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Disse Deus: haja luz e houve luz

 

Deus

Nada podemos falar sobre Deus; nem mesmo podemos dizer o que significa esta palavra que nos aparece como que parecendo com alguém, este sobre o qual nem mesmo sabemos nada sobre. Por isso sempre invocamos a fé. A fé é isto: nada saber, nada conhecer, nada poder dizer, nem mesmo demonstrar ou apontar para uma possibilidade experimental, experiencial e, ainda assim, dizer: tenho fé, e a tenho nEste que é inominável. Aqui está a intimidade absoluta daquele que diz: não posso provar nada, mas tenho fé neste cuja palavra que o pretende designar, nada significando me auxilia a expressar algo inexprimível, absoluto, sublime. Neste momento de fé, o mais próximo é a metáfora, a parábola, a hipérbole, o escape, a poesia, o jogo de representações aproximativas, enviesadas, transversais, circulares de quem não podendo contemplar, olhar, antever um espectro, pressentir uma sombra passante, especula sobre algo que seria possível ao humano. Fé pensante, que abdica da fé pura, o puro crer desmaterializado, indizível, inominado, averbalizado. Tateamos, assim, uma inferência de fé: ora, e se Deus falasse.

A Palavra

 

Deus falante! Falaria sem som, pois o som exige o ar e o ar exige a terra e a terra exige o dizer de Deus. Deus fala sem que sua voz tenha o substrato sensível, material. Se a voz precede a escrita, então nem mesmo uma língua fonética haveria, nestes termos, uma língua falada por Deus. Entretanto, para uns, Deus falaria uma língua divina, para outros esta língua divina seria o hebraico. Mas e se pensarmos que Deus fala sem língua, sem linguagem, sem fonemas, sem palavras, sem vocábulos, sem gramática, sem grafemas. Assim como o próprio Deus não é nada, e nada daquilo que podemos pensar, falar, ver, também sua palavra é nada do que podemos falar. Há uma incomensurabilidade absoluta entre Deus e sua Palavra, e o homem e sua linguagem. Aquela Palavra é sem voz, sem verbo, sem nome, sem gramática, sem sintaxe, sem grafia. Deus não fala e nem escreve! Ele é analfabeto. Mas no princípio Deus falou. Quem estava lá para ouvir o que ele falou e que nos pode dizer como se deu esta fala? Nem eu, você, Moisés e nem ninguém, pois no princípio a terra era sem forma e vazia. Mas Deus teria falado ao escriba que narrou esta parábola e ele a transcreveu como ouviu. Entretanto, tampouco este nos relata como era esta voz divina. Portanto, fica o vazio, o abismo de uma ignorância intransponível. Talvez seja isto que o escriba tenha desejado dizer quando escreveu que o Espírito pairava sobre a face das águas, ou do abismo: este sem fundo sobre o qual a existência veio emergir. De uma fala sem língua, sem origem, sem fundo. Mas alguém escreveu tais coisas em algum tempo, pois, dá a entender que ouviu a narração e narrou.

Ouvido

Ainda que possamos dizer que Deus e a sua Palavra são Um, confundem-se, fundem-se um no outro, não havendo distância entre aquilo que podemos conceber de Deus e aquilo que podemos dizer sobre o que Ele fala, muitas coisas pairam entre este Um e aquele que ouviu sua Palavra. Dizer que Deus é Um, e que, portanto, seu Ser não pode admitir um distanciamento com a Palavra falada, é uma aberração, uma criação humana, pois são conceitos que não se podem aplicar sem questões ao que nada sabemos, no entanto concedamos tal alucinação, fantasmagoria. Contudo, podemos dizer que entre o que nada podemos saber e o que dizemos poder saber paira um infinito intransponível. Que distância infinita separa o falante e o ouvinte! Sempre é assim: um abismo infinito separa as duas margens: entre a fala e a terra, entre o haja luz e o houve luz. Quão incomensurável é o infinito e o finito que somente o que paira sobre ambos pode fazer do silêncio um diálogo. As trevas que se encontram na face do abismo é o sem fundo de uma linguagem que pretende aproximar as margens separadas do haja luz e haver luz. O espírito que paira sobre esta fluidez indizível entre a voz e o fenômeno. Que abismo separa o que nada podemos dizer e o ouvido de um humano. Apenas um determinado espírito pode pôr-se como suplantação, abrir espaço de passagem em que entre o haja luz e o houve luz se encontre um mundo possível. Ouvir um som, nada nos diz. Ainda mais quando ouvimos o inaudível, o não sonoro, o que é uma chama, uma flama, um ardume, uma inflamação, um aquecimento, um impacto, um golpe, um ininteligível, um irreconhecível, etc. Entre o som e a existência haverá algo que os aproxime, torne-os amigos.

