Cristianismo: eclipse da graça
Penso constantemente
naquele homem, só, e penso de diversas maneiras, pois não entendo ser possível
pensá-lo de uma maneira (,) só. De fato meu pensamento sempre gira só em torno
deste homem. Aquele que na primeira metade do primeiro século foi crucificado
entre homens sem nomes, abandonado por seus companheiros conhecidos e pela Lei
escrita, aquela que se ouviu dizer aos antigos. Contudo a crucificação era algo
comum dentro dos limites do Império Romano e milhares de pessoas foram mortas
por este método nos séculos de soberania deste poder imperial. Talvez o que o
diferencia em primeira instância é sua condição de abandono, sua
disponibilidade à morte, sua anti-sacralidade diante
de Jeová e sua inimputabilidade diante da lei romana: hommo
sacer. Mas para que sua morte fosse digerida de
maneira mais indolor, em outras palavras, para que sua morte contribuísse eficientemente
na estrutura vigente e causasse menos estragos no status quo da civilização que foi
influenciada pelo cristianismo, houve um movimento de uma voz que se tornou
hegemônica, a qual repetidamente certificou, e que foi acatado como dogma, isto
é, que morreu somente por questões espirituais. E nós, a multidão, até hoje
damos crédito a este mito dogmatizado, não questionado, inquestionável a não
ser pelos hereges. De fato tem uma maneira, pelo menos, de partilhar deste
abandono, deste estar só em nossa contemporaneidade tão densamente habitada:
pensar estando em torno do crucificado, mas pelas vias das heresias, ou seja,
nomeando os dogmas como mito e buscando novas metáforas plausíveis que
contextualize nossa fé. Assim, o herege contemporâneo torna-se um eremita,
caminhante de desertos, que se auto-impõe o ostracismo, seu afastamento dos
dogmas e das leituras hegemônicas, em busca de novos pentecostes, novas traduções.
De novas maneiras de dizer as coisas e novos amigos de caminhada.
Daquele
homem, cuja humanidade foi esquecida e foi esquecido como humano, disseram que morreu
para pagar o preço exigido por Deus pelo ônus dos pecados de todos os demais
homens, tanto quanto morreu para vencer a Satanás, aquele anjo cujo nome era
Lúcifer e decidiu fazer frente, opor-se a Deus. E isto também pode ser pensado
como um mito, um grande, seguro e certo mito. A questão é que, segundo tal
dogmática, este judeu morreu tão somente por questões espirituais,
sobrenaturais, transcendentes, aquelas que nunca descem à
Terra, flutuam no ar, não pisam o solo sujo da existência, não faz e não traz sentido
à vida no Mundo. Esta maneira de crer no sacrifício da cruz nunca se enlameia
com os dilemas mais fulcrais e vitais da existência
na Terra, a não ser aquelas conseqüências de uma existência voltada para o pós-morte
que faz da vida um aborto. Tudo é remetido ao mundo espiritual, ao mundo das
idéias, à Cidade de Deus, ao eterno, imutável, incorruptível, pleno, perfeito, deixando
o mutável, o corruptível, o contingente, o devir, o
incompleto, as coisas sensíveis expostas à sua própria degeneração, corrupção,
morte, separação. O Mundo está destinado, pré-destinado à destruição, assim
como os da fé estão pré-destinados ao céu.
Cremos
que este homem morreu para que não mais existisse a morte, uma vez aceito que
esta é resultado do pecado, pois o salário do pecado é a morte. Mas o que é o
pecado? Porque ele suou sangue nos momentos que precederam sua morte? Sabemos
bem a resposta! Todos nós fomos bem ensinados, adestrados a dizer: pois sabia o
peso de seu sacrifício, o qual era levar sobre si o pecado de toda a
humanidade. Ainda que não saibamos ao certo o que seja pecado. Por outro lado,
mas se pensarmos que suou sangue apenas porque desejava mais vida, sabendo que
esta seria interrompida pelo desvio humano que mais valorava o poder, a Lei, o
juízo, o pecado e menos a vida do próximo? E se acatarmos a hipótese de que
amava a vida e ansiava manter-se vivo por todo o tempo possível! Não seria,
assim, o medo, ou, a angústia de um homem que receberia sobre si as
conseqüências dos desvios morais de outros e viria enfrentar algo que chamamos
de inferno, mas a angústia de um homem que reclamava aquilo que mais amava: a
vida entre amigos. Suou para ter mais vida e clamou ao Pai para que o cálice da
morte dele fosse afastado. O herege contemporâneo pensa que o pecado, a vida e
o sacrifício podem ser resignificados para que possamos
reconfigurar a fé, oferecendo-a um sentido mais positivo
e assim apontá-la para a existência e a vida, mais vida. Ainda que não saibamos
ao certo o que seja vida e existência. Ainda debatemos a diferença entre bios e zoe.
