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Os dois filhos

Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; mas não foi. Chegando-se, então, ao segundo, falou-lhe de igual modo; respondeu-lhe este: Não quero; mas depois, arrependendo-se, foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram eles: O segundo. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. (Mateus 21: 28 a 31)

As relações que nós humanos desenvolvemos com outros humanos e com as demais coisas que nos cercam não podem ser reduzidas apenas a duas categorias: os bons e os maus; os brancos e os negros; os homens e as mulheres; os verdadeiros e os falsos; salvos e perdidos. Certamente, inclusive, que a natureza nem é boa e nem má. Não há moralidade alguma numa brisa do mar ou em um tsunami, num gato ou numa pomba, a não ser para aqueles que imaginam que nestas coisas há uma alma. Os seres não estão divididos entre os que habitam o céu e os que subvivem no inferno. Há uma complexidade nas relações entre coisas, maior do que aquelas que atribuímos, a qual excede este dualismo restritivo, marcadas pelas fronteiras entre os aliados e o eixo do mal. Esta divisão, esta marcação de exclusão entre o nós e o eles, somente serve à violência.

Por outro lado podemos simplificar, ou exemplificar de maneira a ressaltar os extremos intentando facilitar o entendimento daqueles que nos ouvem, ou nos lêem. Desta maneira deixamos de lado a categorização dualista e nos utilizamos de uma pedagogia facilitadora. Quando queremos ensinar uma criança a diferença entre o quente e o frio, apresentamos-lhe água gelada e água morna, mesmo sabendo que a temperatura da água não se restringe a estas duas. Está nesta simples e controlada diferença a disposição de um conceito mais amplo e complexo que não esgota o tema, mas aponta para uma infinidade de diferenças e aplicações. Quando simplificamos num exemplo não desejamos restringir as possibilidades a estes pólos, mas abrir a multiplicidade pela diferenciação simplificada.

No campo político, num passado recente, fizemos uso do recurso do extremismo das diferenças de opiniões a fim de determinar o modelo ideal para as relações sócio-político-econômico, em que cada indivíduo deveria estar vinculado. De um lado a direita e de outro a esquerda, confrontando-se continuamente. Este dualismo ideológico mostrou-se pior do que qualquer guerra religiosa anterior, quando lembramos a iminente destruição em massa da vida na terra, potencializada pelo conflito ideológico. Abandonamos este risco extremo ao nos afastarmos de tal concepção de mundo, e esta polarização já não mais serve para explicar as relações humanas nas sociedades complexas, aquelas que abriram mão destas narrativas políticas. Hoje acatamos um arranjo onde pessoas e grupos se colocam de maneira mais polimórficas e fluídicas.

Por exemplo, em certo momento pode ocorrer de uma mulher fundamentalista evangélica e uma atéia se colocarem lado-a-lado em um movimento de reivindicação de melhoria das condições de trabalho e salário; noutro momento a mesma mulher evangélica poderá estar se opondo a mulher atéia em questões sobre aborto e controle de natalidade. No passado as questões referentes às condições de trabalho e os modelos contraceptivos faziam parte de uma agenda homogênea dentro de um grupo significativamente fixo de pessoas. Poderemos multiplicar exemplos quando levamos em conta gênero, idade, renda, etnia, religião, escolaridade, etc. Atualmente as pessoas estabelecem acordos ou diferenças a partir de interesses locais e não mais referentes em uma ordem mais ampla à qual elas estariam ligadas.

Num passado recente as relações de interesse se estabeleciam por afinidades amplas e que portavam a prerrogativa de estarem acima e além da história. Assim, temas ligados à liberdade sexual, aborto, trabalho, política, gênero, etc., estavam polarizados e interligados, ou seja, ou éramos contra ou a favor de uma causa e esta sempre estaria conectada a um conjunto maior de causas às quais estávamos a favor ou contra. De um lado os conservadores de direita e de outro os progressistas de esquerda. O alinhamento político implicava em alinhamento ou simpatia à outras questões, como por exemplo, as lutas trabalhistas, o controle e os métodos contraceptivos, etc. Hoje nem conseguimos ao certo imaginar o que tem em comum o tema da ecologia com os GLS, mas neste passado recente ser progressista (em bloco) era defender a vida dos animais da mesma maneira com que se defendia o direito ao aborto.