Tradução

Podemos ligar nossa TV num canal japonês, coreano, russo, alemão, árabe e saber que ali estão falando uma língua estruturada. Para nós são sons produzidos pelos humanos e que nada nos diz de compreensível. Precisamos dominar a língua, ou precisamos de legendas, de algo que nos torne possível transformar sons em língua. O sublime se caracteriza por um golpe nos nossos sentidos, ao nosso entendimento, à nossa capacidade de resposta. Deparamo-nos diante de algo irremediavelmente além de nossa limitada capacidade de falar sobre. Estamos nocauteados, estamos vencidos, estamos suplantados, estamos aquém. Aquilo que nos transcende, transpassa-nos e inflama-nos em que transcendamos, ultrapassemos nossa passividade, nossa inércia. Arde em nós aquilo que nos venceu, mas não nos destrói. Estamos sob o impacto do que nos abateu, mas não nos escravizou. Inflama o que não nos consome. Antes, aquece-nos, impulsiona-nos, eleva-nos, lança-nos, conduz-nos sem que saibamos dizer nada sobre o que é esta coisa que em nós age. Este sem nome e sem verbo, indizível e inexprimível, inquestionável e irrespondível se traduz num movimento, num ir, num fazer, num conduzir. Damo-nos ao movimento sem saber questionar este que nos move. Movemo-nos no espanto! Estamos no limite entre sanidade e a loucura, do ético e do aético, do certo e do errado, que nos obriga a expor o que esta ao abrigo às relações para onde apontam e significam o real sentido da voz. O indizível chama ao diálogo. Se Deus fala, o faz para que haja luz, terra, em outras palavras, fala para que sua vontade seja feita na terra como é feita no céu.

Escritura

É possível que num copo d’água caiba um oceano? É possível que o infinitésimo do subatômico seja descrito plenamente pelas incontáveis fórmulas matemáticas e pelos inúmeros olhares através dos inquantificáveis instrumentos? É possível o indizível ser reduzido à palavra? É possível a chama da fé ser transposta como linguagem? Pobre de nós humanos que acreditamos tanto em nossa capacidade de tornar inteligível as coisas, em nossa racionalidade! Nada sabemos e nada saberemos ao certo, apenas nos é dada uma linguagem que nos permite amenizar nossa angústia. Querendo ser Deus, achamos que podemos desfazer a distância entre o ente e a essência, entre a coisa e a palavra, entre o ser e sua descrição. Olhamos o mundo e achamos que podemos compreendê-lo no todo, em todas as partes e em cada minúcia, contemplando sua ordem. Desejamos ser Deus e com isso achamos que podemos dizer a verdade sobre a chama que em nós arde. Pobre de nós. Verdadeiramente crescemos quando abdicamos de nossa arrogância e descobrimos que nossas palavras não representam a Palavra, mas apenas traduzem escrituralmente o indescritível. O espírito que arde em nós é o indescritível do indescritível, enquanto nossas palavras são circunvoluções em torno do irredutível. Metamorfoseamos a flama a fim de traduzirmos o possível numa escrituração dialógica. É o diálogo que tem valor, não o fogo. O ardume conduz ao trânsito, ao movimento, às relações, à conversação que está submetida no aceite do outro. A escritura traduz a tradução, esta que efetua a tradução da flama, a qual pontifica entre o indizível e o humano. A escritura é a voz como grafia humana. Mas é a escritura que importa, não em sua precisão, pois a escritura humana sempre está fadada à imprecisão. A escritura importa, pois somente ela tira o indivíduo de si e o expõe na multidão de tantos outros. O indivíduo é escritura. A escritura marca o desejo do fim da loucura e a limitação do humano frente a sua construção dentre tantos. A escritura nos expõe como livro entre livros que são lidos.

