Jesus: ser e existência
Porque já muitos
enganadores saíram pelo mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Tal é o
enganador e o anticristo. (II João 1: 7)
Por isso daqui por
diante a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que tenhamos conhecido
Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo. (II Coróntios 5: 16)
Quem é
Jesus? Podemos acrescentar a esta questão uma outra sobre a existência de
Jesus: Existe Jesus? Claramente tais indagações se distinguem, pois se a
segunda busca pela verificação de uma realidade histórica de Jesus, a primeira
nos faz pensar em sua verdadeira essência: o verdadeiro ser e a existência
verificada. Ainda que as inquirições nos façam lembrar um tema caro a Tomás de
Aquino, nem de longe pensamos em tomar seu método e objeto como referências;
antes, buscamos descrições contemporâneas para o Cristo que nos aponte para relações
relevantes em nosso tempo presente. É o Cristo e não a Natureza que
investigamos. Perguntamos sobre um Jesus que possa coexistir entre nós e indagamos
quem seria este que estando em nosso meio incendiaria nossas relações mútuas e
com o que chamamos de natureza. Esta pesquisa, entretanto, fazemo-la marcada
pela sutileza, a qual nos abre três percursos: da não verificabilidade de um homem chamado Jesus, da verdade
sobre o Jesus trans-histórico e da existencialidade
de Jesus como relato sócio-histórico relevante entre nós.
Nos
textos antigos, enquanto a existência de Jesus nunca foi indagada, sua essência
foi investigada segundo uma clara perspectiva helênica. Hoje, entretanto, a
certeza e convicção podem nos apresentar problemas, tanto no que se refere à
existência, quanto no que tange à essência. É compreensível que sua existência
não tenha sido procurada, ou defendida, ou mesmo comprovada, pois aqueles
homens e mulheres de dois mil anos atrás evocavam a lembrança daqueles que com
ele andaram, tendo em vista que mesmo ao final do século primeiro muitos deles ainda
estavam vivos. É somente com a morte de discípulos e de pessoas que com Jesus
tenham andado, concomitante com a expansão geográfica e numérica da nova fé, que
faz surgir em meio àquelas comunidades eclesiásticas a demanda pela memória
escrita dos ensinos e da vida do Cristo, ou seja, Jesus. Os ensinos do Mestre,
suas palavras e atos, foram transmitidos pelos apóstolos e discípulos oralmente,
até quase quarenta anos após sua morte, mas os textos evangélicos certamente
auxiliaram na difusão e perpetuação de sua memória.
Somente
a partir do ano de 70 que (provavelmente) foi escrito o evangelho de Marcos (creditado
como o primeiro dos quatro evangelhos). Mateus, Lucas e João foram escritos,
provavelmente, somente a partir do ano 80, sendo que, dizem os estudiosos,
Mateus e Lucas tomaram Marcos como referência. As cartas atribuídas ou efetivamente
escritas por Paulo são datadas entre 53 a 61, portanto, são anteriores aos
evangelhos. Estas dadas correlacionadas podem nos apontar para uma
despreocupação com a memória escrita de Jesus nos primeiros quarenta anos após
sua morte, uma vez que as testemunhas ainda estavam vivas para contar suas
histórias e a forte crença escatológica deixada por Cristo a seus discípulos,
de um mundo prestes a ser extinto.
Por
outro lado, na antiguidade não se escrevia história de marginais, isto é, de
pessoas que estavam à margem do poder. A ordenação de acontecimentos fazia
referência àqueles que contribuíram efetivamente e positivamente para a
ocorrência de fatos, referência aos vitoriosos e àqueles que foram vencidos, os
quais conferiam honra e glória às vitórias dos que escreviam
as narrativas. A história é escrita pelos vencedores. Jesus não está na ordem
dos acontecimentos, segundo relatado pelos romanos, ou, pelos hebreus, pois sua
vida e obra não traziam risco ao Império. Como de fato nunca trouxe, antes,
serviu aos propósitos da manutenção do poder. A morte de cruz, penalidade comum
infringida pelos Romanos à escória vencida, não tinha nenhum significado
excepcional a não ser a exemplaridade. Jesus torna-se história quando crido
como ponto fixo que data a história do Ocidente, e quando mais tarde vem servir
para a fixação do propósito futuro para onde tende a história. Ainda que seja
possível buscar citações feitas por organizadores de acontecimentos, como Flavius Josefus em sua História dos
Hebreus, o que encontraremos nos escritos, deste narrador em particular, sobre
Jesus é uma pequena passagem, da qual se tem a suspeita de glosa, ou seja, de
uma introdução posterior à escrita original. Assim, podemos dizer que Jesus
somente existiu para aqueles que creram em sua vida e obra, e na medida da
crença em suas palavras e atos. Jesus pode não ter existido para Roma até que
Roma passou a existir imbricada com a Grande Igreja.
