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Jesus herético

É plausível dizer que temos um problema e este é referente à uma determinada perspectiva ou pesquisa que venhamos fazer. Pesquisa que não encontrando parcerias traz o cunho pessoal. Mas, começando do começo, lembramo-nos de nossa experiência pessoal, aquela que o protestantismo convencionou chamar de conversão. Desde lá ouvimos, implicitamente ou explicitamente, que a leitura da Bíblia é guiada apenas pelo Espírito Santo. Nos termos do século XIX, as Escrituras, somente elas, são necessárias e suficientes em si para revelar a salvação, as Escrituras explicam as Escrituras. Somemos a isso o fato de haver uma crença de que a Bíblia é a Palavra de Deus, o que nos colocaria frente a uma Escritura isenta da interferência humana. Contudo, num dado momento, caso nos permitamos leituras transversais, poderemos dar conta de que tal não corresponde ao que ocorre, mormente quando atentamos para outros fatores. Após a leitura e reflexão destes temas transversais é provável identificar, minimamente, influências tanto no texto quanto na leitura que dele fazemos. Devemos preferir, outrossim, falar em pesquisa e não em busca, pois contextualiza-se melhor neste encaminhamento proposto.

Quando lemos um texto qualquer, e em especial para nós a Bíblia, incontinentemente levamos para dentro de tal escrito a nós mesmos e em alguns momentos, senão em todos, somos mudados por este encontro, ou neste encontro de um jeito ou de outro. Levar-nos para dentro do texto é lê-lo de uma maneira previamente endereçada e ser mudado, seria um permitir mudar as lentes de leitura. A Bíblia como um livro aberto diante de nós e uma escritura viva, é sulcada por nós, tanto quanto devemos ser marcados por ela. No Novo Testamento vemos isto de maneira mais destacada tanto quando Jesus diz: “...ouvistes o que está escrito...eu porém vos digo...” Percebamos este movimento proposto por Jesus, que há de um lado um texto aberto, uma escritura que ainda fala e pode ser ouvida, e de outro um outro texto que se abre diante do livro e como quem rabisca o texto, ou, anota lateralmente no texto, expande-o, muda-o por uma escritura adicional.

Paulo e os outros também fazem o mesmo, ao redescrevem o texto, re-interpretam, re-significam, colocando a Escritura numa paridade com o tempo deles, seguindo os passos do Mestre. A Bíblia de Paulo é exposta à história, mesmo que ele não diga isto. Muito poderíamos dizer sobre esta “perversão” da origem e estas anotações sobre o texto sagrado. Não é um ato de violência ao texto, de troca de palavras, enxerto de frases, glosas e outros artifícios, mas é a proposição de uma interpretação, de uma tradução, de uma arbitragem de novos sentidos e significados às palavras que desfaz a ortodoxia, que, numa linguagem veterotestamentária, promove uma “metanóia” ao texto, uma mudança de direção. Sobre uma grafia arcaica sobrescreveram palavras novas, desfazendo aquele edifício de pedra em prol de uma nova carta escrita em carne e sangue.

A Bíblia, para a leitura que nos propomos fazer daqueles primeiros homens, não é um livro fechado, um manual do construtor, um código positivo e acabado. Quem diz isto mente, e a mentira já está estampada nestas palavras, pois a idéia de manual é típica de uma era da técnica, da máquina, do engenheiro, da normatização da existência por meio de livros de “know-how”. Já nestas palavras a Bíblia é transportada de dois mil anos atrás até os séculos XX e XXI, passando a ser interpretada como um livro que descreve rotinas e normas para cumprimento cego de condutas. A interpretação da Bíblia como manual serve para o dogmatismo fundamentalista, não para filhos do Reino, aqueles que seguindo o Mestre dizem novas coisas sobre textos originais, mantendo a paixão da origem. Contudo, esta postura obediente serve para mostrar como ao se tentar fechar a Bíblia, ela se abre desobedientemente.