Leitura

A ética é uma possibilidade da escrita, ainda que não seja objeto da grafia. Mas a escrita não é o livro tipografado. Podemos nos aproximar da escrita ética nos utilizando da metáfora de Paulo, aquela em que podemos dizer que a escrita é o livro do coração, escrito não com tinta, mas com sangue, para ser lido entre os homens. Alguém que ouviu, que traduziu, e o fez como escritura, entrega-a, expõe-na a outro e recebe dele sua escritura, uma troca impossível, mas efetiva. Não a escrita da lei, dos signos mumificados para não serem engolidos pela morte inevitável. O ético é o abismal que é pontificado por um espírito que aproxima dois impossíveis. O aético é o que se põe para fora do diálogo, daquele que se faz na leitura trocada, recíproca entre escrituras. O aético escreve um livro e o fecha. Fecha-se para releituras, correções, reflexões, diálogos e abre-se para a violência de quem impõe verdades dos deuses e dos gurus. A leitura se apóia nas primícias de uma voz que fala sem linguagem, aquela que aponta para a exposição às recíprocas edificações da terra. O aético declara verdades, o ético expõe escrituras submetendo o que ouviu. Seu livro é um livro aberto, uma manifestação de movimento, um apontamento de uma possibilidade de mundo a construir de quem se considera entre outros. A escritura chama o leitor, mas não aquele passivo que absorve verdades fechadas, irreconsiliáveis de alguém que deve conformar-se, enformar-se, mas o leitor que marca, rabisca, transcreve, observa, questiona, pergunta, aponta, duvida, crê, etc. A escritura chama ao diálogo sempre interminável. O diálogo é a troca de escrituras que serão interpretadas dentro desta edificação dialógica. Não há leitura isenta.

Interpretação

Homens que ouviram, traduziram e escreveram. Escrever é submeter-se ao crivo do papel (leia-se referenciado à metáfora paulina), ao crivo da leitura. Não há leitura que não traga outras leituras subjacentes. Lemos, enquanto somos lidos. Lemos, e o novo livro que temos diante de nós modifica nossa escritura, enquanto a escritura que somos nós nos conduz na leitura dos escritos que lemos. Trocando em minúcias, podemos dizer que levamos para uma nova leitura as nossas leituras já feitas e que estão grafadas em nós, e levamos da leitura em andamento os marcas de um espírito original que falou. Ao lermos, este novo livro nos marca e fazem anotações, marcas, rabiscos nos escritos que trouxemos. Ninguém fica isento. A leitura interpretativa nos diz que não somos, mas sempre alteramos nosso caminhar, sempre nos re-novamos, somos novas criações de leituras-traduções-interpretações. A escritura que diante de nós está se altera enquanto nos altera. E a interpretação é isto, enquanto lemos somos lidos, enquanto interpretamos somos interpretados. Interpretamos segundo um sentido já dado pelos escritos que já lemos. Nós ouvimos o que as escrituras antigas dizem do que os antigos ouviram, mas podemos dizer que elas estão sujeitas aos novos ditos, a novas interpretações. Sempre as escrituras serão re-interpretadas, não há passividade, não somos livros em branco a serem marcados por escritos antigos, mas somos textos a serem re-textualizados. Podemos acolher, ou não, com mansidão a voz, a escritura que se implanta em nós na leitura interpretativa, que proverá e promoverá mudança, metanóia, salvação. Somente quem tem a verdade, os deuses, os gurus, negam que entre aquele que falou e aquele que ouviu houve alguma interpretação, alguma adição. Caso acatemos a fantasmagoria, diremos que somente entre Deus e a Palavra não há distância, mas, mesmo assim, haveremos de dizer que entre a Palavra e a escritura já há a tradução, e a interpretação. A negação da ética é a negação da interpretação, pois esta exige sempre a distância a ser inscrita e trabalhada. A interpretação é a assunção de nossa humanidade incompleta, movediça, em mutação, metanóica.