Mas,
Jesus existiu para aqueles que creram nele, e principalmente para aqueles que
creram nele como o Cristo, o que suscitou a questão: Quem é Jesus? Deus ou
homem? Caso não houvesse quem cresse em suas palavras e atos, tampouco hoje
saberíamos da existência deste tal de Yeshua que
viveu a dois mil anos na Palestina e que pregava o amor ao próximo e a Deus
como fundamento do Reino de Deus, o qual foi crucificado. Temos em mente que
relatos são verossímeis à medida de sua crença. E crer não é dar assentimento
vulgar. Antes, cremos nos relatos por estes serem úteis (explicarem e preverem
acontecimentos e fenômenos), por serem justificados (ao serem suportados por
outros relatos aceitos), por serem coerentes (porque não apresentam
contradições significativas), porque outros crêem,
etc. A crença é o que nos faz dizer que um relato é verdadeiro, falso, ou
impreciso.
Pedro
disse a Clemente de Roma que existiu na Palestina alguém que chamavam de Jesus,
o Cristo. Tendo dado crédito a Pedro, Clemente transmite o relato a outros que
também crêem. Um ordenamento dos acontecimentos de todos os que creram neste
relato do Jesus de Nazaré é feito por um crente chamado Eusébio de Cesareia, por volta do ano 300, com o título de “História
Eclesiástica”, história esta que é verdadeira à medida de nossa crença. Dizer
que a história é verdadeira à medida da crença, não é relativizar
a verdade pela crença, como se a crença fosse uma disposição vulgar de dar
assentimento a qualquer superstição sem respaldo racional. Mas é buscar e
produzir como crença um conjunto de descrições úteis, coerentes e justificadas,
que, mesmo ainda sob a égide da falseabilidade, sejam
verossímeis.
A
própria história da Grande Igreja nos parece ser o relato das crenças nos
relatos sobre a existência de um homem chamado Jesus, e o relato dos embates
para a produção de uma crença universal que conforme todas as crenças numa
única crença num único Jesus, crença esta que tem perdurado, em maior ou menos
medida, até hoje. É possível pensarmos que a existência histórica de Jesus
afastou-se da verificabilidade factual e aproximou-se
da crença num relato singular e marcante: útil, coerente e, em certo sentido,
justificado. Contudo até o presente não foi possível verificarmos, com os
instrumentos que a ciência dispõe hoje, a existência real de Jesus, num tempo e
espaço específicos. Antes, o que temos é a crença nos relatos verossímeis de
seus discípulos, os quais foram transmitidos por séculos. Mais e mais a
verificação da existência real do homem Jesus é submetida aos aparatos da
arqueologia e da história, segundo as premissas realistas empiricistas,
como se a ciência pudesse chancelar a verdade. Parcela significativa da Igreja
do século XXI é representante intransigente do realismo e tem nas provas
empíricas o laudo que atesta a verdade da existência de seu deus.
Enquanto
aqueles primeiros discípulos, segundo seus relatos, tinham a lembrança daquele
que por meio de suas palavras e atos abalava suas crenças prévias, nós hoje
temos a crença nos relatos escritos daqueles homens e mulheres, assim como de
seus discípulos. Se antes eles conheceram Jesus na carne, contudo nós não o
conhecemos assim. Cremos que Jesus foi um homem que viveu na Palestina do
primeiro século e que morreu crucificado, porque cremos nos relatos dos
discípulos, mormente, Mateus, Marcos, Lucas, João, Paulo, Pedro, Tiago, Judas,
etc. Mas, ainda que creiamos no Jesus homem, nossa crença mais radical está em
suas palavras e na coerência destas com sua vida, segundo os relatos. Aqui está
a relevância da crença em sua existência histórica, a
coerência entre palavras e ações.