O problema posto, então, é lermos o texto e encontrarmos na leitura influências que pensamos ser divinas, ou, divinamente inspiradas, mas que de uma maneira ou de outra são traduções de pensamentos que estão fora do texto bíblico. Isto é muito complicado, pois de fato, não há um texto bíblico puro, voz única de Deus apenas sem as anotações dos homens. O texto já foi escrito, para nós que cremos em Deus e sua revelação ou inspiração, por duas mãos: de Deus e do ser humano. Assim como o texto é lido por cada um de nós e, esperamos, suspiramos, que seja lido por Deus em nós. Não é, tampouco, encontrar a chave hermenêutica universal, divinamente revelada, mas é buscar uma senha pessoal passível de ser compartilhada que sirva de referência na leitura das escrituras.

Outro problema que se soma a este da escrita divina-humana da Bíblia é o da interpretação vencedora para os textos. Assim como a escritura, o texto, a grafia trás um problema de tradução, a interpretação torna esta questão ainda mais complexa. Podemos tomar dois textos muito interessantes como referências neste momento e que tratam da interpretação vencedora para a Bíblia. Um deles nos fala de quando o Ocidente se tornou cristão[1], isto é, como Constantino, rei de Roma, ao se converter cristão, cristianizou um Império que contava com uma percentagem de 10%, no máximo, de cristãos em relação ao total da população pagã. Soma-se a isto a cultura latina e helênica, além da pagã, interna a Roma.

O segundo texto que leio fala das doutrinas que não prevaleceram, isto é, as doutrinas derrotadas[2], ou, como as denominamos, de heréticas: gnosticismo, arianismo, montanismo, maniqueísmo, etc. O que diziam estas doutrinas, como foram derrotadas e porque foram derrotadas? De fato elas não foram derrotadas e esquecidas, mas estão até hoje, muitas delas, presentes nas pregações, nas novas interpretações, nos “assim diz o Senhor”. A despeito de nossas preferências pessoais o texto bíblico está exposto à interpretações radicais desde sempre e Lutero faz desta possibilidade uma fenda intransponível. Tampouco foram doutrinas absorvidas, antes, serviram como instrumento para marcar as fronteiras da ortodoxia e da heresia. Nestas duas citações notamos a influência do Império sobre a Igreja e das buscas de uma tradução cristã da fé num dado momento da história. O Império, uma dada filosofia e as igrejas se aliaram formando Igreja Romana.

Menos dizer que fizeram uma aliança e mais salientar um processo de aproximação que demandou séculos de trabalho e esforço de pensadores. A percepção da filosofia dominante, as demandas por inteligibilidade e de um corpo doutrinário, a necessidade de reduzir os ônus e perigos da fé cristã, sua determinação proselitista e outros fatores levaram a este processo de aproximação e aliança. Assim, durante pelo menos três séculos um conjunto de escritos sobre o Mestre e da história eclesiástica, tanto quanto cartas apostólicas e pastorais serviram de base para uma synkrasis com a filosofia neoplatônica.

O conjunto de pensamentos e escritos que mais deixa marcas na teologia cristã é o neoplatonismo-agostiniano, mesmo nos dias de hoje. Podemos pensar que Santo Agostinho era “analfabeto”[3] (as aspas querem dizer que não tanto quanto eu ou você somos analfabetos em árabe, chinês, russo, mas, como talvez sejamos em francês, ou inglês) em grego. Contudo, seu “analfabetismo grego” não o impediu, não impediu seu gênio de conceber uma synkrasis entre a filosofia neoplatônica com os escritos bíblicos e dos pais da Igreja cristã. O neoplatonismo cristão vai determinar que toda expectativa humana seja remetida para um mundo transcendente, para fora do mundo sensível, tangível, experienciável. Há, então, uma confusão, ou, uma fusão entre o Uno neoplatônico e o Deus cristão, assim como sentidos de justiça, amor, verdade, etc foram pensados de maneira a dividir a esfera da existência humana entre a cidade dos homens e a cidade de Deus, entre um mundo inteligível (verdadeiro, incorruptível, imutável, etc.) e o mundo sensível (sujeito às mudanças e à corrupção). Também esta doutrina sincrética apresentará ao ser humano ideais, tais como, o ideal de homem, de mulher, de moral, etc. O pecado será, então, errar o alvo destes ideais, isto é, uma vez fixado o homem ideal, toda ação, pensamento e palavras que se desviam deste ideal, erra o alvo, é pecado. A salvação seria, então, um ato de fé que nos permite ao contemplar Jesus Cristo, ver este homem ideal que nos conduz de volta ao Pai, e esta volta se dá por um conhecer que expurga de nós as inclinações anti-ideais e nos eleva na escada rumo ao céu.