Em termos muito gerais e genéricos, podemos dizer que um “bom cristão” votava na direita, era heterossexual, se submetia às ordens sociais, etc. Um “mal cristão” era filiado a um sindicato, fazia greve, tinha amigos e amigas gays, se filiava a um partidão, etc. Neste passado recente cada indivíduo ainda estava ligado a uma visão cósmica, ou seja, estava atrelado a uma visão global e orgânica de mundo, que integrava religião, política, sexualidade, ciência, sociedade, etc. As normas e os conceitos prévios conferiam a este “bom cristão” os parâmetros certos e incontestáveis que o permitia dizer se era da turma dos bons ou dos maus, e em alguns casos, viria se aceito como cristão ou tachado de herege. Hoje já não temos mais estas fronteiras claras e distintas. Muitos, ou, alguns poucos se perguntam: o que é ser um “bom cristão”?

Tal questão já não encontra raízes num mundo onde as fronteiras não são fundadas na imutabilidade e nem na eternidade de uma listagem de condutas e crenças, muito menos na profundidade. Não há um ser “bom cristão”, aquele que foi possível pensar quando tomando as velhas categorias por referência. Ou seja, aquele “bom cristão” que essencialmente era heterossexual, monogâmico, apolítico, pagador de impostos, trabalhador, obediente às autoridades, apregoava a estabilidade social, etc. e que se associava a outros “bons cristãos” contra a corrupção do mundo. O mundo também era entendido como um grande bloco de prazeres efêmeros e transitórios.

Mas, uma vez que tais categorias já não podem estar integradas monoliticamente para a formação de uma identidade, antes, diluem-se nas associações em prol de interesses, não há um ser “bom cristão” cuja idealidade nos permita identificar uma pessoa a este título. Claro que há aqueles que, como uma avestruz que enfia a cabeça no chão a fim de não ver o que não quer, há os que negando o óbvio, insistem, tal qual um fariseu moderno, em definir um “bom cristão” segundo a natureza essencial que está escrito nas estrelas fixas.

Uma vez afastado de vez as cosmologias organicistas, então, também abandonamos as ilusões idealistas, não havendo um ideal para onde voltemos nossos olhares e conformemos nossos corpos em obediência. Antes, há aqueles que encontram interesses comuns e buscam melhorias em arranjos sociais, políticos, religiosos, de trabalhos, de gêneros, etc. e arranjos que se desfazem ao se atingir o interesse ou quando este na obsolescência deste. Talvez seja a idéia bem rortyana[1] de esperança futura num mundo melhor que enfoque as ações dos “humanos”, apenas humanos. Ao serem desfeitas as fronteiras que marcam as identidades, podemos dizer que hora um “cristão” ergue a bandeira do trabalho honesto, hora lança-se às ruas pedindo o “impeachment” presidencial, hora luta contra o aborto, hora a favor da desobediência civil, hora pela greve, hora pela ética política, hora pelo controle de natalidade, etc. Ao dizermos isto estamos abrindo mão de um recurso utópico. Em alguns dos encontros pessoas compartilham de crenças religiosas, em outros compartilham de crenças sobre gênero.

Mas se não há uma lista de coisas à qual nos conformemos, como podemos dizer que somos “cristãos”? Ademais, o que é ser um “cristão” quando não se tem uma cosmologia organicista? Sabemos que estas questões perdem seu centro de gravidade, uma vez que os modelos morais os quais forneciam um lugar estável e seguro para onde poderíamos ir não mais existem. Não há um Éden nos aguardando com uma lista de afazeres, ou obrigações que nos servem de senhas para lá entrarmos e o que nos resta é a terra árida na qual somos peregrinos e forasteiros. Ter uma fé cristã, daquela maneira, era conformarmo-nos a um ideal e regularmos nossas condutas sabendo quando obedecíamos e quando pecávamos. Daí que podemos dizer duas coisas: primeiro que a ausência destes parâmetros fixos de certeza e imutabilidade ideal nos obriga a abdicarmos da obediência e da noção de pecado, assim como nos conduz a questionarmos que nos encaminhem a um Reino relevante no século XXI e daí em diante.

