Não creio em bruxas; mas, que existem, existem
É
possível escutarmos no meio evangélico brasileiro um eco ainda remanescente de
uma voz que nos diz: “Não somos nós que lemos a Bíblia, mas é a Bíblia que nos
lê”. Movido pela referência a uma crença originária na Reforma Protestante, ou
seja, o Livre Exame das Escrituras, esta frase tem o sentido de que quando
alguém está diante das Escrituras Sagradas, estas têm o poder divino de revelar
ao indivíduo sua intimidade oculta a si mesmo, apresentando-o suas mazelas,
defeitos, erros, assim como, a graça providencial de Deus, cuja dinâmica pode
restaurar o indivíduo. A Reforma Protestante a fim de escapar da tradição de
doze séculos de Igreja Católica Apostólica Romana, centrou nas Escrituras
(assim como na fé, na graça, em Cristo e na glória de Deus, mas de maneira
diferente) a suficiência para a experiência possível que procura circunscrever
a religião cristã. As Escrituras são suficientes, somando-se à necessidade da
fé, da graça e de Cristo, para produzir o efeito de uma experiência que tem
como intenção glorificar apenas a Deus.
Aqueles
homens (e quem sabe também as mulheres) daquele tempo acreditavam que o direito
do livre exame dos Textos Bíblicos realizado por cada indivíduo, era uma chave
para que a dinâmica, isto é, o poder de Deus se revelasse. No momento em que o
indivíduo lesse a Bíblia, esta potência divina leria o indivíduo, revelando-o a
necessidade de crer na Graça que está em Cristo, com isto revelando a salvação
por meio da fé. Então, ao abrir-se a possibilidade do livre exame, de fato
estariam, os Reformadores e Protestante, abrindo as portas para uma experiência
íntima e subjetiva com Deus. No momento em que ao indivíduo é dada a liberdade
de exame, ele se abre a ser examinado pelo texto que pensa examinar.
Uma vez
antevista as conseqüências de uma liberdade tão ampla e irrestrita, os
herdeiros da Reforma Protestante, talvez não se dando conta de quão católicos
se tornavam, passam a buscar uma alternativa ao Livre Exame. Ainda que a crença
na suficiência das Escrituras seja central para uma delimitação do que seja
Protestantismo Histórico, o Livre Exame não tem o mesmo estatuto. Desta maneira
desloca-se levemente o conceito de Livre Exame, propondo: “devemos ter cuidado
com a liberalidade irrestrita do livre exame, pois este deve ser segundo uma
dada ortodoxia.” Lembramo-nos que a Reforma Protestante se levantou contra a
crença dos Católicos Romanos, aquela que valorizava a Tradição ao lado do
Cânon, isto é, séculos de escritos teológicos que compunham o corpo doutrinário
da ortodoxia católica, a qual servia de prumo às interpretações corretas e
verificáveis. Ler os Textos Bíblicos era entendido como lê-los acompanhados dos
escritos de centenas de interpretes tradicionais que durante séculos, por meio
de um trabalho intenso e meticuloso, deram um sentido unificado à Bíblia. Os
Protestantes e Reformadores disseram, em um primeiro momento: examinemos livremente
os Textos Bíblicos sem a mediação da Tradição, isto é, retornemos às Escrituras
sem a companhia destes escritos paralelos, ou seja, ofereçamo-nos a liberdade
de exame do Texto, sem o peso da Tradição Católica Romana. No entanto,
paulatinamente passaram a propor uma dada imposição à leitura do Texto, o peso
de uma nova Tradição, não mais católica, agora calvinista.
Certamente
que os crentes mais espiritualistas optarão pela primeira alternativa (a Bíblia
nos lê e o livre exame será a porta desta leitura) e os evangélicos mais
tradicionalistas tenderão para a segunda (a um conjunto de textos teológicos
aos quais devemos nos referenciar quando lemos a Bíblia). Os crentes
espiritualistas olharão para o homem como alguém passível de uma experiência do
tipo “folha em branco”, em
que Deus poderá imprimir nela, como que espelhando a Bíblia,
um texto novo. O livre exame em que a Bíblia lê o leitor é uma crença absoluta
da infantilidade do humano diante do Texto, ou seja, é acreditar na
possibilidade de um silêncio do humano diante da voz divina soberana e única.