Não há
provas substanciais da existência de Jesus, a não ser pelas marcas deixadas por
seus discípulos e alguns escritos esparsos e contestáveis. Contudo, a
metodologia científica resultante do realismo empiricista,
ou seja, aquele que acredita que o mundo contém a verdade das coisas, que as
evidências empíricas comprovam tais verdades e na multiplicação das evidências
se verifica uma teoria, independente do observador humano, tal metodologia
longe de ser aceita pela filosofia e pela ciência, não dá conta de provar a
inexistência de um personagem histórico singular. Ainda que todos os corvos até
então conhecidos sejam negros, o empirismo realista não pode dizer que
verdadeiramente todos os corvos são negros, pois sempre haverá a possibilidade
de um corvo de outra cor vir ser conhecido. Ainda que todas as evidências da
existência de Jesus sejam aquelas dos relatos canônicos, o empirismo nada pode
falar sobre a não existência deste homem. Até agora a realidade não nos pode
prover provas e evidências da existência de Jesus, apenas cremos nos relatos
dos primeiros amigos de Cristo, pela via dos textos canônicos e não canônicos, apócrifos e não apócrifos.
Cremos
que houve um homem chamado Jesus que viveu cerca de dois mil anos atrás na
Palestina, pregador marginal que inflamou os corações de seus discípulos e que
morreu na cruz. Cremos que pessoas deixaram relatos de sua vida e ensinamentos,
e queremos crer em suas palavras e nas verdades nelas contidas, mormente como
correspondência à sua vida e obra, pois esta vida e obra
ainda mantém a originalidade de nos inflamar. Mas isto à despeito das evidências empíricas colhidas na realidade
dos fatos. Cremos, mesmo sem os dados comprobatórios, porque o que mais importa
não são as informações empíricas que atestem sua real existência, mas a paixão
e o fogo originais que inflamaram o espírito daqueles homens e mulheres, e que
ainda pode inflamar nossos corações. A existência de Jesus não está atrelada à
verificação arqueológica, mas à crença útil, coerente e justificada. Útil
enquanto o amor e a graça transformam nossas relações destrutivas em maior bem
estar para a maioria das pessoas (ainda que isto tenha um sentido utópico e complicações
efetivas). Coerente enquanto imbricada numa rede de crenças que seja marcada
por esta paixão e tenha o sentido de uma esperança da inclusão universal,
efetivada em nossas ações e obras tendo em vista o amor ao próximo como amamos
a nós mesmos. Justificada porque não pretende o retorno a uma época áurea ou edênica, mas relativa ao nosso tempo presente, ou seja, uma
graça amorosa relevante para nós hoje.
No
entanto, cabe ressaltar a importância crucial que o realismo e o empirismo têm
na elaboração de algumas determinadas práticas religiosas. Grupos como os
fundamentalistas e os neopentecostais se apropriam desta metodologia científica
a fim de fundamentar suas crenças e comprovar a existência de seu deus. Em
certo sentido, filhos bastardos da Teologia Natural, os fundamentalistas
comprovam a existência de Deus por meio da realidade e da coleta empírica de
provas. O “Intelligent Design”, ou Projeto
Inteligente, nome pomposo dado pelos criacionistas
para a ciência da criação divina do Universo, parte da existência de um deus
oculto por trás da Natureza. As coisas naturais funcionam segundo um conjunto
de leis estabelecidas inteligentemente por um arquiteto e legislador, ou seja,
a realidade comprova a existência de um deus que a fez funcionar a criação de
uma maneira precisa. Devemos, no pensamento
fundamentalista, coletar informações que demonstrem a existência de leis
universais na realidade das coisas que comprovem a existência de um deus
oculto.
Os
neopentecostais, filhos legítimos da Sociedade de Consumo, do Espetáculo e
Tecnológica, com a divindade, comprovam a existência de um deus poderoso que
age a despeito das leis naturais, por meio dos milagres. Por diversas vias
entendemos que os neopentecostais devam ser pensados como
trans-fundamentalistas. Os milagres reproduzidos à exaustão e midiatizados, são as provas empíricas de um deus que se comprova
cientificamente. Os milagres são a prova de um deus que é poderoso para fazer
funcionar o Universo e é sobre-poderoso para
transcender ou burlar as leis universais, as quais funcionam para sua glória e
honra. A reprodução exaustiva e midiatizada dos
milagres comprovam empiricamente que deus existe. Deus cura, deus existe. Deus
prospera, deus existe. Mas uma fé que requer comprovação empírica pela
realidade se torna em paradoxo, nos termos paulinos.
