www. marcosnicolini .com.br
Home
Biografia
Bibliografia
Textos
Vídeos
Agenda
Contato

Contemplatio e Techne

Ora, quando iam de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. Tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, sentando-se aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra. Marta, porém, andava preocupada com muito serviço; e aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá que minha irmã me tenha deixado a servir sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou mesmo uma só; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada. (Lucas X, 38-42)

Caso você queira saber apenas as interpretações que damos a este texto clique aqui[i]. Caso contrário, se você quiser saber por que interpreto desta maneira, continue a leitura e vá até o fim do texto.

Difícil tarefa aquela que é tomar de empréstimo um texto de milhares de anos e encontrar nele a dupla possibilidade: a de encontrar, em meio a linguagem, um sentido histórico para ele; e apontar para uma atualização, se possível, e com isto, uma leitura que nos faça sentido hoje. Este texto sobre Maria e Marta traz este desafio. O sentido de minha leitura aponta para uma possibilidade de tornar contemporâneo um problema que é antigo. Para isto vamos tentar reconstruir algumas bases que nos auxilie na leitura deste.

O problema que se põe neste texto é o da contemplação e o da técnica. Mas este problema tem um colorido absolutamente antagônico com o que ele nos remete em nosso presente. Mas, mais do que manter esta dicotomia, certa exclusão, ou exclusividade quer da contemplação, quer da técnica, perguntamo-nos se não haveria uma outra via de interpretação mais plural, mais inclusiva, mais multiformal.

A leitura que pretendo fazer para este texto parte de uma referência ao neoplatonismo e seu discurso sobre a salvação: soteriologia. Mais do que a soteriologia, a cosmologia, isto é, a ordem de mundo, a sua proveniência. O cosmos é ordenado, mais ou menos, assim para os neoplatônicos: Há o Uno, o Ser, no qual todas as coisas são, isto é, onde a idéia de uma coisa é (quando se diz: o homem é um animal racional, este é, é o “ser” daquela coisa que se chama homem e este “é” está no Uno. Todos os “é” estão no Uno, na unicidade do Ser). Este Uno, o Ser irradia-se como pensamento (Nuos), isto é, ele pensa apenas o Ser, isto é, a si mesmo. Mas, ao pensar pensa o ser das coisas, as quais passam a existir, em potência, nele. Tais coisas são em potência, potencialmente, virtualmente, mas não em ato, apenas em pensamento. O Uno, o Ser que agora pensando-se irradia-se como Pensamento, continua a irradiar, mas como alma do mundo. A alma do mundo irradia-se sobre a matéria até então informe, multinfomando a matéria nos diversos entes. A metáfora usada é a do Sol: o Sol irradia-se como luz e calor atingindo a matéria, sem deixar de ser Sol isto é, luz e calor. O que isto quer dizer, O Uno, que é o Ser, Pensa e quando o faz irradia-se como alma do mundo (alma de onde vem ânimo, animação, animal), e a alma do mundo dá forma à matéria. O Uno que é um, ao irradia-se como alam do mundo ele traz a existência o ser das coisas, da potência em ato, mas conferindo formas distintas à matéria: a multiforme sabedoria do Uno ao realizar em ato o que estava pensado em potência. Para cada pensamento do ser das coisas, um ente correspondente. A matéria é sem forma e vazia, sendo informada pela alma, segundo o pensamento próprio para cada ser. Contudo, assim como um foco que emita luz e calor, quanto mais distante deste menos luz e calor se terá, também o é com a irradiação do Ser nas coisas. Quanto mais distante um ente está do Uno, menos ser ele tem e mais matéria informe é. Os quatro elementos (terra, água, ar e fogo) estão no limite inferior desta cadeia do ser. Ao centro (não sabemos o que isto quer dizer) está o Uno, o Pensamento e a Alma do Mundo, na periferia mais distante (também não sabemos o que isto quer dizer) está a matéria informe. O que eles chamam de forma é a idéia da coisa, o ser da coisa. Dar forma é “preencher” uma matéria com um ser, trazer uma idéia de sua virtualidade para ser ato. O cosmos, então, é ordenado do Ser para o não-ser (a matéria informe), numa cadeia do ser, isto é, quanto mais próximo do Ser mais a coisa está animada. Esta cadeia do ser é contínua, plenamente preenchida e imutável. O que isto quer dizer? Desde o Uno até a matéria há um sem número de seres que preenchem totalmente esta cadeia. Pensemos nela como uma corrente muito longa e que cada elo é um ser (anjos, homens, animais, plantas, plantas-minerais, minerais). Não pode faltar um elo, senão a cadeia se rompe e desorganiza-se. Onde termina um elo começa imediatamente outro, e cada elo ocupa um lugar na cadeia, não se alterando, nunca, este lugar ocupado apenas por ele. Em suma, o Uno ao Pensar o ser das coisas, pela irradiação como Alma do Mundo, traz a existência o ser de cada coisa, de uma vez por todas, de um só golpe, informando a matéria de acordo com o seu ser, fixando seu lugar na cadeia do ser.

