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Cristianismo: eclipse da graça

Penso constantemente naquele homem, só, e penso de diversas maneiras, pois não entendo ser possível pensá-lo de uma maneira (,) só. De fato meu pensamento sempre gira só em torno deste homem. Aquele que na primeira metade do primeiro século foi crucificado entre homens sem nomes, abandonado por seus companheiros conhecidos e pela Lei escrita, aquela que se ouviu dizer aos antigos. Contudo a crucificação era algo comum dentro dos limites do Império Romano e milhares de pessoas foram mortas por este método nos séculos de soberania deste poder imperial. Talvez o que o diferencia em primeira instância é sua condição de abandono, sua disponibilidade à morte, sua anti-sacralidade diante de Jeová e sua inimputabilidade diante da lei romana: hommo sacer. Mas para que sua morte fosse digerida de maneira mais indolor, em outras palavras, para que sua morte contribuísse eficientemente na estrutura vigente e causasse menos estragos no status quo da civilização que foi influenciada pelo cristianismo, houve um movimento de uma voz que se tornou hegemônica, a qual repetidamente certificou, e que foi acatado como dogma, isto é, que morreu somente por questões espirituais. E nós, a multidão, até hoje damos crédito a este mito dogmatizado, não questionado, inquestionável a não ser pelos hereges. De fato tem uma maneira, pelo menos, de partilhar deste abandono, deste estar só em nossa contemporaneidade tão densamente habitada: pensar estando em torno do crucificado, mas pelas vias das heresias, ou seja, nomeando os dogmas como mito e buscando novas metáforas plausíveis que contextualize nossa fé. Assim, o herege contemporâneo torna-se um eremita, caminhante de desertos, que se auto-impõe o ostracismo, seu afastamento dos dogmas e das leituras hegemônicas, em busca de novos pentecostes, novas traduções. De novas maneiras de dizer as coisas e novos amigos de caminhada.

Daquele homem, cuja humanidade foi esquecida e foi esquecido como humano, disseram que morreu para pagar o preço exigido por Deus pelo ônus dos pecados de todos os demais homens, tanto quanto morreu para vencer a Satanás, aquele anjo cujo nome era Lúcifer e decidiu fazer frente, opor-se a Deus. E isto também pode ser pensado como um mito, um grande, seguro e certo mito. A questão é que, segundo tal dogmática, este judeu morreu tão somente por questões espirituais, sobrenaturais, transcendentes, aquelas que nunca descem à Terra, flutuam no ar, não pisam o solo sujo da existência, não faz e não traz sentido à vida no Mundo. Esta maneira de crer no sacrifício da cruz nunca se enlameia com os dilemas mais fulcrais e vitais da existência na Terra, a não ser aquelas conseqüências de uma existência voltada para o pós-morte que faz da vida um aborto. Tudo é remetido ao mundo espiritual, ao mundo das idéias, à Cidade de Deus, ao eterno, imutável, incorruptível, pleno, perfeito, deixando o mutável, o corruptível, o contingente, o devir, o incompleto, as coisas sensíveis expostas à sua própria degeneração, corrupção, morte, separação. O Mundo está destinado, pré-destinado à destruição, assim como os da fé estão pré-destinados ao céu.

Cremos que este homem morreu para que não mais existisse a morte, uma vez aceito que esta é resultado do pecado, pois o salário do pecado é a morte. Mas o que é o pecado? Porque ele suou sangue nos momentos que precederam sua morte? Sabemos bem a resposta! Todos nós fomos bem ensinados, adestrados a dizer: pois sabia o peso de seu sacrifício, o qual era levar sobre si o pecado de toda a humanidade. Ainda que não saibamos ao certo o que seja pecado. Por outro lado, mas se pensarmos que suou sangue apenas porque desejava mais vida, sabendo que esta seria interrompida pelo desvio humano que mais valorava o poder, a Lei, o juízo, o pecado e menos a vida do próximo? E se acatarmos a hipótese de que amava a vida e ansiava manter-se vivo por todo o tempo possível! Não seria, assim, o medo, ou, a angústia de um homem que receberia sobre si as conseqüências dos desvios morais de outros e viria enfrentar algo que chamamos de inferno, mas a angústia de um homem que reclamava aquilo que mais amava: a vida entre amigos. Suou para ter mais vida e clamou ao Pai para que o cálice da morte dele fosse afastado. O herege contemporâneo pensa que o pecado, a vida e o sacrifício podem ser resignificados para que possamos reconfigurar a fé, oferecendo-a um sentido mais positivo e assim apontá-la para a existência e a vida, mais vida. Ainda que não saibamos ao certo o que seja vida e existência. Ainda debatemos a diferença entre bios e zoe.