Seguem
os dogmáticos dizendo que Deus criou as coisas e as ordenou, o que chamamos de
Mundo, ou ainda Natureza, e criou uma espécie distinta dentre as demais do
gênero animal, ao qual chamou de “aadaam”, ou, homem.
Tais dogmáticos têm na ordem uma referência que sinaliza para a existência de
Deus, contudo não na tem na fé, mesmo que neguem tal feito. Ao animal especial
os medievais categorizaram como animal racional. Num tempo intemporal, tal
animal racional fez uma escolha errada e perdeu aquela condição primeva de perfeição e completude, decaindo numa forma
menos nobre, a qual marca e determina seu distanciamento de Elohim,
dos deuses. Por esta razão, dizem eles, é que foi necessária a morte daquele
homem do primeiro século da era cristã, a fim de reconduzir a humanidade à sua
condição edénica, de perfeição e completude perdida
com a má utilização de seu livre-arbítrio. O Éden passa a ser chamado de Paraíso
e nele se projetada a esperança escatológica do cristianismo: um lugar sem
choro, sofrimento, pecado, dor, injustiça, etc., tal qual aquele de onde a
humanidade proveio.
O
cristianismo tem seu inicio num sacrifício crucial espiritualizado que somente
se justifica numa escatologia que confere valor ao eterno, imutável, incorruptível.
Tanto a soteriologia quanto a escatologia arrebatam o
humano para o inumano. Enquanto esta dimensão de vida é supervalorizada,
desvalorizam o Mundo e a Terra, dando-lhe expressão de trânsito, passagem, meio
de tentação, que pelas proposições desviantes abre e oferece oportunidades para
que o indivíduo arbitre pelo erro moral, remetendo o olhar da fé para o que não
é o verdadeiro.
Suspeitamos
que quando o cristianismo se tornou filosófico, da maneira como brevemente expusemos
acima, ele se deu ao custo do eclipsamento da graça. Em
outras palavras, quando aquela reunião de pessoas - seguidores de um homem
chamado Jesus, o Cristo, e por isto passaram a ser chamadas de cristãos - que
partilhavam de crenças comuns – crenças estas que devemos traçar num plano
arqueológico -, tornou-se um “ismo”, acatou este
cristianismo ao custo do esquecimento de sua originalidade. O que era original
na reunião dos amigos de Cristo? A reunião de amigos do Cristo de então, ou
seja, este partilhar de experiências vitais enquanto se vive, perdeu a chama
original do ser para o outro e se tornou uma pretensão de ser para o Ser,
quando veio a estar como cristianismo. A reunião dos amigos de Cristo deixou de
ser um caminhar após o Emanuel em prol do próximo num mundo contingente e se
tornou um mito do retorno da alma que anseia sua volta ao Ser, ao imutável. O
cristianismo é o mito do homem que é arrebatado ao céu num eclipsamento
da graça original, a qual traz a esperança de um reino que vem entre nós,
segundo a oração de Jesus.
Contudo
pensamos existir um mito criado, produzido, pelo Protestantismo e pela Reforma
(ou seja, pelos discípulos do cristianismo iniciado por Lutero e por Calvino)
de que o cristianismo perdeu o elo espiritual a partir do advento de Constantino,
rei da porção central do Império Romano e que viveu entre 272-337 d.C.. Certamente que este mito existe apenas para justificar a
pretensão de ruptura do cristianismo protestante com o cristianismo católico
romano. Este mito é, provavelmente, uma produção da Reforma Protestante, e nada
mais.
Mas, é
certo que o cristianismo desde sua origem foi definido por um olhar de fora
para dentro, uma maneira de categorizar, identificar, aquele grupelho que não
tinha nome e nem identidade, e, portanto, difícil de combater ou de civilizar. A
grande força e fraqueza dos amigos de Cristo era a ausência de um “ismo” identificador. Aqueles homens e mulheres foram
chamados de cristãos não por si mesmos, mas por pessoas que estavam ávidas por
conceituar e definir todos aqueles que se encontravam
reunidos sob uma mesma fé e mesmos valores éticos, vindo, desta forma, ter um
nome único que os unisse. Tal reunião sob a égide de um “ismo”
facilitava o controle, a repressão e a inserção deste grupo na estrutura do Império.
