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Disse Deus: haja luz e houve luz
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Deus
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Nada podemos
falar sobre Deus; nem mesmo podemos dizer o que significa esta palavra que
nos aparece como que parecendo com alguém, este sobre o qual nem mesmo
sabemos nada sobre. Por isso sempre invocamos a fé. A fé é isto: nada saber,
nada conhecer, nada poder dizer, nem mesmo demonstrar ou apontar para uma
possibilidade experimental, experiencial e, ainda
assim, dizer: tenho fé, e a tenho nEste
que é inominável. Aqui está a intimidade absoluta
daquele que diz: não posso provar nada, mas tenho fé neste cuja palavra que o
pretende designar, nada significando me auxilia a expressar algo
inexprimível, absoluto, sublime. Neste momento de fé, o mais próximo é a
metáfora, a parábola, a hipérbole, o escape, a poesia, o jogo de
representações aproximativas, enviesadas, transversais, circulares de quem
não podendo contemplar, olhar, antever um espectro,
pressentir uma sombra passante, especula sobre algo que seria possível ao
humano. Fé pensante, que abdica da fé pura, o puro crer desmaterializado,
indizível, inominado, averbalizado. Tateamos,
assim, uma inferência de fé: ora, e se Deus falasse.
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A Palavra
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Deus falante!
Falaria sem som, pois o som exige o ar e o ar exige a terra e a terra exige o
dizer de Deus. Deus fala sem que sua voz tenha o substrato sensível, material.
Se a voz precede a escrita, então nem mesmo uma
língua fonética haveria, nestes termos, uma língua falada por Deus. Entretanto,
para uns, Deus falaria uma língua divina, para outros esta língua divina
seria o hebraico. Mas e se pensarmos que Deus fala sem língua, sem linguagem,
sem fonemas, sem palavras, sem vocábulos, sem gramática, sem grafemas. Assim como o próprio Deus não é nada, e nada
daquilo que podemos pensar, falar, ver, também sua palavra é nada do que
podemos falar. Há uma incomensurabilidade absoluta entre Deus e sua Palavra,
e o homem e sua linguagem. Aquela Palavra é sem voz, sem verbo, sem nome, sem
gramática, sem sintaxe, sem grafia. Deus não fala e nem escreve! Ele é
analfabeto. Mas no princípio Deus falou. Quem estava lá para ouvir o que ele
falou e que nos pode dizer como se deu esta fala? Nem eu, você, Moisés e nem
ninguém, pois no princípio a terra era sem forma e vazia. Mas Deus teria
falado ao escriba que narrou esta parábola e ele a transcreveu como ouviu. Entretanto,
tampouco este nos relata como era esta voz divina. Portanto, fica o vazio, o
abismo de uma ignorância intransponível. Talvez seja isto que o escriba tenha
desejado dizer quando escreveu que o Espírito pairava sobre a face das águas,
ou do abismo: este sem fundo sobre o qual a existência veio emergir. De uma
fala sem língua, sem origem, sem fundo. Mas alguém escreveu tais coisas em
algum tempo, pois, dá a entender que ouviu a narração e narrou.
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Ouvido
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Ainda que
possamos dizer que Deus e a sua Palavra são Um, confundem-se, fundem-se um no
outro, não havendo distância entre aquilo que podemos conceber de Deus e
aquilo que podemos dizer sobre o que Ele fala, muitas coisas pairam entre
este Um e aquele que ouviu sua Palavra. Dizer que Deus é Um, e que, portanto,
seu Ser não pode admitir um distanciamento com a Palavra falada, é uma
aberração, uma criação humana, pois são conceitos que não se podem aplicar
sem questões ao que nada sabemos, no entanto concedamos tal alucinação,
fantasmagoria. Contudo, podemos dizer que entre o que nada podemos saber e o
que dizemos poder saber paira um infinito intransponível. Que distância
infinita separa o falante e o ouvinte! Sempre é assim: um abismo infinito
separa as duas margens: entre a fala e a terra, entre o haja luz e o houve luz.
