Eschaton Epistole
Derrida diz que “só existe perdão, se existir e onde existir o imperdoável.” Sinteticamente
poderíamos dizer que uma mensagem somente existe sob a sombra de uma última
mensagem. É exatamente neste ponto de uma possibilidade escatológica epistolar
que se encontra um amigo, não em sua presença identitária e imediata, mas na
presença escatológica de quem podemos sempre ter uma última mensagem. Há
escritos que já nos remetem a esta amizade final, os quais pretendemos por eles
passar.
Em Aristóteles
quando há um sentimento de boa vontade recíproco, então podemos chamar tal
afeição de amizade. Contudo nos dirá o filósofo grego que não é possível a
amizade quando envolver utilidades ou a busca de prazeres, pois que não se
amará o amigo, mas o que se poderá obter dele. Por outro lado a forma perfeita
de amizade se dará entre indivíduos bons e semelhantes quando a virtuosidade,
uma vez que podem amar ao outro por ele mesmo e não pelo que dele poderá obter.
Uma vez definido a condição prévia da amizade: o sentimento de boa vontade
recíproca entre indivíduos bons, agradáveis e virtuosos, Aristóteles diz que a
amizade é rara, devendo ser cultivada na presença mútua e constante entre os
amigos. Também nos fala, ainda, que “ao amar o amigo amam seu próprio bem, pois
o indivíduo bom ao se tornar querido ao outro se torna o bem deste outro.”
Para o filósofo, aqueles que ocupam posição de poder, suas amizades se dão por
prazer ou por utilidade e nunca de maneira plena, pois “as formas de amizade
que mencionamos envolvem igualdade”
nas condições de poder e riqueza, assim como similaridade nas virtudes. Para
este não há a possibilidade de amizade entre opostos (entre homem e mulher,
senhor e escravo, homem bom e mal, etc.), mas, tão somente, entre iguais e similares.
E, por outros motivos, não há possibilidade de amizade entre pais e filhos,
irmãos e esposo e esposa. A primeira por haver uma desigualdade de virtudes entre
pais e filhos; a segunda dependerá da igualdade e similaridade de cada um,
portanto, não sendo determinada a priori pelo nascimento; e a terceira por
haver interesse e prazer envolvidos na relação. Para esta tradição, somente ao
homem, entendamos o humano masculino e grego, era possível a amizade por sua
condição na Polis. De fato, a amizade é a condição de possibilidade da Polis,
pois, sem o sentimento de boa vontade recíproca e a confiança mútua não pode
haver Cidade.
Marco
Túlio Cícero, político, escritor e orador romano que viveu entre 106 a.C. até 43 a.C., também nos deixou um
escrito “Sobre a Amizade”,
tendo aberto sobre a mesa a Ética Nicomaquéia. Cícero, na voz de Lélio, lamenta
a morte de seu amigo Cipião, mas diz que “com ele compartilhei preocupações
políticas e problemas particulares; com ele convivi em tempo de paz e durante a
guerra; enfim – e aí reside a própria essência da amizade -, nossos desejos,
nossos gostos, nossas opiniões concordavam perfeitamente.” Neste
dizer de Lélio, já podemos perceber que a amizade se expande do político para o
privado, ainda que haja a prevalência do primeiro. Mais adiante Lélio nos dirá
que a amizade está acima de todos os bens, mesmo na prosperidade quanto na
adversidade e, fazendo eco a Aristóteles, nos diz que somente é possível a
amizade entre pessoas de bem.
Em continuação lemos que “a amizade nada mais é, com efeito, que um
entendimento perfeito em todas as coisas, divinas e humanas, acompanhado de
generosidade e afeição mútuas”, o
que, novamente, ecoa o filósofo grego. Numa passagem brilhante, Cícero nos fala
das vantagens da amizade, dizendo, introdutoriamente, que a amizade faz com que
haja “uma vida que valha a pena ser vivida”,
somando-se ao fato que “a amizade torna mais brilhantes os dias felizes e mais
leves os dias adversos”.
E, complementando esta passagem feliz, podemos ler que a amizade
inspira uma fagueira
(que afaga, suave, agradável) esperança que ilumina o futuro e não permite que
os ânimos desfaleçam ou se apequenem. Porque aquele que tem diante dos olhos um
amigo verdadeiro vê, de certa forma, sua própria imagem ideal. Desse modo, os
ausentes se fazem presentes; os pobres se tornam ricos; os fracos, poderosos e,
o que é mais incrível, os mortos continuam vivos.