Temos à nosso favor as palavras de Paulo de que não vivemos por
vista, mas por fé, ou seja, pelas crenças que temos e não pelas comprovações
empíricas que nos fornece realidade. Paulo, nestes termos, pode ser pensado
como um anti-realista avant la lettre. Neste sentido a existência de Jesus menos tem a
haver com a realidade confirmada empiricamente por evidências arqueológicas e
históricas, e mais com nossas crenças nos relatos que nos são úteis, coerentes
e justificados, nos sentidos acima apontados. No entanto, a sua essência, ou
seu ser se torna ainda mais problemático, contudo, não esquecendo que o ser de
Jesus, tanto quanto sua existência, não está condicionado
à realidade. A saída nem um pouco original é a de manter a polarização entre
empirismo e idealismo, sabendo que esta alternativa segunda é adotada por
muitos dos oponentes cristãos ao fundamentalismo e ao neopentecostalismo.
Enquanto o empirismo parte de uma coleta de dados na realidade a fim de
comprovar (fundamentar) suas hipóteses, o idealismo abstrai da realidade e
elabora teorias que posteriormente submeterão a realidade a elas. O fundamento
dos cristãos idealistas está nas crenças transcendentes à natureza, mas que a
submetem a um controle sobrenatural: humano e divino. Enquanto o empirista coleta dados particulares e induz uma lei
universal que está subjacente à realidade, o idealista parte de uma lei
universal presente na coisa em si mesma e deduz o funcionamento em casos
particulares na existência material.
O
idealismo abstrai dos fenômenos a fim de conhecer a idealidade do funcionamento
do universo: sua verdadeira realidade. A realidade verdadeira não é conhecida
nas coisas materiais, mas nas idéias. Enquanto a verdade para o empirismo se
obtém na repetição de casos, ou de dados colhidos nas experiências tangíveis,
para um idealista a verdade está na abstração da matéria e na teorização, ou na
idealização do mundo possível. Ainda que o idealismo seja uma escola filosófica
eminentemente moderna, ele nos faz sempre lembrar do neoplatonismo
e do platonismo. A importância de reportarmos o idealismo ao neoplatonismo e ao platonismo está na influência destas
escolas de pensamento filosófico sobre a filosofia da religião cristã. O
cristianismo a partir do segundo século paga tributo à filosofia pagã grega,
assim como ao direito romano. A filosofia da religião cristã em sua metafísica
tradicional ainda é tributária ao paganismo grego-romano.
“Como é
possível o conhecimento?”, perguntavam os antigos gregos. Para alguns, tudo
está sujeito à mudança e à corrupção. As palavras atribuídas a Heráclito de Éfeso (540
a 470 a.C.)
marcam bem esta aposta: “nunca podemos percorrer duas vezes o mesmo rio” ou,
“num mesmo rio entramos e não entramos”. Por outro lado Parmênides (530 a 460 a.C.) advogava em favor
da unidade e imutabilidade do Ser, que o mundo sensível é uma ilusão e que o Ser é Uno, Eterno, Não-Gerado e Imutável. Enquanto que para o primeiro
tudo está sujeito ao devir, à mudança, pois uma coisa é e em seguida já não-é,
para o segundo o Ser é imutável e não está sujeito à corrupção. Para o primeiro
o conhecimento é conhecer na mudança, para o segundo o conhecimento é o do Ser.
É em meio a este debate entre o Ser e o devir que
encontramos Platão (428 a
347 a.C.).
Para este filósofo há duas realidades: a sensível e a inteligível. A realidade
sensível está sujeita à corrupção e à mutação, mas é a imagem de uma outra
realidade, a inteligível, imutável e incorruptível. A realidade sensível nos
afeta pelas sentidos, enquanto a realidade inteligível conhecemos por meio da
razão: Lógos. A realidade sensível é enganosa e somente podemos ter dela
opiniões, enquanto a inteligível é verdadeira. O Lógos, ou a razão, nos permite
acesso à inteligibilidade das coisas que estão no Mundo das Idéias. A Idéia, ou
forma de uma coisa é o que é imutável. Enquanto um homem qualquer (por exemplo
eu ou você) que podemos perceber sensivelmente, está sujeito às mudanças, por
exemplo o envelhecimento, a Idéia de Homem é imutável. Quando admitimos a
solução aristotélica de que o homem é um animal racional, devemos pensar que o
ser humano o é assim para Aristóteles (384 a 322 a.C.) tanto quanto para Tomás de Aquino (1225 a 1274 d.C.). Podemos
conhecer o Ser das coisas pela inteligibilidade do Mundo da Idéias, por meio do
Lógos.