O homem tem a forma de animal racional e está numa posição singular nesta cadeia do ser. Está entre o divino e os animais e pode pensar, refletindo o pensamento do Uno, do Ser. Contudo está ligado à matéria, contrariamente aos entes sem matéria: os astros: estrelas, planetas, o Sol e a Lua: entes cuja forma está no quinto elemento, o éter, seres etéreos. Em virtude de sua ligação com a matéria, a racionalidade humana está afetada. Os neoplatônicos se utilizam de outra metáfora para descrever a condição humana: é como se o homem estivesse completamente sujo de lama e sua salvação consistisse em remover esta sujeira banhando-se em águas límpidas. A salvação consiste em que o homem se aplique a racionalidade (o Ser das coisas imutáveis, incorruptíveis, eternas do Mundo das Idéias) e afaste-se de sua animalidade (a matéria, do que se corrompe, muda). A isto chamamos de CONTEMPLAÇÂO, voltar-se para o Mundo das Idéias e dar de costas para a matéria. Na CONTEMPLAÇÂO o homem permite que sua alma possa ter a forma da ordem cósmica, abstraindo-se da matéria. A soteriologia do neoplatonismo se dá em meio à CONTEMPLAÇÂO.

Voltemos um pouco atrás e busquemos ler Platão. Para este filósofo grego, o filósofo-rei é o que tendo CONTEMPLADO o Mundo das Idéias (o Bem, o Belo, o Justo, o Verdadeiro, as coisas imutáveis, incorruptíveis), organiza a Cidade segundo uma ordem justa. Para que isto se realize se faz acompanhar de guardiões, contudo, as idéias são realizadas como feitos pelas mãos humanas a partir dos trabalhadores, artesões. O trabalho manual é o nível mais baixo de ocupação na Cidade. O trabalhador artesão é comparado quase que a um escravo (um semi-humano). Na ordem social, então, temos o homem livre, depois a mulher e a criança, e por fim o escravo. O trabalhador estaria abaixo do homem livre e pouco acima do escravo. Sobretudo, o homem pleno na Cidade Justa de Platão ocupa-se em CONTEMPLAR as Idéias. O que os latinos chamam de arte, artefício, artesanato, aquilo que é feito pela habilidade das mãos humanas, os gregos chamavam de techne: técnica. Tudo que era feito com as mãos (metalurgia, tecelagem, agricultura, mineração, etc) estava abaixo em escala social ao que era racional (filosofia, governo, legislação, etc). Ademais, da CONTEMPLAÇÂO teremos a TEORIA, que pode ser entendido como “olhar os deuses”, “contemplar os deuses”. Das técnicas temos a instrumentalização.

