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O céu e a terra passarão, mas...

Os homens olhavam para o céu e aguardavam dali o retorno daquele que chamavam de Kurios. Nisto aproxima-se o mensageiro lhes trazendo uma pergunta.

Pergunta o que traz a mensagem - Porque olham para cima? O que há lá nos céus que possa ser contemplado pelo homem? Endireitem suas vistas e vejam o que está diante de vocês!

Respondem os homens - Mas o que está diante e adiante não é senão trevas e obscuridade, mal e desordem, enquanto o que está além e transcendente está na imaginação, na figuração, na liberdade de criação de qualquer possibilidade. Quem poderá negar nosso conto? Aquilo que está próximo foge ao controle, no entanto, desejamos alcançá-lo com nossas garras e prendê-lo entre nossos dedos, mas este nos escapa como um porco ensebado. O que está nos céus é estável, estático, imóvel, regulável, ordenável, tão apenas por nossas palavras e nossos desejos. Não percebes, mensageiro? O que desejamos se não a certeza do controle e a segurança do predisível?

Retruca o que traz a mensagem – Desde sempre podemos ouvir a voz dos famintos, sentir o cheiro do suor de corpos angustiados, prever os rastros titubeantes daqueles que tateiam no denso escuro, enquanto discutem os nomes dos demônios e as coisas que vão além da vista, aquilo que está no céu ou nem mesmo está em outro lugar além das conjecturas e fantasmas doutrinais. Por certo que diabo não é nada além do que a acusação que paira sobre o homem de dia e de noite, retirando dele a esperança dizendo: o teu pecado tira de você a possibilidade de viver melhor. Claramente que satanás é o barulho ensurdecedor das vozes que impedem as boas novas de serem ouvidas, aquelas que nos contam que Jesus viveu como um homem para que o reino descesse até nós e não nós subíssemos a ele.

Insistem os homens – Você não sabe que Jesus expulsou demônios e enfrentou o próprio Satanás? Agora insiste que olhemos para a terra, onde estão os homens, mas devemos olhar para os ares e para o céu, pois lá é travada a Grande Batalha Espiritual!

O que traz a mensagem argüi – Daqui dois milênios homens poderão pensar desta maneira, mas vocês deveriam saber bem o que se passa, o que se pode entender nestas palavras. Esta palavra, satanás, é apenas uma palavra que nos fala de adversidade, de situações e pessoas que tentam impedir que a mensagem de esperança em um reino eclesiástico seja uma fé possível. A palavra satanás, para aqueles que procuram no hebreu, é traduzível por impedimento, confrontação, obstrução. Não é um ser (pois que nunca poderia sê-lo) e nem um anti-ser (posto que não seria, por premissa), mas uma situação, uma oposição de alguém ou de algo que tenta impedir o evangelho de alcançar os cativos, os doentes, os famintos, os sedentos, os angustiados. Demônios, vocês que vivem num tempo onde o grego lhes é a segunda língua, sabem bem mais do que nós que vivemos longe do tempo antigo, é o próprio sentimento extremo de catividade, angústia, medo, desespero, fúria, etc. Demônio não é uma pessoa, mas um sentimento extremo. Não personifiquem o que é uma expressão da linguagem, não olhem para o ar quando o mundo está diante de vocês.

Os homens falam espantados – Mas como você explica o mal supremo? Por acaso não haveria um artífice da desordem, do sofrimento, da dor, de todos os males? A quem atribuir a articulação de tantos problemas: a guerra, a fome, as doenças...

O que traz a mensagem, perplexo continua – Não haveria, com certeza, uma incoerência entre o que vocês falam e o que vocês pretendem falar? Vamos pensar, Deus é o Ser e é Bom, Satanás de vocês seria o Mal em pessoa, contudo seria o não-Ser, pois seria o que resta quando se deseja e intenta transcender o Ser, de uma dada maneira. Satanás é, para vocês que desejam pensá-lo como um mensageiro caído, alguém que deixando Deus, opõe-se a Ele, isto é, deixando tudo que É, utiliza sua liberdade de decisão para caminhar em direção a não-Ser. Dizemos do ser aquilo que é, por exemplo: o homem É um animal racional, assim como a cadeira É um artifício para se sentar. Tudo o que É participa do Ser e tudo o que não-É está fora do Ser. Haveria algo para fora do Ser? Se há algo para fora do Ser, este algo ainda-É ou é um outro Ser e, portanto, haveria dois Seres, dois Deus? No entanto o não-Ser não É, por premissa! Dizer que algo não É, é não poder dizer nada que o identifique. Ademias, não-Ser não sendo, não pode existir! Existe o que É e É como existência. Este é o primeiro problema, que já apontamos antes: ou satanás é algo e participa de Deus, portanto há nele algo de Bem, de Verdade, de Justiça, ou ele não é e, portanto, não existe.