O Ser das coisas nos fornece a verdade das coisas, aquilo
que é imutável e é por meio da razão, do Lógos, que podemos conhecê-lo. Os
sentidos nos possibilitam opiniões e estas estão sujeitas às mudanças próprias
do devir. Dizer a verdade de algo é falar sobre o Ser da coisa, sua Idéia, e
não daquilo que se nos apresenta aos sentidos, e muito menos do que é
reproduzido pela técnica. Uma coisa é a Idéia de um Cavalo, outra é aquele
cavalo que podemos ver diante de nós, e uma terceira é uma pintura de um cavalo
feito por Paul Delaroche. O cavalo que nos afeta os sentidos é uma imagem
(eidolon) projetada na matéria de uma Idéia, assim como uma pintura, por mais
realista que seja, por mais que reproduza fielmente um cavalo existente, a
pintura é uma imagem de um cavalo real. Portanto, a pintura é uma imagem da
imagem.
Cabe ainda ressaltar que Platão sofreu influência de
Pitágoras, que entre outras coisas, fundou uma escola de pensamento esotérico,
isto é, misteriosa e oculta, cuja revelação se dava apenas aos iniciados.
Assim, é possível que Platão tenha deixado por escrito apenas parte de seu
pensamento, e que a outra parte tenha sido legada em tradição oral, ou em
escritos que foram ocultados aos não iniciados em sua escola de pensamento, a
Academia. Contudo podemos salientar que todas estas discussões sobre o Ser e o
Devir, a opinião e a razão, são temas caros aos filósofos gregos, mas não estão
presentes na cultura hebraica. Nos escritos hebreus, na Lei, nas Crônicas, nas
Profecias e nos livros poéticos, não há especulação sobre o Ser de Deus, a
Natureza de Israel, a essência do homem. Há um Deus que se revela a uma nação e
com ela faz uma aliança, cujos limites estão entre a obediência e a fidelidade,
ou seja, a “emunah”, a fidelidade das partes em cumprir seus compromissos
determinados no pacto.
Jesus não era cristão, nem mesmo fundou o cristianismo ou
qualquer outra religião. Muito menos pregava aos gregos ou aos romanos, mas,
ainda que nós hoje possamos nos dar o direito de ler suas palavras como uma
desconstrução do judaísmo ou uma redescrição da Lei, ele, contudo, pregava aos
judeus de seu tempo. Entendemos que suas palavras visavam uma releitura, ou,
uma interpretação da Lei e dos Profetas centrando-a no amor a Deus e ao próximo,
presente na própria Lei, contra uma religião engessada no ritualismo e na
ortodoxia. Sua pregação tem um sentido para um Reino que está entre nós e se
experimenta entre nós. Seu olhar aponta para a meretriz, ao publicano, ao
leproso, ao samaritano; suas parábloas falam de trabalhadores, da mulher, das
relações entre humanos; sua oposição é aos doutores da lei. Seu Reino é de
justiça entre credor e devedor, entre pai e filho, entre marido e mulher, entre
empregador e empregado, entre sogra e nora, etc. Sua justiça é perdão, é pão
repartido, é compartilhar a água, é cobrir o nu, é diálogo e amor, é acolher ao
pequenino, é ouvir a criança. Não há expeculação cosmológica, metafísica,
contemplativa, a não ser no cristianismo. Todas estas expeculações filosóficas
são acréscimos posteriores de uma demanda sócio-histórica que a Igreja precisou
responder para dar conta de seus desafios próprios e não nossos, que podemos
chamar de produção de cristianismo.
A Grande Igreja, a fim de sobreviver àqueles tempos
duros, romanizou-se e helenizou-se. Entretanto, ao fazê-lo cristianizou,
concomitantemente, a filosofia e o
direito. A Grande Igreja produziu-se como produção de “synkrasis” entre o
pensamento judaico, heleno, romano, com a memória das palavras de Cristo e com
os escritos daqueles que com ele andaram ou fundaramas comunidades
eclesiásticas (como Paulo). Esta “synkrasis” não ocorre em Constantino, rei de
Roma, no ano 400 d.C. Mas, em certa medida, já ocorre em Paulo e em grande
medida com os Bispos que suscedem os apóstolos no final do primeiro século,
durante o segundo século e daí em
diante. Os problemas enfrentados por Paulo, Pedro e Tiago
referem-se a soteriologia, isto é, à salvação dos não judeus, assim como o de
encontrar um denominador único de diálogo entre judeus e pagãos convertidos.