Na leitura da Bíblia o indivíduo se cala e Deus fala com ele. Os evangélicos
mais tradicionalistas apontarão para o pecado original, a queda adâmica que
dela todos participam ou herdam, e dirão que este indivíduo nunca chegará a
entender as verdades do texto, devendo ser conduzido por mãos e olhos
preparados: um pedagogo. A ruína humana determina a impossibilidade de
compreensão correta do Texto, requerendo a condução correta de alguém que já
foi alcançado pela graça, e, além disto, de alguém que sistematicamente e
metodologicamente tendo estudado o Texto conhece-o, sabendo interpretá-lo
corretamente. Deus fala com seus íntimos e estes ensinam aos que querem
aprender. O Texto Bíblico se faz acompanhar de uma ortodoxia reformada e
protestante.
Outra
máxima do meio do Protestantismo Reformado Histórico é: “uma vez reformado,
sempre reformado”. Tomando os escritos acima, podemos pensar que a Reforma Protestante
parece nos dizer três coisas: primeiro que para se fazer uma reforma há de se
quebrar uma parcela significativa do edifício, sem destruí-lo por completo;
segundo, que após a remoção das partes obsoletas, envelhecidas e
desnecessárias, há de se colocar algo no lugar para que a reforma não se
transforme numa demolição; terceiro, que devemos voltar ao item um e retomar à crítica que mantém a remoção de partes envelhecidas,
obsoletas, impróprias. O que esta máxima poderia nos dizer é que a dinâmica
própria da Reforma Protestante é aquela que retoma sempre à crítica a fim de
atualizar a fé cristã. A Reforma Protestante olhou para o Catolicismo Romano e
criticou o peso da Tradição, o qual se quis colocar ao lado do texto Bíblico.
Mas, ao fazer ressoar esta máxima nestes séculos, a Reforma Protestante trouxe
sobre si mesma a benção/maldição de uma crítica constante sobre seus dogmas e doutrinas mais elementares e nucleares. De fato, a crítica
Protestante ao Catolicismo Romano do século XVI, é aquela que diz que o Texto
Bíblico foi afastado do homem e da mulher comuns, sendo sempre interpretado,
explicado por um representante da Igreja, o clero.
Os
crentes espiritualistas mantém a crítica em uma presença de um tradutor, ou de um
intérprete que seja posto entre as Escrituras e o leitor humano, desejando crer
que este leitor humano se despoje completamente de todo o conteúdo próprio em
si e, como uma criança recém nascida, ou como um livro cujas páginas não estão
grafadas, estão em branco, e receba as impressões diretamente da leitura que
Deus fará deste leitor, a partir do momento que este se der à leitura das
Escrituras. O ser humano concebido por esta crença espiritualista é a de um
homem minimizado, anulado, silenciado, entendido como nada no momento de seu
confronto com o Texto Sagrado, com a Palavra de Deus. O que se apresenta aqui é
a antropologia dos Reformadores e Protestantes em que o homem é um ser criado à
imagem e semelhança de Deus, porém tendo pecado no Éden foi destituído de sua
capacidade de arbítrio. O momento da leitura das escrituras parece ser o
momento mágico quando Deus pode reconduzir este homem à estatura de um ser que
pode voltar a entender a língua sagrada perdida no Éden.