Não encontrando mais aquela árvore do conhecimento do bem e do mal fixa e que fixava o centro do jardim de nossa existência, a qual nos dizia onde estava a verdade e a mentira, então nos resta abandonar este conceito envelhecido que nos formata tiranicamente como “bons cristãos”. Estamos livres para não sermos “bons cristãos”, ainda que o evangelho nos seja de uma inspiração ímpar e imprescindível. É esta inspiração imprescindível que nos faz retornar sempre e novamente ao texto, sem que retornemos ao Éden, em busca, não do retorno à origem, ao ponto de partida, mas do encontro com a inspiração que se faz original novamente. Retornar ao texto não para encontrar uma ordem, um organismo, um templo, uma torre como Casa de Deus: Babel, pirâmide monolíngue que aponta para um centro e para o céu. Retornar ao texto para tencioná-lo e que nos tenciona nas diferenças entre o passado e o futuro, visando um trânsito para o futuro. Desconstruir o texto desobedecendo a ordem tradicional que se desertifica em sua organicidade piramidal caduca e violenta.

É por esta perspectiva anti-dualista e que põe em suspeição a obediência que nos colocamos como interpretadores das palavras de Jesus, aquelas cujo estrato destacamos acima. Em Mateus 21 podemos ler que Jesus entra em Jerusalém, aclamado como rei pelo povo. Logo em seguida vai ao Templo e enfrenta os vendilhões e confronta os sacerdotes. Em meio a este embate se depara com uma figueira que não dá fruto, à qual profere palavras duras contra sua infrutividade, naquele tempo em que deveria dar frutos, mesmo fora da estação de frutos.

Leiamos o paradoxo da requisição de Jesus: dar frutos mesmo quando não é estação propícia de frutos; antes, dar frutos porque em tal estação não há frutos, mas fome. Dar frutos não por obedecer a lei que rege as estações frutíferas, mas dar frutos porque é justo sanar a fome. Assim como nos dias de Noé a corrupção da humanidade encontrou neste patriarca um homem que dava frutos de justiça, num tempo não propício à justiça, também nos dias de Jesus procurava-se fruto num tempo não propício à frutificação. Dar frutos fora da estação de frutos, ou seja, quando e porque há fome de frutos.

Sabemos que tanto as figueiras quanto as vinhas tem forte conotação simbólica, significando para aquele povo o próprio Israel, ou Judá, ou seja, o povo de Deus. Israel cria numa aliança de Deus com a nação. De um lado a Lei e os mandamentos divinos e de outro a proteção e fidelidade de Deus. Conhecer e obedecer a Lei e os mandamentos era a parte humana na aliança, assim como proteger e prosperar o povo era a parte divina. A palavra hebraica “emunah” traz esta representação da aliança, pois significa obediência, fidelidade, disposição em cumprir os termos da aliança. A frutificação de Israel está correlacionada à capacidade de cumprir seu compromisso na aliança, sua “emunah”.

Parece-nos que Jesus está tratando exatamente da questão da “emunah”, do compromisso em cumprir os termos do acordo que lhes compete, ainda que não seja um tempo propício para cumprir compromissos. Fixemo-nos, por um instante, na parábola de Jesus, aquela que estaria nos propondo a partir da imagem de um pai que tem dois filhos. Ao primeiro ele pergunta: você está disposto a cumprir com os compromissos que eu proponho a você? Ao que o filho diria: certamente que conhecendo o teor de sua requisição, comprometo-me a fazer o que me pede. Mas aquele que diz sim ao acordo, diz não ao cumprimento do acordo, inexoravelmente. Então o pai vai ao encontro do outro filho e lhe faz a mesma proposta, ao que ouve do filho: não, não me comprometo com o que me pede, pois tal não é passível de cumprimento, sempre estará a ser cumprido. Contudo este muda de direção e trabalha em prol da vinha.

O pai pede o que não é possível ser cumprido, pois o trabalho na vinha vai além da capacidade humana de cumprimento. Aquela primeira resposta não se trata de uma desobediência explicitada vocalmente, como numa má vontade diante da proposição paterna, antes, é uma incapacidade e impossibilidade de “emunah” não reconhecida pelo que diz “sim”. Não há, por parte do pai, uma proposição que transcenda o humano, mas uma limitação humana de cumprimento do que somente pode ser cumprido por negação. O trabalho na vinha está além da vinha e do trabalhador, mas não é um trabalho além daquele que o humano pode trabalhar. A geração de frutos por parte da vinha não depende exclusivamente do trabalho humano individual, singular, mas depende do esforço do humano.