Enquanto que ser chamados de cristãos apenas marcava, para os de fora, a
identidade de um grupo cuja falta de identidade dogmática e doutrinária os
tornava confusos, tornar-se cristianismo representa um movimento de dentro para
fora pelaa adoção de um conjunto de normas,
doutrinas, dogmas, condutas morais, etc. que pretende fixar a identidade, do nós para eles.
Por
outro lado, faz sentido pensarmos que a moral dos amigos de Cristo era
resultado contingente da ética da graça, isto é, era a elaboração de regras de
conduta social historicamente marcada, mas que refletia o fundamento do amor
gracioso de Deus como Emanuel. Assim, os amigos de Cristo podiam elaborar
regras sócio-históricamente determinadas que marcavam as condições relacionais, fundada no que mais
original tinha no espírito de seu Mestre: o amor. Isto se contrapõe à nomeação,
pois que por esta via se produz um ordenamento que traz em si a idéia de
categorização, de reunir diversas coisas que estão dispersas sob um mesmo “ismo”. E isto é tipicamente filosófico, no sentido grego e
romano.
Cristo
não determinou a seus amigos que organizassem, ou, ordenassem um movimento político,
religioso, social, cultural, ético, etc. Disto estamos quase todos em conformidade,
em concordância. Mesmo
por que não era da ordem do dia, deles, tais palavras. O cristianismo, como um
conjunto de idéias, conceitos, doutrinas, forma de organização, etc. não é próprio de Jesus e dos seguidores imediatos de Cristo.
Aquelas pessoas se sentiam como desarraigadas socialmente, gente sem gentilidade, grupo sem referência paterna, nação sem
língua, sem território, sem costumes, sem religião, sem lares, sem governo e
sem cidades, ou política. Por isso davam-se o nome de “os do caminho”, pois
quem caminha não tem lugar próprio para recostar a cabeça, não tem patrimônio,
não tem espaço para chamar de seu. Os caminhantes amigos de Cristo utilizavam
de técnicas (da moral, da escrita, da lógica, das ordens eclesiásticas, do que
era preciso para viver socialmente), mas não eram identificados
por tais técnicas, suas identidades estavam marcadas pela graça.
Por
isso tudo que dissemos é que pensamos que o mito de Constantino foi criado para
desviar a questão falaciosa de um cristianismo que eclipsou a graça a fim de
assegurar a manutenção deste eclipsamento,
ou seja, o reforço do status quo. O mito de Constantino foi criado
por um cristianismo que desejava colocar-se como a forma verdadeira de ser dos
seguidores de Jesus, como ordem moral, política, religiosa e até mesmo
científica, e, sobretudo, econômica. Mas os amigos de Cisto apenas
tinham uma moral contingente sócio-histórica, referenciada no amor e na graça
do Emanuel. Assim, o mito de Cosntantino é uma falácia
produzida pelo cristianismo protestante para forjar uma identidade própria em
negação ao cristianismo católico, ratificando e mantendo a mesma ordem de um
cristianismo que eclipsa a graça.
Pastores,
grandes e pequenos, ouviram de outros pastores este dogma de um cristianismo de
Cosntantino, mito criado para definir uma auto-identidade
cristã e favorecer uma manutenção do modelo romanizado de cristianismo como anti-reunião-dos-amigos-de-Cristo. Eles ouviram e não se
dão ao trabalho de pesquisar se se pode acatar tal
mitologia, mas a reproduzem em seus discursos e escritos sem, contudo, pensar
de onde vem esta produção mitológica. Esta “verdade” sobre Constantino,
necessária a identificação do cristianismo protestante, foi dogmatizada e,
portanto, posta para além dos questionamentos, por razões simples: reforço do
status quo. Precisamos entender que o Ocidente foi
erguido sobre mitos e no cristianismo estes mitos foram transformados em
dogmas: tanto no cristianismo católico, quanto no cristianismo protestante. Os
cristianismos são erguidos sobre o fundamento de mitos dogmatizados, cuja
negação confere ao questionador o título de herege.