Enquanto
o ser humano é reduzido ao nada de sua deformação, Deus é o Tudo que fala: a
deformação, ou ausência de forma, entendendo a forma como linguagem. Ainda, o
silêncio sacro concomitante ao ato de leitura é a veneração de um homem totalmente
reduzido à consciência de seu pecado original e de sua inabilidade para
retornar por esforço próprio a Deus, devendo ser reconduzido por este silêncio
que é preenchido pela voz divina: a fé como silêncio e a graça revelada pela
voz das Escrituras. Tais crentes espiritualistas esquecessem que a leitura já
exige conhecimento de uma língua, e a posse por uma linguagem. Talvez imaginem
que as palavras do Texto estão ali e que aquele indivíduo vá ouvindo de Deus o
sentido e significado de cada palavra, recompondo o Texto e o cosmos individual
segundo a alfabetização na linguagem divina. É um indivíduo desalfabetizado
magicamente e que aprende, dentro da língua de seu mundo, uma outra língua,
agora com as palavras re-significadas pelo pedagogo espiritual de maneira
sobrenatural. A língua de seus pais é obliterada instantaneamente e uma nova
linguagem é apreendida por imediato, como uma gestalt
lingüística divinamente marcada.
O
evangélico mais tradicionalista parte também de uma concepção de homem, de uma
antropologia em que o humano é aquele animal que pecou, portanto está separado
completamente de Deus. O homem não é o animal racional, mas o animal que peca. No
entanto, ele não parte da crença na possibilidade de um retorno ao estado
infantil, a um silêncio individual instantâneo diante do Texto, ele vê nisto
uma impossibilidade. Não é concebível tal obliteração desalfabetizadora
e uma alfabetização sacra gestáltica que é concebida
como um escrever de Deus num livro em branco e num apreender humano instantâneo.
Mas, uma vez que este caminho se torna implausível, encontram outro problema
que se impõe: como o indivíduo comum poderá conhecer a Deus, sabendo-se que
Deus se dá a conhecer por meio de revelação e esta está plenamente realizada
nas Sagradas Escrituras, mas este homem, por conta do pecado, não consegue
ouvir a voz de Deus?
Para
tanto o pedagogo divino é substituído por um tipo de pedagogo humano cuja
gênese se reporta à própria Reforma Protestante. Há uma originalidade
pedagógica à qual devemos sempre retornar. Os escritos teológicos produzidos
por alguns estudiosos nos últimos 400 anos servem de referência, ou balizas de
leitura para a Bíblia. Alguém que vai ao Texto Sagrado deve estar acompanhado
por um estudioso intérprete da Bíblia, o qual saberá distinguir o joio do
trigo, e assim, conduzir o leitor num reto caminho do entendimento até pleno
conhecimento de Deus.
O
trabalho que os crentes espiritualistas delegaram a Deus
e às Escrituras, a voz de Deus grafada, os evangélicos mais tradicionalistas
repassam, se não integralmente, pelo menos parcialmente, aos estudiosos
intérpretes da Bíblia: teólogos e pastores, aproximando-se, guardado as
especificidades próprias, aos católicos. Ou seja, caberá aos teólogos e aos pastores
a elaboração e divulgação de uma ortodoxia, uma correta interpretação das
Escrituras, a qual delimitará os limites de interpretação do indivíduo leitor. A
leitura individual das Sagradas Escrituras desde o início e durante todo o
tempo, estará circunscrita e dentro das fronteiras da ortodoxia, isto é, das
interpretações corretas e balizadas elaborada pelo trabalho meticuloso dos
teólogos e pastores.
Ser
cristão Reformado e Protestante é tomar as Escrituras sagradas como o Livro da
Revelação de Deus, mas para os tradicionalistas soma-se que esta leitura deve
se fazer acompanhar de referências teológicas corretas. O Livre Exame é a
independência questionadora, mas não a liberdade de elaboração teológica, em
outras palavras, questiona-se uma interpretação mantendo-se no interior da tradição
da ortodoxia Protestante e Reformada. E é esta restrição imposta pela tradição
teológica que re-significa o que não mais é liberdade de exame. O que podemos questionar
a partir destas considerações é: Qual a origem desta tradição teológica? Se
esta tradição teológica tem um início não mítico, ou seja, possa ser localizada
no espaço e no tempo como uma experiência entre um humano e Deus, porque esta
experiência ficou restrita àquele homem, naquele tempo e lugar, sendo mitologizada? Porque um homem obteve liberdade de exame e
nós estamos restritos aos limites desta liberdade alheia?