Para
Cícero, diferentemente de Aristóteles, a ausência não diminui a amizade, mas o
amigo está presente mesmo após a morte, este que, de certa forma, é o meu eu
ideal visualizado naquele. Afastando, igualmente, da amizade a utilidade e o
prazer, para Lélio “na amizade, não há nada de fingido, nada de simulado: tudo
é verdadeiro e sincero.” O
sentimento de amizade advém da simpatia e da honestidade, quando cada um não
necessitando do outro encontra nele o amigo. Mas este amigo será, também aqui,
o igual e o similar. Nisto podemos ressaltar os limites da amizade: “entre
amigos cuja moralidade seja irrepreensível, bens, projetos, anseios, tudo, sem
exceção, deve ser posto em comum”,
a não ser quando o amigo deseja algo que seja contrário à justiça. O amigo,
diferentemente do pai e do irmão, é uma escolha pessoal e a base sólida desta
escolha é a sinceridade e a confiança, sabendo que a amizade se funda na
observação de suas regras: evitar tudo que seja fingido e tudo que seja
simulado. Ademais, caso haja disparidade entre os amigos, “na amizade, é da
maior importância que nos coloquemos ao nível do inferior.” Enquanto
em Aristóteles as diferenças dificultavam a amizade, em Cícero tais diferenças
exige do maior seu esvaziamento em prol do menor. Sabendo que a amizade
consiste em fazer com que as duas almas sejam uma só, então, amigo é aquele que
é sincero ao dizer ao outro de suas inconstâncias e desvios de caráter, e ao
outro cabendo ouvir e refletir. Desta maneira podemos fechar esta longa citação
de Cícero lembrando que
devemos sempre andar
em busca de alguém a quem amar e por quem ser amado. Pois uma vida privada de afeição
e de simpatia é uma vida sem graça alguma. Para mim, embora Cipião me tenha
sido repentinamente arrebatado pela morte, ele vive e ainda viverá: pois o que
eu amei foi sua virtude e essa não morre.
A morte
e a distância não apagam a amizade, mas faz com que o amigo morto viva, ainda,
pela vida do vivo. Outro que nos escreve uma breve, mas arrebatadora, carta
sobre “Da Amizade”, foi Montaigne, a qual é inspirada na amizade com La Boetie. Também diante da morte
de seu amigo, diz que a amizade faz presente mesmo na ausência do amigo, o que
nos lembra Cícero. Encontramos em tal carta a seqüência da tradição
aristotélica-ciceroniana e os traços dos escritos que lhe precedeu, isto é,
Montaigne lê os escritos e escreve, ele mesmo, sua carta ao amigo morto. É a
amizade, um traço da natureza e o mais alto grau de perfeição da sociedade,
quem será tratada por Montaigne, sabendo-se que a “amizade nutre-se de
comunicação”
e é uma escolha, uma deliberação pessoal, que transcende os laços familiares. Para
Montaigne enquanto o amor é ciumento e possessivo, um desejo violento, a
amizade é “temperada e serena; sobremaneiramente suave e delicada, nada tendo
de áspero nem de excessivo.” Ademais,
na amizade “as almas entrosam-se e se confundem em uma única alma, tão unidas
uma à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de
demarcação”,
não havendo, como dirá o autor, nada que pertencia exclusivamente a ele ou a La Boetie, ou ainda, “que nos
pertencessem pessoalmente, que fosse dele ou meu”,
pois, são duas almas em um só corpo. A
amizade marca a identificação entre os amigos, isto é, suas almas se tornam uma
alma só. Também reverenciando a morte do amigo, Montaigne nos diz: “Já me
acostumara tão bem em ser dois que me parece não ser mais senão meio: ‘como uma
morte prematura roubou-me a melhor parte de minha alma, que fazer com a outra?
Um só e mesmo dia causou a perda de ambos’”.
Estamos
diante de uma longa tradição que inclui Platão, Agostinho e Foucault, além de
outros e também Jacques Derrida. Mas é a partir de uma leitura privilegiada do
trabalho de Foucault que Francisco Ortega procura redescrever a amizade. Para
este autor “o declínio da amizade nas sociedades contemporâneas esta ligado aos
processos de despolitização e familiarização do privado.”