Quão incomensurável é o infinito e o finito que somente o que paira sobre
ambos pode fazer do silêncio um diálogo. As trevas que se
encontram na face do abismo é o sem fundo de uma linguagem que
pretende aproximar as margens separadas do haja luz e haver luz. O espírito
que paira sobre esta fluidez indizível entre a voz e o fenômeno. Que abismo
separa o que nada podemos dizer e o ouvido de um humano. Apenas um
determinado espírito pode pôr-se como suplantação, abrir espaço de passagem
em que entre o haja luz e o houve luz se encontre um mundo possível. Ouvir um
som, nada nos diz. Ainda mais quando ouvimos o inaudível, o não sonoro, o que
é uma chama, uma flama, um ardume, uma inflamação, um aquecimento, um
impacto, um golpe, um ininteligível, um irreconhecível, etc. Entre o som e a
existência haverá algo que os aproxime, torne-os amigos.
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Tradução
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Podemos ligar
nossa TV num canal japonês, coreano, russo, alemão, árabe e saber que ali
estão falando uma língua estruturada. Para nós são sons produzidos pelos
humanos e que nada nos diz de compreensível. Precisamos dominar a língua, ou
precisamos de legendas, de algo que nos torne possível transformar sons em língua. O sublime
se caracteriza por um golpe nos nossos sentidos, ao nosso entendimento, à
nossa capacidade de resposta. Deparamo-nos diante de algo irremediavelmente
além de nossa limitada capacidade de falar sobre. Estamos nocauteados,
estamos vencidos, estamos suplantados, estamos aquém. Aquilo que nos
transcende, transpassa-nos e inflama-nos em que transcendamos, ultrapassemos nossa passividade, nossa inércia. Arde em
nós aquilo que nos venceu, mas não nos destrói. Estamos sob o impacto do que
nos abateu, mas não nos escravizou. Inflama o que não nos consome. Antes,
aquece-nos, impulsiona-nos, eleva-nos, lança-nos, conduz-nos sem que saibamos
dizer nada sobre o que é esta coisa que em nós age. Este sem nome e sem
verbo, indizível e inexprimível, inquestionável e irrespondível se traduz num
movimento, num ir, num fazer, num conduzir. Damo-nos ao movimento sem saber
questionar este que nos move. Movemo-nos no espanto! Estamos no limite entre
sanidade e a loucura, do ético e do aético, do
certo e do errado, que nos obriga a expor o que esta ao abrigo às relações
para onde apontam e significam o real sentido da voz. O indizível chama ao
diálogo. Se Deus fala, o faz para que haja luz, terra, em outras palavras,
fala para que sua vontade seja feita na terra como é feita no céu.
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Escritura
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É possível que
num copo d’água caiba um
oceano? É possível que o infinitésimo do subatômico seja descrito plenamente
pelas incontáveis fórmulas matemáticas e pelos inúmeros olhares através dos inquantificáveis instrumentos? É possível o indizível ser
reduzido à palavra? É possível a chama da fé ser
transposta como linguagem? Pobre de nós humanos que acreditamos tanto em
nossa capacidade de tornar inteligível as coisas, em nossa
racionalidade! Nada sabemos e nada saberemos ao certo, apenas nos é
dada uma linguagem que nos permite amenizar nossa angústia. Querendo ser Deus,
achamos que podemos desfazer a distância entre o ente e a essência, entre a
coisa e a palavra, entre o ser e sua descrição. Olhamos o mundo e achamos que
podemos compreendê-lo no todo, em todas as partes e em cada minúcia,
contemplando sua ordem. Desejamos ser Deus e com isso achamos que podemos
dizer a verdade sobre a chama que em nós arde. Pobre de nós. Verdadeiramente
crescemos quando abdicamos de nossa arrogância e descobrimos que nossas
palavras não representam a Palavra, mas apenas traduzem
escrituralmente o indescritível. O espírito que
arde em nós é o indescritível do indescritível, enquanto nossas palavras são
circunvoluções em torno do irredutível. Metamorfoseamos a flama a fim de
traduzirmos o possível numa escrituração dialógica. É o diálogo que tem valor,
não o fogo. O ardume conduz ao trânsito, ao movimento, às relações, à
conversação que está submetida no aceite do outro. A escritura traduz a
tradução, esta que efetua a tradução da flama, a qual pontifica entre o
indizível e o humano. A escritura é a voz como grafia humana. Mas é a
escritura que importa, não em sua precisão, pois a escritura humana sempre
está fadada à imprecisão. A escritura importa, pois somente ela tira o
indivíduo de si e o expõe na multidão de tantos outros. O indivíduo é
escritura. A escritura marca o desejo do fim da loucura e a limitação do
humano frente a sua construção dentre tantos. A escritura nos expõe como
livro entre livros que são lidos.