Há um cristianismo vencedor, aquele que, tomando esta forma sincrética, pretende expurgar as heresias para fora de seu centro doutrinário, como um ferreiro que retira a borra do ouro a fim de purificá-lo. Há um núcleo da ortodoxia que se pretendendo puro, dizendo ser a expressão da Revelação de Deus, que paulatinamente não apenas determinou as leis para os relacionamentos humanos, como se tornou juiz das boas e más condutas. O platonismo e o neoplatonismo têm este encargo anti-barbárie, isto é, esta compulsão por expulsar tudo que não fale a sua linguagem, não sendo hospitaleiro às diversidades das línguas estranhas. Este cristianismo toma redescrições do Velho Testamento (título este que não existia à época) feitas pelos escritores do Novo Testamento e pela Patrística (discípulos dos discípulos de Jesus, os primeiros pensadores cristãos após o século II), mistura-as às filosofias neoplatônicas e insere este “caldo dogmático” no centro do Império Romano. Há um autor que nos propõe que os ideais da República de Platão[4] encontram sua aplicação máxima na Igreja Cristã a partir de Constantino. Esta proposição tem o peso ou a gravidade recorrente da significação própria da República engenhosamente estruturada por Platão, o que não vem ao caso.

O que vem ao caso aqui é a pretendida presença de um Filósofo-Rei como governante da Cidade, que tendo contemplado as coisas ideais, diz a verdade aos guardiões e estes determinam como modo de vida para os trabalhadores da Polis. Um Uno que pensando irradia as Idéias das coisas as quais serão contempladas por um único filósofo-rei que declara, verbaliza, discursa aos guardiões que irradiam tais verdades à Cidade que se quer justa. Vamos dar um passo atrás e reler a República de Platão. Este texto atribuído a Platão relata um diálogo entre Sócrates e alguns atenienses que discutem sobre a Justiça na Polis, na Cidade, sabendo que a Cidade naquele tempo era uma Cidade-Estado. O diálogo transcorre apresentando uma Cidade Ideal que se espelha na alma humana, esta que possui uma parte racional, uma da força e determinação, e uma terceira dos apetites. O diálogo nos diz que estas três partes são como três animais, aquele que mais for alimentado prevalecerá sobre os demais e que devemos alimentar a alma racional, lógica, do discurso. De igual maneira, estas três partes da alma correspondem a três tipos de pessoas: as racionais ou filósofos, as guerreiras e as trabalhadoras. Desta maneira a Cidade Justa é governada (como um comandante de uma nau grega comandava seu navio e sua tripulação) pelo Filósofo-Rei que está no topo da Torre, pois este, por meio do Logos, de sua razão contemplou a Justiça, o Bem, a Verdade e a Idéia das coisas, e uma vez tendo contemplado pode discursar sobre a Cidade Justa, pois ele conhece o que é Justo; há um grupo de guardiões que entendendo as determinações verdadeiras, justas e boas do governante, conduz os trabalhadores a sua realização; e há um contingente de pessoas que trabalham sobre estas determinações, a despeito de não as entenderem (seriam como remadoras de uma nau grega que aplicam esforço, mas não vêem o destino da nave).