Seguem os dogmáticos dizendo que Deus criou as coisas e as ordenou, o que chamamos de Mundo, ou ainda Natureza, e criou uma espécie distinta dentre as demais do gênero animal, ao qual chamou de “aadaam”, ou, homem. Tais dogmáticos têm na ordem uma referência que sinaliza para a existência de Deus, contudo não na tem na fé, mesmo que neguem tal feito. Ao animal especial os medievais categorizaram como animal racional. Num tempo intemporal, tal animal racional fez uma escolha errada e perdeu aquela condição primeva de perfeição e completude, decaindo numa forma menos nobre, a qual marca e determina seu distanciamento de Elohim, dos deuses. Por esta razão, dizem eles, é que foi necessária a morte daquele homem do primeiro século da era cristã, a fim de reconduzir a humanidade à sua condição edénica, de perfeição e completude perdida com a má utilização de seu livre-arbítrio. O Éden passa a ser chamado de Paraíso e nele se projetada a esperança escatológica do cristianismo: um lugar sem choro, sofrimento, pecado, dor, injustiça, etc., tal qual aquele de onde a humanidade proveio.

O cristianismo tem seu inicio num sacrifício crucial espiritualizado que somente se justifica numa escatologia que confere valor ao eterno, imutável, incorruptível. Tanto a soteriologia quanto a escatologia arrebatam o humano para o inumano. Enquanto esta dimensão de vida é supervalorizada, desvalorizam o Mundo e a Terra, dando-lhe expressão de trânsito, passagem, meio de tentação, que pelas proposições desviantes abre e oferece oportunidades para que o indivíduo arbitre pelo erro moral, remetendo o olhar da fé para o que não é o verdadeiro.

Suspeitamos que quando o cristianismo se tornou filosófico, da maneira como brevemente expusemos acima, ele se deu ao custo do eclipsamento da graça. Em outras palavras, quando aquela reunião de pessoas - seguidores de um homem chamado Jesus, o Cristo, e por isto passaram a ser chamadas de cristãos - que partilhavam de crenças comuns – crenças estas que devemos traçar num plano arqueológico -, tornou-se um “ismo”, acatou este cristianismo ao custo do esquecimento de sua originalidade. O que era original na reunião dos amigos de Cristo? A reunião de amigos do Cristo de então, ou seja, este partilhar de experiências vitais enquanto se vive, perdeu a chama original do ser para o outro e se tornou uma pretensão de ser para o Ser, quando veio a estar como cristianismo. A reunião dos amigos de Cristo deixou de ser um caminhar após o Emanuel em prol do próximo num mundo contingente e se tornou um mito do retorno da alma que anseia sua volta ao Ser, ao imutável. O cristianismo é o mito do homem que é arrebatado ao céu num eclipsamento da graça original, a qual traz a esperança de um reino que vem entre nós, segundo a oração de Jesus.

Contudo pensamos existir um mito criado, produzido, pelo Protestantismo e pela Reforma (ou seja, pelos discípulos do cristianismo iniciado por Lutero e por Calvino) de que o cristianismo perdeu o elo espiritual a partir do advento de Constantino, rei da porção central do Império Romano e que viveu entre 272-337 d.C.. Certamente que este mito existe apenas para justificar a pretensão de ruptura do cristianismo protestante com o cristianismo católico romano. Este mito é, provavelmente, uma produção da Reforma Protestante, e nada mais.

Mas, é certo que o cristianismo desde sua origem foi definido por um olhar de fora para dentro, uma maneira de categorizar, identificar, aquele grupelho que não tinha nome e nem identidade, e, portanto, difícil de combater ou de civilizar. A grande força e fraqueza dos amigos de Cristo era a ausência de um “ismo” identificador. Aqueles homens e mulheres foram chamados de cristãos não por si mesmos, mas por pessoas que estavam ávidas por conceituar e definir todos aqueles que se encontravam reunidos sob uma mesma fé e mesmos valores éticos, vindo, desta forma, ter um nome único que os unisse. Tal reunião sob a égide de um “ismo” facilitava o controle, a repressão e a inserção deste grupo na estrutura do Império. Enquanto que ser chamados de cristãos apenas marcava, para os de fora, a identidade de um grupo cuja falta de identidade dogmática e doutrinária os tornava confusos, tornar-se cristianismo representa um movimento de dentro para fora pelaa adoção de um conjunto de normas, doutrinas, dogmas, condutas morais, etc. que pretende fixar a identidade, do nós para eles.