Tradução

Contudo os antigos traduziram a flama em uma escritura suportada por uma linguagem sócio-historicamente comprometida. Eles não tinham outro instrumento e estavam presos aos limites das metáforas que eram contadas naquele tempo, tanto quanto nós estamos presos às nossas línguas. A fim de traduzirem em uma escritura que pudesse ser lida por todos, por todos compreendida e debatida, em meio aos grupos com quem queria dialogar, aqueles homens tinham que traduzir naquelas línguas a voz original. Não adiantava procurar diálogo com o povo de Israel há três mil anos atrás escrevendo na língua dos chineses, ou dos gregos, etc. Nós também temos o mesmo problema, não falamos nem o hebreu e nem o grego antigo, mas queremos ler o que foi dito aos antigos e nos deixar inflamar por uma chama original. Para isto há os tradutores de textos, aqueles que deveriam ter o compromisso de traduzir daquelas línguas para as nossas línguas, de uma maneira mais próxima. Mas eles são homens e não são deuses, ainda que os queiramos como tal. Não precisamos dos deuses para nos dizer a verdade das coisas, mas devemos deixa-los em suas mortalhas. Queremos que os deuses suprimam a distância entre a escritura original e a escritura traduzida, desfazendo, também, a separação entre a voz e a escritura, mas devemos deixar os fantasmas dormirem. Não é possível a supressão. A tradução traduz o tradutor, isto é, o tradutor ao traduzir deixa nesta as marcas das escrituras que ele mesmo é. A tradução aponta para uma escritura que se afasta da primeira escritura e aproxima-se da escritura do tradutor. Estão grafadas as escolhas por palavras, semânticas e sentidos textuais do tradutor, pois é tudo o que este homem tem, as palavras de sua língua. Estaremos lendo o tradutor que interpreta uma escritura que traduz o que foi ouvido por alguém em algum tempo e lugar.

Leitura

Lemos, como o que traduziu leu: lemos uma escritura em meio a escrituras. Para salvaguardar a experiência da voz, disseram-nos que, a despeito dos ouvidos, da tradução, da interpretação, lemos o texto original: fantasmagoria. Somos um livro que se mistura a um livro que é posto diante de nós. Há uma circularidade entre ler e ser lido, marcar e ser marcado, ir e vir. Estamos muito distantes daquela voz que falou a alguém e que traduziu e escreveu e foi lida, interpretada, traduzida e lida por nós. Desejamos que cada palavra tenha aquele sentido original, como um brasileiro que quer que a “saudade” possa ser dita em inglês. Nem mesmo sabemos o que significa alforje, ou drácma, ou Betel. Podemos ir a m dicionário e buscar um significado destas palavras, mas não saberemos qual o sentido que na conversação cotidiana daqueles tempos, aqueles homens e mulheres conferiam a tais sentidos sócio-histórico das palavras que usavam. Nós podemos saber fazer algumas contas e descobrir qual o valor, na moeda atual, de um drácma, mas não saberemos quais eram as dificuldades de um indivíduo em ganhar um drácma, levando em conta as limitações de trabalho e renda naqueles tempos, quanto valia um drácma para eles. Lemos um texto, mas não reconstruímos o texto. Não há representação possível. O que haveria, então? Encontrar a chama, a flama, o ardume, a inflamação que moveu aqueles homens e neste encontro, escritural e interpretativo, encontrar uma chama, um fogo, um ardume que nos mova, novamente e originalmente em favor do nosso tempo, da vida. Podemos ouvir a voz sublime que nos esgote como os esgotou e tendo-a ouvido, traduzir em uma escritura contemporânea, para ser lida entre escrituras.

Interpretação

Encontrar esta voz original, mas que seja a voz a mim e não aos antigos, é, igualmente, remetê-la à interpretação. Antes, é interpretar para ser interpretado. Lemos para sermos lidos, para sermos éticos. Deixarmo-nos sermos interpretados, questionados, inquiridos, acompanhados, admitidos, pentecostalizados. Somos tradutores que traduzindo somos traduzidos, por muitos e entre muitos, hoje. A leitura do texto original, mas escondido sobre camadas de traduções e interpretações, é uma interpretação que aponta para a ativação da flama. Encontrar a voz que inflama é poder compartilhá-la eticamente. Os deuses e os gurus não compartilham, ditam-na, crendo, não na escritura, mas serem um com a voz, trazendo a origem da voz por sua escritura. A chama e a flama, o espírito que arde sobre a face do abismo, é o que pontifica os lados distanciados pelas trevas da não conversação. Ser interpretado é deixar-se mover pelo espírito que move-se por unir, por congregar, por encontrar no próximo a proximidade. Ditar verdades é pôr-se como Deus, aquele concebido como Um, que desconhece a distância entre o Ser e a Palavra, entre a potência e o ato. Nós humanos temos o próximo como aquele que nos interpretando nos diz de nós mesmos.