Não é preciso muito esforço, de quem conhece minimamente o pensamento cristão, para perceber nas linhas acima a cosmologia do cristianismo. Deus Pai substituiu o Uno; Deus Filho substitui o Nous, o Pensamento; ainda que o Espírito Santo não substitua plenamente a Alma do Mundo. A salvação advém da fé, mas esta é a CONTEMPLAÇÂO do Filho. Imaginemos o impacto das palavras de Jesus aos ouvidos de um cristão neoplatônico: quem me vê a mim, vê o Pai. A salvação é um voltar-se dos olhos espirituais a Deus e um dar de costas ao mundo corrupto, marcado pela passagem, pela circunstancialidade, pelo devir. A salvação é conhecer a Deus, por meio da fé. A Igreja Medieval ergueu toda a sua teologia sobre esta re-leitura cristã do neoplatonismo, e mais tarde do aristotelismo em Aquino. O cosmos Medieval é aquele da criação divina (do Uno irradiando-se) e da fixação de uma cadeia do ser, no qual o homem ocupa uma parte privilegiada. Pico della Mirandola escreveria em seu “Discurso sobre a dignidade humana”, que o homem é este ser que nem é anjo e nem é animal, estando entre os dois tem a condição única da escolha, pois nada lhe foi previamente determinado. O fato é que o cristianismo toma o esqueleto filosófico e insere interpretações dos textos bíblicos, configurando um sincretismo entre filosofia pagã como fé cristã. Esta articulação milenar passou a ser a espiritualidade cristã nas pregações, ministrações, prédicas, discursos cristãos sem se dar conta do suporte filosófico-pagão que o sustenta. Nesta elaboração a vida é transcendência pura e conhecer a Deus é CONTEMPLAÇÂO. A verdade, a beleza, a justiça, o Bem é o que é crido no mundo espiritual, isto é, das Idéias platônicas. Peguemos este esquema neoplatônico e submetamo-lo a uma linguagem espiritualista e teremos os discursos católico-protestante, guardando as particularidades marginais.

Mas será a instrumentalização da razão que ocupará o trabalho de inúmeros filósofos no início do século XX. Heidegger, Marcuse, Ortega & Gasset, Jacques Ellul, Habermas, Adorno, Horkheimer, etc., trabalharão sobre este tema, com a ruína do cosmos medieval. O cosmos não é mais habitado por almas, ou seja, não é mais animado, mas agora é regido por leis, como as de Newton. Caso pensemos que os filósofos modernos, mormente Auguste Conte, criticou o clero, acusando-o de parasitas sociais pelo fato de não produzirem nada de útil à sociedade e apenas se aplicarem a CONTEMPLAÇÂO, poderemos, talvez, já ai anteciparmo-nos a um movimento muito sutil em prol das técnicas em detrimento à CONTEMPLAÇÂO. A razão se torna instrumental à medida que o que pensa, pensa a fim de produzir algo, a fim de trazer à existência algo que seja útil a um dado propósito. Ortega & Gasset vai nos dizer que o homem se aplica à técnica a fim de repassar seu esforço, o que lhe permitiria empenhar-se apenas em ser. Heidegger vai nos dizer que o olhar técnico transforma tudo em recurso estocável e processável pela técnica a fim de garantir a subjugação da natureza à razão, o que estaria em jogo seria certa vontade de poder, a partir da instrumentalização da técnica, o que incluiria Deus. Ellul faz um trabalho mais sociológico, apontando a presença das técnicas em todas as atividades humanas, o que redundaria num humano tecnologizado. Marcuse nos mostra as técnicas de racionalização da vida, para o aumento da produtividade e redução de desvios padrões no comportamento humano, garantindo, de certo modo, o controle e a produção. Habermas vai dialogar com Marcuse e submeter seu trabalho à idéia de ideologia. A ideologia são aqueles princípios mentais que dão sentido aos discursos. Adorno e Horkheimer vão nos falar da razão instrumental, aquela que visa uma eficácia nas relações humanas visando a produção de bens. Todo o pensamento é pensamento instrumental, o que eles dizem ser o século do Engenheiro. Tudo se volta para a máquina, para a produção industrial. A industrilização tem a ver com procedimentos rigidamente controlados, cronogramas, planos voltados para a massificação da produção.

