Deus falou comigo,
e disse que...(complete da maneira que queira esta
frase):
...vou me casar com certa pessoa
(independentemente dela ser casada ou não)
...vou conseguir aquele emprego (não
obstante não ter qualificação para tal)
...vou ser curado daquela doença
(mesmo que eu não me submeta aos tratamentos médicos)
...meu filho vai deixar as drogas
(ainda que eu o humilhe e desrespeite)
...meu marido vai voltar a me amar (a
despeito de eu o amar)
...que serei ungido pastor (apesar
de minha conduta anti-ética e de manipulação)
...que terei meu salário aumentado
(desconsiderando o fato de eu ser o menos produtivo no local de trabalho)
...que pagarei as dívidas e serei próspero
(esquecendo-me da minha má vontade com o trabalho, o estudo, o esforço, a
dedicação)
...prevalecerei contra os poderes do
diabo (não dando conta que desta maneira dou crédito às trevas, dizendo haver
nelas algum poder)
...que sou cabeça e
não cauda (não pensando sobre as razões de querer dizer ser aquilo que não me
esforço por alcançar)
...que sou filho do
Rei e como tal tenho tudo o que meu Pai tem: glória, riqueza e poder (não
percebendo que esta é a resposta que Satanás queria ouvir de Jesus quando o
tentou no deserto: concupiscência dos olhos, concupiscência da carne e soberba
da vida. Enquanto a herança de Deus Pai, o que poderíamos chamar de DNA divino,
é seu caráter amoroso e gracioso, e completa nudez crucial diante do flagelo
humano)
Estes
que dizem ouvir Deus falar, que têm a revelação de Deus, são os novos
pregadores de Cristo, aqueles que martelam os pregos em seus pés e mãos, e
colocam nele a coroa de espinho e marcam suas costas com flagelos. Os algozes
de Cristo estão todos por ai: com programas na TV, no Rádio, na Internet,
falando às multidões seduzidas por seu narcisismo de desejos infinitos, pregando,
orando, profetizando, curando. Esquecendo-se, ou, evitando ler as palavras de
Jesus, mormente aquela que diz: mas Senhor, em teu nome profetizamos, expulsamos demônios e fizemos milagres. Mas Jesus responde: Nunca
conheci a vocês, aqueles que praticam a iniqüidade!
Os
assassinos de Jesus estão todos aos pés da Cruz: jogando sorte sobre seu manto,
dizendo: esta cobertura de Cristo será minha, é a cobertura que direi ter,
diante das multidões. Outros zombam do Senhor, dizendo: se você tivesse o poder
que eu tenho, o qual vem do alto, você não estaria sofrendo. Alguns ainda
falam: quem é filho de Rei não sofre e nem é exposto à humilhação.
Em
certo sentido a história parece se repetir. É o sinédrio,
com seus sacerdotes, quem julga e crucifica o Mestre. Entre Barrabás
(metáfora da injustiça, da violência, do roubo) e o Cristo (metáfora da
justiça, da ética, do amor), eles preferem se embostear,
im-merdar na mais vil política dos favores, das
propinas, dos descalabros. Fecham os olhos aos pequeninos, vendo neles apenas
oportunidades publicitárias, entregando-os às bestas-feras das drogas,
prostituição, assassinatos, descaminhos, enquanto se banqueteiam nas mesas
postas diante do trono. Aos pequeninos, eles os alimentam enquanto estão diante
das câmeras, quando vislumbram a possibilidade de ser manchete nos jornais e
revistas. Mas viram-se de costas ao apagar das luzes. Aos que estão à margem dão
o que sobra, visando serem vistos.
Inventam
títulos, instituições, organizações, associações, cargos, estruturas,
orçamentos, planejamentos, programas, ocupações, patrimônios, cronogramas, a
fim de participar da festa, ampliar seu poder, estender seus domínios, manterem-se
midiatizados, publicitados,
aparentes, falados, cridos, ouvidos, seguidos, multiplicados. Quando são
incompreendidos, dizem seguir o Mestre e abrem novas filiais do inferno. Elaboram
marcas, logomarcas e campanhas. Dizem: nós não somos como aqueles publicanos, batendo no peito, antes obedecemos
a um mandato divino. Andamos no caminho de Emaús, ou
quando vemos alguém sangrando ao largo dele, paramos e lhe prestamos socorro. Mas
no fundo reproduzem a única coisa que conhecem: Roma.
Apontando
o dedo a Cosntantino, dizem,
como disse Eva sobre a serpente: ele é quem inventou tudo isto. Mas mantém-se
sob a proteção dos tetos das catedrais, incrustados nos organogramas clericais,
aguardando das tetas da igreja seus salários, reforçam a segregação sacerdotal,
ratificam a indispensabilidade institucional. Revelam o Deus de Moisés, Josué,
Davi, Josafá, o Deus da Bíblia que estava preso em um
tabernáculo feito por mãos humanas, ocultando,
sonegando, escondendo, soterrando, assassinando o Deus da vida, aquele que
rasgou o véu e derrubou o Templo. O Deus que não está escrito em pedra ou
papel, nem por meio de tinta, mas nos corações e por meio de sangue.
Pregam
a vida espiritual de uma realidade pós-morte, ou sobrenatural, e com estas
chaves nas mãos, impedem que passem pela porta até onde está
o Cristo sentado com as prostitutas, os segregados, os excluídos, os doentes,
os presos, os desesperançados, os largados. Pregam prosperidade e batalha
espiritual, mas deixam de dizer que Jesus disse de si, ao ler o profeta: Deus
me ungiu para curar os enfermos e libertar os cativos.
Deus
falou comigo e disse que...como o ferro se afia com o
ferro, assim o homem junto ao rosto de seu próximo.