Quo Vadis?
Ao
lermos os Atos Apócrifos dos Apóstolos reforçamos a suspeição de que o Imperium
e o Sinédrio ao perseguiram os primeiros amigos de Jesus, e anteriormente a
estes, o fizeram motivados por razões sócio-político-religiosa: estes homens e
mulheres eram acusados de causar transtorno na ordem social e de serem ateus. O
próprio Jesus o Cristo já havia sido acusado de baderneiro (comia e bebia com
publicanos e prostitutas) e de profanar o nome de Deus ao se auto-intitular
Filho de Deus. Contudo, por mil e oitocentos anos temos ouvido a opinião (por
parte daqueles que são os responsáveis pela produção e manutenção da teologia
cristã hegemônica) que Jesus morreu pelos nossos pecados a fim de que ao
morrermos possamos ir para o céu, assim, as coisas aqui na terra são como são
para provar nossa fé. O homem tendo pecado separou-se de Deus, fazendo-se
necessários sacrifícios para que pequenos portais se abrissem e permitissem
breves possibilidades de comunicação entre YHWH e o homem. Jesus o Cristo seria
o sacrifício maior, o qual abriu em definitivo este caminho de retorno da alma
a Deus. A espiritualidade cristã estaria em manter os olhos voltados para as
coisas lá do alto e não as daqui da terra, pois de lá vem o que é eterno, imutável,
incorruptível, verdadeiro, justo, bom.
Segundo
esta opinião majoritária, chamada de ortodoxia (doxa é a palavra grega que
traduzimos como opinião), a nossa alma pode ser salva mesmo quando nosso corpo
se corrompe, portanto, devemos nos voltar para o que salva a alma ainda que
nossa carne venha a perecer, seja consumida em sua própria corrupção, ou sofra
por conta das perseguições. Tudo isto traz em seu bojo um profundo abandono da vida
como o estar na terra, no mundo, e uma sobrevalorização, antes, uma univaloração
da vida após a morte, voltada para o eterno. O cálculo é simples: por mais
longa que seja a nossa existência na carne, a eternidade sendo infinita
transforma o tempo finito em um ponto sem gravidade, infinitesimal. A matemática
é simples: melhor sofrer algumas décadas num mundo destinado à destruição futura
e garantir uma vida de plenitude de gozo no que é eterno, do que voltarmo-nos às
coisas passageiras dos prazeres carnais e sofrer o resto da eternidade no
inferno. O mais puro utilitarismo da fé.
Mas,
podemos suspeitar que há outros rastros (esquecidos, apagados, desviados,
soterrados, banidos, alijados, subvertidos, profanados, violados, sodomizados),
aqueles que apontam para um movimento do Cristo e de seus amigos, e este se
dando num sentido inverso. Os evangelhos começam com o relato da proclamação,
ou, revelação do Emanuel, o Deus Conosco (em Mateus) e do Logos encarnado (em
João), isto é, de Deus para a criação. Certamente que estes dois escritos serão
reinterpretados pela lógica do bumerangue: Deus encarnado que propicia o
retorno de nossas almas a Deus. É apenas a alma que está em questão neste
momento. No entanto, a oração do Pai nosso quando nos diz, “venha a nós o vosso
reino e seja feita a tua vontade na terra como é feita no céu”. Trazendo
presente o sentido descendente que confere força e gravidade a estas palavras.
De igual maneira a pregação do Reino (como o que está entre nós e em nós) nos possibilita
interrogar aquela opinião bumerangue. Questionando a Torre de Babel, ou seja, o
edifício que posto na terra eleva os homens até o céu, à presença de Deus, podemos
ter outras opiniões (não teóricas, apenas opiniões: heterodoxia) sobre a vida e
pregação do Rabi e seus amigos. Opiniões centradas não num ir para Deus, mas
num inesgotável movimento de revelação da paixão original divina pela liberdade
e justiça entre os humanos, como encontro entre a palavra e a ação e isto como perversão
da ordem social e operando contra as instituições religiosas. E assim encontrar
em nossas rotas de fuga com o Emanuel, aquele que se entremete na vida que poderia
ser a nossa. Vidas que têm sentido quando questionam o Imperium e o Sinédrio,
aquelas estruturas poderosas que sonegam aos homens e mulheres a liberdade e a
justiça. Imperium e Sinédrio que se auto-preservam e se auto-justificam como
ordem necessária e que são suportadas pelo sim e amém dos deuses, helohyn. Contudo,
a Igreja Hegemônica, como um Sinédrio Medieval e que se extende desde a modernidade,
há muito se tornou parte essencial do Imperium e o Imperium se tornou religião.