A República Justa seria governada por um Filósofo-Rei, o melhor de todos os cidadãos (aristos, de onde vem aristo-cratos ou aristocracia, ou seja, o poder, ou governo dos melhores) do reino, cuja função é de contemplação e determinação dos modos de vida para a Cidade. Tomando como referência o autor acima citado, a Igreja Romana se espelharia ou espelhou neste modelo da República e organizou-se hierarquicamente segundo as virtudes e dons de cada um. No topo da torre está o sumo-pontífice que faz a ponte entre os céus (o mundo das Idéias) e a terra, no meio está o clero como guardiões do Reino e abaixo estão os leigos que trabalham em prol deste Reino divino na Terra. A vida comunal encaminha-se para o Reino de Deus à medida da obediência a estes ideais “revelados” pelo clero e sua voz suprema, o sumo-pontífice: aquele que faz a ponte suprema entre Deus e os homens. A Igreja Romana confunde, faz fundir à pessoa do Rei a pessoa do Bispo e à do Bispo a do Rei. O Rei de Roma, o Bispo supremo da Igreja tem dois corpos: um sagrado e outro corruptível.

A Reforma Protestante, que parecia dar cabo, e mesmo teve a oportunidade de fazê-lo, a este modelo de poder, reforçou-o quando se aliou aos príncipes, mas de uma maneira específica. Isto dizemos por tomarmos como referência a obra de Ernst Block, “Thomas Münzer”[5] e sua leitura da oposição de Münzer a Lutero e o massacre dos camponeses anuído pelo teólogo do protestantismo. Mas, ao fazer esta aliança com os príncipes o protestantismo permitiu uma cunha, abriu uma fenda entre o poder secular e o sagrado. Os príncipes se tornam detentores absolutos do poder secular, isto é, do uso exclusivo da violência e o clero passa ser detentor do poder sagrado, isto é, de determinar a conduta moral dos indivíduos e proferir juízos sobre a salvação individual. Esta unidade do corpo material e espiritual do rei estava assegurada ao Papa a partir de Justiniano.

Haveria uma tensão entre o público (o poder dos príncipes) e o privado (o poder do clero), se não fosse um detalhe, de agora em diante as Igrejas Protestantes e Reformadas se subordinam legalmente, e em muitos casos financeiramente, ao poder secular, estando sujeitas às leis humanas, demasiadamente humanas. Ao firmar esta subordinação legal, e em diversos casos a dependência financeira, a interpretação do texto bíblico mantém-se atrelado a uma leitura de submissão ao poder instituído. Mais do que isto, a exegese é subordinativa, exigindo uma subordinação individual às instituições e seus mandatários, os quais são cridos como representantes de Deus.

As teologias daqueles grupos vencedores, num primeiro momento a romana e num outro momento a dos Protestantes e da Reforma, têm, mesmo que implicitamente, o poder como fundamento exegético e delimitam as fronteiras, nem sempre claras e de forma unívoca, entre suas ortodoxias (que eles defendem como sendo a verdade de Deus) e as heresias (como o desvio desta verdade, ou pecaminosas). Por isso, em larga medida, os Protestantismos e os grupos Reformados são tidos pela Igreja Católica Romana como heréticos, pois que promovem cismas na Igreja, fendendo o poder central.

Notemos que não podemos mais falar no singular desde o século XVI, pois que Lutero, Calvino e os demais não apenas promoveram uma fenda na unidade da República de Deus, como definiram distinções próprias no corpo dogmático. Contudo, podemos salientar que grande parte dos movimentos heréticos a partir dos primeiros séculos da era cristão, e em especial o liderado por Münzer datado no século XVII, trazem a marca deste questionamento ao poder institucional como campo de suas crenças, diferentemente das doutrinas vencedoras que são marcadas pelo poder institucional e central. A centralidade de um poder institucional também é marca das igrejas protestantes, reformadas, guardando apenas o caráter proporcional destas organizações.

