A ciência da fome, sede e da nudez
1 - Einstein
morreu procurando (isto não quer dizer que esta seja sua causa mortis, mas que até o fim da sua
vida ele esteve em busca de...) uma fórmula que unificasse a física. Até o final
do século XIX a física estava unificada sob o signo de Newton. Contudo, a
partir do início do século XX os físicos estarão divididos em, naquilo que
podemos chamar, dois Programas de Pesquisas. A fim de
exemplificar tal embate, imaginemos que pudéssemos construir um microscópio
extremamente potente que nos permitisse ver o mundo subatômico. Imaginemos,
ademais, que existisse esta coisa que chamamos de mundo subatômico como
coisinhas ali, mas que nunca ninguém viu. Alguns cientistas ao olharem por meio
deste microscópio verão partículas e outros não as verão, mas verão ondas se
propagando. Einstein tentou achar uma fórmula que pudesse nos dar condições de
ver o mundo subatômico povoado por apenas um tipo de coisa: quer partícula,
quer onda, quer outra palavra que designasse estas coisas que ali formulamos matematicamente
uma existência útil. Uma parcela significativa da verba da ciência é utilizada
para tal tentativa de unificação da ciência, a qual visa encontrar uma fórmula
unificadora para a física. A questão metafísica que paira sob esta busca
unificante (se é que podemos chamar assim) é o da unidade cosmológica. Para nós
o que importa não são os debates dentro da ciência, mas os limites que nos
podem apontar tal metáfora. Não nos importa quem vai ganhar este embate, se são
os que defendem um mundo uniforme e coerente, ou se são aqueles que defendem um
mundo que se explica por partes, mas nos importa pensar sobre este mundo
fendido entre as descrições de ondas e de partículas. O que podemos aqui pensar
é sobre a linguagem e o mundo.
2 –
Segundo trabalhos sobre o Fundamentalismo Protestante Original, podemos dizer
que este movimento de reação à Modernidade e à Teologia Liberal que ocorre no
final do sáculo XIX e início do XX, pode ser caracterizado por seis aspectos:
a) a inerrância da Bíblia, a qual é a Palavra de
Deus; b) o caráter empirista, indutivista para a
ciência e de um cosmos funcionalista; c) a pertença por meio de uma conversão
individual; d) a escatologia milenarista; e) a fé
individual; f) o caráter segregacionista que marca a fronteira do nós-salvos e eles-condenados.
Estes seis pilares fundamentais ancoram-se ancorados sobre cinco fundamentos de
fé Protestantes, conforme foram definidos a partir do século XVI e que seguem
aqui resumidamente: somente fé, somente Cristo, somente as Escrituras, somente
a Graça e somente para a glória de Deus. Um bom Fundamentalista Protestante no
século XXI dará anuência aos seis pilares e aos cinco fundamentos e sentirá
orgulho nisto.
3 – O
que tem sido utilizado dentro de certa metafísica para definir um sujeito é a
continuidade coerente, autonomia e integridade. A continuidade é o que me faz
ver um foto de meu passado e dizer que aquele sou eu. Embora eu esteja marcado
por distanciamentos causados por inumeráveis e infinitesimais mudanças, guardo
traços de proximidade. Isto quer dizer que quando nasci não tinha um aspecto de
uma aborígene australiana e mutei,
como se tivesse passado por um software tipo Fotoshop ou Morpheu, até ter esta aparência
atual de homem branco. Há uma linha invisível que une aquilo que fui ao que
sou. Ainda que tenhamos exemplificado a continuidade pelos traços fisiológicos,
o que de fato deve ser pensado são as crenças e valores individuais que guardam
esta continuidade entre o ontem e o hoje. A coerência tem dois sentidos: o da
continuidade histórica e o da presença. A coerência contínua nos fala que as crenças
e valores atuais resultam dos valores e crenças do passado, os quais poderiam
ser reconstituídos num retorno das causalidades. A coerência presente é aquele
em que as crenças e valores atuais, pelo menos, formam uma estrutura em que
cada parte compõe um todo de maneira razoavelmente auto-sustentável. A
autonomia diz que o indivíduo é marcado por suas próprias determinações, ou
seja, os princípios e leis que o leva a pensar desta ou daquela maneira, ou a
decidir por esta ou por aquela alternativa, são-lhe próprio: auto-nomos, isto é, a ordem lhe é interna, própria.
Integridade é a pela, a fronteira de sua individualidade. Quando digo “eu sou
eu, e você é você”, não apenas percebo os limites espaçotemporais
entre eu e você, como tenho a consciência de minha individualidade e da
alteridade que você representa.