Os homens procurando uma saída – Suas palavras são complicadas e somente nos servem para tornar caótico nosso pensamento, entretanto, como você salientou, acreditamos que Satanás foi outrora um anjo de luz, Lúcifer, que invejando Deus quis ser como Deus. A inveja lhe surgiu no coração e este caiu de sua luz para as trevas profundas.

O que traz a mensagem, após escutar atentamente, retoma – Vamos pensar em três coisas: primeira, caso a inveja seja o pecado de Lúcifer, quem criou a inveja para que ele pudesse utilizá-la? Ou Deus, como vocês apregoam, criou tudo inclusive a inveja e o pecado, tornando o pecado em algo santo, visto que provém de Deus; ou Deus criou uma parte das coisas e há dois criadores, pelo menos, pois haveria alguém que teria criado a inveja e o pecado, o que acarretaria no problema de haver dois criadores e dois Seres; ou há geração espontânea, senão para tudo o que há, pelo menos para algumas coisas, sem que haja necessidade de qualquer criador para tais coisas. Segundo, não há nos textos que chamamos de sagrados, qualquer evidência clara e direta a um Lúcifer que invejando Deus cai em direção às trevas profundas, vindo (não-)ser Satanás. Os textos do Velho Testamento sempre falam de homens que abandonaram seu estado inicial: Adão, o rei da Babilônia e o rei de Tiro, portanto seres humanos. Podemos dizer que a figura de Lúcifer existe apenas na imaginação fantasmática daqueles que precisam desta pessoa do Mal para suportar uma teologia capenga. Terceiro, caso partíssemos da hipótese absurda de ter havido um anjo Lúcifer que invejando Deus, ou o Ser, viesse a rejeitar e abandonasse sua identidade potencial ao Ser, este estaria eternamente em migração, ou queda se preferirem, para o não-Ser. Mas transitar para o não-Ser é dirigir-se a não-identidade, isto é, rejeitar todo atributo a si identificado. Ao dizermos: Satanás é a personificação do Mal, estaremos atribuindo a este não ser uma identidade, desta maneira ele é e não-é algo. Em outras palavras, ao dizermos Satanás é, devemos dizer ele não-É, pois sua existência está na não existência, quando seu Ser é não-Ser. Ao dizermos que Satanás é o Mal Absoluto atribuímos uma identidade àquilo que não pode se identificar a nada.

Encurralados, os homens disparam – Então me explica o mal absoluto?

O que traz a mensagem amorosamente replica – Homens, quero que vocês saibam que até agora estou falando numa linguagem que vocês criaram, entendem e aceitam, mas que eu não compartilho, por premissa. São vocês, homens, quem buscam estas sínteses, estas unidades na diversidade, esta intelegibilidade na dispersão, esta compactação na fragmentação. Porém, não eu! Mas, por hora, continuarei a vos falar nesta linguagem própria de quem olha para o céu, depois mudarei minha maneira. Perguntar por um mal absoluto é buscar uma unidade que se rivalize com o Bem absoluto: o Sumo-Bem. É buscar o centro, a origem, o núcleo de todo o mal. Sobretudo, esta pergunta assume como premissa a existência de um não-Ser, que tal qual o Ser, unifica tudo em si e por uma espécie de irradiação, ou uma dada força faz fluir de si a sua presença nas coisas distantes. Assim ordenam Deus e assim tentam ordenar o Mal. Perguntamo-nos, outrossim: Que mal absoluto seria este? Novamente perguntamos pelo Ser do não-Ser! Sabemos que, talvez, seja-nos possível falar do mal extremo! Ou ainda, do maior mal, ou dos maiores males que trazemos em nossa recordação pessoal ou coletiva, que hierarquizamos segundo as conseqüências, mas nunca de um absoluto, central, nuclear, original. Pensar num Mal Absoluto é ter em mente um articulador, um artífice, um ordenador dos males que partem de uma fonte única. Caso pudéssemos, metaforicamente, dizer de Deus como um Sol que irradia luz e calor, sem deixar de Ser o que É, então diríamos que o Mal é um Buraco Negro que a tudo suga: a vida, a luz, a matéria, sem, no entanto, tornar-se vida, luz ou matéria. Mas tal metáfora se esgota quando pensamos que o Buraco Negro É uma coisa que cuja matéria é tão densa que cria uma gravidade tão elevada que impede tudo de dali sair. O Buraco Negro É, enquanto o Mal não-É...

Os homens interpõem - ...mas o Mal existe!