Há uma questão que se pode colocar a partir do século XVI que seria a aparente fragmentação do poder. Contudo o que nos parece ocorrer é uma descentralização por metástase. Caso possamos pensar assim, então haveria uma proliferação de estruturas de poder, à imagem e semelhança daquela originária, mas que é exercida por pequenos filósofos-reis. Haveria, assim, uma unidade de fundamento, ou seja, igrejas que, a despeito do patrimônio e número de adeptos, estariam edificadas sobre uma única pedra fundamental: o poder do Um. Esta unidade de fundamento garantiria ao Ocidente a preservação de sua base como Civilização, quando entendemos este termo da maneira como nos propõe Freud. Caso tomemos Freud como referência neste momento, podemos salientar o papel civilizatório da religião sobre o homem comum. Ora, doutrinas, dogmas e ortodoxia, quando pensamos a partir de “O Futuro de uma Ilusão” e “Mal-Estar na Civilização”[6], serviram ao Ocidente como estrutura para conformação do ser humano europeu. Aquele conjunto de crenças que, como pensamos, num primeiro momento, nos primeiros séculos, serviu para criticar o poder e promover a liberdade de pessoas que estavam oprimidas pelo paganismo e pelo Império, por meio de uma inclusão numa comunidade amorosa de iguais e livres, quando se torna a religião estatal, torna-se o discurso de conformação do indivíduo ao Império. Como discurso de conformação, de dar ao indivíduo a forma que o poder necessita para sua operação como sociedade, a religião é um discurso civilizatório, que como nos fala Freud, seja qual for o significado que conferimos a este termo.

O que podemos pensar a partir do que acima delimitamos, parece apontar para duas coisas: primeiro que nossa leitura da Bíblia trás este compromisso estrutural com a República e que há um poder que pretende imputar certa matriz civilizatória ao indivíduo, em outras palavras, conformá-lo às necessidades da sociedade ocidental. A imputação sobre o indivíduo de um modelo civilizatório, de um conjunto de crenças, valores e condutas úteis à maneira de vida Ocidental, traz esta marca do poder central humano que se esconde atrás dos escombros de Deus. Neste nosso momento é plausível pensarmos que o centro do poder é traduzido e efetivado pela economia, pelos valores econômicos travestidos de linguagem espiritual. O fim, ou o esvaecimento da influência da Igreja na sociedade não põe fim a esta estrutura, antes, apenas travesti este modelo de uma racionalidade ilusória.

O que devemos ressaltar, uma vez que falamos inicialmente de uma pesquisa pessoal, é o motivo desta trajetória e da linguagem aparentemente soberba que adotamos. O que desejamos fazer sobressair neste escrito, e em outros, é que toda esta técnica de escamoteamento está presente nos discursos e pregações que fazem em nome de Deus, contudo travestido de uma pseudo-espiritualidade. O Uno é chamado de Deus; as Idéias é o céu; a República é o Reino de Deus; o Filósofo-Rei é o Papa, ou os Apóstolos, Bispos, Pastores, etc.; a contemplação das Idéias é a Revelação; o Logos platônico é a Palavra de Deus; etc. Certamente, como nos fala Étienne Gilson[7], há diferenças entre a estrutura filosófica neoplatônica e a filosofia da religião cristã, mas, o que desejamos salientar é que em ambos os casos há um discurso cujo núcleo pretende ser a Verdade e esta como promovedora da Justiça, quando todos da Cidade, do Reino, a ela se submeterem. Enquanto na filosofia neoplatônica não se requisita a ação de Deus e sua providência, bastando para tanto o esforço humano para se desfazer da mentira em prol da verdade, na filosofia cristã há esta necessária ação divina e a fé na sua providência por meio de Jesus Cristo. É a fé na providência que dá início ao conhecimento da verdade.