Por outro lado, faz sentido pensarmos que a moral dos amigos de Cristo era resultado contingente da ética da graça, isto é, era a elaboração de regras de conduta social historicamente marcada, mas que refletia o fundamento do amor gracioso de Deus como Emanuel. Assim, os amigos de Cristo podiam elaborar regras sócio-históricamente determinadas que marcavam as condições relacionais, fundada no que mais original tinha no espírito de seu Mestre: o amor. Isto se contrapõe à nomeação, pois que por esta via se produz um ordenamento que traz em si a idéia de categorização, de reunir diversas coisas que estão dispersas sob um mesmo “ismo”. E isto é tipicamente filosófico, no sentido grego e romano.

Cristo não determinou a seus amigos que organizassem, ou, ordenassem um movimento político, religioso, social, cultural, ético, etc. Disto estamos quase todos em conformidade, em concordância. Mesmo por que não era da ordem do dia, deles, tais palavras. O cristianismo, como um conjunto de idéias, conceitos, doutrinas, forma de organização, etc. não é próprio de Jesus e dos seguidores imediatos de Cristo. Aquelas pessoas se sentiam como desarraigadas socialmente, gente sem gentilidade, grupo sem referência paterna, nação sem língua, sem território, sem costumes, sem religião, sem lares, sem governo e sem cidades, ou política. Por isso davam-se o nome de “os do caminho”, pois quem caminha não tem lugar próprio para recostar a cabeça, não tem patrimônio, não tem espaço para chamar de seu. Os caminhantes amigos de Cristo utilizavam de técnicas (da moral, da escrita, da lógica, das ordens eclesiásticas, do que era preciso para viver socialmente), mas não eram identificados por tais técnicas, suas identidades estavam marcadas pela graça.

Por isso tudo que dissemos é que pensamos que o mito de Constantino foi criado para desviar a questão falaciosa de um cristianismo que eclipsou a graça a fim de assegurar a manutenção deste eclipsamento, ou seja, o reforço do status quo. O mito de Constantino foi criado por um cristianismo que desejava colocar-se como a forma verdadeira de ser dos seguidores de Jesus, como ordem moral, política, religiosa e até mesmo científica, e, sobretudo, econômica. Mas os amigos de Cisto apenas tinham uma moral contingente sócio-histórica, referenciada no amor e na graça do Emanuel. Assim, o mito de Cosntantino é uma falácia produzida pelo cristianismo protestante para forjar uma identidade própria em negação ao cristianismo católico, ratificando e mantendo a mesma ordem de um cristianismo que eclipsa a graça.

Pastores, grandes e pequenos, ouviram de outros pastores este dogma de um cristianismo de Cosntantino, mito criado para definir uma auto-identidade cristã e favorecer uma manutenção do modelo romanizado de cristianismo como anti-reunião-dos-amigos-de-Cristo. Eles ouviram e não se dão ao trabalho de pesquisar se se pode acatar tal mitologia, mas a reproduzem em seus discursos e escritos sem, contudo, pensar de onde vem esta produção mitológica. Esta “verdade” sobre Constantino, necessária a identificação do cristianismo protestante, foi dogmatizada e, portanto, posta para além dos questionamentos, por razões simples: reforço do status quo. Precisamos entender que o Ocidente foi erguido sobre mitos e no cristianismo estes mitos foram transformados em dogmas: tanto no cristianismo católico, quanto no cristianismo protestante. Os cristianismos são erguidos sobre o fundamento de mitos dogmatizados, cuja negação confere ao questionador o título de herege.