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Leitura
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A ética é uma
possibilidade da escrita, ainda que não seja objeto da grafia. Mas a escrita
não é o livro tipografado. Podemos nos aproximar da
escrita ética nos utilizando da metáfora de Paulo, aquela em que podemos
dizer que a escrita é o livro do coração, escrito não com tinta, mas com
sangue, para ser lido entre os homens. Alguém que ouviu,
que traduziu, e o fez como escritura, entrega-a, expõe-na a outro e recebe
dele sua escritura, uma troca impossível, mas efetiva. Não a escrita da lei,
dos signos mumificados para não serem engolidos pela morte inevitável. O
ético é o abismal que é pontificado por um espírito que aproxima dois
impossíveis. O aético é o que se põe para fora do
diálogo, daquele que se faz na leitura trocada, recíproca entre escrituras. O
aético escreve um livro e o fecha. Fecha-se para releituras, correções, reflexões, diálogos e
abre-se para a violência de quem impõe verdades dos deuses e dos gurus. A
leitura se apóia nas primícias de uma voz que fala sem linguagem, aquela que
aponta para a exposição às recíprocas edificações da terra. O aético declara verdades, o ético expõe escrituras
submetendo o que ouviu. Seu livro é um livro aberto, uma manifestação de
movimento, um apontamento de uma possibilidade de mundo a construir de quem
se considera entre outros. A escritura chama o leitor, mas não aquele passivo
que absorve verdades fechadas, irreconsiliáveis de
alguém que deve conformar-se, enformar-se, mas o
leitor que marca, rabisca, transcreve, observa, questiona, pergunta, aponta,
duvida, crê, etc. A escritura chama ao diálogo sempre interminável. O diálogo
é a troca de escrituras que serão interpretadas dentro desta edificação
dialógica. Não há leitura isenta.
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Interpretação
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Homens que
ouviram, traduziram e escreveram. Escrever é submeter-se ao crivo do papel
(leia-se referenciado à metáfora paulina), ao crivo da leitura. Não há
leitura que não traga outras leituras subjacentes. Lemos, enquanto somos
lidos. Lemos, e o novo livro que temos diante de nós modifica nossa
escritura, enquanto a escritura que somos nós nos conduz na leitura dos
escritos que lemos. Trocando em minúcias, podemos dizer que levamos para uma
nova leitura as nossas leituras já feitas e que estão grafadas em nós, e
levamos da leitura em andamento os marcas de um
espírito original que falou. Ao lermos, este novo livro nos marca e fazem
anotações, marcas, rabiscos nos escritos que trouxemos. Ninguém fica isento. A
leitura interpretativa nos diz que não somos, mas sempre alteramos nosso
caminhar, sempre nos re-novamos, somos novas
criações de leituras-traduções-interpretações. A
escritura que diante de nós está se altera enquanto nos altera. E a
interpretação é isto, enquanto lemos somos lidos, enquanto interpretamos
somos interpretados. Interpretamos segundo um sentido já dado pelos escritos
que já lemos. Nós ouvimos o que as escrituras antigas dizem do que os antigos
ouviram, mas podemos dizer que elas estão sujeitas aos novos ditos, a novas
interpretações. Sempre as escrituras serão re-interpretadas, não há
passividade, não somos livros em branco a serem marcados por escritos
antigos, mas somos textos a serem re-textualizados. Podemos acolher, ou não,
com mansidão a voz, a escritura que se implanta em nós na leitura
interpretativa, que proverá e promoverá mudança, metanóia,
salvação. Somente quem tem a verdade, os deuses, os gurus, negam que entre
aquele que falou e aquele que ouviu houve alguma interpretação, alguma
adição. Caso acatemos a fantasmagoria, diremos que somente entre Deus e a
Palavra não há distância, mas, mesmo assim, haveremos de dizer que entre a
Palavra e a escritura já há a tradução, e a interpretação. A negação da ética
é a negação da interpretação, pois esta exige sempre a
distância a ser inscrita e trabalhada. A interpretação é a assunção de nossa
humanidade incompleta, movediça, em mutação, metanóica.
