À Palavra que você diz, Amém.
Como
posso sentar-me com você, se o que você quer realmente é me infantilizar? Sou convidado
ao seu espaço para uma conversa, mas ao chegar lá você me pede para que me
assente e cale, e silenciosamente ouça, apenas ouça o que tem a dizer, ereto
diante de mim. Nos tempos idos a mulher e a criança não tinham o direito à
fala, tão somente ouviam e perguntavam em casa suas dúvidas ao marido, ao pai. Não
sei se apenas nos tempos passados calavam as mulheres e as crianças, ou se
ainda hoje censuramos todos os que entendemos ter menoridade ou “inveja do pênis”,
como diria Freud. Calar o outro no encontro é pretender tomá-lo como criança
diante do pai que tudo sabe. Ora, o pai assume o lugar do Pai e este fala
enquanto o infantilizado se cala. Quanto muito a
criança tem dúvidas, mas estas não podem sair do estrito trilho das lições que
já anteriormente ouviu. A criança rebelde é corrigida e sobre ela agimos
coercitivamente.
“Pergunte-me,
mas que tais perguntas estejam dentro dos limites permissíveis das lições já
ofertadas por mim a você”, dirá o pai ao filho. O que tem a fala traz o dever
de domesticação, de domar os instintos desregrados dos desejos selvagens e
animais das crianças. Domá-lo à imagem e semelhança do pai para que como o pai
possa domar seus filhos e suas mulheres. Mulheres nunca terão maioridade,
sempre serão crianças-mulheres, e seu homem, senhor, dirá a elas o que fazer,
como ser. Aquele fala, controla e pune ou galardoa os, ou, as que ainda não
sabem falar corretamente. Aquele se levanta e em frente aos seus filhos e
mulheres calados diante de si e voltados para si, em círculo, em semicírculo,
ou matricialmente, e o ouvem atentamente, sentados. Apenas quem demonstrou,
comprovou saber falar como o pai, a língua paterna, pode pretender ascender à
maturidade social, a falar na ausência do pai. Fala quem se deixou ser
alfabetizado corretamente na língua do pai. Há uma língua paterna e ela deve
ser reproduzida por todos os filhos e mulheres.
O pai
sempre dirá de suas mulheres, as quais acatarão sem pestanejar: homens são
fortes, mulheres são frágeis; homens são viris, mulheres são sensíveis; homens
são focados, mulheres são multifuncionais; homens pensam a
longo prazo, mulheres pensam estrategicamente; homens determinam,
mulheres negociam; homens chefiam, mulheres lideram; homens ensinam, mulheres
educam; homens atuam no espaço público, mulheres no privado; homens amam a técnica,
mulheres amam as artes; mulheres são submissas, homens são autoridade; etc. O
pai determina o papel de cada um, silenciando suas mulheres dentro do escopo
por ele definido e suas mulheres reproduzem, silenciosamente, a sabedoria do
homem. O pai sempre dirá a seus filhos: aprendam comigo, reproduzam-me. Homem discursa, mulheres, crianças e escravos ouvem atentamente.
Mas
enquanto você fala, e fala, e fala frequentemente para as suas mulheres e
filhos, e para aqueles homens efeminados e infantilizados, creio e penso bem
longe de sua voz absoluta que como um bate-estacas crava
no solo sua verdade falocêntrica. Enquanto você
ordena, organiza, esquematiza, determina, fronteriza, diz do certo e do errado, diz da santidade e do
pecado, separa o joio do trigo, caminho bem longe de ti para onde tua voz é
apenas lembrança, vou ao deserto. Ali penso na ekklesia
(igreja, assembléia) e creio-a, ainda mais, por meio da proposição de ser a reunião
de amigos de Cristo. Pois creio e penso no que ele nos legou: não vos chamo de “dolou” (escravos), mas de “philos”
(amigos)... Penso e creio na possibilidade de uma ekklesia,
ainda que esteja por você soterrada sob o peso de seus templos petrificados,
suntuosos, multiplicados como metástase.
Em três
dias Jesus, o Cristo, derribou o Templo para levantar a ekklesia,
e há quase dois mil anos que você vem eclipsando,
todos os dias, a ekklesia sob as sombras infernais de
vossos discursos paternos, logofalocêntricos.
