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Tirania falocêntrica

Preocupa-me as respostas apressadas que aprendemos a dar numa sociedade do "know how", ou do "plug and play". Meus textos trazem sempre esta preocupação: menos dar respostas prontas do tipo é pecado, ou não é pecado. Por isso já fui taxado de prolixo. O fato é temos lido um texto de 2000 anos como se tal escritura datasse de hoje e que as chaves de interpretação pudessem ser adotadas segundo as particulares premissas do século XXI. Um dos temas mais mal tratados é o da homoafetividade, que sempre é tomado com o horror e a pecaminosidade, por uma sociedade centrada na família tradicional: pai, mãe e filhos. Ademais, penso que a questão das relações entre pessoas do mesmo sexo é tão importante para a fé cristã quanto a questão da circuncisão. Sabemos que Paulo trata da questão da circuncisão no início da carta aos Romanos, um dos textos mais importantes para a “teologia paulina”. Caso não modifiquemos as bases de referência de nossa leitura ficaremos em discussões insanas sobre se devemos ou não circuncidar os novos convertidos, ou se é pecado ou não relações anais ou entre pessoas do mesmo sexo. Somos uma sociedade que idolatra o sexo entre homem e mulher.

Se me perguntarem o que é pecado, responderei que é errar o alvo do amor ao próximo, é não amar ao próximo. Claro que esta resposta não diz quase nada, pois ainda ficaremos à mercê do significado de amor ao próximo. Os tradicionalistas e os fundamentalistas dirão que é ensinar e corrigir o discípulo em amor para que ele trilhe o caminho que Deus determinou para ele. O que também não nos fala nada sobre amor, caminho, ensinamento e correção. A questão é que a Bíblia, como a leio, é um livro que fala de um Deus que se moveu para opor-se à violência daquele que desejou tiranizar o próximo. Podemos perceber esse movimento em Moisés e o Êxodo do Egito, e em Jesus e a morte na cruz.

Caso retornemos ao texto bíblico tendo como referência aqueles dias, nos quais ele foi escrito por homens que viviam naquele tempo, podemos perceber coisas bem interessantes. Perceberemos que as relações sexuais nos dias de Jesus e Paulo estavam baseadas (como ainda hoje estão em larga medida) no que os filósofos chamam de falocentrismo, ou, a centralidade do falo como poder. A penetração quer anal quer genital marcava o poder de um homem sobre outra pessoa: o mais forte penetrava o mais fraco, o poderoso penetrava o sem poder. Caso pensemos que o Cristo veio pregar liberdade aos cativos e igualdade entre todos, então o problema não é a penetração anal, mas a marca de poder que o sexo determinava e ratificava.

O que tento fazer hoje é uma metanóia, uma mudança de entendimento, alteração do rumo de minhas interpretações, a partir deste retorno ao texto em sua historicidade e abandono da primazia do século XXI como lugar da chave de interpretação. Não leio a Bíblia como um livro de determinações morais universais e atemporais, mas como experiências de homens e mulheres que, historicamente, encontraram com um Deus que os livrou de algum tipo de poder tirano. Mas não a tirania de Satanás, do Diabo, de demônios e seres sobre-naturais, antes, da tirania de homens e mulheres exercidas sobre homens e mulheres. No Velho Testamento não há este tal de Satanás como figura extra-humana, mas como uma palavra que designa todo aquele que violentamente se opõe à liberdade de Israel. Tampouco creio que exista este não-ser no Novo Testamento, mas uma metáfora das forças que se opõem às boas novas do evangelho, da proclamação do Filho que liberta os cativos. Metáfora que aponta para o Império Romano e para os fariseus.

Sodoma me parece um exemplo claro. Tal texto tem sido interpretado como a ira de Deus contra a homosexualidade. A sodomia tem sido confundida com relações sexuais anais. Eu, no entanto, interpreto como um lugar violento que quer, naquele momento específico, pela penetração anal submeter violentamente o estrangeiro ao poder local, e que Deus livra os mais fracos desta violência, marcando violentamente sua oposição. O ponto central não é a penetração anal, mas a violência contra o estrangeiro. Entendamos que o autor do Apocalipse diz que a cidade que nosso Senhor foi brutalmente morto chama-se Sodoma e Egito: dois lugares de violência contra o mais fraco. Como nos fala a Bíblia, Jesus se fez fraco por nós.

Minha preocupação é propor uma migração interpretativa, promovendo o abandono de uma leitura falocêntrica para a adoção de uma leitura da Graça, como eu a entendo. A Graça é a ação de Deus que se tornando homem (igual) oferece a liberdade em amor. Novamente, isso ainda nos fala muito pouco, mas transitoriamente é uma marca, um sinal. A salvação não é termos bons costumes, uma moral ilibada, mas é amar ao próximo como Deus amou o homem: sem o desejo tirânico de ser por ele servido, por isso Jesus disse: não vos chamo de servos, mas, de amigos. É por Graça que você e eu somos filhos e não por termos mantido relações sexuais desta ou daquela maneira, neste ou naquele tempo. É a Graça que nos muda a fim de crermos que assim como sou filho, você é filho e ambos somos igualmente acolhidos por Deus.

Se relações sexuais anais são considerados por Deus atos que determinam a eternidade infernal de uma pessoa, ou se relações sexuais entre pessoas de mesmo sexo são pecados imperdoáveis por Deus, isto é assunto de Deus: a eternidade. O nosso assunto é oferecer de graça a Graça que recebemos. Eu não duvido da filiação, segundo o entendimento cristão desta palavra, de qualquer pessoa, baseado em comportamento ou escolha sexual; assim como acho que você não pode duvidar da minha filiação, pois esta não é determinada por homens, mas por Deus. Contudo, essa dúvida e certezas não fazem a menor diferença! O que importa não é a titulação que adotamos, mas o que podemos chamar de DNA divino. O DNA de Deus nos deve levar a oferecer a mesma Graça que nos foi ofertada. A Graça deve fundar as nossas mais ocultas crenças e determinar nossas ações mais banais. Quanto podemos ainda falar da Graça. Pedro disse em sua epístola: maridos, tratai vossas esposas com dignidade para que não sejam interrompidas as vossas orações. Percebamos que coisa: o tratamento indigno impede a oração, as relações tirânicas heterosexuais impedem as relações do ser humano com Deus.