Aos meus
filhos:
Já não vos chamo de servos, mas de amigos...
O pai
chegou-se ao filho e disse: Não sei exatamente desde quando, mas hoje sei que
você já não é mais uma criança, embora seja filho, para sempre filho. Quando
criança, ainda que meu filho, e por ser meu filho amado, dizia para você como
se comportar. Determinava horários e datas, escolhia
as roupas e as companhias. Expunha você a tutores e mestres. As palavras que você
até então falava, aprendeu-as comigo. Caso você não me obedecesse eu lhe punia
de diversas maneiras, algumas mais dolorosas e outras mais constrangedoras. Contudo,
eu quem julgava sua conduta frente a meu código e aplicava o peso de minha lei
sobre seus acertos e erros. Hoje vejo em você um filho que não é criança. Posso
chamá-lo de filho, mas não de minha criança. Percebo que você já escolhe suas
próprias palavras, suas roupas, seus amigos, suas atividades, seus horários,
faz seus planos, sonha outros sonhos e caminha por lugares que não são aqueles
pelos quais andei. Já não posso chamá-lo de criança, mas de filho adulto. Portanto,
sentemo-nos lado a lado, apertemo-nos as mãos como dois amigos, olhemo-nos nos
olhos e deixemos que nossas palavras e nossos silêncios nos acomodem,
envolvam-nos, acompanhe-nos. Sejamos mais íntimos do que outros que tivemos, que tenhamos, que venhamos ter como amigos. Sejamos
mais íntimos que dois irmãos. Conversemos sem medos, arrogância, defesas,
restrições, temores antigos, diferenças, hierarquias. Este novo testamento, vivo, seja da amizade amorosa e não do serviço, escrito
por duas mãos. Que o amor que nutrimos desde esta nossa história, de suportes mútuos,
sirva-nos de espaço sobre o qual sejamos amigos. Você leva em si minha
presença, mas na sua ausência usarei aquelas palavras que aprendi com você, que
ouvi de seus lábios, que li em suas cartas e nosso escrito. Mas, meu desejo de
agora é dizê-lo que podemos ter algo além de nossa história e de nossa genética
partilhada, coisas que vão além da obrigação e da obediência, do dever e das
regras. Aquilo que nos leva a, pelo esquecimento e suplantação destas, a sonhar
com e vir a ser, se não juntos, pelo menos deliberadamente coniventes. Pretendo
fazer destas minhas palavras não apenas a representação de meus sentimentos,
mas a expressão de meu amor. Hoje, quando falo com você como um amigo, um filho amigo que não mais está ao serviço de minhas regas e
normas, não mais falo com você como falo a um servo, mas a um amigo, mas
àquele que vai além. Atesto aqui, nesta folha em branco, apenas assinada
abaixo, minha certeza de sua amizade amorosa, de seu crescimento, de seu
compartilhar. Já não é um filho-criança, mas um filho-adulto, e como tal já não
posso mais impor minhas leis, milhas normas, minhas regras. Escrevamos acima a
lápis, e sempre leiamos e aprimoremos nossos escritos, a fim de andarmos lado a
lado e olharmo-nos face a face, meu filho amado.
Toda
tradução encerra em si escolhas. No grego “koiné”,
aquele que foi utilizado para a escritura bíblica, há duas palavras, pelo
menos, para dizer filho, ou, há duas palavras no grego que foram traduzidas
para o português como filho. Uma é a que fala dos filhos menores que estão
sujeitos à educação e tutoria; outra que fala de um filho maduro e responsável
por seus atos. Entre os filhos menores e os pais havia a figura de um servo ao
qual era determinado a educação dos filhos, que Paulo chama
de “aio”. É possível pensarmos que um “aio”, a fim de salvaguardar seu sustento, seu emprego, trate
de garantir a imaturidade perpétua de seu educando, daquele que carrega pelas mãos.
A escolha do tradutor por traduzir ambas as palavras pela palavra filho tanto
esconde esta possibilidade de maturação do filho-criança até a estatura de
filho-adulto, quanto esconde esta violência dos “aios”
contra aqueles que devem deixar de ser servos e perceberem-se amigos. A tradução,
a escolha de certo escrito numa língua nativa, pode sonegar,
violentar, mutilar a linguagem original, assim como pode conduzir o leitor a
pensar perdidamente distante daquela escrita original. A carta de Paulo aos Gálatas
nos fornece esta perspectiva privilegiada sobre este duplo momento de nossa
existência diante de Deus. Assim diz ele:
“...antes que viesse a
fé, estávamos guardados debaixo da lei, encerrados para aquela fé que se havia
de revelar. De modo que a lei se tornou nosso aio,
para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas,
depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.
Pois todos sois filhos (filhos-adultos tal qual Jesus Cristo é filho-maduro e não
criança) de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes
batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há
escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E,
se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a
promessa.”
Jesus é
sempre posto como filho-maduro, mas nós somos instados à maturidade. De mesma
maneira leio a parábola dos dois filhos relatada em Lucas XV. Um homem tinha dois
filhos, um que percebeu sua maturidade e pediu uma testamento
assinado pelo pai que lhe conferia a possibilidade de liberdade plena, e outro
que não encontrou em si o crescimento e a maturidade, estando indefinidamente
sob a servidão das normas paternas. Aquele filho que deixou a casa do pai, após
seus desencontros e sofrimento, decide voltar àquela casa para servir, mas o
pai o recebe como o filho amadurecido, crescido, colocando em suas mãos o anel e
a herança. O outro reclamava direitos.
Vivo,
hoje, depois de ter me libertado dos grilhões que me impunham o “aio” legal e seus representantes ilegais e suas traduções
de Deus, como quem carrega um testamento em branco, assinado pelo Pai. Nele não
posso ver nada escrito a não ser a mancha de sangue pela qual escreveu abaixo
minha filiação-amadurecida. Mas leio neste silêncio que a cruz determinou aquilo
que ecoou em Paulo: veja filho-maduro, tudo é lícito a você, mas,
responsabilize-se, nem tudo é conveniente. Seguindo, interpreto tais palavras
como se elas fossem desta maneira: viva como se eu estivesse morrido e deixado
meus bens a você, meu testamento assinado numa folha em branco. Não espero
obediência, mas amor. Assim, viva como se minha vida estivesse em você e além
de você, em todos aqueles e naquilo que diante de você estiver. A nossa amizade
seja a sua amizade amorosa pelo mundo. Viva como meu filho-amigo diante de mim,
amigo-divino.