Os nossos mitos definem nossa identidade e esta não é estabelecida por nossa racionalidade. O que Nietzsche nos conta é que o maior de todos é o mito da razão. Retornando, é comum ouvirmos dizer que o cristianismo se perdeu quando Constantino o tornou religião oficial do Império. No entanto há uma série de imprecisões nesta fala. Primeiro que Constantino não tornou o cristianismo a religião oficial do Império, mas permitiu oficialmente que aqueles homens e mulheres que criam no Cristo se reunissem e realizassem os ofícios religiosos, sem a perseguição do Estado e proibindo a perseguição social, da mesma maneira como as demais religiões tinham liberdade legal, inclusive as pagãs.

Segundo, que o cristianismo aparece em meio às reuniões-dos-amigos-do-Cristo após a morte de Jesus e logo após a morte dos amigos imediatos de Cristo. Não quase trezentos anos depois. Em outras palavras, a tendência humana de organizar o disperso em um “ismo” já podemos perceber sua presença nos discursos e escritos dos discípulos de Jesus, ainda que no Cristo não encontremos tal coisa. O cristianismo é um ordenamento do religioso que passa a exigir a ordem como referência da manifestação da glória de Deus. É importante notarmos que com a morte de Jesus surgem diversas expressões de cristianismo, que com o passar dos anos, séculos, foram chamadas de heresias e perseguidas e silenciadas. O cristianismo, nos primeiros séculos, buscou a unidade sob uma denominação única universal: igreja católica. As heresias são as crenças advindas dos seguidores de Jesus, mas que não vingaram, por diversos motivos, inclusive por incoerência e por serem ilógicas.

É ao núcleo central de crenças que prevaleceu e se tornou dogmático que damos o nome de cristianismo. Dizer que não há um cristianismo em Jesus é o mesmo que falar que não há um núcleo central dogmático nos ensinos de Cristo: Jesus não tem doutrina e nem dogma, apenas diálogos que procuram apontar para um divino entre e em meio à vida. Já fazem dois mil anos, quase, que buscamos definir uma doutrina nuclear de Jesus, mas o que podemos apenas é apontar para o suporte de suas ações e palavras: o amor. A ausência de um núcleo central dogmático nos ensinamentos do Mestre é expresso em seus discípulos na crença caminhante das reuniões-dos-amigos-do-Cristo. Caminhar, voltamos ao tema, é não fixar lugar, não erguer domicílio, e isto, parece-nos, uma ótima metáfora para o nomadismo, para a ausência de normas e leis positivas, certas, seguras, constantes, imutáveis para as condutas e relacionamentos entre eles. Não há em Jesus o sentido do Ser, mas o apontamento para o próximo. Há uma diferença determinante entre ser nômade e ser sedentário, e o nomadismo é a metáfora da circunstancia, dos acampamentos, enquanto o sedentário é a metáfora do edificador de casas e castelos murados. O caminho é típico do nômade, do hebreu, cujo pai é Abraão, aquele homem sem lei, pois que veio antes de Moisés.

Outro exemplo disto, isto é, que não havia um cristianismo formal presente nas primeiras reuniões-dos-amigos-do-Cristo, é dado pela ausência de escritos canônicos até o quarto século da era cristã. Caso leiamos a epístola de Judas, veremos que ali encontramos uma citação sagrada ou religiosa que não faz referência a um texto canônico, mas a um apócrifo, o Livro dos Segredos de Enoque, quando diz: Para estes também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: “Eis que veio o Senhor com os seus milhares de santos, para executar juízo sobre todos e convencer a todos os ímpios de todas as obras de impiedade, que impiamente cometeram, e de todas as duras palavras que ímpios pecadores contra ele proferiram.” Este exemplo nos demonstra a ausência clara de escritos sagrados e apócrifos, a não presença de cânon, a ausência de fronteiras claras entre escritos. O cristianismo demandou um cânon e este foi determinado num concílio sob os auspícios de Cosntantino. Contudo o apontamento de escritos privilegiados já é anterior a esta data.