Mas, de qualquer maneira, uma pregação de Jesus que começou com a proposta da liberdade que se podia ter em meio a uma comunidade amorosa de livres e iguais que se reunia como igreja em torno do nome do Mestre, tornou-se conformada ao poder tirânico. A tirania, desde Platão, Aristóteles e outros é fruto da crença de um povo em um homem, o qual habilmente reúne forças militares para libertar a Cidade de inimigos externos, mas que após a vitória se impõe violentamente contra a própria Cidade, sob a alegação de manter a salvação conquistada à força. Podemos dizer que há uma tirania mais violenta e outra mais afeita ao nosso tempo, uma tirania sedutora. Submete-se ao tirano por ser seduzido por sua promessa de salvação sempre atualizada e não por atos de violência dele contra os indivíduos. A igreja de Jesus foi seduzida tela tirania como a virgem conduzida pelos hormônios e pela voz sedutora se entrega ao sedutor. Tal tirano e sua suave linguagem e com jogos de significados de palavras que podem apontar para os mais diversos sentidos. Estas pregações pseudo-espirituais são jogos de sedução que mantém as pessoas presas a estes tiranos, os quais mentindo, sonegam a experiência eclesiástica como comunidade amorosa de livres e iguais. Buscamos aquela possibilidade que nos é apontada quando podemos conhecer o suporte filosófico que fundamenta a leitura dos textos bíblicos e apresentamos estes de maneira crua, vindo entender que podemos escolher outros suportes menos tirânicos.

Não estamos na posição de dizer que conhecendo a mentira podemos escolher a verdade. Antes, estamos na posição de entendendo os compromissos que estes discursos têm com uma forma de poder e de tirania suportada por um clero, buscar novas espiritualidades e leituras do Livro que sejam inspiradoras contra esta mesma tirania e sirva de esperança num mundo monolingüísticamente determinado pela economia e pela técnica. Encontrar em Jesus, seus discípulos e outros escritos inspiração para ser igreja. É, segundo nosso entendimento, a igreja como proposta de comunidade que foi enterrada e esquecida, por esta tirania do poder clerical, poder civilizatório que deve ser arqueologicamente buscada com vigor. É retornar ao conceito mesmo de igreja que nos permitirá encontrar uma inspiração esperançosa para reunirmo-nos em torno do Nome. Não é buscar a origem e re-apresentá-la num anacronismo sem propósito, mas é trazer a possibilidade de um amor original a uma nova origem e começo. É, nas palavras do autor das Revelações, um novo céu e uma nova terra.

Os jogos de palavras falaciosos institucionalizantes, civilizatórios devem ser afastados em prol de uma simplicidade do encontro. Estruturações em torno de lugares e de hierarquias devem ser afastadas a fim de um giro para fora destas possibilidades tirânicas. Ordenamentos a partir de cargos episcopais, presbiteriais e diaconais, assim como apostólicos, pastorais e proféticos, que reclamam por obediência e submissão devem ser repudiados a fim de encontrar no encontro apenas pessoas que se reúnem em torno de uma esperança comunitária onde todos buscam a possibilidade da liberdade e da igualdade, em amor. A palavra deve ser franca e múltipla, liberada a todo o que encontrou uma tradução do divino na ordem existencial, onde o que pastoreia gentilmente se cale. A presença de um verdadeiro pentecostalismo onde a diversidade das línguas toma lugar naquele espaço em que havia a ortodoxia homogeneizante. A verdadeira doutrina deve ser a da hospitalidade e do encontro com o estrangeiro, com o diferente, com o bárbaro.

É nesta igreja, nesta assembléia, nesta ecclésia, neste lugar de encontros onde homens, mulheres e crianças que se pretendem livres se colocam frente a frente como iguais por amor. O amor não como algo aparte e distante, um ideal constrangedor e transcendente, mas a alegria mesma de encontrar na face do outro ao Senhor, uma vez tendo encontrado o Senhor na face do outro. A ecclésia como o espaço, qualquer lugar onde dois ou três se reúnem em nome do Cristo. O espaço como encontro e não como lugar do encontro. Este encontro, mais do que um espaço, é o lugar em que o inferno não prevalece. O inferno das hierarquias, da tirania, dos ideais que criam culpas impagáveis, das ortodoxias, da fronteiras, do inferno. O Nome não como a senha do poder, como quem recita: “o nome do Senhor tem poder”. Mas sua antítese como esvaziamento na humanidade, o nome humano do divino que se deixa encontrar. A igreja como o lugar onde encontramos o nome humano de Deus, nome conferido ao humano Deus. Igreja sem cargos, sem títulos, sem patrimônio, sem poder: herética, demasiadamente herética, pois Jesus é herético!

