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Perdão!

Caminho de refundação da relação crime-castigo como liberdade de não vingar, que aponta para um encontro mais ajustado da participação nas responsabilidades. Passo requisitado logo na origem de um ajuizamento que se pretende retomar sobre as responsabilidades, quando perdemos ou estamos na eminência de perder o foco, o qual vem ser nublado, ofuscado, obnubilado, desfigurado, impingido pelo ódio, rancor, desejo de vingança, ao se ter sofrido um dano ferino, aquele que reduz e consome nossos sentimentos a um desejo de reparação, de restituição, sobretudo ao preço da equiparação, da reciprocidade das dores. Sofrimento causado por um ataque danoso a um valor imprescindível na rede de crenças individual e partilhado, cuja restauração se crê possível a partir do sofrimento dirigido ao que fez sofrer. Inversão impossível de um padecer que espera pelo menos seu compartilhamento por reciprocidade. Paralelismo impossível, tampouco. Vontade tirânica que escraviza, que agrilhoa, que nos lança no escuro e úmido porão de nossos sofrimentos íntimo e pessoal. Acorrentamento à imagem de uma lembrança viciosamente amargurada do que se busca vingar, que se quer a dor igual ou maior, desejo solitário e ácido. Serviço perpétuo e contínuo a um senhor que marca nossos corpos dolorosamente, requisitando sempre em sacrifício a paz, a justiça, a razão, o amor. A vingança é um prato apimentado que o ulcerado come frio.

Tornarmo-nos livre de talião e de Moisés, do olho que requer um olho em restituição, de um dente que reclama um dente em pagamento, a fim de buscarmos um fundamento que aponte para a responsabilização. A responsabilidade tripla que nos destrava as cadeias e nos conduz pela liberdade fundante, promovida pelo perdão. A causa de cada ofendido se torna a causa de todos que compartilham e configuram uma rede de crenças mais ou menos comum: de todos os que foram ofendidos como um o foi, de todos os que formam ofendidos porque um foi e todos os que foram ofendidos sem saber da ofensa que os pode ofender individualmente. Cada um que sofre torna-se responsável pela justiça comum ofendida, questionada. Todos somos responsáveis pela justiça a cada um e aquele que cometeu a injúria deve saber-se responsável na justiça que não guarda. Não havendo, contudo, equiparação e reciprocidade, há responsabilização. O perdão não é a liberdade para o esquecimento: façanha falaciosa.

O cristianismo mal lido equiparou o perdão ao esquecimento, como contraponto (que se torna extensão) à Lei de Moisés que reclamava a reciprocidade, a igualação da pena ao dano, do crime e do castigo, para sanar o sofrimento impetrado como violação de um valor imprescindível. Engano! Ao sermos ofendidos (não há ofensa particularíssima) e a partir do perdão apenas nos oferecemos a possibilidade redescritiva para uma imagem rememorada, a qual foi marcada por um sofrimento causado por uma agressão a um valor sensível, aquele que temos em nossas crenças pessoais, interconetadamente construída, herdada. Refundamos nossa possibilidade de juízo que, desta maneira, poderá encontrar caminhos mais distantes das emoções e libertos do desejo de vingança, para re-configurar a lembrança em uma imagem responsabilizadora. O dano causado deverá ser reconstituído em uma descrição representativa mais exata para que o peso das responsabilidades de cada um possa ser arbitrado, ou, conssensuado socialmente.

No cristianismo que entende o perdão como esquecimento e que assim se mantém atrelado a talião e Moisés, distorcemos a relação a ofendido-ofensor, pois pensamos a justiça como reparação, como restituição, como pagamento de dívidas por meio de uma relação de equiparação, e quando esta equação não é possível igualamos o crime ao conjunto vazio do esquecimento. O Perdão é reduzido ao espaço de uma reparação impossível, ao espaço onde Moisés não pode e não consegue agir, isto é, tudo aquilo que não podendo ser reparado deve ser esquecido, a isto chamamos perdão. Ainda somos tributários a talião e a Moisés quando dizemos que o perdão é esquecer: esquecer um mal irreparável, irrestituível, onde a relação crime-castigo não pode ser igualada. Desta maneira, perdão e justiça são campos complementares e impenetráveis.