Uma
terceira alternativa, aquela que parece buscar um escape para as aporias da Reforma e do Protestantismo, ou seja, da
espiritualidade e da tradição, contudo, entendemos que, ao preço de se por para
fora da própria Reforma e do Protestantismo, está no Neopentecostalismo.
Este apresenta uma solução histórica criativa, ainda que não original. Procura
preservar o Livre Exame dos crentes espiritualistas, fixa a autoridade, a autonomia,
a determinação exclusiva de Deus em escolher e separar pessoas (apóstolos,
profetas, evangelistas, pastores e mestres) para serem os portadores das
interpretações reveladas, subjetiva radicalmente a revelação aos escolhidos e migra
tal revelação grafada como Logos, para a voz divina como Rhema.
De uma única tacada todas as escrituras (a Bíblia, a tradição católica e a
ortodoxia protestante e reformada) são submetidas à voz de Deus falada ao e por
intermédio de seus servos os Apóstolos e Profetas, de maneira radicalmente
subjetiva. Uma virada radical sobre a crença espiritualista é que Deus não fala
necessariamente pelas Escrituras, mas livremente por uma voz interior sem a
presença necessária do Texto Sagrado, a Bíblia. Deus falaria por uma voz audível
apenas ao indivíduo escolhido por ele. Mas também fala a cada crente
individualmente, contudo esta fala submeter-se-á àquela falada por Deus aos
escolhidos, aos ungidos, aos ministros da Palavra.
Na
crença espiritualista do Livre Exame e para o evangélico mais tradicionalista o
Texto Sagrado é a chave da revelação de Deus, alterando apenas a antropologia
de base. Para a primeira todo o homem é pecador e estando destituído da glória edênica (aquela que foi dada por Deus ao homem e mulher no
Éden) por conta do pecado original, necessita da graça direta de Deus a cada
indivíduo, a qual é providenciada no ato de leitura da Bíblia. Também a segunda
admite que todo homem é pecador, mas efetua uma
segregação entre estudiosos da Palavra de Deus e não estudiosos. Aqueles
sistematizarão e ordenarão a revelação, ensinando e
conduzindo a leitura do Texto Sagrado aos demais que serão leigos. O Neopentecostal também segrega, mas desta vez, entre os que
são separados para o Ministério da Palavra, ungidos como Apóstolos, Profetas,
Evangelistas, Pastores e Mestres, e aqueles que são o Povo de Deus. Segregação
esta que põe em cheque o sacerdócio universal dos crentes, tão caro à Reforma e
ao Protestantismo. O Neopentecostalismo radicaliza a
segregação, mas admite a voz de Deus, contudo a separação entre ministros e
povo não se dá pelo empenho de alguns em estudar sistematicamente e
metodologicamente os Livros Sagrados, mas por uma voz divina que separa e unge alguns para o Ministério. O Ministério da Palavra não é
interpretativo, mas divulgação da Revelação.
Desta
maneira todo tempo é um tempo original em que Deus se revela a um indivíduo e revela uma
verdade eterna que o comissiona como propagador. Esta revelação é a voz de Deus
audível subjetivamente e que poderá posteriormente (via de regra
o é) ser suportada por um Texto extraído das Sagradas Escrituras, lido e
interpretado a fim de dar sentido e legitimidade à revelação. Deus fala a
qualquer tempo, com qualquer um e da maneira que ele escolher segundo a
soberania que lhe é própria. Este escolhido se torna um porta-voz de Deus,
alguém que tem a legitimidade divina em revelar a mensagem de Deus e conduzir o
povo à novas dimensões do conhecimento de Deus: as
coisas reveladas. Assim o Neopentecostalismo ao fazer
uma síntese imaginativa, embora não original, entre a espiritualidade da voz de
Deus e a segregação tradicionalista entre clero e povo, ele o faz ao preço da
minoração da Palavra Escrita (o Logos) diante da sobrevalorização da Voz da
Palavra (Rhema).