Na antiga Grécia os laços de amizades entre os homens guerreiros estabeleciam
as condições de existência da Polis grega, sabendo que tais homens livres –
adultos e efebos – protagonizavam tais relações de cunho homo-eróticas. No
entanto, Ortega, após expor a amizade em Platão, Aristóteles e Cícero, aponta
seu declínio a partir da cristianização do Ocidente, tendo em vista que,
segundo sua leitura, de agora a amizade se coloca sob a égide da obediência.
Para ele “o termo philia aparece uma única vez em um sentido negativo, e philos
designa a relação de Jesus com seus discípulos, não sendo usado como descrição
de uma relação interpessoal: ‘Vocês são meus amigos se fazem o que eu ordeno’(João
15, 13-14)”
O amor se torna ordenança, para Ortega, o qual despreza por completo o espaço
próprio deste discurso de Jesus, ou seja, viola a estrutura do texto e a
análise deste discurso tomando um pequeno e isolado grupo de palavras. Violenta,
sobretudo, pois que a universalidade do ágape cristão não sobrepõe ou exclui a
philia. Em outro lugar, ao tratar da amizade e do amor no cristianismo, nos
dirá que
a philia será
rejeitada por seu caráter egoísta e instrumental, ao passo que o ágape
representa a amizade verdadeira, por não manifestar uma atração interpessoal. A
amizade natural, isto é, a atração individual, não é uma virtude, porque se
baseia em valores efêmeros e terrenos. Transformar-se-á numa virtude quando
estiver a serviço do amor de Deus e da credibilidade. Em outras palavras, a
atração individual pelo amigo deve se transformar, o amigo não deve ser amado
por si mesmo, mas por Deus. A philia torna-se assim caritas christiana, o amor
de Deus que une todos os homens. Caritas constitui a essência do amor do amigo
no cristianismo.
Parece-nos
que para Ortega a amizade de Cristo é a amizade devida pelo servo para com o
senhor. Neste sentido a philia de Cristo exige o doulos, a servo, a servidão
voluntária que hierarquiza as relações e que quebra a possibilidade da amizade.
Sabemos que em Aristóteles e a tradição por ele legada, expõe os amigos à
cidadania, assim como a Polis à Philia. De acordo com tal tradição os amigos
têm a mesma condição na Polis, cidade, onde a cidadania é confere o mesmo
direito à palavra e igual lugar na sociedade. Entretanto, cabe lembrar que a
cidade grega era estratificada internamente em homens livres, mulheres,
crianças, escravos e animais, além de definir fronteiras claras a partir da
razão, do discurso, da fala pública (logos), entre o “civilizado” e o bárbaro. A
participação política estava restrita a uma parcela diminuta e restrita de seus
moradores: os homens livres, e se nos atentarmos mais a Aristóteles, podemos
restringir a participação apenas aos aristos, aos melhores. A amizade antiga é
a amizade exclusiva aos homens adultos e aos efebos de uma mesma Polis.
Contudo, na eclésia cristã podemos perceber um movimento que confere
universalidade, pelo ágape, à philia, trazendo a mulher, a criança e o escravo
para o espaço das assembléias, da participação comunitária. Ademais, salientamos
que a palavra philo aparece 27 vezes no Novo Testamento, sendo que destas, 12
são no sentido positivo do termo, a amizade entre homens e mulheres, de maneira
não exclusiva.
Desta
maneira devemos nos lembrar que o mandamento que faz menção Cristo é: “meu
mandamento é este, que vos agapao (amem) uns aos outros...e conhecerão que sois
meus discípulos quando vos agapao (amem) uns aos outros.” Assim, não é sujeição
a um conjunto de leis e mandamentos heterônomos, impostos por um senhor a seus
escravos, mas um olhar ao outro que provê e promove igualdade, liberdade e
justiça, por meio do ágape. A invocação do ágape é a evocação da memória de um
Deus que se fez homem para ser amigo dos homens e, assim, desfazer a distância
entre os amigos, pela proposição inalgural de um Reino que está em meio da
eclésia amistosa. Contudo, é esta disposição original de igualdade, liberdade e
justiça (que questiona dinamicamente a estrutura de hierarquia aristocrática)
que provoca a irrupção da perseguição aos amigos do Cristo, sob a alegação de
ateísmo e desordem pública.