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Tradução
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Contudo os antigos
traduziram a flama em uma escritura suportada por uma
linguagem sócio-historicamente comprometida. Eles não tinham outro
instrumento e estavam presos aos limites das metáforas que eram contadas
naquele tempo, tanto quanto nós estamos presos às nossas línguas. A fim de
traduzirem em uma escritura que pudesse ser lida por todos, por todos compreendida e debatida, em meio aos grupos com quem queria
dialogar, aqueles homens tinham que traduzir naquelas línguas a voz
original. Não adiantava procurar diálogo com o povo de Israel há três mil
anos atrás escrevendo na língua dos chineses, ou dos gregos, etc. Nós também
temos o mesmo problema, não falamos nem o hebreu e nem o grego antigo, mas
queremos ler o que foi dito aos antigos e nos deixar inflamar por uma chama
original. Para isto há os tradutores de textos, aqueles que deveriam ter o
compromisso de traduzir daquelas línguas para as nossas línguas, de uma
maneira mais próxima. Mas eles são homens e não são deuses, ainda que os
queiramos como tal. Não precisamos dos deuses para nos dizer a verdade das
coisas, mas devemos deixa-los em suas mortalhas. Queremos
que os deuses suprimam a distância entre a escritura original e a escritura
traduzida, desfazendo, também, a separação entre a voz e a escritura, mas devemos
deixar os fantasmas dormirem. Não é possível a supressão. A tradução traduz o
tradutor, isto é, o tradutor ao traduzir deixa nesta as marcas das escrituras
que ele mesmo é. A tradução aponta para uma escritura que se afasta da
primeira escritura e aproxima-se da escritura do tradutor. Estão grafadas as
escolhas por palavras, semânticas e sentidos textuais do tradutor, pois é
tudo o que este homem tem, as palavras de sua língua.
Estaremos lendo o tradutor que interpreta uma escritura que traduz o que foi
ouvido por alguém em algum tempo e lugar.
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Leitura
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Lemos, como o que
traduziu leu: lemos uma escritura em meio a escrituras. Para salvaguardar a
experiência da voz, disseram-nos que, a despeito dos ouvidos, da tradução, da
interpretação, lemos o texto original: fantasmagoria. Somos um livro que se
mistura a um livro que é posto diante de nós. Há uma circularidade
entre ler e ser lido, marcar e ser marcado, ir e vir. Estamos muito distantes
daquela voz que falou a alguém e que traduziu e escreveu e foi lida,
interpretada, traduzida e lida por nós. Desejamos que cada palavra tenha
aquele sentido original, como um brasileiro que quer que a “saudade” possa
ser dita em
inglês. Nem mesmo sabemos o que significa alforje, ou drácma, ou Betel. Podemos ir a
m dicionário e buscar um significado destas palavras, mas não saberemos qual
o sentido que na conversação cotidiana daqueles tempos, aqueles homens e
mulheres conferiam a tais sentidos sócio-histórico das
palavras que usavam. Nós podemos saber fazer algumas contas e
descobrir qual o valor, na moeda atual, de um drácma,
mas não saberemos quais eram as dificuldades de um indivíduo em ganhar um drácma, levando em conta as limitações de trabalho e
renda naqueles tempos, quanto valia um drácma para
eles. Lemos um texto, mas não reconstruímos o texto. Não há representação
possível. O que haveria, então? Encontrar a chama, a flama, o ardume, a
inflamação que moveu aqueles homens e neste encontro, escritural e
interpretativo, encontrar uma chama, um fogo, um ardume que nos mova,
novamente e originalmente em favor do nosso tempo, da vida. Podemos ouvir a
voz sublime que nos esgote como os esgotou e tendo-a ouvido, traduzir em uma
escritura contemporânea, para ser lida entre escrituras.
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Interpretação
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Encontrar esta
voz original, mas que seja a voz a mim e não aos antigos, é, igualmente,
remetê-la à interpretação. Antes, é interpretar para ser interpretado. Lemos
para sermos lidos, para sermos éticos. Deixarmo-nos sermos interpretados,
questionados, inquiridos, acompanhados, admitidos, pentecostalizados.
Somos tradutores que traduzindo somos traduzidos, por muitos e entre muitos,
hoje. A leitura do texto original, mas escondido sobre camadas de traduções e
interpretações, é uma interpretação que aponta para a ativação da flama. Encontrar
a voz que inflama é poder compartilhá-la eticamente. Os deuses e os gurus não
compartilham, ditam-na, crendo, não na escritura, mas serem um com a voz,
trazendo a origem da voz por sua escritura. A chama e a flama, o espírito que
arde sobre a face do abismo, é o que pontifica os
lados distanciados pelas trevas da não conversação. Ser interpretado é
deixar-se mover pelo espírito que move-se por unir,
por congregar, por encontrar no próximo a proximidade. Ditar verdades é
pôr-se como Deus, aquele concebido como Um, que
desconhece a distância entre o Ser e a Palavra, entre a potência e o ato. Nós
humanos temos o próximo como aquele que nos interpretando nos diz de nós
mesmos.