Caso queiramos nos aferrar no mito de Constantino, devemos ter a hombridade de submeter o cânon a este escrutínio. Constantino não apenas favoreceu a hierarquia, os ritos, os patrimônios, ele deu anuência ao cânon. Diríamos, ou suspeitamos que o Império reclamou um cânon. O fato é que as reuniões-dos-amigos-de-Cristo, nas quais já emergia o joio do cristianismo, viveram e prosperaram, embora sendo perseguidos e assassinados sistematicamente, sem a existência de um cânon. Este somente passou a ter o sentido sacro quando a igreja tornou-se protegida pelo poder imperial e gozou da tranqüilidade. Não apenas não mais ser passível de perseguição, mas ter um conjunto de escritos que poderiam ser postos lado-a-lado de outros escritos e possibilitar uma síntese, ou synkrasis. De um lado os livros canônicos e de outro os livros filosóficos de linhagem neoplatônica. O resultado é a soteriologia, a escatologia, a eclesiologia, etc. do cristianismo que pode aflorar dai. Não dos escritos que formaram o cânon, propriamente, mas da leitura filosófica neoplatônica que se deu a partir daí. Certamente que o cristianismo tem suas especificidades e peculiaridades, como a fé, o Deus encarnado, a providência, etc., mas ele guarda o diálogo com uma filosofia que a muito já foi superada como movimento do pensamento ocidental.

E é ai que como hereges podem nos posicionar como tal: na interrogação do núcleo central do neoplatonismo cristianizado. O neoplatonismo é paganismo, ademais os neoplatônicos não tinham os seguidores do caminho em alta estima. Não que valoremos positiva ou negativamente o paganismo, aqui, mas que é a presença do pagão em meio ao cristianismo e de maneira não reconhecida, que é a questão posta por nós. É exatamente por conta deste sincretismo que podemos entender o que Nietzsche disse sobre o cristianismo: socratismo das massas. Ou seja, o pensamento de Platão posto a funcionar para que a massa submetesse a aristocracia. E é por esta interpretação nietzschiniana do cristianismo que podemos entender a rejeição do cristianismo a Nietzsche, quando ele aponta para os problemas das crenças transcendentais operadas no núcleo central dogmático produzido por este sincretismo. O cristianismo é uma mistura da filosofia de Plotino (e seus alunos) com as especificidades de uma crença soteriológica e escatológica dos amigos-de-Cristo, embora eclipsada. Os que se reuniam em torno da amizade-de-Cristo tinham um pequeno conjunto de crenças e valores e estes valores foram eclipsados pela filosofia, assim como a filosofia foi eclipsada pelo cristianismo. O trabalho de Nietzsche, da mesma maneira que de tantos outros, foi separar a religião da filosofia, o que nós concordamos. Imputar a Constantino a synkrasis entre filosofia neoplatônica e elaborações teológicas é covardia narcisista intelectual, ou, ignorância dogmática, ou ainda, busca de identidade ao custo da sonegação de uma averiguação responsável.

Podemos dar continuidade a esta linha de pensamento, mas o que nos interessa no momento é apenas pensar na graça eclipsada pelo cristianismo católico e protestante, ratificada pelo dogmatismo acatado sem questões pelo clero. Desejamos pensar numa graça que se encontra atrás das sombras dogmáticas, da defesa do socratismo das massas. O certo é que estes cristianismos eclipsantes da graça mudam de nome, mas mantém o soterramento, as sombras sobre a amizade dos amigos de Cristo. São fundados sobre portadores privilegiados de revelações, os quais forjam e garantem a delimitação de fronteiras sobre o verdadeiro e a mentira, sobre o certo e o errado, sobre luz e trevas, sobre justiça e impiedade, sobre salvação e perdição, etc. É simples seu reconhecimento: estarão apontando para fora de seu círculo narcisista e dirão: vejam como eles comentem erros que nós pela verdade expurgamos. O mito fundante é o do portador de revelações, ou como Max Weber nos falou, do profeta e do sacerdote. Diríamos que no momento há uma fusão em profético-sacerdotal, admitindo que enquanto trazem a nova revelação, já estruturam o movimento a fim de fixar fronteiras e estabelecer hierarquias e patrimônios, ademais, espaço de mídia e produtividade de consumo: identidade de cristianismo.

Procure um guru cristão o qual marca sua identidade e a de um grupo a partir do “o que eles fazem e do que nós sabemos ser a verdade”, e você encontrará um cristianismo contemporâneo. Alguns, estrategicamente, negam participar destes cristianismos, dizendo: não faço parte disto, enquanto colaboram ativamente na manutenção destes cristianismos. Os gurus cristãos vão dizer: naquele outro grupo religioso você não encontrou a felicidade, o bem-estar, a resposta para seus problemas mais fundamentais, contudo aqui nós estamos encontrando estas coisas. O discurso será engendrado em torno deste “eles-não-nós-sim”. A felicidade, o bem-estar e a resposta aos problemas fundamentais podem ser renomeados em prosperidade, cura, paz interior, aceitação social, libertação de drogas, etc. Mas o que os gurus cristãos fazem é manter o status quo inalterado, como uma Hidra: um grande monstro com inúmeras cabeças!