No
entanto, no transcurso dos séculos o ágape (posteriormente helenizado por uma
síntese do neoplatonismo com o cristianismo) passa ser o amor idealizado, ao
estilo neoplatônico, a um amigo ideal. Assim, mesmo soterrado por esta
especulação filosófica antiga e não originalmente cristã, podemos re-pensá-lo
tão somente como a alegria da presença do outro, do próximo, o que nos aproxima
do discurso de Jesus. O discurso de Jesus, em certa medida, dirige-se a um mundo
antigo obsoleto, segregado e segregacionista, que recorta a sociedade entre
civilizados e bárbaros; homens livres que podem falar livremente e aqueles que
guardam o silêncio na Polis. Obsolescência de um mundo que apenas tem philia na
presença do idêntico.
Relembramos
que na parábola da dracma perdida/encontrada (Lucas 15: 9) ele diz que a mulher
chama as suas amigas e festeja, algo, se não inédito, pelo menos radical em
meio a uma sociedade em que as mulheres estavam destinadas ao oikós, às casas,
e não ao espaço público onde se davam as amizades. Também Paulo escrevendo aos
Gálatas diz: “dessarte não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto;
nem homem e nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”
(Gálatas 3: 28). Mesmo sob grande perseguição a eclésia dos amigos de Jesus
souberam propor uma reconfiguração social em que a amizade entre todos fosse a
marca comunitária. No livro de Atos dos Apóstolos, o qual é dedicado a Teófilo,
podemos ler a radicalidade da leitura da amizade na comunidade eclesiástica, ao
ponto de terem tudo em comum, vendendo propriedades a fim de que os mais ricos
socorressem os mais pobres.
A
leitura reducionista que toma estrato do texto, dissolvendo-o numa intenção previamente
estabelecida, não expressa o trabalho posterior que a Grande Igreja teve em
sintetizar a teologia cristã com a filosofia grega. É, a nosso ver, este
trabalho secular de síntese, ou, como nos fala Jaeger, de synkrasis, que produz
o afastamento da philia amorosa de Jesus na comunidade eclesiástica e uma
deliberada Republicalização da Igreja, isto é, a formatação da Igreja como uma
República platônica, como nos propõe Ernest Barker. Esta
aproximação da Igreja à República, segundo Barker, se dá a partir do segundo
milênio da era cristã. Ressaltamos que o próprio Ortega salienta em seus textos
que é apenas no século XII que a philia deixa sua referência de amizade ao
próximo e ganha sua expressão de amor universal. É, em certo sentido, a partir
deste movimento da transformação da eclésia em República que a amizade ao
próximo torna-se amizade monástica entre os melhores cristãos.
Por
outra via, entretanto, podemos pensar que a philia (amizade) de Jesus opera em
prol da concessão de autonomia a indivíduos que igualmente passariam ter a
liberdade para a construção da justiça pelo encontro no diálogo. Uma vez que a
única lei, o único mandamento é o amor, abre-se o espaço para a re-elaboração
das relações, não mais marcadas pelo nomos tradicional quer do paganismo
grego-romano, quer da religiosidade judaica. Esta possibilidade de leitura pode
nos ocorrer quando desfazemos do anacronismo epistêmico de ler o texto à luz de
nossa contemporaneidade, lê-se hoje imputando sentido a um discurso original
antigo. Propormo-nos ler Jesus o mais próximo possível de sua originalidade, sob
o enfoque do que ele está dizendo há homens e mulheres de dois mil anos atrás.
Gravidade de um diálogo entre amigos, cujas palavras trazem o peso das transmutações
de valores propostas para um mundo regido pelo Imperium e por Yavé. A leitura
de Ortega já parte do sentido de philia que o cristianismo de linhagem ortodoxa
do século XXI confere, não retornando, genealogicamente, ao sentido original
que a philia de conferia.
Retirado
o peso dos escombros teológicos e das leituras filosóficas pré-concebidas
(heterônomas, à medida que apenas recoloca o discurso envelhecido da
modernidade), pensamos ser plausível perceber o que o Jesus na história pode
nos dizer ainda hoje. Ou seja, sua proposta em não nos chamar de doulos
(escravos), mas de philo (amigo), pois que ama seus amigos, a quem, embora
sendo totalmente outro, se apresenta como igual. Ao doulos é requerido o
serviço sacrificial aos deuses pagãos ou judeu, mas aos philos conclama-se amar
a Deus e ao próximo. É esta apresentação como igual e a escatologia do livro
aberto que tencionará as relações entre os amigos dos amigos de Jesus. É a
divindade humanizada que chama seus próximos não de escravos, servos, mas de
philos. É o divino que se esvazia na amizade com o que está diante de si, mas
que se mantém como eschaton espistolé, uma última mensagem, tencionado em torno
da diferença. É este amor divino no homem que o faz tê-los como amigos.