Mas não é assim que entendemos; antes, o perdão é o campo da refundação pessoal para as bases do julgamento, a fim de que possamos, sempre, buscar a justiça. Fazemos isto encontrando lugar no campo das reconstruções da memória em busca de responsabilidades diante de todos. O que está em jogo entre o perdão e a justiça é a vida em comum por parte de todos os que concordam com uma específica construção histórica de sociedade. Perdão e justiça se interpenetram como numa cópula de serpentes. Está na rede de crenças do cristão a intenção de perdoar sempre a todos, assim como está o fazer a justiça sempre e a todos. Perdão e justiça são crenças fundadas nas dádivas divinas, na providência de Deus que todo cristão deve ofertar aos seus ofensores.

Perdão não é uma questão de quantidade, em qualquer uma das duas dimensões que apliquemos: não podemos graduar as ofensas e dizer: daqui para lá perdoamos e daqui para cá praticamos a justiça; assim como não podemos dizer: perdoamos até 490 vezes a mesma ofensa cometida por uma mesma pessoa. Não há uma tábua em que possamos olhá-la e dizer: estes crimes têm castigo, portanto não há perdão e aqueles não há castigo, portanto há perdão, isto é, perdôo/esqueço a dívida. Se desta forma fosse, praticaríamos os crimes mais horrendos a fim de ficarmos impunes pelo esquecimento social. Quando Jesus disse (pelo menos é assim que entendemos suas palavras) que devemos perdoar quem nos ofende até setenta vezes sete, parece ter dito que em todo momento em que vamos praticar a justiça e esta não encontra lugar para a sua prática, devemos dar um passo atrás e perdoar, isto é, buscar novamente os fundamentos para o juízo e para a reconstrução da memória da ofensa a fim de fazermos a melhor justiça.

Daquele que causou o dano, propiciou a dor, abriu as portas para o sofrimento, dele o perdão nada espera, nunca. O perdão não diz respeito a ninguém que está fora de nós, antes, ele trata como nossas imagens de lembranças angustiantes da dor. Não se perdoa a alguém como uma liberdade de imputar castigos, perdoa-se como uma deliberação de refundar para a justiça. A justiça vai ao encontro daquele que tocou de maneira irresponsável em valores sensíveis e o perdão abre a porta do calabouço em que se pode estar preso pelo ódio e desejo de vingança, para que todos sejam responsabilizados. A maior das irresponsabilidades é esquecer como forma de perdão, portanto, do ofendido que de agora se torna réu principal. A negação da responsabilidade pessoal por parte daquele que ofende requer a renovação do perdão pelo ofendido e a prática da justiça como responsabilização. Ainda sob o espírito das palavras de Jesus, caso alguém nos ofenda, dirijamo-nos a ele e busquemos acordo; caso este se negue a acordar, ou, a se responsabilizar, levemos duas ou três testemunhas e busquemos novamente o acordo; caso mantenha sua negação apresentemos nosso caso à ecclésia. Nos dias atuais, podemos substituir a palavra ecclésia por família, igreja ou justiça comum. Isto é de fato perdoar, ou seja, encontrar meios de responsabilizar cada um segundo seus atos, buscando nestas idas e vindas uma relação eficiente de imputação da responsabilidade individual e coletiva.

O que o sentido de perdão pode nos auxiliar, sempre, é na busca de uma justiça menos compromissada com os interesses pessoais, mesquinhos, pontuais, grupais, e mais com uma representação histórica e socialmente comprometida com o bem estar da maior parte da vida na Terra. Jesus, numa certa leitura que podemos fazer da Cruz, mostra-nos esta inauguração de uma justiça do perdão. A justiça divina conforme nos apresentam os textos hebreus era fundada na equiparação do crime com o castigo. Para os violentos de Sodoma que buscaram violentar os hóspedes de , Deus agiu com violência. Para aqueles que fenderam a relação de Israel com Jeová, Deus fendeu a terra e os engoliu. Mas Jesus nos diz: nesta ofensa da cruz, Pai funda a justiça pelo perdão. Desde então, entre o perdão e a justiça interpõe-se o elo do arrependimento, da metanóia: mudança de mentalidade. A deliberação divina-humana de mudar o fundamento do juízo, das escolhas para se fazer justiça.