Os
nossos mitos definem nossa identidade e esta não é estabelecida por nossa
racionalidade. O que Nietzsche nos conta é que o maior de todos é o mito da
razão. Retornando, é comum ouvirmos dizer que o cristianismo se perdeu quando
Constantino o tornou religião oficial do Império. No entanto há uma série de
imprecisões nesta fala. Primeiro que Constantino não tornou o cristianismo a religião oficial do Império, mas permitiu oficialmente que
aqueles homens e mulheres que criam no Cristo se reunissem e realizassem os
ofícios religiosos, sem a perseguição do Estado e proibindo a perseguição
social, da mesma maneira como as demais religiões tinham liberdade legal,
inclusive as pagãs.
Segundo,
que o cristianismo aparece em meio às reuniões-dos-amigos-do-Cristo
após a morte de Jesus e logo após a morte dos amigos imediatos de Cristo. Não
quase trezentos anos depois. Em outras palavras, a tendência humana de
organizar o disperso em um “ismo”
já podemos perceber sua presença nos discursos e escritos dos discípulos de
Jesus, ainda que no Cristo não encontremos tal coisa. O cristianismo é um
ordenamento do religioso que passa a exigir a ordem como referência da
manifestação da glória de Deus. É importante notarmos que com a morte de Jesus
surgem diversas expressões de cristianismo, que com o passar dos anos, séculos,
foram chamadas de heresias e perseguidas e silenciadas. O cristianismo, nos
primeiros séculos, buscou a unidade sob uma denominação única universal: igreja
católica. As heresias são as crenças advindas dos seguidores de Jesus, mas que
não vingaram, por diversos motivos, inclusive por incoerência e por serem
ilógicas.
É ao
núcleo central de crenças que prevaleceu e se tornou dogmático
que damos o nome de cristianismo. Dizer que não há um cristianismo em
Jesus é o mesmo que falar que não há um núcleo central dogmático nos ensinos de
Cristo: Jesus não tem doutrina e nem dogma, apenas diálogos que procuram
apontar para um divino entre e em meio à vida. Já fazem
dois mil anos, quase, que buscamos definir uma doutrina nuclear de Jesus, mas o
que podemos apenas é apontar para o suporte de suas ações e palavras: o amor. A
ausência de um núcleo central dogmático nos ensinamentos do Mestre é expresso em seus discípulos na crença caminhante das reuniões-dos-amigos-do-Cristo. Caminhar,
voltamos ao tema, é não fixar lugar, não erguer domicílio, e isto,
parece-nos, uma ótima metáfora para o nomadismo, para a ausência de normas e
leis positivas, certas, seguras, constantes,
imutáveis para as condutas e relacionamentos entre eles. Não há em Jesus o
sentido do Ser, mas o apontamento para o próximo. Há uma diferença determinante
entre ser nômade e ser sedentário, e o nomadismo é a metáfora da circunstancia,
dos acampamentos, enquanto o sedentário é a metáfora do edificador de casas e
castelos murados. O caminho é típico do nômade, do hebreu, cujo pai é Abraão,
aquele homem sem lei, pois que veio antes de Moisés.
Outro
exemplo disto, isto é, que não havia um cristianismo formal presente nas
primeiras reuniões-dos-amigos-do-Cristo, é dado pela
ausência de escritos canônicos até o quarto século da era cristã. Caso leiamos a
epístola de Judas, veremos que ali encontramos uma citação sagrada ou religiosa
que não faz referência a um texto canônico, mas a um apócrifo, o Livro dos
Segredos de Enoque, quando diz: Para estes também
profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: “Eis
que veio o Senhor com os seus milhares de santos, para executar juízo sobre
todos e convencer a todos os ímpios de todas as obras de impiedade, que
impiamente cometeram, e de todas as duras palavras que ímpios pecadores contra
ele proferiram.” Este exemplo nos demonstra a ausência clara de escritos
sagrados e apócrifos, a não presença de cânon, a ausência de fronteiras claras
entre escritos. O cristianismo demandou um cânon e este foi determinado num
concílio sob os auspícios de Cosntantino. Contudo o
apontamento de escritos privilegiados já é anterior a esta data.
Caso
queiramos nos aferrar no mito de Constantino, devemos ter a hombridade de
submeter o cânon a este escrutínio. Constantino não apenas favoreceu a
hierarquia, os ritos, os patrimônios, ele deu anuência ao cânon. Diríamos, ou
suspeitamos que o Império reclamou um cânon. O fato é
que as reuniões-dos-amigos-de-Cristo, nas quais já
emergia o joio do cristianismo, viveram e prosperaram, embora sendo perseguidos
e assassinados sistematicamente, sem a existência de um cânon. Este somente passou
a ter o sentido sacro quando a igreja tornou-se protegida pelo poder imperial e
gozou da tranqüilidade. Não apenas não mais ser passível de perseguição, mas
ter um conjunto de escritos que poderiam ser postos lado-a-lado
de outros escritos e possibilitar uma síntese, ou synkrasis.