Dizer sim à demanda proposta pelo pai é realizar um não às obrigações legais impostas do vinhedo. Dizer sim à Lei, à obediência da Lei, é realizar um não ao cumprimento efetivo daquilo que está além da Lei. Quem diz sim à obediência da Lei, tem na Lei e seus mandamentos o centro da existência, e desta maneira não executa o fruto da Lei, o centro da Lei, sabendo que o fruto da Lei não é legal. O que funda a Lei é o que está além da Lei e dizer sim à Lei é dizer não ao seu fundamento e que o faz cumprir, sem obediência, à Lei. Quem diz sim à Lei diz dois não: não ao cumprimento da Lei que deu seu sim, tornando-se um desobediente esquizofrênico, pois diz sim ao que é não, sabendo que ninguém jamais cumpriu a Lei; não ao sentido da Lei, a qual tomada como centro e propósito, deixa em esquecido seu lugar de destino que é o humano, pois não é o sábado o senhor do homem, mas é o homem o propósito do sábado.

Mas aquele filho que disse não, que vai de encontro à proposta paterna, aquele que desobedece a Lei, que se desfaz da obediência como modo de agradar ao pai, pode então encontrar-se livre da obediência, para, desobedecendo a Lei, encontrar-se com o fruto esperado da vinha, o fundamento da Lei. O fundamento da Lei não é lei e não pode ser lei, pois que a lei não se funda em si mesma[2]. Aquele que escreve a lei, no ato de sua escritura está para fora da Lei. O escritor e a escritura da Lei antecedem a Lei. Não há lei que determine a obrigação de seu fundamento e o fundamento da Lei não está contido nela. O fundamento da Lei está para fora da Lei e somente quem diz não à Lei, pode dizer sim a seu fundamento. A Lei retrata aquilo que se apreende instantaneamente da justiça. Antes, ao dizermos não à Lei abrimo-nos ao sim de seu fundamento, quando retornamos, não ao lugar da Lei, mas ao lugar de um fundamento. Mas o fundamento não é um lugar e não está num lugar. Pois se o fundamento é um lugar, ou está num lugar, ele exige a pergunta: mas em que lugar está este lugar. O fundamento da lei é um não lugar, um não fundamento. O fundamento é uma paixão, uma graça, uma justiça, um amor que para onde nos voltamos e nos lançamos ao novo.

Por isso o Sacerdote, o escriba e o fariseu ao dizerem sim à Lei, dizem não à vinha. Pois a vinha não é a Lei e nem o Templo que guarda a Lei, mas o sentido e fundamento da Lei. Assim, ao encontrarem-se obedientemente diante da Lei, desobedecem-na negando o sim para a “emunah”, realizando um não. Mas os publicanos e meretrizes que dizem não, ao desobedecerem, abandonam a Lei e o Templo como lugar de destino e abrem-se ao sim para o fundamento da Lei. Mas o fundamento da Lei não é lei, portanto, não há como ou o que obedecer. O fundamento da lei é amor, e este não é lei e nem é passível de realizar pela obediência, apenas seguir seu impulso destinador. O amor, apenas o retratamos, nunca o conceituamos. Somos como Moisés que vê a justiça de passagem, suas costas, e, assim, podemos passar à escritura da Lei. Mas a Lei são as marcas passadas de uma justiça que se moveu para um lugar de liberdade ainda maior. A justiça é o ponto futuro que aponta ao espaço da esperança de um mundo melhor.

Neste sentido, o Sacerdote, o escriba e o fariseu que se apegam à obediência daquilo que foi a visão de uma justiça que passou por lá, guardam, não o movimento do amor, mas o retrato envelhecido de alguém que transitou e permitiu o trânsito: a Lei. A meretriz e o publicano que esperam por um mundo melhor, mais justo, mais libertário, desprendem-se da obediência da Lei, movidos por uma paixão nova, a qual foi a mesma que moveu Moisés. O que nos aponta Jesus é para um Moisés apaixonado pela justiça que aponta para a liberdade de um povo escravizado e não para uma Lei escrita como monumento petrificado que tiraniza a existência humana. O fruto esperado da videira é a justiça e não a Lei. Mas a Lei provém da Justiça.



[1] Richard Rorty, filósofo estadunidense.

[2] Neste sentido ler Jacques Derrida, “Força de Lei”, e Agamben, “Estado de Exceção” e “Homo Saccer”.