Com um leve sorriso o que traz a mensagem continua – Sim, podemos dizer que há males e que estes nos assediam. Há a fome, há a guerra, há a violência, há a exclusão social, etc. Mas não é mais plausível dizer que existe um Mal absoluto, uma pessoa do Mal, um articulador, um artífice, um ordenador dos males, por tudo que dissemos acima. Ora, mesmo que pensemos no mal como caos, desordem, não haveria como pensar em algo ou alguém que seja o artífice, o articulador da desordem, em outras palavras, em alguém que ordenadamente desordena. A impossibilidade está em que não se pode dizer que seja alguém que tendo uma ordem própria se aplica a desordenar, mas que este seria a própria desordem que ordenadamente desordena. Uma vez que se entenda o Mal como o que se aplica a desindentificar com o Ser, ele seria, por absurdo, o desordenado ordenador da desordem, que sendo desordem em si, irradiaria esta desordem ordenadamente aos seres. Ele não seria uma tendência, uma inclinação, mas a pessoa da desordem. Dir-se-ia que Satanás é o caos que traz o Mal de maneira articulada. Mas o caos é uma desarticulação tal que não pode ser articulado, é uma dada maneira de operar que não foi apreendida, formulada pela ciência corrente. Some-se a isto o fato de que o caos é, se é que podemos dele nos referir desta maneira, a ausência de uma enformação em dada ordem reconhecida como conhecimento aceito. O caos é o incontrolável, enquanto que a arte, a técnica é a enformação no material bruto de uma forma, de uma ordem. Não há uma técnica para o caos, pois na presença de uma técnica que o apreende, ele deixa de ser caos e se torna conhecimento de uma nova ciência.

Os homens irrequietos dizem – Você mesmo disse que ainda que não exista o Mal Absoluto, há os males. Então, permanece a questão: se não há o Mal Absoluto, de onde vêm os males?

Inquieto diz o que traz a mensagem – Depois de tudo o que dissemos, conversamos e procuramos apontar, perguntar de onde vêm os males é quase que uma heresia! Esta pergunta traz o eco de quem quer e precisa de um lugar central de onde irradiam as coisas: os bens do Bem e os males do Mal. Com este tipo de demanda alguém insistiria na pergunta: qual a origem do mal proveniente de um Tsunami, da queda de um edifício, de uma doença pandêmica, etc.? O desejo de quem pergunta tal coisa é buscar o Mal Absoluto que está por traz destes males, ou a ira de Deus e seu juízo. No entanto podemos buscar (de maneira simplificada) em cada situação seu mal correspondente: para o tsunami podemos apontar para diversas causas: um terremoto no fundo do mar, uma explosão de um vulcão do tipo Krakatoa, a queda de um meteoro no oceano, etc.; na queda de um edifício podemos citar algumas causas, como o terrorismo internacional, o uso de materiais inadequados para construção, terremotos, etc.; assim como na questão das doenças podemos dizer que foram causadas por mutação genética de um vírus que se tornou letal ao homem, por problemas sanitários, ou outra razão. Entendamos que não é preciso atribuir aos males um Mal ou uma Ira fundante. Cada mal é proveniente da conjunção de fatores próprios, e não pela articulação de um anti-Ser que, invejando o Ser, intenta destruir a obra do Criador, criando o caos. O caos não é o nome do Mal Absoluto, antes, é apenas o nome que damos a fenômenos cujos efeitos não são explicados, controlados, previstos pelas formulações científicas. De alguma maneira podemos dizer que o caos pode ser habitado pelo divino.

Os homens interrogam – Para onde voltaremos nosso olhar? Para onde iremos, então?

A mensagem diz – Onde há gente cativa? Onde há opressão? Onde se nega a liberdade? Onde a desigualdade é o fundamento das relações humanas e com a vida? Onde a força da desgraça tenta perseguir o espírito da graça? Onde as ortodoxias calam a doutrina do amor ao próximo? Onde os pequeninos estão famintos e nus? Onde o clero exige submissão, enquanto tiraniza o que busca a Deus? Onde a Casa de Deus se tornou uma instituição que espolia o pobre? Onde a única esperança ao desesperançado é uma vida plena pós-morte? Onde a justiça é sonegada em nome da eficácia, da eficiência? Onde a paz se impõe pela tortura, pelo assassinato, pela extinção? Onde a voz profética não é mais ouvida? Onde os mensageiros se tornaram anjos e a mensagem em metafísica? Onde os apóstolos são cargos de liderança e profetas são adivinhos do amanhã? Onde a fé é confundida ao sacrifício e à obediência? Onde ser igreja é reunir-se num endereço teocrático? Onde o que pratica violência contra a vida ocupa espaço na mídia e é enaltecido por suas habilidades de liderança? Onde a vida é apenas um participar econômico em prol dos valores de consumo? Onde podemos ver o Cristo rejeitado? Vamos onde há males e sejamos ali uma luz ou um sal.

Os homens resmungam – Não demos ouvidos a esta mensagem, pois que nos faz ir tão apenas ao mundo, este que está perto e aquele que ainda está distante, aos confins da terra. O mundo passa, mas o céu é eterno. Contemplemos o que é imutável e sejamos salvos!