No cristianismo dos séculos XX e XXI, a CONTEMPLAÇÂO foi substituída pela produtividade instrumental da fé. Não é mais conhecer a Deus, não é mais olhar por fé a Deus, mas é ter uma relação produtiva e útil com o sagrado, ou, pelo sagrado a fim de nos aproximarmos de alguma maneira ao Reino. Esta produtividade instrumental da fé (chamemos de PIF) teria duas vertentes: a PIF neopentecostal e a PIF dos novos gurus, ou seja, a PIF produzida pelo panteão cristão do século XXI. A PIF neopentecostal é menos sutil e mais escancarada. O que o crente deve conhecer é a ordem cósmica do mundo espiritual que se configura por uma batalha espiritual entre Satanás e Deus. Satanás encabeça um Império do Mal que opera a fim de impedir o bem-estar do indivíduo, realizando malefícios através da exclusão do consumo, doenças, esfacelamento familiar, etc. Satanás representa um mundo caótico em que o homem se encontra sem Deus. O Reino de Deus tem um Rei, Jesus Cristo. Através de princípios espirituais revelados por Deus aos seus servos os deuses, o indivíduo pode se tornar cabeça e não cauda, filho de Rei, herdeiro de tudo, do ouro e da prata. Os princípios revelam a ordem divina para o cosmos fechado neopentecostal, o que garante toda sorte de bênçãos espirituais, isto é, prosperidade, saúde, reconciliação, etc. A PIF neopentecostal opera no sentido de reduzir esforços e maximizar resultados: relação custo-benefício, utilizando-se de jargões espiritualistas. A PIF também marca um sistema de controle de condutas e ações a fim de conduzir a massa de crentes a produzir segundo um sistema ordenado por fé instrumental produtiva. E isto é visível nas campanhas de cura e prosperidade, nos G12, na dramatização do culto. Com isto podemos ter uma idéia da PIF neopentecostal.

A PIF dos gurus é mais enrustida, assim como mais esquizofrênica. Os gurus são cristãos esquizóides por essência. Eles foram treinados a confundir a fé cristã com o neoplatonismo, chamando isto de sã doutrina. Esta que está fundada no logofalocentrismo. No entanto, são filhos da modernidade, isto é, são o resultado de um cristianismo protestante que enfrentou todos os ataques dos filósofos modernos, desde Descartes, até Nietzsche. Neste embate perderam a mística cristã e construíram no lugar um edifício com pretensão de racionalidade, racionalidade quase impossível. O texto, as Escrituras Sagradas tomaram o lugar mais do que central na liturgia, mas sem um “i” ou um “~” de mística, isto é, visão do absoluto, cosmovisão ao estilo medieval, de CONTEMPLAÇÂO. Há todo um aparato lógico neoplatônico, mas inserido num sentido de maximizar a glória de Deus intramundanamente, inserido nas coisas do mundo. O Protestantismo Reformado é tensão levada ao limite último da possibilidade humana: o homem o é verdadeiramente quando projeta seu ser na existência transcendente, enquanto vive uma vida como peregrino cheio de tentações e provações, devendo glorificar a Deus maximamente.

Este sentido de uma máxima glória de Deus intramundana aliada à centralidade do Logos, do discurso racional, projeta o protestantismo no abandono da CONTEMPLAÇÂO e na assunção técnica. Já é possível encontrarmos, em prótese, no Núcleo Firme do Protestantismo a PIF dos gurus. Esta é realizada por meio de uma racionalidade da vida cristã, mormente na liturgia do culto. A ordem cúltica irradiando um modelo de ordem familiar, social, empresarial. Mas o embate com a modernidade trouxe, também, certa aversão ao saber, à teoria, à CONTEMPLAÇÂO. Ainda mais que dois mil anos de elaborações sobre o mesmo fundamento teológico passaram apenas a ratificar e a dogmatizar a teologia já estabelecida, que não mais aceitaria variações. O modelo irradiante de ordem intramundana e a aversão à teoria apontam para um novo par de procedimentos: ou a ritualização da religião; ou o ativismo religioso.

O PIF dos gurus aponta inexoravelmente para o ativismo religioso. Mais do que um ativismo religioso, uma negação do saber teórico que exponha às dúvidas seus procedimentos. Os gurus dizem: “estes intelectuaizinhos que não desgrudam sua bun...da cadeira, não fazem nada e pensam saber alguma coisa lendo e escrevendo. Nós, por outro lado, vamos lá e fazemos isto e aquilo.” Os gurus e sua PIF são responsáveis por construção de templos, viagens a Jerusalém, programas em rádios, TVs, editam jornais, revistas, livros, estruturam trabalhos sociais e filantrópicos, arregimentam pessoas, estão rodeados de asseclas, organizam congressos, eventos, caravanas, etc. Têm agendas repletas até 5 anos à frente. Os seus amigos são os que são úteis em seus planos e projetos e estão sempre cercados por eles. Enquanto pregam a favor da produtividade e eficácia de suas atividades, militam contra a destruição dos ecosistemas, da natureza, mas não dão conta de quanto uma coisa e outra são aparentadas. Não admitem qualquer questionamentos, pois sua fé eles as demonstram por meio de suas obras, como nos indica Tiago, o Apóstolo e irmão de Jesus.