4 – Até
Kant podemos dizer que há o Mundo, um todo como harmonia pré-estabelecida, dado
como realidade; e há o sujeito, também unificado, que busca conhecer a ordem do
Mundo e representá-la como conhecimento. Alguns, os racionalistas, dirão que
podemos apreender esta ordem dada apenas pelo intelecto, suprimindo a
experiência no momento do conhecimento. Outros, os empiristas, dirão que apenas
a experiência nos poderá fazer conhecer o Mundo. A idéia que está subjacente é
que há um Deus Criador e que, sendo avesso ao caos e à desordem, estabeleceu um
Mundo ordenado e harmônico, isto é, um todo em que as partes se ajustam de
maneia harmônica. Todas estas concepções cosmológicas, de Mundo, tem forte fundamento nas filosofias neoplatônicas
e aristotélicas, que também suportam a cosmologia da filosofia da religião
cristã. Os racionalistas acreditam nesta ordem previamente estabelecida e
pensam numa ordem que possa representar o Mundo, e as coisas que habitam o
mundo se dão como fenômenos segundo esta ordem previamente e intelectualmente
pensada. Os empiristas vão ao Mundo, regular e estável o qual é ordenado por
uma ordem prévia, e por meio da pesquisa desta regularidade estável buscam
conhecer as leis causais. O Mundo dos empiristas também já está dado a priori,
a despeito da experiência. Kant vai no propor que a ordem das coisas não está
no Mundo, mas na Razão, no sujeito. É o sujeito do conhecimento quem ordena as
coisas, pela Razão, a fim de conferir a elas uma Mundanidade,
uma ordem universal posterior: transcendental. O que vale não é a ordem a
priori do Mundo, mas descrições cada vez mais complexas para o Mundo.
5 –
Precisaremos parar e pesquisar com mais responsabilidade e menos desejo de
defender nosso mundo atual de crenças, com o propósito de interpretar com mais
atenção os dados que nos aproximam às ocorrências históricas entre os anos 40 d.C.
e 380 d.C. Tenho a impressão que quando lemos sobre
este período histórico, ou obscurecemos os fatos, ou sobre-naturalizamos a história.
Um conjunto significativo de crenças, dogmas e doutrinas nos tem sido posto
como se sempre, desde a eternidade, fosse assim, sem que sua gênese fosse
interrogada. Cremos, sem contestação, que há uma ordem no Mundo e que esta é
necessária, pois nos é dito que tal ordem foi, desde sempre, determinada por
Deus, cabendo-nos conhecê-la e submetermo-nos incondicionalmente a ela. Admitimos
uma ordem no Mundo de um mundo fechado, onde política, religião, ciência,
moral, etc. estão imbricados e co-dependentes.
6 - Entre
os primeiros quatro séculos da era cristã, os amigos dos amigos de Cristo
sofreram embates no campo social, político, filosófico e religioso, que
culminava, em muitas das vezes, em suas mortes. Isto exigiu daqueles homens e
mulheres criatividade, inteligência e uma capacidade singular de síntese, ou,
de “synkrasis”,
como nos é proposto por Jaeger. Eles foram competentes
em estabelecer uma síntese entre um pensamento estruturado, bem defendido e
difundido oriundos dos escritos de Platão e re-elaborados por Plotino, com os escritos dispersos e menos sistemáticos que
representavam as palavras de Jesus e os escritos dos amigos de Jesus e dos
amigos dos amigos de Jesus. Foi feito um esforço muito grande para, ao olharmos
pelo microscópio hermenêutico, lermos filosoficamente
um conjunto de textos dispersos que em absoluto não tratam de filosofia, mas tão
somente um modo de descrever as relações entre humanos e a vida a fim de
produzir o Reino, isto é, agir em prol do aparecimento do Reino segundo ouviram
Jesus propor.
7 – Os amigos
dos amigos de Jesus eram perseguidos ao serem acusados, inclusive, de ateísmo e
de pôr em perigo a ordem política e social, e nisto temos pistas valiosas de
como estes pensavam e agiam: como aqueles que questionam a ordem política,
social, religiosa e familiar. Assim como pesava sobre eles as acusações de não
terem uma elaboração filosófica consistente, e isto também nos indica como seus
escritos estavam desprovidos de interesse sistemático-filosófico, antes eram
fragmentários e dispersos. Para nós hoje estas acusações parecem irracionais,
pois o cristianismo vê-se como o representante supremo do teísmo,
defensor de uma cosmologia cristã filosoficamente sustentada (ainda que não
mais sustentável), compromissado com a ordem social e política instaurada:
cristianismo é, em boa medida, conservadorismo sócio-político-filosófico.
Contudo, nem sempre foi assim, pois os do caminho não se fiavam num lugar
seguro, num edifício solidamente robusto, cujo fundamento não era necessariamente
imutável: eles esperavam a ruína do Templo, como havia dito Jesus. O sujeito
cristão era caracterizado mais pela metanóia e em nada por ter um lugar para reclinar a cabeça. O razão cristã era nômade e peregrínica,
não encontrando em uma nação, numa língua, numa religião, numa família específica
suas referências primárias.