Parece-nos
que o Neopentecostalismo promove uma ruptura radical
com a Reforma Protestante, embora o faça de maneira sutil. Enquanto para a
Reforma Protestante a Sola Scriptura é um elemento
imprescindível do Núcleo Central de Crenças do Protestantismo Histórico, para o
Neopentecostalismo a Revelação subordina o Texto a
si, ou seja, substitui a Sola Scriptura neste Núcleo
Central, colocando em seu lugar a voz de Deus. Procuramos, assim, indicar que
enquanto o Protestantismo Histórico procurou erguer seu Núcleo Central a partir
das Cinco Solas (Scriptura, Fides,
Gratia, Christus, Deo Gloria), o Neopentecostalismo
promove uma alteração tal que rompe com este Núcleo Histórico, construindo um
Novo Núcleo que começa com: Sola Rhema, ou somente a
Palavra de Deus Revelada como uma voz íntima no coração do indivíduo escolhido.
Certamente
que estas três possibilidades não esgotam a totalidade do que encontramos no
fragmentado mundo religioso que se tem início na Reforma Protestante. Mas estes
três nos servem como exemplo de alternativas que continuam pululando, pipocando
por ai. A questão que podemos levantar é se não haveria uma outra possibilidade
que, apresentando suas limitações próprias, permitisse-nos sair dos problemas
apresentados acima? Será que não poderíamos, ingenuamente, propor outros
elementos para uma nova experiência de fé que mantendo a Bíblia como forte
referência, não procuraria extrair dali nenhuma doutrina ou ortodoxia que tenha
a pretensão de sobreviver às contingências? Será que não poderíamos ir ao
Texto, não temendo os rótulos de heresia e outras coisinhas que podem nos
falar, e encontrar ali não uma linguagem teologicamente estruturada, mas gente
relatando uma fé, com suas limitações históricas e lingüísticas?
Será
que não podemos imaginar, ingenuamente, que Paulo, Pedro, Lucas, Mateus,
Marcos, Tiago, Judas e outros escritores, quando estavam escrevendo aqueles
textos não pensavam estar escrevendo nenhuma Escritura Sagrada? Será que não
podemos imaginar que quando eles escreviam, as palavras que utilizavam não tinham
nenhuma carga teológica, o peso que foi colocado sobre elas, mas tinham o
sentido e o significado que era comum nas conversas entre pessoas comuns naquele
século? Palavras como ecclésia, zoe, cosmos, psique, metanóia, bios, somma, doxa, dynamis,
kurios, christos, arché,
logos, rhema, ágape, phileo,
eros, soteros,
etc., não tinham nenhuma carga teológica, mas eram entendidas segundo a
compreensão comum das conversas cotidianas?
Claro
que estas questões dirigem-se a estas compreensões do Texto Bíblico como
apresentamos acima. Perguntamo-nos se não poderíamos escapar destas
possibilidades, espiritualistas, tradicionalista e sincretista-subjetivista,
visando uma experiência cristã cuja atualidade centrasse não na exterioridade
da voz de Deus: na revelação escrita ou na revelação subjetiva? Mas cuja
centralidade fosse o encontro com o Cristo que se tem no encontro com o
próximo. Uma coragem de fé que, ao eco do sermão do monte, deixássemos de ouvir
o que foi dito aos antigos, e pudéssemos ser o Corpo de Cristo! Uma revelação
que não estivesse centrada nem no texto e nem na voz, mas no encontro
eclesiástico, e que não é nem definitiva e nem eterna, mas edificada
historicamente sobre um fundamento: Cristo.