Explicação

Traduzir em uma língua que seja a da maioria, sem querer impor sobre a minoria sua própria interpretação. Explicar é trazer para a linguagem corrente aquilo que você está escrito em você. Explicar é encontrar palavras socialmente compartilhadas, dentro dos limites da variação de sentido que temos, para traduzir o que está escrito. Explicar é pôr-se em meio à praça, entre estrangeiros e dizer: aquilo que lestes é o que foi dito pelos antigos: naqueles últimos dias... É compartilhar de uma interpretação e deixar que sejamos interpretados. Ao expormo-nos à interpretação, abrimos espaço para que a chama original inflame aqueles que nos ouvem, nos interpretam segundo as escrituras prévias que tem em si. Os deuses e os gurus, eles não inflamam, eles incineram.

Ouvido

Mas, seremos ouvidos quando formos ouvidos. Não ouvirão a voz original, até que uma flama os inflame. A voz de nossa chama será dada ao outro e este ouvirá em sua própria língua, ou nunca a ouvirá. Corremos o risco de não sermos ouvidos, pois quem pode estar falando e ouvindo é Narciso, este que sempre fala apenas de si para si, grita e esbraveja sem dar espaço ao diálogo. Os deuses e os gurus são narcisistas especialistas em falar e ser ouvido, pois que sempre falam, não a língua do outro, mas a sua língua cheia de correntes que seduzem o outro. Eles falam de si num encontro universal, dizendo, como que por espelho, de todos os desejos humanos mais umbilicais. Mas o que dissemos é outra coisa. Nós esperamos que o espírito que pontifica possa aproximar minha chama de sua terra e, vencendo o abismo e a fluidez das incertezas, alcançar, não a certeza ou o fundamento, mas a terra. Mas a minha chama e a minha terra encontram neste espírito inflamado a tua chama e a tua terra. O diálogo pretendido aqui não é o da sedução narcisista, mas o do confronto de significações e apontamentos que nos leve a dialogar e negociar metáforas e parábolas a fim de encontrar uma ponte que nos ligue, nos leve de cá para lá. Ouvindo cada um em sua própria língua e modo de falar, a despeito de qual língua e modo de falar foi enviada a voz, o que queremos é aproximar pelo espírito que nos inflama. Sim, aqui está o paradoxo de uma língua que é particular em todos os seus sentidos, mas que é lançada para ser acolhida por um outro que deve falar sua língua. O sentido de um Pentecostes. Não falamos o chinês, nem o japonês, ou o coreano, ou russo, árabe, mas a mesma língua. Embora a mesma, ela é outra, pois sai de uma margem a outra e atravessa o abismo. Nada que digo encontra no ouvido do outro a representação exata e a perfeição exata que garante uma compreensão plena. Espero na caridade de seu ouvir a hospitalidade de meu enviado, assim como pretendo acolher sua palavra a ser acolhida em minha casa. Mas o hóspede ao chegar em sua habitação habitará sua casa e será outro que não aquele enviado: atravessou as águas. Agora está em outra casa: a linguagem a morada da ética.