De um lado os livros canônicos e de outro os livros filosóficos de linhagem neoplatônica. O resultado é a soteriologia,
a escatologia, a eclesiologia, etc. do cristianismo
que pode aflorar dai. Não dos escritos que formaram o cânon, propriamente, mas da
leitura filosófica neoplatônica que se deu a partir daí.
Certamente que o cristianismo tem suas especificidades e peculiaridades, como a
fé, o Deus encarnado, a providência, etc., mas ele guarda o diálogo com uma
filosofia que a muito já foi superada como movimento do pensamento ocidental.
E é ai
que como hereges podem nos posicionar como tal: na interrogação do núcleo
central do neoplatonismo cristianizado. O neoplatonismo é paganismo, ademais os neoplatônicos
não tinham os seguidores do caminho em alta estima. Não que valoremos positiva
ou negativamente o paganismo, aqui, mas que é a presença do pagão em meio ao
cristianismo e de maneira não reconhecida, que é a questão posta por nós. É
exatamente por conta deste sincretismo que podemos entender o que Nietzsche
disse sobre o cristianismo: socratismo das massas. Ou
seja, o pensamento de Platão posto a funcionar para que a massa submetesse a
aristocracia. E é por esta interpretação nietzschiniana
do cristianismo que podemos entender a rejeição do cristianismo a Nietzsche,
quando ele aponta para os problemas das crenças transcendentais operadas no
núcleo central dogmático produzido por este sincretismo. O cristianismo é uma
mistura da filosofia de Plotino (e seus alunos) com
as especificidades de uma crença soteriológica e
escatológica dos amigos-de-Cristo, embora eclipsada. Os
que se reuniam em torno da amizade-de-Cristo tinham
um pequeno conjunto de crenças e valores e estes valores foram eclipsados pela
filosofia, assim como a filosofia foi eclipsada pelo cristianismo. O trabalho
de Nietzsche, da mesma maneira que de tantos outros, foi separar a religião da
filosofia, o que nós concordamos. Imputar a Constantino a synkrasis
entre filosofia neoplatônica e elaborações teológicas
é covardia narcisista intelectual, ou, ignorância dogmática, ou ainda, busca de
identidade ao custo da sonegação de uma averiguação responsável.
Podemos
dar continuidade a esta linha de pensamento, mas o que nos interessa no momento
é apenas pensar na graça eclipsada pelo cristianismo católico e protestante,
ratificada pelo dogmatismo acatado sem questões pelo clero. Desejamos pensar
numa graça que se encontra atrás das sombras dogmáticas, da defesa do socratismo das massas. O certo é que estes cristianismos
eclipsantes da graça mudam de nome, mas mantém o
soterramento, as sombras sobre a amizade dos amigos de Cristo. São fundados
sobre portadores privilegiados de revelações, os quais forjam e garantem a
delimitação de fronteiras sobre o verdadeiro e a mentira, sobre o certo e o
errado, sobre luz e trevas, sobre justiça e impiedade, sobre salvação e
perdição, etc. É simples seu reconhecimento: estarão apontando para fora de seu
círculo narcisista e dirão: vejam como eles comentem erros que nós pela verdade
expurgamos. O mito fundante é o do portador de
revelações, ou como Max Weber nos falou, do profeta e do sacerdote. Diríamos
que no momento há uma fusão em profético-sacerdotal, admitindo que enquanto
trazem a nova revelação, já estruturam o movimento a fim de fixar fronteiras e
estabelecer hierarquias e patrimônios, ademais, espaço de mídia e produtividade
de consumo: identidade de cristianismo.
Procure
um guru cristão o qual marca sua identidade e a de um grupo a partir do “o que
eles fazem e do que nós sabemos ser a verdade”, e você encontrará um
cristianismo contemporâneo. Alguns, estrategicamente, negam participar destes
cristianismos, dizendo: não faço parte disto, enquanto colaboram ativamente na
manutenção destes cristianismos. Os gurus cristãos vão dizer: naquele outro
grupo religioso você não encontrou a felicidade, o bem-estar, a resposta para
seus problemas mais fundamentais, contudo aqui nós estamos encontrando estas
coisas. O discurso será engendrado em torno deste “eles-não-nós-sim”.