O que é
o fundamento Cristo? Poderíamos supor ou propor que seria Deus se fazendo carne
e estando entre nós. Com qual propósito? Pensaríamos ser a possibilidade da
anunciação de uma possibilidade utópica de um Reino a ser erguido por meio de
encontros amorosos e graciosos. Como se realizaria? Pelo compartilhar de vida,
segundo o que Jesus nos falou: quando fizerdes a um destes pequeninos, a mim
estais fazendo. Como se organizaria? Por meio de encontro entre pessoas que
tendo o mesmo propósito e desejando realizar este Reino, e que assim encontram
o meio mais conveniente de tornar esta utopia mais presente. Como ouvir a
vontade de Deus? Através da amizade, pois já não haveria senhores e servos, mas
todos nos chamaríamos de amigos, pois daríamos a nos conhecer uns aos outros. Ainda
haveria o pecado e o que seria o pecado? O pecado tornar-se-ia aquilo que nos
faz pensar ou olhar o outro como uma coisa e como tal devendo servir ao nosso
propósito narcisista e egocentrado, isto é, devendo
nos servir. Pecaríamos não quando falássemos palavrões, fumássemos, bebêssemos,
brigássemos, adulterássemos, fossemos gays ou lésbicas, roubássemos, ou
deixássemos de dar os dízimos, ou trabalhássemos no dia santo. Pecaríamos quando
olhássemos para o outro como se este fosse inferior a nós, e desta maneira este
devesse a nós se submeter, estariam, assim, sob nosso comando ou domínio.
Pecamos quando dizemos que Deus deve nos prosperar,
nos curar, nos libertar, etc, fazendo-o nossa máquina
de bênçãos. Pecamos quando matamos fetos indefesos em nome de nossa liberdade,
autonomia e soberania sobre nossos corpos, esquecendo que aquele
que assassinamos é um outro corpo dentro do corpo, queimamos florestas
em nome de nossa prosperidade, tiranizamos os animais em nome de nossa beleza. Estes
filhos do demônio, os Apóstolos, Profetas, Evangelistas, Pastores e Mestres
pecam quando põem cabrestos nas pessoas e dizem com quem casar,
em quem votar, como se comportar, no que trabalhar, etc. e até mesmo para que os pais
condenem seus filhos à morte por bruxaria.(veja o vídeo no
link)
Entendemos,
e cremos que o Cristo encarnado em Jesus veio nos mostrar que cada geração teve
a sua revelação de Deus segundo sua historicidade e cultura, mas que ele vinha
anunciar algo ainda mais revelador. O Texto, assim, não seria UM, mas um
conjunto de Livros, os quais nos mostram o entendimento parcial e histórico de
cada geração ou pessoas. O Texto, assim, se entende a partir de Cristo e sua
pregação que nos diz: o Reino está em nós, entre nós. Ele veio nos dizer que
não é no Texto que encontraremos os detalhes de nossa existência religiosa, mas
esta experiência está suportada por um fino e tênue fio: ame a Deus e ame ao
próximo. De resto a experiência cristã não se encontra nas Escrituras, na
Tradição Teológica e nem a Revelação Apostólica, mas em ecclésia:
encontro entre amigos que festejam a vida e vinculam-se por afinidade,
festejando entre si esta irmandade eletiva. A partir disto somos cartas vivas,
escritas não em pedras e com tintas, mas com sangue nos corações. Somos cartas
que devem ser lidas por todos liberalmente e igualmente: ecclésia.
A Bíblia nos conta de pessoas que vivenciaram esta possibilidade histórica e
nos incendeiam com a mesma utopia. A letra nos mata quando a tomamos como
sistema harmônico e acabado que obedecido agrada a
Deus. O espírito nos vivifica quando subordinamos a experiência grafada nos
Livros como ícones que nos abrem um universo mais amplo e histórico. A Bíblia
não manualiza e formaliza os encontros, mas aponta
para a história de homens e mulheres que se encontraram e festejaram o amor a
Deus e o amor ao próximo.
Os
estudiosos deveriam nos auxiliar na retirada de entulho solidificado de
doutrinas e dogmas que se ergueram no passado, por pessoas que confundiram a
fluidez do evangelho com a rigidez da instituição. Nós deveríamos ter a coragem
daqueles que iniciaram uma reforma profunda na religiosidade de seu tempo,
iniciada por Jesus, mas que está sujeita a ser
criticada e reformada a todo tempo.