Interpretação

Parece que a coisa ficou confusa com travessias múltiplas. Mas a coisa é assim mesmo, confuso, sem-fuso, conforme, desforme, silêncio, barulho, palavras, audição, isolamento, publicidade, idas, vindas, vai, vem, sons, interpretações, compartilhamento, mudanças, ajustes, acordos, aproximações, vocês, eu, nós, todo mundo, ninguém. A palavra é lançada, ouvida, interpretada, explicada, traduzida, sem ordem prévia, apenas isto. Os deuses ordenam, os homem dialogam, os monstros monologam, declaram, impõem. Os homens ficam entre os deuses e os monstros. A Palavra é isto, este lançar divino que pairando sobre o abismo tem o poder de trazer à existência a vida. Não tem demônios em queda, nem Lúcifer fazendo escolhas pecaminosas, introduzindo o erro no Mundo. Apenas a Palavra que inflama cumprindo um caminho, ainda que não necessário, pelo menos pretendido, suplantando as águas e o abismo. As palavras passam por inúmeras interpretações, como quem mergulhassem nas significações infindáveis conferidas pela conversação. Como se disséssemos: “vamos embora as palavras certas encontramos no por-vir”. Interpretamo-nos, todos, na praça, ali onde o meu envio e o teu envio se entrecruzam. Mas enfrentamos os monstros, os deuses e os gurus, estes que não falam, ordenam, dicionarizam, determinam a necessidade de uma linguagem divina. Negam o riso e a poesia. Combatem e sonegam a própria vida. Pecam contra o espírito que conduz a Palavra sobre o abismo e as águas, procurando afoga-la. A Palavra que inflama ao ser ouvida é: ouça o próximo. Ouvir é amar. Amar não é fazer o que achamos que o próximo necessita, isto é arrogância. Amar é ouvir o próximo e com ele dialogar. Dialogar com o próximo é interpretá-lo e ser interpretado, deixando a Palavra vir à terra e produzir a luz pela chama que inflama. Amar é deixar a palavra ouvida, traduzida, interpretada, escriturada ser significada, re-significada, descrita, re-descria. Deixar que a palavra viaje e encontre sempre seu estado ético, poético, inacabado.

Escritura Hipertextual

Cada um na praça é como uma escritura, um livro aberto, sendo lido e sendo redescrito, rescrito, indefinidamente. Uma palavra, uma frase, uma página ou capítulo deste livro faz ponte com outras palavras, frases, páginas, capítulos de nosso livro ou de livros que estão por ai. Algumas pontes são frágeis e outras fortes. Algumas encontram cidades encasteladas e outras cabanas de nômades, em busca de ultrapassar os abismo e as águas. O que ouve a Palavra está, sempre, inflamado no meio de Pentecostes, abrindo o livro e interpretando, deixando que o espírito de tradução, com sua chama, aproxime o que estava distante, disperso, não sob uma leitura formal, dogmática, ortodoxa, mas por meio de uma leitura hipertextual. A tirania dos deuses e dos gurus definem gramática, sintaxe, dicionários inalterados, fechados, mas o diálogo abre tais livros para parafrasear, redescrever, rabiscar, rubricar, alterar, fazer poesias.

Palavras Orbitais

Sr Isaac Newton, por meio da Lei Universal da Atração dos Corpos, permitiu que se descrevesse matematicamente o movimento dos Planetas ao redor do Sol. Ernest Rutherford admitindo a universalidade desta lei, descreve o átomo como um núcleo de carga positiva e elétrons de carga negativa em órbitas circulares ao redor do núcleo, como Planetas ao redor do Sol. A Lei de Newton permite determinar a cada instante a localização e a velocidade dos corpos, e isto valeria, também, para os elétrons que giravam ao redor de um núcleo atômico. Werner Heisenberg propõe outro modelo, o da Incerteza. Este princípio nos diz que não sabemos, num mesmo instante, a posição e a velocidade de partículas como o elétron. Assim, os elétrons não mais orbitariam ao redor de um núcleo, mas estariam pontuando um espaço de máxima probabilidade segundo uma “geografia” em torno do núcleo. Podemos dizer que o que ouvimos nos inflama, arde em nós e procuramos traduzir este ardume numa escritura. Mas, dado o analfabetismo daquele que nos queima com Sua Palavra, nossa escritura respeita mais o princípio da incerteza de Heisemberg e não reconhece as Lies de Newton. Nossas palavras encontram-se numa geografia, num espaço estatístico cujo núcleo é a chama. Os significados incertos e imprecisos de nossas experiências, religiosas ou não, nunca alcançam a verdade nuclear que acreditamos estar nos chamando à aproximação. Não sabemos nada sobre este núcleo, apenas que ele nos convida ao diálogo. Está no compartilhamento destes significados estatísticos o encontro de uma média que nos permite viver em comunidade. Não há certezas, apenas um amor ao próximo, ou desejo tirânico de submete-lo às Leis Universais de definições de significados cristalizados.