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Explicação
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Traduzir em uma
língua que seja a da maioria, sem querer impor sobre a minoria sua própria
interpretação. Explicar é trazer para a linguagem corrente aquilo que você
está escrito em
você. Explicar é encontrar palavras socialmente
compartilhadas, dentro dos limites da variação de sentido que temos, para
traduzir o que está escrito. Explicar é pôr-se em meio à praça, entre
estrangeiros e dizer: aquilo que lestes é o que foi
dito pelos antigos: naqueles últimos dias... É compartilhar de uma
interpretação e deixar que sejamos interpretados. Ao expormo-nos à
interpretação, abrimos espaço para que a chama original inflame aqueles que
nos ouvem, nos interpretam segundo as escrituras prévias que tem em si. Os deuses e os gurus,
eles não inflamam, eles incineram.
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Ouvido
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Mas, seremos
ouvidos quando formos ouvidos. Não ouvirão a voz original, até que uma flama
os inflame. A voz de nossa chama será dada ao outro e este ouvirá em sua
própria língua, ou nunca a ouvirá. Corremos o risco de não sermos ouvidos,
pois quem pode estar falando e ouvindo é Narciso, este que sempre fala apenas
de si para si, grita e esbraveja sem dar espaço ao diálogo. Os deuses e os
gurus são narcisistas especialistas em falar e ser ouvido, pois que sempre falam, não a língua do outro, mas a sua língua cheia de
correntes que seduzem o outro. Eles falam de si num encontro universal,
dizendo, como que por espelho, de todos os desejos humanos mais umbilicais.
Mas o que dissemos é outra coisa. Nós esperamos que o espírito que pontifica
possa aproximar minha chama de sua terra e, vencendo o abismo e a fluidez das
incertezas, alcançar, não a certeza ou o fundamento, mas a terra. Mas a minha
chama e a minha terra encontram neste espírito inflamado a tua chama e a tua
terra. O diálogo pretendido aqui não é o da sedução narcisista, mas o do
confronto de significações e apontamentos que nos leve a dialogar e negociar metáforas e parábolas a fim de encontrar uma ponte que nos ligue,
nos leve de cá para lá. Ouvindo cada um em sua própria língua e modo
de falar, a despeito de qual língua e modo de falar foi enviada a voz, o que
queremos é aproximar pelo espírito que nos inflama. Sim, aqui está o paradoxo
de uma língua que é particular em todos os seus sentidos, mas que é lançada
para ser acolhida por um outro que deve falar sua língua. O sentido de um
Pentecostes. Não falamos o chinês, nem o japonês, ou o coreano, ou russo,
árabe, mas a mesma língua. Embora a mesma, ela é outra, pois sai de uma
margem a outra e atravessa o abismo. Nada que digo encontra no ouvido do
outro a representação exata e a perfeição exata que garante uma compreensão
plena. Espero na caridade de seu ouvir a hospitalidade de meu enviado, assim
como pretendo acolher sua palavra a ser acolhida em minha casa. Mas o hóspede
ao chegar em sua habitação habitará sua casa e será
outro que não aquele enviado: atravessou as águas. Agora está em outra casa:
a linguagem a morada da ética.