A felicidade, o bem-estar e a resposta aos problemas fundamentais podem ser renomeados em prosperidade, cura, paz interior, aceitação
social, libertação de drogas, etc. Mas o que os gurus cristãos fazem é manter o
status quo
inalterado, como uma Hidra: um grande monstro com inúmeras cabeças!
O que
precisamos é tirar o entulho neoplatônico, e da
sociedade de consumo, em suas formas dogmatizadas e ver o que resta. Desconfiamos
que Jesus não era neoplatônico
e tampouco Paulo, Pedro, João, Tiago, Judas, etc. Claro que sabemos que o neoplatonismo somente tem lugar no tempo mais de duzentos
anos depois da morte de Jesus, mas, porque insistem em lê-lo pela ótica neoplatônica? Assim como não viviam às portas dos Shoppings
Centers. Que venhamos a ter nossos mitos, mas que os
tenhamos conscientemente. O maior dos mitos é inverter o caminho da salvação
apenas para salvaguardar o status quo. Para tanto devemos repensar a soteriologia
e a escatologia, tanto quanto a fé e o pecado. Assim, podemos partir do
pensamento que a salvação não se encontra num retorno da alma a Deus, mas no
encaminhamento no sentido do Emanuel. A salvação não é um ir para o alto, mas
um descer e estar entre nós como diálogo entre livres e iguais, que amando a
vida, mais vida para nós e para eles. O Reino de Deus a ser procurado não é
aquele que poderemos buscar no céu, mas é pelo que trabalharemos aqui na terra,
pois Jesus disse: venha o teu reino, pois esta é a realização, na terra, de uma
vontade que já está feita no céu.
Menos
do que apontar diferenças a fim de favorecer a identidade, os amigos dos amigos
de Cristo colocam-se nas sendas e nas fendas, tendo como premissa o bem-estar
de estar próximo ao próximo, construindo um Mundo melhor para se viver. Os
amigos dos amigos de Cristo, não apenas não defendem o status quo, como e mais ainda,
questionam-no sistematicamente como Satanás, aquilo que se opõe firmemente ao
avanço da vida abundante a todos. Estes amigos dos amigos de Cristo têm no
nomadismo e no caminho a anit-certeza, a
anti-segurança, pois que sua proposta não é de chegada, mas de partida, por
isso fazem apelo à fé. A reunião-dos-amigos-de-Cristo
surgiu não como fundamento civilizatório, mas como
questionadores do poder tirânico das estruturas fundadas nos pátrio-poderes, no
Estado absoluto, nas tradições inquestionáveis, nos fundamentos abissais, na gentilidade, nos lares, etc. As perseguições aos amigos de
Cristo se deram porque eles eram tidos como ateus e questionadores das tradições
que suportavam o poder do estado e da religião. O cristianismo passou a
representar tudo isto quando partilhou e tornou-se centro do poder imperial, e
isto não se deu num estalar de dedos a partir de um decreto de Constantino, mas
foi cozinhado durante séculos, antes e depois deste imperador romano. Mas, com
o fim da influência cristã sobre a sociedade, da qual participamos, podemos
voltar a ter a esperança de retomarmos nosso caminho original e gracioso: de
reunirmo-nos apenas como amigos dos amigos de Cristo a fim de festejarmos a
vida e trabalharmos por mais vida.
Os
amigos de Cristo se reuniam sem cânon, mas com a esperança de que suas vidas
valiam como livro escrito e partilhável. Os amigos de Cristo se reuniam sem
hierarquias, pois que todos se serviam mutuamente da experiência e conhecimento
alheio, assim como de comida e de bebida comuns nas ceias em memória do Cristo.
Os amigos de Cristo se reuniam sem um templo, pois que as casas, as ruas, as
praças, as prisões lhes serviam de possibilidade de encontro. Os amigos de
Cristo se reuniam sem uma língua paterna e única, pois que eram pentecostais,
falavam a linguagem do amor ao próximo, traduções imperfeitas e infinitas. Os
amigos de Cristo se reuniam sem Lei, pois estavam debaixo da graça e
perseguidos pela religião e pela República Romana. Os amigos de Cristo não
tinham ritos, pois eles se moviam pela existência e por seus dilemas
angustiantes aos quais buscavam solução nos encontros pelos caminhos. Somente
se dermos conta de quão hereges eram os amigos de Cristo é que os amigos dos
amigos de Cristo poderão ter a esperança de uma fé amorosa que nos possa fazer
antever a graça como nosso fundamento em meio às contingências da vida que
desejamos sempre mais.