio.
O
problema envolvido na função pastoral não é aquele da representação, mas do
funcionalismo, do exercício de uma função dentro de um mecanismo sem o cuidado
preciso que se tem por este ardume indescritível do prazer motivador. Quem é um
artista sabe que representar é algo nobre, prazeroso, pois quem canta
representa o autor da música e deseja faze-lo bem. Mas o pastoreamento
não é uma função, antes, creio eu, uma expressão do Cristo. Esta diferença que
evidencia a distância entre a função pastor e o pastoreamento.
A função pastor tem sido tratada dentro da estrutura hierárquica e numa linha
de poder descendente, ou seja, o pastor é aquele ungido que trata de trazer
para a terra as verdades eternas de Deus, imutáveis, sobrenaturais:
inquestionáveis. Contudo, o pastoreamento, penso, é
horizontal e sem sentido prévio, é fluídico e multidirecional,
ato sem funcionalismo. Exercício próprio de quem encontra-se
diante de um outro e que reclama uma proximidade. Desta maneira entendi,
também, que pastorear não é um cargo, ou uma função orgânica, algo exercido por
um “especialista”, mas uma possibilidade que se apresenta àquele que crê no
Reino. Chegamos a uma questão, já pontuada anteriormente e que diz respeito ao
Reino: o que é o Reino?
O Reino
nos faz pensar em muitas coisas, mormente naquelas relativas à história e ao estar-ai.
Mas, num outro sentido, devo falar, a homofobia não é algo alheio a minha história. Sou hetero e crente, sou homem e branco, sou classe média e
conservador. Quantas máscaras que sou... Ou, a quantas máscaras tenho dado meu aceitei!
Algumas questões se colocam nas fendas destas constatações: primeiro que
algumas das pessoas que admiro e tenho carinho são homo; segundo, que o Cristo
começou a se apresentar a mim como alguém que encontra e caminha, é Cristo
enquanto é o que chama o próximo à proximidade. O Cristo é convite que se põe
pela diferença. Deparei-me com outra questão: o que é o Cristo?
Para
mim, hoje, enquanto o Reino é o espaço-tempo das possibilidades a partir do
estar-ai, o Cristo é o fundamento-espírito destas. Mas há algo que é
requisitado e que está neste entremeio do espaço-tempo e do
fundamento-espírito. Podemos estar no mesmo lugar (físico ou virtual), contudo
sermos apenas ajuntamentos e massa. Há algo que não é o olhar, nem a percepção,
mas encontro. Deixamos de estar juntos, para estarmos reunidos. Mas a reunião
não é ausência de distinção, do plural, pelo contrário, o Reino é onde o Cristo
fundamenta o encontro e este como hospitalidade.
A
hospitalidade está na tradutibilidade e esta no
encontro de estrangeiros. Estrangeiros que abrem as portas de suas casas e
chamam ao seu interior o hóspede. Hostilidade de línguas diferentes que pela
tradução encontram hospitalidade. Estas coisas podem dar o sentido para onde a
minha experiência cristã aponta: de questionamento das referências doutrinárias
nas quais baseei minha fé. Questionamento da fronterização
e da exclusão em prol de algo outro que chamo de Graça. Questionamento de uma
linguagem monotônica e monótona que trata de eliminar
o estrangeiro pela absorvição, a qual chamam de conversão
Porque
estou dizendo tudo isto? Por que, em primeiro lugar, como já disseram de mim, sou prolixo, e diria, entediante.
Segundo que não quero que você perceba que está conversando com alguém que tem respostas
prévias e imediatas. Não acredito num evangelho de respostas, mas de esperança
de encontros: encontrar a dúvida em primeiro lugar. Minha fé é
certeza e convicção da dúvida. Também estou distante das organizações e
instituições que chamamos, erradamente (segundo penso), de igrejas. Tento me
afastar daquelas organizações que fazem exilados. Faz alguns anos que deixei de
estar presente a cultos e ajuntamentos. Daí resultaria mais uma pergunta: O que
seria ecclésia?