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Interpretação
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Parece que a
coisa ficou confusa com travessias múltiplas. Mas a coisa é assim mesmo,
confuso, sem-fuso, conforme, desforme, silêncio,
barulho, palavras, audição, isolamento, publicidade, idas, vindas, vai, vem,
sons, interpretações, compartilhamento, mudanças, ajustes, acordos, aproximações,
vocês, eu, nós, todo mundo, ninguém. A palavra é lançada, ouvida,
interpretada, explicada, traduzida, sem ordem prévia, apenas isto. Os deuses
ordenam, os homem dialogam, os monstros monologam,
declaram, impõem. Os homens ficam entre os deuses e os monstros. A Palavra é
isto, este lançar divino que pairando sobre o abismo tem o poder de trazer à
existência a vida. Não tem demônios em queda, nem Lúcifer fazendo escolhas pecaminosas,
introduzindo o erro no Mundo. Apenas a Palavra que inflama cumprindo um
caminho, ainda que não necessário, pelo menos pretendido, suplantando as águas
e o abismo. As palavras passam por inúmeras interpretações, como quem mergulhassem nas significações infindáveis conferidas pela
conversação. Como se disséssemos: “vamos embora as palavras certas
encontramos no por-vir”. Interpretamo-nos,
todos, na praça, ali onde o meu envio e o teu envio se entrecruzam. Mas
enfrentamos os monstros, os deuses e os gurus, estes que não falam, ordenam,
dicionarizam, determinam a necessidade de uma
linguagem divina. Negam o riso e a poesia. Combatem e sonegam a própria vida.
Pecam contra o espírito que conduz a Palavra sobre o abismo e as águas,
procurando afoga-la. A Palavra que inflama ao ser ouvida
é: ouça o próximo. Ouvir é amar. Amar não é fazer o que achamos que o próximo
necessita, isto é arrogância. Amar é ouvir o próximo
e com ele dialogar. Dialogar com o próximo é interpretá-lo e ser
interpretado, deixando a Palavra vir à terra e
produzir a luz pela chama que inflama. Amar é deixar a palavra ouvida,
traduzida, interpretada, escriturada ser significada, re-significada,
descrita, re-descria. Deixar que a palavra viaje e
encontre sempre seu estado ético, poético, inacabado.
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Escritura
Hipertextual
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Cada um na praça é
como uma escritura, um livro aberto, sendo lido e sendo redescrito,
rescrito, indefinidamente. Uma palavra, uma frase, uma página ou capítulo
deste livro faz ponte com outras palavras, frases, páginas, capítulos de
nosso livro ou de livros que estão por ai. Algumas pontes são frágeis e
outras fortes. Algumas encontram cidades encasteladas e outras cabanas de nômades,
em busca de ultrapassar os abismo e as águas. O que ouve a Palavra está,
sempre, inflamado no meio de Pentecostes, abrindo o livro e interpretando,
deixando que o espírito de tradução, com sua chama, aproxime
o que estava distante, disperso, não sob uma leitura formal, dogmática,
ortodoxa, mas por meio de uma leitura hipertextual.
A tirania dos deuses e dos gurus definem gramática,
sintaxe, dicionários inalterados, fechados, mas o diálogo abre tais livros
para parafrasear, redescrever, rabiscar, rubricar,
alterar, fazer poesias.
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Palavras
Orbitais
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Sr Isaac Newton,
por meio da Lei Universal da Atração dos Corpos, permitiu que se descrevesse
matematicamente o movimento dos Planetas ao redor do Sol. Ernest Rutherford
admitindo a universalidade desta lei, descreve o átomo
como um núcleo de carga positiva e elétrons de carga negativa em órbitas
circulares ao redor do núcleo, como Planetas ao redor do Sol. A Lei de Newton
permite determinar a cada instante a localização e a velocidade dos corpos, e
isto valeria, também, para os elétrons que giravam ao redor de um núcleo atômico.
Werner Heisenberg propõe outro modelo, o da
Incerteza. Este princípio nos diz que não sabemos, num mesmo instante, a
posição e a velocidade de partículas como o elétron. Assim, os elétrons não
mais orbitariam ao redor de um núcleo, mas estariam pontuando um espaço de máxima probabilidade
segundo uma “geografia” em torno do núcleo. Podemos dizer que o que ouvimos
nos inflama, arde em nós e procuramos traduzir este ardume numa escritura. Mas,
dado o analfabetismo daquele que nos queima com Sua Palavra, nossa escritura
respeita mais o princípio da incerteza de Heisemberg
e não reconhece as Lies de Newton. Nossas palavras
encontram-se numa geografia, num espaço estatístico cujo núcleo é a chama. Os
significados incertos e imprecisos de nossas experiências, religiosas ou não,
nunca alcançam a verdade nuclear que acreditamos estar nos chamando à
aproximação. Não sabemos nada sobre este núcleo, apenas que ele nos convida
ao diálogo. Está no compartilhamento destes significados estatísticos o
encontro de uma média que nos permite viver em comunidade. Não
há certezas, apenas um amor ao próximo, ou desejo tirânico de
submete-lo às Leis Universais de definições de significados cristalizados.
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