8 – Parece-me
que era exatamente esta ausência de configuração de um mundo fechado em
fronteiras encasteladas e suportado por fundamentos estáveis, certos e imutáveis,
que permitiu àqueles amigos e amigas dos amigos e amigas de Jesus negociar com
a filosofia corrente sem abandonar (pelo menos naquele momento) o Núcleo Firme
de suas crenças e valores mais fulcrais. A filosofia
foi uma concessão, uma permissão face ao ônus do sofrimento e da perseguição e
não uma demanda interna destes que se reuniam para
festejar a vida, a liberdade, os novos valores em um mundo mais justo onde não
haveria livre ou escravo, judeu ou grego, homem ou mulher, rico ou pobre. O Núcleo
Firme difere do fundamentalismo ali mesmo onde o Núcleo Firme é o amor gracioso
e não dogmas e certezas. Aquele que, sem conceitos, toca os que caminham sem
dizer-lhes como caminhar. É muito menos rastros e trilhas deixados na floresta
e mais indicações de como cada passo deve encontrar
sua gravidade própria. O Núcleo Firme é uma paixão, um fogo, uma voz intraduzível
que move os amigos e amigas dos amigos e amigas de Jesus no mesmo sentido que
moveu Cristo: o sentido da terra, do próximo, da vida.
9 – O Mundo
que os amigos e amigas dos amigos e amigas de Jesus estavam elaborando,
antevendo, profetizando, edificando partia da ruptura com os deuses domésticos
(os lares, seus cultos e suas divindades que fixava o indivíduo no coletivo
tradicional. A igreja dos amigos e amigas dos amigos e amigas de Jesus se reuniam nas casas, não para cultuarem os ancestrais e seus
deuses, mas para uma festa, a do ágape, onde festejavam a presença do outro
como corpo do Cristo), com o pater família (a hereditariedade do poder absoluto centrado
no homem primogênito: falopoder. A igreja era, no
dizer do autor de Hebreus, o espaço onde todos, homens e mulheres, formam uma
nação de primogênitos), com os vínculos gentílicos (com a determinação genética
que segrega os gregos/romanos dos bárbaros, os filhos de Abraão dos goi. Abraão, para a igreja, não é um pai mítico e biológico,
mas pai da fé que une todas as gentes), com as ordens tradicionais do mundo (a
hierarquia, o sacerdócio, a cosmologia. Na igreja todos são sacerdotes, e
Cristo está em todos), com as limitações da língua familiar (os civilizados e
os estrangeiros. Enquanto os Judeus falavam a língua de Deus, o hebreu, os
gregos e os romanos tinham sua língua, em Pentecostes a igreja fala a língua de
cada povo e cada nação), com as fronteiras políticas, com as leis imperiais (a
igreja se move pela chama do universalismo). O mundo destes homens e mulheres (os
amigos e amigas dos amigos e amigas de Jesus) era um produto direto da utopia
do Reino de Cristo. O Reino, para estes, não seria nem comida nem bebida, mas
justiça, paz e alegria, isto é, o indizível do encontro amoroso com o próximo.
10 – Os
amigos e amigas dos amigos e amigas de Jesus descobriram, avant la lettre, que
o movimento do Emanuel não era um ensinar um caminho de retorno ao Paraíso, mas
um desejar e labutar para que um lugar mais justo, apaziguador e prazeroso
fosse sempre buscado, indiscriminadamente, como crítica infinita e infindável
das condições estruturais de um mundo ordenado pelos homens que, sonegando a
interrogação, submetem muitos sob a tirania do poder de alguns. Os amigos e
amigas dos amigos e amigas de Jesus não estavam interessados em doutrinas,
dogmas, filosofias, ritos e mitos, mas em algo mais perigoso: um mundo sem
deuses (seus templos, seus sacerdotes, suas leis arcaicas, seus ritos), sem imperium (seus reis, seus exércitos, seus castelos, suas
fronteiras), sem línguas (posto falarem todas as linguagem e todas as línguas),
sem tradição a não ser aquela de estar sempre com aqueles que estão na cruz. Eles
não tinham a pretensão de um mundo unificado, harmonizado, pois tais não eram
suas questões, sua questão era a vida justa, alegre e em paz. O que criam era numa
escatologia de um Mundo como Reino de Deus.
11 – O Reino
não é um edifício sob o qual tudo estará unificado, que se edifica
continuamente e coerentemente, autonomamente e integralmente, pois que assim
deixaremos de caminhar, de peregrinar, abandonaremos nosso nomadismo. O Reino não
é uma fórmula que garante a unificação do céu e da terra, a instância para fora
da experiência possível e a instância das limitações da existência. O Reino é
referenciado pelo indescritível da graça amorosa, que somente podemos nos
aproximar quando vemos um dos pequeninos passando fome, sede ou nudez, e como
se este fosse o Cristo, damos de comer, de beber e o vestimos. Certamente que
quando dermos de beber, de comer e de vestir, descobriremos que ainda não demos
de beber, de comer e de vestir, pois o Reino nunca é plenamente apreendido em
palavras e gestos. Sempre seremos devedores do amor indescritível e inapreensível.