O que precisamos é tirar o entulho neoplatônico, e da sociedade de consumo, em suas formas dogmatizadas e ver o que resta. Desconfiamos que Jesus não era neoplatônico e tampouco Paulo, Pedro, João, Tiago, Judas, etc. Claro que sabemos que o neoplatonismo somente tem lugar no tempo mais de duzentos anos depois da morte de Jesus, mas, porque insistem em lê-lo pela ótica neoplatônica? Assim como não viviam às portas dos Shoppings Centers. Que venhamos a ter nossos mitos, mas que os tenhamos conscientemente. O maior dos mitos é inverter o caminho da salvação apenas para salvaguardar o status quo. Para tanto devemos repensar a soteriologia e a escatologia, tanto quanto a fé e o pecado. Assim, podemos partir do pensamento que a salvação não se encontra num retorno da alma a Deus, mas no encaminhamento no sentido do Emanuel. A salvação não é um ir para o alto, mas um descer e estar entre nós como diálogo entre livres e iguais, que amando a vida, mais vida para nós e para eles. O Reino de Deus a ser procurado não é aquele que poderemos buscar no céu, mas é pelo que trabalharemos aqui na terra, pois Jesus disse: venha o teu reino, pois esta é a realização, na terra, de uma vontade que já está feita no céu.

Menos do que apontar diferenças a fim de favorecer a identidade, os amigos dos amigos de Cristo colocam-se nas sendas e nas fendas, tendo como premissa o bem-estar de estar próximo ao próximo, construindo um Mundo melhor para se viver. Os amigos dos amigos de Cristo, não apenas não defendem o status quo, como e mais ainda, questionam-no sistematicamente como Satanás, aquilo que se opõe firmemente ao avanço da vida abundante a todos. Estes amigos dos amigos de Cristo têm no nomadismo e no caminho a anit-certeza, a anti-segurança, pois que sua proposta não é de chegada, mas de partida, por isso fazem apelo à fé. A reunião-dos-amigos-de-Cristo surgiu não como fundamento civilizatório, mas como questionadores do poder tirânico das estruturas fundadas nos pátrio-poderes, no Estado absoluto, nas tradições inquestionáveis, nos fundamentos abissais, na gentilidade, nos lares, etc. As perseguições aos amigos de Cristo se deram porque eles eram tidos como ateus e questionadores das tradições que suportavam o poder do estado e da religião. O cristianismo passou a representar tudo isto quando partilhou e tornou-se centro do poder imperial, e isto não se deu num estalar de dedos a partir de um decreto de Constantino, mas foi cozinhado durante séculos, antes e depois deste imperador romano. Mas, com o fim da influência cristã sobre a sociedade, da qual participamos, podemos voltar a ter a esperança de retomarmos nosso caminho original e gracioso: de reunirmo-nos apenas como amigos dos amigos de Cristo a fim de festejarmos a vida e trabalharmos por mais vida.

Os amigos de Cristo se reuniam sem cânon, mas com a esperança de que suas vidas valiam como livro escrito e partilhável. Os amigos de Cristo se reuniam sem hierarquias, pois que todos se serviam mutuamente da experiência e conhecimento alheio, assim como de comida e de bebida comuns nas ceias em memória do Cristo. Os amigos de Cristo se reuniam sem um templo, pois que as casas, as ruas, as praças, as prisões lhes serviam de possibilidade de encontro. Os amigos de Cristo se reuniam sem uma língua paterna e única, pois que eram pentecostais, falavam a linguagem do amor ao próximo, traduções imperfeitas e infinitas. Os amigos de Cristo se reuniam sem Lei, pois estavam debaixo da graça e perseguidos pela religião e pela República Romana. Os amigos de Cristo não tinham ritos, pois eles se moviam pela existência e por seus dilemas angustiantes aos quais buscavam solução nos encontros pelos caminhos. Somente se dermos conta de quão hereges eram os amigos de Cristo é que os amigos dos amigos de Cristo poderão ter a esperança de uma fé amorosa que nos possa fazer antever a graça como nosso fundamento em meio às contingências da vida que desejamos sempre mais.