Enquanto Tiago entendia que os novos convertidos, pagãos, deveriam se submeter
à circuncisão e à Lei; Paulo pregava a graça irrestrita (segundo nosso
entendimento), isto é, não há obediência alguma a qualquer Lei. Além da questão
da unidade interna entre aqueles homens, representantes dos três grupos (Tiago,
Pedro e Paulo), este núcleo central efrentou dissidências e a perseguição. É
nosso ponto de vista pessoal e provisório que a soteriologia paulina tena
prevalecido enquanto a organização judaizante tenha se imposto. Assim, é no ano
90 d. C. com Clemente de Roma e na virada do século I para o II com Inácio de
Antioquia, que podemos perceber a romanização da Igreja, a qual adota a
estrutura hierárquica militar, convergindo para um Bispo que governa a
comunidade com o auxílio de Presbíteros e Diáconos. Paulatinamente o Bispo de
Roma se torno o Bispo dos Bispos.
Talvez o maior problema enfrentado pela Igreja no final
do primeiro século e no início do segundo foi o da unidade, e, por conseguinte,
o da organização das comunidades e do establecimento de uma leitura e interpretação
comum a todas elas. O problema da unidade que inicialmente refere-se apenas à
ordem e à doutrina, paulatinamente se extende para questões
teológico-filosóficas. É neste ambiente que a Igreja se estrutura em torno do
Bispo, ao qual se dá a primazia de interpretação de textos e o governo
eclesiástico. Mas, já a partir do início do século segundo questões referentes
à Natureza de Jesus Cristo surgem. Questão está que pode ser simplificada pela
interrogação: Jesus é homem ou é Deus?
Uma pergunta nova é requerida face a esta questão dual em
torno de Jesus, mas que traz a referência judaica do monoteísmo. Em outras
palavras, crendo que há um só Deus, quem é Jesus? Uma vez
posta esta questão, entendemos ser preciso, antes, marcar a diferença entre a
especulação grega e o pragmatismo de Jesus. Relembramos a interrogação posta
por Jesus aos seus discípulos: “e vós, quem dizeis que eu sou?” Mais pragmático
ainda foi a resposta dada por Pedro: “Tu és o Cristo”. Requer que
distinguagamos o pragmatismo judaico de Jesus e de seus discípulos, cuja
resposta à questão “quem é Jesus?” difere profundamente da resposta esperada
por um grego ao indagar: “quem é Jesus?”. Ao Pedro dizer “Tu és o Cristo”, ele
evoca uma esperança profética messiânica do povo de Israel, que não traz a
mínima referência essencial, ou seja, não espera uma resposta sobre o Ser de
Cristo.
Quando Jesus traz esta questão e quando Pedro propõe uma
resposta, não se apresenta a eles e a nós uma busca pelo Ser de Jesus, aquilo
que é imutável uma vez abstraída a matéria, mas o que se aponta é para o
caráter de resposta de Jesus a uma promessa divina. Do Messias, do Cristo
espera-se um certo conjunto de ações, uma prática, um uso de um conjunto de
recursos que promova o Reino. Não se persegue saber o que o Messias é, mas o
que o Cristo efetivamente produzirá, agirá sobre quais recursos a fim de
promover que tipo de coisas. A questão posta e a resposta não apontam para o
atemporal e o trans-histórico, mas para o conjunto de dispositivos e
disposições destes naquela contemporanidade e que podem trazer o Reino de Deus
em meio aos homens. Esta é a questão colocada por Jesus e apreendida por Pedro
em meio aos problemas domésticos, cotidianos, socio-historicamente inscritos,
como a fome, a doença, a dor.
Ao nos lembremos de Sócrates, o filósofo grego, encontramos
um outro caminho para uma questão similar, mas feita em sua língua natal. Como
nos ensina Heidegger (filósofo alemão), os gregos perguntavam (e em especial Sócrates):
Ti estín...? Por exemplo: o que é justiça? O que Sócrates queria saber é, uma
vez abstraído da matéria, das relações cotidianas e temporais, qual é a Idéia
que podemos inteligir da Justiça. Uma vez sabido o que é a justiça, então o
homem justo poderia agir justamente segundo a Idéia apreendida desta. Partindo
de uma pergunta sobre a essência da coisa, a busca pela Idéia, e encontrando o
Lógos que a representa, então podemos representar verdadeiramente aquela coisa.