Estamos no mais abissal dos mundos, quando a fé não encontra palavras para descrever sua possibilidade em meio à existência humana. Ficamos inflamados, ardendo em chamas, mas não conseguimos uma tradução plausível, contemporânea, contextual para a Palavra que nos fala. Somos daqueles que se negam ser puramente Maria/CONTEMPLAÇÂO, anacronismo de crenças, ou ser puramente Marta/PIF, equipamento de produção de simbolismo religioso. Somos daqueles que se negam ter a fé determinada por pré-conceitos, por determinações prévias de um ideário humano (para não dizer neoplatônico). Distanciamos-nos, não do mundo, mas da fé institucionalizada, estereotipada do isto ou aquilo, a fim de reencontrar a chama original da fé. Distanciamo-nos daqueles que se colocam nos púlpitos e, batendo no peito, dizem: obrigado Senhor, porque não sou como um daqueles que não sabem para onde vão, não tem como comprovar sua fé e nada fazem por seu Reino.

Buscamos nos aproximar do próximo como lugar privilegiado pelo Emanuel para a edificação do Reino. Escrevemos como sendo estes as marcas deixadas no caminho, não para serem seguidos, ou retomados, mas apenas marcas de uma busca incessante e infindável. Lemos para dialogar, pois é diálogo o nome da Palavra. Fazemos como aquele que a mão esquerda não sabe o que fez a direita, fazemos ao próximo, ao pequenino que não está na mídia, aquele ali que nossa mão alcança. Enquanto cremos, cantamos uma melodia:

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como
um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia.
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
e no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

                                               (Tocando em frente: Almir Sater e Renato Teixeira)



[i] Dito isto, vamos a uma interpretação para a conversa de Jesus com Maria e Marta:

Maria escolheu a melhor parte, estar aos pés do Senhor e ouvir dele sua sabedoria. Enquanto isto Marta estava atarefada nos muitos afazeres da vida, não oferecendo espaço para olhar e ouvir o Senhor. Marta percebe que Maria está, ali, contemplando a face de Jesus, lendo suas palavras e escrevendo em seu coração aquela infinita sabedoria, reclama com o Senhor, insistindo que ela a auxiliasse nas atividades de organização e ordenação do caos diário. O Senhor lhe diz: deixe-a, que ela escolheu a melhor parte. Tradicionalmente interpreta-se esta passagem dizendo que a melhor parte é estar em contemplação de Jesus e não nos inúmeros trabalhos que nos esgotam o dia a dia. Particularmente prefiro ler este texto em paralelo com aquele em que Jesus está na casa destas duas irmãs e de Lázaro, quando Maria vem e se ajoelhando unta os pés do Senhor. No mesmo momento Marta está servindo os que ali se encontram e o faz de maneira calma e gentil. Cada uma encontrou seu lugar na existência e neste lugar encontram uma maneira de viver bem.

Enquanto no medievo tínhamos a vitória de Maria sobre Marta, isto é, enquanto Maria havia escolhido a melhor parte, a CONTEMPLAÇÂO, Marta havia escolhido a pior, a técnica, o trabalho manual, no caso, a economia, a organização de sua casa. Agora em nossa contemporaneidade percebemos a vitória de Marta, a instrumentalização técnica da fé, sobre Maria, o olhar para o Mestre e absorver a sabedoria que vem do alto.

Nós, porém, podemos imaginar que nem uma nem outra são vencedoras num embate direto, mas são vencedoras quando encontram seus lugares, as atividades que lhes tragam maiores alegrias e possam contribuir para o Reino. Em outras palavras: não isto ou aquilo, nem isto e nem aquilo; mas isto, aquilo, isto e aquilo, isto ou aquilo, não isto, não aquilo, sei lá, quantos arranjos possíveis.