Por
outro lado, fala-nos Emmanuel Carneiro Leão, que a mística de Mestre Eckhart
nos faz pensar que “nós, raramente, nos damos conta de que não somos nós que
amamos. É o amor que nos ama, nos leva e nos faz amar o que amamos. Esta é a
vigência da mística em toda experiência.” O
amor não sendo uma atividade do humano, um buscar, encontrar e trocar, mas uma pura
serenidade do desprendimento no encontro. O amor é o êxtase sereno do
despreendimento de ter sido encontrado e encontrar sem a busca. A amizade se
inseriria neste encontro sem busca de quem passa a ver o diferente como amado,
amando. Não o amor à divindade presente no outro, como quem ama o Deus no
outro, mas amando porque Deus ama o próximo que é diferente. É o amor de um
Deus esvaziado que encontra no outro e em mim bases de amizade.
Jesus
rompe o ferrolho da tradição grego-romana (aristocrática e segregacionista) e
encontra para fora das fronteiras do “genos”, da gentilidade, a amizade ao
diferente: à mulher, à criança, ao escravo, ao bárbaro, ao goi (estrangeiro
para os judeus, mas que também significa cachorro). Não o outro que é amado
quando idêntico, ou quando se esforça na identificação (por absorção, ou
conversão), mas o amor em torno do êxtase na presença do que não é idêntico. O
amor (ágape) como êxtase do encontro, a alegria da presença, sempre incompleta
e a realizar, como eschaton. O Cristo endereça a amizade ao próximo entre
próximos e ao humano como o próximo do divino. Contudo não há a última carta, a
última angellia, a última mensagem, mas uma Eschaton Epistolé, aquela que será
escrita para o último homem.
Em
Cristo o amor ao amigo é escatológico em quatro dimensões: A primeira dimensão
é a da amizade que ama o próximo, aquele que está à distância da mão. O próximo
da comunidade eclesiástica, o próximo que vive no mesmo espaço político, na
Cidade. Mas esta proximidade não esgota a força da amizade escatológica de
Jesus. Há a segunda dimensão da amizade universal, isto é, do amor ao outro
como gênero, que faz romper as fronteiras genéticas e nacionais, as fronteiras
de gêneros e de estrutura social. A parábola do bom samaritano expressa esta
amizade para além fronteiras, assim como a amizade de Jesus por Madalena. A
terceira dimensão é a amizade do Cristo, o qual é homem e é Deus. É a amizade
que toma cada pequenino como Cristo, pois, “toda vez que fizerdes a um destes
pequeninos, a mim me fará.” A amizade pelo esquecido, pelo calado, pelo
infantilizado, pelo espoliado, pelo que não é “aristos”, e é diferente. Por fim
a quarta dimensão que é a da amizade transcendente, impossível, para fora do
espaço e do tempo. Ou, parafraseando, mais uma vez Derrida, somente há a
amizade onde não houver a amizade, ainda, só existe amizade, se existir e onde
existir o inimigo. Nas palavras citadas por Derrida, de Aristóteles: Oh,
amigos. Não há amigos! A amizade fundada no ágape, no diferencial do amor
cristão que se alegra com a vida incontivel.
As
palavras de Jesus aos seus amigos, numa dada perspectiva, podem ser
interpretadas não como dogmas, uma lei, um conjunto de ordenanças, uma
ortodoxia, que exige obediência irrestrita, mas pela via do véu que se rasga. O
véu está rasgado, o livro está aberto e o que antes foi dito aos antigos, de
então passa por uma releitura. Esta releitura na mesma medida que se fundamenta
no amor, reclama a amizade. O amor como alegria pela presença do outro e a
amizade que pressupõe o sentimento de boa vontade para cada um a fim de
encontrarem um espaço comum de vivência em meio a assembléia humana, inclusora
por excelência Assim como o véu se rasgou e o livro foi aberto às
re-interpretações, os muros fronteiriços foram derribados e as hierarquias
sociais foram questionadas. Na proposição de Jesus, o amor como alegre vínculo
das relações vitais, a amizade como sentimento de boa vontade para com o outro,
mesmo o inimigo, são a Eschaton Epistolé que se mantém aberta e que não nega
nem exclui outros escritos que nos enderecem a uma Polis melhor.