A verdade, para os gregos, é correspondência, assim, para que alguém seja verdadeiramente
justo é necessário primeiro saber “o que é justiça”. Uma vez determinado o
padrão podemos agir em
conformidade. Isto é grego e não encontramos o mesmo em
Jesus.
O filósofo grego, socrático-platônico, vai perguntar: O
que é Cristo? E buscará o discurso racional sobre a essência do Cristo, a Idéia
de Cristo com a qual nos depararemos ao fim de um trabalho da razão, abstraíndo
da matéria, ou seja, do homem histórico Jesus. Em outras palavras, qual Ideía
do Cristo que, para além do homem aprente de nome Jesus, nos permite conhecer o
seu Ser que é incorrputível, imutável. O homem grego (pagão) no permitrá o
conhecimento racional, lógico, do Jesus, e, assim, descartarmo-nos das
opiniões, falsas idéias que podemos ter dos Jesuses. Não há, em Jesus, um trabalho
contemplativo de apreensão do Ser e conformação da alma a este, antes, há uma
praxis, uma economia do Cristo que opera na convergência do fazer e do ser.
Jesus é o Cristo na medida em que ele opera dentro da economia do Reino, isto
é, utiliza os recursos que estão à mão a fim de produzir a justiça. A justiça,
em Jesus, não está dada antecipadamente, como um padrão a ser alcançado, mas é
produto da economia do Reino. A justiça se faz por uma economia do justo e o
justo operando economicamente encontra a justiça.
Enquanto o modelo
grego (socrático-platônico) nos leva a idealizar a vida e a estarmos em débito
com aquele padrão inatingível que sempre estará mais além, a pragmática de
Jesus é o do caminhante, do nômade. A idealização produz culpa por um débito
crescente e impagável, que exige sempre um sentido de justiça como perdão e
este como esquecimento. Estaremos sempre à mercê de um Deus cuja memória de
curto prazo seja débil, ainda que a memória de longo prazo seja inabalável. Mas
um Deus despaganizado nos remete a uma pragmática da responsabilidade.
Responder a questão “quem é Jesus?” de maneira singular,
conduz-nos, quase que inexoravelmente, à linguagem dos pagãos de dois mil anos
atrás. A questão da unidade de Jesus (quer entre o Jesus homem e Jesus Deus,
quer entre o Filho e o Pai, quer entre o antigo e o atual), e a questão do Ser
de Jesus, é pensada, quase
que inflexivelmente, quando abandonamos Cristo ao martírio de uma filosofia
idealista. Esta confusão entre o socratismo e o
cristianismo do segundo e terceiros séculos, formou uma religião que não
percebe as diferenças entre o discurso de Jesus e a edificação de uma torre
fortificada chamada Igreja. O pensamento hegemônico de uma Igreja idealista,
que ainda hoje bebe da fonte platônica e neoplatônica,
impede-a de perceber quer a falência do suporte
metafísico antigo face às críticas que se desenvolveram a partir de Kant e Nietszche, quer a imbricação daquela filosofia na
hermenêutica cristã contemporânea. Haveremos, um dia, que pensar que se no
passado nos foi útil, coerente e justificado produzir uma filosofia da religião
que dialogasse e negociasse com a filosofia neoplatônica,
agora, no entanto, tal suporte encontrou seu jazigo. A despeito desta
verificação, podemos trabalhar num novo diálogo em que as palavras e a vida de
Jesus não necessitam de tal dispositivo podendo ser repensadas a partir de
novos paradigmas.
Assim, enfrentar a questão “quem é Jesus?” passa por
confrontar a singularidade pretendida por uma filosofia da
religião que tinha como desafio atender os reclames filosófico-socio-históricos
de mil e oitocentos anos atrás. Enfrentar a questão “quem é Jesus?”,
hoje, passa por aceitar o desmanche do empirismo e do idealismo como fundamento
e perspectiva de leitura dos escritos das palavras de Jesus. Enfrentar a
questão “quem é Jesus?” exige desmobilizar os dispositivos de poder clerical
que monopolizam a resposta. Enfrentar a questão “quem é Jesus?” aponta para o descentramento, para o nomadismo e para a pragmática. Isto
é, exige a prática da hospitalidade e do ajuntamento dos opostos, em oposição à
demarcação de fronteiras e edificação de muros dogmáticos. Enfrentar a questão
“quem é Jesus?” exige oscilação perspectiva e lentes multifocais.
