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Rafael,

São estas pequenas ocorrências, estas surpresas esperadas, tais presenças de mais vida, que nos tornam mais próximos e sulcam nossas existências. São anjos que trazem aquela mensagem: não temas e nem te espantes. Temor de tudo, do homem mau, de males, do incontrolável, do desconhecido, da dor, da desafeição, do solapamento, da solidão, do nada; espanto diante de um suprimento amistoso, seja ele qual for, mas que confirma a esperança do espanto, num milionésimo aberto num intervalo entre um tudo e um nada. Espanto face à lembrança, ao olhar, ao sorriso, à fala e à oração que não se sabe, mas se crê.

Outro dia deparei-me com o resultado de uma oração a partir de Filipenses.4: 8-9 sublimemente econômica, de quem parou e sublimou. De fato fui conduzido a ler o que não estava grafado, mesmo após seu autor declarar ter sido detido por uma semana por este texto, que por fim representava tal marca em minúsculas linhas. Como um Jacó que se vê impedido de prosseguir, em luta contra o anjo, mas que ao fim, manquetolando recebe apenas um novo nome: Israel, mais vida. Após uma semana de orações, meditações, reflexões e pensamentos, lutas contra a inevitável realidade e a despeito da razão que interroga, como o faz o torturador, a presença de frases inconclusas, indeterminadas, não terminadas.

Li sobre o silêncio de quem chega a um lugar em que as palavras e as coisas não podem traduzir o espanto, este que não se refere ao além e nem ao aquém. Li sobre encontrar entre um silêncio e outro, cada vez mais raros e instantâneos, ali na solidão do impossível das palavras, alguém que não é silêncio e nem voz, que violenta e pacifica. Li, e escrevo o meu espanto em uma leitura minha, sobre um TUDO que NADA significa, pois que TUDO abraça; um TUDO cujo sentido é NADA, não havendo lugares e sensações em que os encontremos. Não nos cabe o TUDO, assim como o NADA, mas espantamos-nos diante da sublimidade do TUDO-NADA.

Talvez, e apenas talvez, após nada e em antes de tudo precisemos de cura, precisamente cura. Não precisamos de um deus que venha curar ali quando precisamos de cura. Uma cura evocada a um deus que perdeu sua própria liberdade divina, submetido a uma determinação de um nome revelado e por sua fidelidade exposta em sua voz aprisionada em um texto, invocada pelos homens que o servilizam por estes grilhões da neo-sofística teológica. Um deus que seja obrigado a trazer à existência a cura posto que se chama Rapha-El. Não!

Talvez, e apenas talvez, é preciso o encontro da cura no Deus que está na face mesmo da vida. Não um Deus que feche as feridas, solde os ossos, apague as lembranças, estanque a dor, realize milagres, violente a natureza, retire-nos o mundo. Antes, ou mesmo entre os fatos, no espanto, o Deus que geme, que sangra, que está angustiado, faminto, nu, vazado de dores, que suspire por socorro. Talvez, e apenas talvez, um Deus que sorri! Onde estás Rapha-El? Senão na face constante daquele que amo!? Do amigo que escapa das amarras da utilidade. Aquele cujas lembranças estão sempre maculadas por nossa amizade, por mais amizade. Deste que sempre ensejo o convite, e estou sempre disposto a dizer sim ao agora, mas não importa...

...sabemos estar em nossas orações mútuas, entre um TUDO e um NADA.