A palavra Igreja tem sido tomada hora como o símbolo que significa uma instituição com seu patrimônio, sua hierarquia, suas crenças e doutrinas, suas regras e leis, seus calendários e ritos, etc. Hora tem sido entendida como um local. Lembremos que a partir de certa época foi comum erguer Igrejas sobre templos e locais pagãos, da mesma maneira como datas do calendário pagão foram utilizadas para festas e comemorações cristãs, como o caso do dia 25 de dezembro. O cristianismo romano percebeu a eficácia da apropriação de um símbolo (uma palavra, um local, uma data, uma imagem, etc.) e erguer sobre este um novo significado. Algo que se apropria das palavras de Jesus, citadas acima, para dar uma nova voz a um antigo escrito. Por vezes quando os arqueólogos escavam por debaixo de templos cristãos antigos, encontram ali sítios arqueológicos de templos pagãos anteriores.

Podemos entender que a palavra que traduzimos como igreja tenha sofrido o mesmo solapamento de significado apontado acima. Sobre esta palavra acampam-se, erguem-se séculos de escombros de novos significados que nos impedem de depararmos com o sentido histórico, ou original do signo, da palavra. Embora não possamos recuperar, restaurar plenamente o significado original, e nem temos tal pretensão, podemos, entretanto, retirar dali o entulho e escavar por debaixo destes edifícios que sobre este terreno foi edificado. Primeiramente devemos relembrar que o Novo Testamento foi escrito em grego, e que a palavra traduzida como igreja é no grego ecclésia. A ecclésia grega não é, como pretendem os construtores de templos que solapam os sítios arqueológicos visando a fixação e ratificação de significados sobrepostos visando edificação de ser estatuto de poder, uma ordem apostólica, um sair para fora como ação proselitista obediente, ou mesmo uma ação no e para o mundo. A ecclésia era um instrumento da Cidade-Estado helênica que visava a participação democrática. Ecclésia era a assembléia dos cidadãos de uma Cidade ao estilo de Atenas que se reuniam periodicamente para debater assuntos da Cidade. Platão dirigiu seus escritos contra a ecclésia e contra os sofistas gregos, aqueles que ensinavam os homens a falar na ecclésia. Sofisma e sofista (segundo a arbitrária designação de Platão a estes homens) é absolutamente diferente.

Houve ecclésias em Atenas que chegaram a reunir 40.000 cidadãos da Cidade! Lá discutiam todos os problemas concernentes à Cidade: suas leis, suas aplicações, a guerra, a paz, os impostos, o ostracismo de cidadãos, etc. Mas todo homem tinha o direito potencial à fala na ecclésia. As assembléias eram em sua maioria em forma circular e aquele cidadão que tivesse algo a falar e que fosse útil à Cidade era colocado no centro da ecclésia e tinha o direito ao discurso, à fala. No tempo nascente das ecclésias não havia em Atenas um Rei, mas uma assembléia. É contra este estado de coisas, esta maneira de governo democrático, a este sentido de igualdade e liberdade à fala que Platão se levanta contra. Já em Aristóteles percebemos uma proposta de ecclésia ordenada em torno dos aristocratas e em Roma o voto ser proporcional ou à riqueza ou às famílias, o que dá quase que no mesmo. No entanto não é nosso intuito retomar a estrutura de poder em Roma, apenas pontuar as mudanças de sentido e perceber que a ecclésia foi deliberadamente re-significada para ser um instituto do poder que fazendo as vezes de uma democracia, sonegava, entretanto, o poder para o povo.

Os cristãos dos primeiros dois séculos foram acusados de ateus e desordeiros. Ateus pois não acreditavam nos deuses e desordeiros porque não aceitavam a estrutura de poder segundo a ordem oligárquica (poder exercido segundo a riqueza) ou aristocrática (poder exercido segundo a virtude, pelos melhores). Os cristãos se reuniam segundo ecclésia, ou nos termos de Paulo, onde não há homem ou mulher, grego ou bárbaro, livre ou escravo, etc. Nas ecclésias a palavra era franqueada para quem tinha algo a dizer, segundo exortação, profecia, louvor, ensino, etc., como nos mostra a carta de Paulo aos Coríntios. Uma assembléia não é como presenciamos hoje, onde um líder conduz a ordem local, definindo horários e ritos para cala ação e onde o povo é posto em silencio diante de um orador que predica durante até mais de uma hora, sem que haja direito ou momento de diálogo em torno de um tema proposto.