Perverter
a ordem social e religiosa é perspectivar nossas vidas a partir do sentido do
Reino e, tal qual o inaugurador deste Reino, conferir uma visada Emanuelizante,
isto é, trazer a gravidade de um voltar-se para o outro na mesma medida que
Deus voltou-se para nós. Reino como metanóia. Em outras palavras, enfrentamento
do medo de opor-se ao que está invertendo e pervertendo a justiça e voltar-se
ao próximo como lugar privilegiado por Deus. O Reino é retornar ao que Deus pos
como sentido de envio, desviando-se do que o homem produziu como divino. E isto
tudo são opiniões e como tal traz a perversão da transitoriedade e da
instabilidade. O que se pode perceber, ainda, é que o Reino não aponta para o
alto, mas para o próximo. Ora, tudo isto interpretamos pela perspectiva original
de uma escritura apócrifa: “Os Atos de Pedro”, segundo Hans-Josef Klauck nos
descreve.
Relata-nos
Klauck que um homem chamado Albino era casado com uma mulher de nome Jantipa.
Esta, influenciada pela pregação de Pedro, recusa-se a manter relações com seu
marido. Assim, este homem, governador da Judéia, decide vingar-se de Pedro
promulgando sua morte. Jantipa e os outros amigos e amigas o persuadem a fugir,
a fim de manter-lo vivo. Pedro foge de Roma disfarçadamente. Porventura, como
ocorrera em outras vezes, esta fuga do Apóstolo poderia ocasionar sansões aos
seus amigos e amigas que lá ficaram. Mas, o relato nos fala que enquanto Pedro
saia da cidade em fuga, “encontra-se com o Senhor, que entra na cidade. Pedro
lhe pergunta: Senhor, Quo Vadis? (para onde vais?) Ao que respondeu: vou para
ser crucificado. Pedro insiste: Senhor, vai ser crucificado novamente? O Apóstolo
entende a mensagem. O senhor sobe ao céu e Pedro regressa à cidade.” A
este relato emocionante e inspirador, segue o comentário de Klauck: “Este episódio
não é unicamente uma reprovação suave a Pedro, senão que também tem o objetivo
de ilustrar a convicção de que em todo mártir (no grego significa testemunha) é
o mesmo Cristo quem, por assim dizer, sofre a morte novamente.” O
martírio, entendemos, não seria a condição necessária para ascender ao céu, mas
resultado possível deste mover-se para onde Cristo se move. Cristo vai ao
encontro da igreja sofredora no corpo do Apóstolo e este ir apostólico em prol
do próximo profana a ordem política e religiosa de seu tempo, a qual reage com
a aplicação do poder de martirizar, e o faz pela cruz.