Sem que caímos na ilusão, ou na
fantasmagoria de haver um Éden aguardando nosso retorno, ou, um lugar estável,
firme e inabalável que possamos volta, uma casa que aguarda o filho pródigo,
podemos reler as palavras de Jesus em pleno século XXI, sem sair dele.
Descartando as hipóteses empiricistas realistas de um
mundo com leis fixas e que ocultam um deus legislador, ou mesmo desfazendo-nos
das teorias idealistas de um Mundo de Idéias imutáveis e incorruptíveis cuja
contemplação é a ante-visão de deus, podemos reler os
evangelhos apenas pelo que são: o Emanuel como homem! Abandonar a idolatria da
unidade, do Um, do Jesus, deixarmo-nos levar para os
Cristos que encontramos entre nós. Não um Jesus, contemplado pelos sacerdotes,
pelos padres e pelos pastores (e seus congêneres), mas Jesus segundo a economia
do Reino. Não um Jesus definido e prescrito pelas doutrinas, dogmas e teologias
que segregam o ortodoxo do herege, mas os Jesuses dos
relacionamentos. Não um Jesus oculto e Ideal, mas Jesus amigo, à mesa, ao
caminho. Não um Jesus dos livros fechados e acabados, mas Jesus na prática da
proximidade. Tantos Jesuses quanto forem os grupos de
dois ou três que se reunirem em torno de seu nome.
Não um Jesus de um Livro, mas Jesuses
de quatro evangelhos e mais de duas dezenas de epístolas e de milhares de
livros. Não um Jesus identificado num corpo e numa pela, mas Jesuses nos pequeninos nus e famintos, no homem espancado à
beira do caminho, na meretriz quase apedrejada, no publicano
sobre a árvore, no ex-engenheiro solitário, no quase-bacahrel-de-filosofia
angustiado, no amigo doente, no devedor falido. Ver Jesus na mulher que chorou
pedindo clemência por seus espancadores, na outra que acolheu crianças
abandonadas, no outro que viu a miséria de meninos nigerianos, etc.
Assim é que podemos pensar num Jesus que é o mesmo ontem,
hoje e o será eternamente. Aquele Deus que sempre se faz homem e se intermete entre nós, sofrendo nosso sofrimento, em todo
lugar, a toda hora, sem perguntar por nossas crenças prévias, e nossas contas
bancárias, opções sexuais, cor de pele, escolaridade. Caso houvesse um Jesus,
ele sempre retornaria para um povo exilado, escravizado, espoliado. Se há um
Jesus, ele sempre e em todo lugar é o que se coloca entre nós para pregar o ano
aceitável ao Senhor. Cristo é um como pregação da
liberdade aos cativos, mas é muitos conquanto cada cativeiro clama por um Jesus
e por uma pregação que lhe seja singular. Cristo pode ser visto no corpo
daquele que ouve o clamor de um prisioneiro, de um doente, de um abandonado. O
autor de Hebreus nos diz: Um corpo me preparaste.
Cristo habita num corpo que ama o que Deus ama.
A pergunta: existe Jesus? Exige uma pergunta prévia: quem é
Jesus? Mas, a resposta a esta questão demanda, inexoravelmente, que olhemos o
sofrimento da vida e busquemos em cada inferno a presença esperançosa de um
Messias, de um Cristo. Jesus é todo aquele que se ocupando da economia do
Reino, isto é, do uso consciente do que se tem em mãos, se utiliza dos recursos
a fim de promover a bem-aventurança ao seu próximo. Jesus é todo aquele que se
interpõe no meio dos infernos, abrindo as cadeias de sofrimento. Assim, não há
um Jesus, mas tantos Jesuses quantas forem as necessidades e tantos forem aqueles que se ocuparem
daquela economia que produz o Reino. A existência de Jesus Cristo hoje, ou, dos
Corpos de Cristos, está correlacionada à resposta dos que dizem crer nele às
demandas de salvação num mundo desesperançado. Não perguntemos “quem é Jesus?”
como se pretendêssemos nos encontrar com a Idéia de Cristo. Nem, tampouco,
perguntemos “existe Jesus?” como se pudéssemos experimentar seu poder. Jesus
veio em carne como primogênito de muitos irmãos, mas agora já não o conhecemos
mais assim, antes, pelo seu corpo, aqueles que fazem a
vontade do Pai: Jesuses do século XXI.