Ainda tomando as culturas antigas como referência, e estas expandindo sua influência até nós, podemos relembrar que nestas apenas alguns tinham o direito à fala. Na Grécia antiga somente o homem adulto e apto à guerra (e isto significa inclusive a capacidade de fabricar e portar as armas de guerra), podiam falar. Mulheres, crianças, escravos e estrangeiros não tinham direito à fala, aguardavam em silêncio a fala dos homens. O fato é que somente aqueles homens tinham Logos, razão, capacidade de exercitar a fala em busca da verdade. O silêncio não era apenas um ato de respeito civilizado, coisa que não acontecia nas ecclésias, onde, por vezes, muitos falavam entrecortando a fala de um. O silêncio era uma atitude submissa de alguém que não tinha a capacidade de articular um discurso, não tinha o Logos.

Os ajuntamentos que se fazem hoje com o nome de Igreja carregam esta ordem platônica-falocêntrica: Um homem que contemplou a verdade discursa diante de um povo ignorante e infantilizado que aguarda em silêncio a sabedoria que vem do alto. Há uma relação de poder entre o homem que fala e as crianças que escutam em silêncio. Ainda que possamos ver um clero feminino crescente, a ordem é platônico-falocêntrica. O Cristo herético, por outro lado, parece-nos ter posto em questão esta estrutura político-socio-histórico-familiar. Há uma questão da família antiga que é interrogada em algumas falas de Cristo, mas que são esquecidas neste processo de solapamento. Aqueles cristãos dos primeiros séculos foram perseguidos por reunirem-se como ecclésia, na qual se desfazia tal ordem jurídica, adotando uma contra-ordem, uma anti-ordem na qual não havia orfandade, mas familiaridade. Os cristãos deixavam suas ordens familiares consangüíneas para participarem de uma família universal. É sobre aquela ordem jurídica que o poder civilizatório se fez presente no Ocidente e que a Igreja garantiu sua perpetuação e eficácia, ao re-significar as palavras erguendo novos templos sobre antigos sítios cristãos. Contudo reunir-se como igreja é interrogar esta estrutura de poder e de ordem, e por isso nossos antepassados distantes sofreram. Não era Satanás quem perseguia a igreja, era o poder civilizatório. Quando este poder se apoderou da Igreja, então esta também começou a taxar e perseguir os hereges.

O cerne, o núcleo central do neoplatonismo-cristão que possui a Igreja não é a capacidade institucional ou patrimonial, mas a ordem segundo a qual apenas alguns podem contemplar a Deus e podem falar aos homens sobre o verdadeiro conhecimento de Deus. O Jesus herege põe em questão esta ordem ao dizer que o Reino está entre nós, quando dois ou três se reúnem em seu nome, ou seja, em nome de uma comunidade amorosa que pretendem ser livres e iguais.



[1] VEYNE, Paul; Quando o nosso mundo se tornou cristão; Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2007.

[2] PIÑERO, Antonio; Los Cristianismos Derrotados; Madrid: EDAF, 2007.

[3] BROWN, Peter: Santo Agostinho: uma biografia; 3ª ed.; Rio de Janeiro: Ed Record, 2005.

[4] PLATÃO; A República – Os Pensadores; São Paulo: Ed Nova Cultural, 2004.

[5] BLOCH, Ernst; Thomas Münzer, Teólogo da Revolução; Rio de Janeiro: Ed Tempo Brasileiro, 1973.

[6] FREUD, Sigmund; O Futuro de uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos (1927-1931), Vol XXIV; Rio de Janeiro; Ed Imago, 2006.

[7] GILSON, Étienne; Deus e a Filosofia; Lisboa: Edições 70. 2003.