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Ha biru

Milhares de anos nos separam. Não podemos mais ter a pretensão de imaginar que este Texto em português, que hoje lemos traz a exatidão daquilo que um dia foi dito, ouvido, interpretado, re-escrito, traduzido, atualizado. Mesmo se dissermos, “este Livro é a Palavra de Deus”, temos que fazê-lo com todos os cuidados e requisitos de quem sabe que nunca aqueles homens e mulheres falaram o português e não há a hipótese de um retorno ao Éden. É provável que muitos destes homens e mulheres nunca pisaram a terra. O Livro não é um mapa do tesouro, aquele que está enterrado entre o Pison, Gion, Eufrates e o Tigre, ou um guia para um futuro paradisíaco pré-escrito, nem mesmo um manual de conduta para os tempos presentes; antes, parece-nos serem relatos de audições do inaudível marcando a existência de homens e mulheres entre homens e mulheres. Um livro cuja voz que fala da liberdade, da justiça, do amor e da graça, mesmo que não saibamos o que seja liberdade, justiça, amor e graça. E é exatamente isto a voz, ou seja, uma fala que não sabemos tornar em conceito. O Livro que está ai traz traços daquilo que porventura se deu na história, mas mantém escondido sob os escombros das redações, interpretações, traduções algo que somente pode ser buscado como chama e fogo original: o dizer indizível, inescriturável de Deus sobre a liberdade, justiça, amor e graça.

Certamente que estamos tomando como referência a interlocução sadia de quem se permite questionar o Livro, aquele que temos lido, e perceber nele as distâncias que nos separam de um possível original. Nosso diálogo não inclui o fundamentalismo radical daqueles que dizendo, “assim diz o Senhor”, aponta para o texto e referencia nele a Verdade. A Verdade não está em questão, pois ela também não está nas palavras, mas no caminhar. Nós, como interlocutores, não temos em mãos a Palavra de Deus em português, mas um texto de onde devemos escavar a fim de procurar rastros originais da voz de Deus, que não é passível de nenhuma escritura, traduzidas por palavras humanas, sócio-historicamente comprometidas.

É este abismo entre o indescritível do inaudível e a escrita humana como tradução da voz original que deve nos manter em busca da arqui-paixão. É este mar sem fundo que separa dois desertos que não é passível de apreensão, mas que deve ser cruzado: o deserto do sublime e o deserto das relações vitais. Aqueles homens e mulheres que cruzavam mares entre desertos, deixaram pai e mãe, a herança, o lugar de referência e andaram tateantes para o novo. Este desconhecido que os moveu, este passo inicial sem parceiros, este caminhar sem companhia, marca a vida daqueles homens cuja verificabilidade história é impossível. De fato nem mesmo nos importa a verificabilidade de suas existências. Estes homens, hebreus (Ha biru, Apiru), no sentido de sua disposição a pôr-se a caminho sem paridade, não se moveram nem pelo essencial e nem pelo material, nem pelo maior e nem pelo menor, nem pela Verdade e nem pela mentira, nem pelo certo e nem pelo errado, mas andaram pela terra por algo original, vital, primordial. Os antigos chamavam de “ha biru” aqueles nômades do Crescente Fértil e o nome de hebreu tanto pode se referir aos “ha birus”, aqueles que cruzam os rios, quanto de Heber, ascendente de Abrão, aqui, em nossa metáfora, utilizamos hebreu como “ha biru”.

Aqueles homens e mulheres moviam-se e este movimento de desvinculação original, os fez dirigirem-se aos desertos crendo no arquimpulso impossível de linguagem. Entre o sublime da voz inaudível e o sublime da vida, há este mar sem fundo, sem linguagem, sem fala que exige o passo, o ir, o mover-se. É o pai Abrão que atravessa os muros de uma antiga cidade inexistente, movido por uma voz sem som: vá a uma terra que ainda não sabes onde é, mas deixa teu pai e mãe, tua terra, tua parentela, tua herança. A realidade de Abrão somente interessa aos empiristas realistas cuja fé é fundamentada no real, no existente, no tangível. Antítese da fé que exclui a vista. Eles procuram o Éden, a Arca de Noé, Abraão, Moisés, a fim de firmarem sua fé no: “está ali mesmo a prova que a Bíblia fala a Verdade.” Tal Verdade somente interessa a quem não tem fé. Mas a fé de Abrão é aquela que reclama dele o abandono das referências primárias e mover-se para algo a saber. Ele é chamado o pai da fé. Fé que é a tradução possível do ato humano de resposta ao inaudível, é pôr-se no mar da inverificabilidade de uma voz inaudível. É se mover à meia-noite tendo como luz apenas o “ide”, uma clareza pontual, pessoal, íntima, local, inegociável, impartilhável, inexplicável. Mover-se a despeito de...