A
descrição do motivo e maneira como este homem foi morto nos é ainda mais
impressionante, apaixonante. Diz-nos que quatro soldados levam Pedro até Agripa
que “o condena a ser crucificado por ateísmo (uma típica acusação romana
dirigida contra os cristãos)” Lembremos
que Pedro profana a ordem social quando as mulheres não mais aceitam ter relações
com seus maridos (as causas desta indisposição sexual merece ser melhor
atentada), mas é julgado por profanar os deuses. Pedro, diante da cruz na qual
seria executado discursa e “afirma que compreendeu por completo o oculto mistério
da cruz: esta não é o que a percepção dos sentidos nos indica, a saber, o
instrumento de uma execução vergonhosa. A percepção mais profunda da fé
compreende que é uma participação no sofrimento de Cristo, a qual conduz à
salvação.” Pedro,
então, pede que seus algozes o crucifiquem de cabeça para baixo e este pedido
do Apóstolo não reflete humildade e desejo de não se igualar ao Mestre, como
quem dissesse que não desejaria ser crucificado na mesma posição de Jesus. Mas,
como nos relata Klauck:
a posição de Pedro de cabeça para
baixo simboliza a natureza humana caída. Pelo pecado do primeiro ser humano,
tudo no mundo se colocou de revés e está deformado: a direita parece esquerda e
o mal parece bom. Isto é o que disse o Senhor (em um agraphon): “Se não
considerar o destro como o esquerdo e o esquerdo como destro, o de acima como
abaixo e o que está atrás como que estando adiante, não compreendereis o Reino”
(Evangelho de Tomé 22). Sob as condições de pecado, esta inversão significa o
restabelecimento da ordem das coisas originais e corretas. A cruz de Cristo é
uma expressão manifesta da natureza humana-divina do Redentor e de sua propagação
pelo mundo como a Palavra de Deus.
Mais do
que reproduzir o discurso que impõe uma leitura desenraizada e desterrada a
este acontecimento, podemos nos deixar levar por uma interpretação tal que este
texto nos fale da ordem invertida do Mundo. Por esta via que se nos abre aqui,
então, o pecado original poderia ser entendido como a própria propensão humana,
sempre inaugurada em cada um, em fundar e fixar o poder numa hierarquia como se
tal fosse uma ordem divinamente determinada. O pecado como tirania do tirano,
ou seja, aquele poder que escraviza: o homem que escraviza a mulher, o rico que
escraviza o pobre, do clero que escraviza o leigo, o empregador que escraviza o
trabalhador, fundada numa pretensa soberania eterna, determinada pelos deuses. Cabe
ressaltar que o Apóstolo ao falar sobre sua morte na cruz pelas mãos de Agripa,
diz que este age motivado por Satanás e não cita uma possível humanidade decaída.
Sobretudo, Pedro ao acatar a cruz, tal qual Jesus, impõe ao poder sua própria
condenação. O poder, aquele que vem de cima a baixo como se assim o fosse
porque sempre foi assim e pelos deuses foi determinado assim. O poder que martiriza
exemplarmente, espetacularmente, expondo no palco das representações o profano,
espera dos demais a obediência amendrontada. Mas o mártir ao se entregar ao
martírio demonstra a ineficácia do Imperium e do Sinédrio por não temer a força
deste poder, assim como, ao ser exposto, expõe a própria obsolecência do poder diante
do amor daquele que se volta ao próximo como um Cristo que retorna à cruz,
novamente. Aquele que não tem poder é mais poderoso que aquele que empunha as
armas e a ortodoxia. De fato o amor gracioso de Jesus e de seus amigos profana
o poder ao expô-lo na cruz, despojando os seus agentes de sua força. Não o
poder que transita em um mundo povoado por um exército organizado de demônios e
diabos, mas um Mundo povoado pelo Imperium (arché em grego e principado em
português) e pelos sacerdotes do Sinédrio, pelos promulgadores da Lei e pelos que
impõem a ordem política. Um Mundo onde a ortodoxia se faz cumprir pela imposição
das armas do Imperium, onde a Lei se faz cumprir tão somente pelas armas. De
fato Jesus e seus amigos ao irem ao Mundo e apregoarem o ano aceitável ao
Senhor, libertaram os cativos da tirania do Imperium e do Sinédrio, abrindo os
portais ao Reino. Jesus e seus amigos atualizam a Primeira Páscoa, libertando o
povo da escravidão do Egito e apontando a uma terra de liberdade e justiça. Infelizmente
aqueles demônios continuam atuando por conta da mentira, aquela que insiste em
eternizar o poder por meio de produções dogmáticas e ortodoxas que apelam para
um fundamento ilusório. Resta-nos a pergunta vinda do Cristo que se pode
encontrar a caminho: Quo Vadis, Ecclésia?