Qual a
questão, no entanto, pode ser relevante para nossa conversa? Poderíamos, a
guisa de introdução, propor a seguinte: O Cristo que encontra a
homossexualidade. Caso pensemos a questão espacialmente, devemos ampliar a
questão para: O Cristo íntimo e o Cristo social. Caso pensemos a questão
temporalmente, devemos buscar as referências antigas e o problema
contemporâneo. Mas se a questão é referenciação,
devemos buscar aquela que se refere ao texto e à justiça, e daí virá o problema
da interpretação e o da dogmática. Estas questões se tornam mais complexas
quando, apelando para o sentido do Cristo, buscamos dialogar para fora do texto
tomado monoliticamente, absoluto. O que desejo dizer é que o texto bíblico não
foi escrito sem as interconexões espaço-temporais e
não pode ser lido como uma escritura cujas fronteiras não sejam conectadas por
portas em que circulam textos e escrituras. Outro elo importante na discussão é
pensar na Igreja e o poder. O quanto a Igreja pretende ser o poder civilizatório? Esta questão é muito problemática e
perigosa. Encontramo-nos com as questões hierárquicas, dogmáticas e da
revelação da verdade.
Por
exemplo, quando se diz que a homoafetividade não é
natural, encontramo-nos com uma representação da verdade por meio de um dogma.
Mas quem determinou o valor de verdade para este dogma? O que é a natureza
humana? O que é o homem? O que é o homosexualismo? O
que é a homosexualidade? O que é a homoafetividade? E o que Cristo tem a haver com tudo isto?
Certamente que o valor de verdade do dogma está na referência ao Texto da
Bíblia, mas quem interpretou este texto? Com que lente? A partir de qual
perspectiva? É possível manter-se cristão desfazendo-se destes dogmas,
interpretações, lentes e perspectivas?
Certamente
que há outros lugares de debates, outros temas e referências. O que não
esgotaria nunca nossos limites. Todavia podemos delimitar nosso assunto por uma
referência que nos afastaria de dois problemas: do fundamentalismo moralista e
de certo relativismo moral. Ambos tomariam a referência na moral tradicional de
um cristianismo que cada vez mais encontra menos lugar no mundo contemporâneo.
Tanto uns como outros falarão que há o pecado e que ele será primordial na
elaboração da conduta do crente.
Uns
dirão: não matarás, não adulterarás, não cobiçarás,
não homosexuarás, etc., e quem assim proceder herdará
o inferno. Outros dirão: você mata, ele adultera, ela furta, vós cobiçais, eles
mentem, aqueles homosexualizam,
portanto, todos pecam e ninguém pode apontar o pecado do outro. Para uns e para
outros o pecado é o fundamento sobre o qual se fundamenta a moral. E a moral é
o código que lastreia as relações humanas. Por um lado, dizem alguns, o
efeminado, o homoafetivo não herdará o Reino dos céus,
por outro lado, dizem outros, todos pecaram e não havendo hierarquia de
pecados, todos tem o mesmo destino. Sair deste espaço
requer, para nós, a busca de outro lugar em que o Cristo possa ser uma experiência
contemporânea. Abrir nossas portas tanto ao estar-aqui, quanto à fé. Nossa
questão é: existiria um cristianismo cujo fundamento não seria a moral, pois
esta é histórica e “cultural”? Poderíamos encontrar nas Escrituras não uma
moral mais intimista fundada numa lei e em códigos de bem e de mal, de certo e
de errado e num Deus pessoal, mas uma ética cujo fundamento estaria para além
deste movimento de verdade e falsidade?
Não
sei! Vamos conversar e ver no que dá. Talvez num dado momento eu diga para
você: não consigo abrir mais portas, entender sua língua. Talvez você diga para
mim: você é um retrógrado travestido de liberal. Quem sabe? Talvez, ainda,
cheguemos a lugares distintos, mas reunidos ao redor da mesa do Senhor. Quem
sabe? Eu, de minha parte, gostaria de arriscar!
Marcos