Abrão rompe com as estruturas de seu tempo, aquelas referências horizontais que todos temos, e anda para fora de sua geografia e de sua sociedade, desfazendo vínculos milenares. Abraão é peregrínico, forasteiro, nômade (ha biru), não construindo casas, vilas, cidades, mas movendo-se continuamente, pois nele estava a inquietação de um desejo de tradução de um “ide” original. Abraão não é o pai da fé dos amigos dos amigos de Jesus por que alcançou no fim de sua vida a concretização do “ide” original. Não é o pai da fé dos amigos dos amigos de Jesus porque era um possuidor de coisas, um vencedor, mas o foi por ser peregrino, forasteiro, nômade, utópico. Pois, o “ide” original não é passível de alcance, ele é herança às gerações vindouras. Abraão não teve em suas mãos o fato prometido: a herança e o herdeiro. Abraão é pai dos hebreus, daqueles que se movem em contínuo, nunca construindo sólidos edifícios, Torres, Santuários, lugares de habitação. A vida de Abraão não é marcada pelas referências horizontais, pelos fundamentos sólidos, pelas cidades fortificadas, mas são marcas nas areias desérticas que são removidas pelos ventos, ou ondas que perdem seu ímpeto ao se distanciarem do epicentro.

Abraão é antítese de Babilônia, é anti-Babel. Babel, a Casa de Deus, Torre edificada sobre uma mesma língua e mesmo modo de falar. Babel: doutrinária, dogmática, legalista, fundamentalista. Babel, o edifício fincado na terra, fundado na solidez das estruturas, na grandeza e altivez do que saindo da terra eleva o homem até as alturas do céu. Babel, a Catedral da Fé, a Torre que promete estabelecer uma ponte entre a Terra e o Céu, por meio da qual o homem poderá ascender, retornar até Deus e firmar ali seu nome eternamente. Torre que utiliza da massa padronizada, entijolada, reproduzida indefinidamente, posta e superposta e vinculada por betume. Babel, o livro de pedra fundamental que pereniza o nome do homem. Babel aquela que é construída pelo guerreiro, vencedor, valente caçador. Babel é edificação sobre a positividade discursiva, em meio à inflexibilidade semântica, através da clareza absoluta das palavras comuns, do dicionário da língua perfeita. Babel é a língua que subjuga tudo a seus propósitos utilitários. Mas, anti-Babel é o que está no lugar dela e a ela se opõe, que paralisa e dispersa seus trabalhadores escravizados. Abraão é o homem que em Ur falava a língua dos Caldeus; na Palestina falava a língua das tribos que ali viviam; no Egito falava a língua dos egípcios. Habitava em tendas, movendo-se por toda a vida.

O último “ha biru” filho de hebreu, no entanto, cruzou o Jordão carregando os rolos do Livro da Lei escrito em sua língua tradicional, a língua dos deuses. Por isso o pai da fé é o hebreu Abraão e não Moisés. Por isso os filhos de Sara tipificam a Igreja e os filhos de Agar a Israel. Em Pentecostes a Igreja retorna à paixão original de Abraão, mas não encontra o Éden abraãmico. Antes, move-se pela chama da multiforme sabedoria de Deus a qual se dá como linguagem múltipla entendida por todas as tribos e nações. Ser hebreu é ser cruzador de rios, navegante de mares que separam realizando diferença. Ser hebreu é romper com as referências horizontais que forçam nossa vista ao olhar para as evidências realistas e, movidos por uma voz indizível, desfazer heranças dirigindo-nos a um lugar de insegurança. O “ha biru” está no interior dos mares, no espaço limítrofe da sanidade, nas fronteiras internas do deserto, na angústia absoluta de um viver nadificado. No entanto, o hebreu refaz sua existência num olhar que aponta para o outro messiânico.

Mover-se de um deserto ao outro separado por mares abissais, ante-vendo o messias. O “ha biru” é o que percebendo que uma linguagem que outrora foi libertadora, promovedora de justiça, amorosa e graciosa, mas que num novo tempo tornou-se instrumento de servidão, de martírio, de escravidão, deve ser abandonada em prol de novas metáforas, as quais promovam o abrir das cadeias. O “ha biru” abre o livro que teima em estar fechado, e lê nele: “O Senhor me ungiu para libertar os cativos...” O hebreu, o nômade de palavras, o que deixa um deserto através dos mares, vê outra margem como um lugar de cadeias abertas, curas, provisões e para lá se dirige com esperança. O peregrino é o que caminha entre palavras, línguas e linguagens, sempre, sem nunca encontrar seu lar, uma descrição acabada e perfeita que porá fim nas injustiças humanas. Neste ou naquele país, nação, povo, tribo não se detém para sempre, mas seu “ide” original o lança às novas possibilidades, novas paisagens, novos lugares desgraçados. O hebreu luta contra os tiranos que cativam seus amigos, até libertá-los. O “ha biru” não encontra lugar de descanço. O hebreu não sabe qual é o objeto de sua fé. Os amigos dos amigos de Jesus não conhecem a Lei.