Ekklesia, centro nervoso dos diálogos dos amigos
que se reuniam em torno do Cristo, como se fossem seu próprio corpo falante e
atuante, sempre resignificado, pode ser inflamada
para o resgate deste Geena na qual arde. Hades, espaço em que se calam a voz dos pequeninos e das
mulheres, dos quais somente se pode ouvir choro e ranger de dentes. As mulheres
e as crianças estão nuas e passam fome, mas você não as
ouve, pois está descrevendo, para elas, as reais necessidades delas mesmas,
assim você comete injustiça contra o próximo, violenta o fraco: seu nome é
Sodoma, você é um sodomita. Você prega contra a homosexualidade,
a homoafetividade, contudo você é o arqui-sodomita. Você
penetra com sua lógica e sua doutrina irrefutável, verdadeira àqueles que você
quer subordinar, escravizar, infantilizar, afeminar. Muito
distante de você, a ekklesia é o lugar, ou, a crença
em que as palavras daquele nosso amigo fazem sentido: não caleis os pequeninos,
mas deixai-os vir a mim, pois deles é o reino dos céus. A ekklesia
é o lugar em que a justiça oferece sentido, ou seja, o
espaço da crença na franquia da palavra àqueles que são calados pelos homens
adultos. O espaço dialógico.
Ekklesia, esta palavra garimpada do grego, cuja
origem está na participação de todos nas discussões determinantes para a Polis,
da cidade grega. A ekklesia é o lugar da democracia
grega, onde homens se reuniam para deliberar sobre as leis, as penalidades
quando se infringiam tais leis, sobre a guerra, a paz, etc. Um homem que por
ser em demasiado justo, ou destacar-se em demasiado por suas virtudes podia,
por força da ekklesia, ser alvo de ostracismo, isto é,
obrigado a deixar a cidade por dez anos, a fim de não se impor sobre os demais como tirano, rei. Todos tinham direito iguais (isonomia,
mesma posição diante da norma) no uso da palavra, quando esta era útil para o
bem-estar comum, e para tanto se punham geograficamente no centro do espaço (isegoria, mesma posição diante dos demais) em que se
realizava a assembléia (ekklesia), e empunhando um
cetro, falava. Contudo, a ekklesia grega era restrita
aos homens livres e adultos.
Os
amigos de Cristo resignificaram a ekklesia
sem, contudo, seqüestrar dela o sentido mais fulcral:
a isegoria e a isonomia. Os amigos de Cristo se
reuniam em torno deste espírito que os inflamava, ou seja, a igualdade no uso
da palavra e a igualdade diante do próximo, mas, radicalizando a igualdade ao
incluir no espaço eclesiástico, da assembléia as crianças e as mulheres. Pois
em Cristo não há livre ou escravo; judeu ou grego, homem ou mulher, mas todos somos um. A ekklesia foi, e
poderá ainda ser, um catalisador desta crença na
democratização da palavra, que como tal, expunha o poder aristocrático de Roma
e o sacerdotal dos Judeus ao questionamento de um Reino que está em nós. O Reino se
realiza como ekklesia. Somente a palavra ekklesia resignificada pelos
amigos do Cristo como lugar da isonomia e isegoria
irrestrita tem a força de um Reino que não diferencia, no uso da palavra, Madalena
e Paulo.
É a
romanização da ekklesia, isto é, é com a Epístola aos
de Corinto escrita por Clemente de Roma que se abre o espaço para uma romanização,
uma hierarquização da ekklésia, a qual dá início ao eclipsamento da democracia dos amigos de Cristo e uma
mudança no sentido histórico para o cristianismo. O Bispo de Roma por volta de
90 d.C. escreve à ekklesia em Corinto que, por conta
de alguns gregos, questionam a autoridade episcopal sobre o povo. É ali, e não
duzentos e cinqüenta anos depois, que Roma procura se impor sobre as ekklesias, tirando delas o direito de se reunirem como
amigos do Cristo, segundo uma ordem sócio-histórica fundada na graça. É ainda hoje, mil e novecentos anos depois, que você sem
mantém como o legítimo sucessor de Clemente I, papa da Igreja, ao procurar
calar-me quando estou sentado em seu auditório ouvindo suas palavras revelatórias. Amém.
A
Igreja, diante da qual todo domingo você fala é a sombra que eclipsa a ekklesia, ou o entulho que soterra e enterra o espírito da
reunião dos amigos do Cristo. Mas este corpo há de ressurgir dentre os mortos,
há de ressuscitar para sua perplexidade e ruína. Cada vez que de sua boca são
proferidas verdades incontestáveis (não pelo peso de suas palavras, mas pela espacialidade e ubiquidade de
sua presença absoluta) você participa desta romanização eclesiástica que
Clemente deu o chute inicial. A ekklesia,
distantemente da Igreja, é o espaço das multiplicidades, da multiforme
sabedoria de Deus, em que cada um pode expressar a graça como cartas vivas e
dialogais. Os novos Apóstolos e Profetas deste pós-cristianismo que chamamos de
neopentecostalismo, são a expressão radical e
caricatural dos padres e pastores. No entanto, não apenas eles, estes filhos
bastardos do cristianismo católico e protestante. Estes que são acatados por
você, enquanto aqueles, você diz rejeitar. Você ama o púltpito,
fazendo calar a todas as crianças e mulheres; ele adoram
o show, reproduzindo sedutoramente o mesmo falologismo.
Amém.