Pastor Ateu
Em
diversos momentos há fantasmas que falam mais alto como nossa própria
consciência. Eles tomam a palavra e o que nos resta, naquele momento de
assombração é o espanto infantil diante da aparição. Quando apresentei minha
dissertação de mestrado em Ciências da Religião, um dos professores da banca me
chamou de “Pastor Ateu”, mesmo que não tivesse, naquele momento, proclamado
nenhuma crença ou descrença. Ainda que não houvesse uma resposta preparada para
aquela provocação, concedi minha anuência, concordei com aquela fala
(prematuramente), pois suspeitava que estivéssemos tomando a mesma referência
para chegar àquele veredicto. Mas qual é esta referência? De fato não é uma
referência, mas uma desreferência, algo que implica a
angústia oriunda do abalo iconoclastra, que promoveu
a dissolução daquele que estava levantado no Santo Lugar. Desreferência
a partir da leitura de um texto em que o autor do livro de Hebreus escreve:
Ora, esta palavra-Ainda uma vez-significa a remoção das coisas abaláveis, como coisas
criadas, para que permaneçam as coisas inabaláveis. Pelo que, recebendo nós um
reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus
agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor.
E estas
palavras surgem sempre em minhas releituras, cada vez que o texto está aberto
diante de mim. Contudo, por ser uma desreferência
radical, precisei fazei algumas coisas. A primeira foi desfazer-me deste título
incômodo e impróprio que nunca correspondeu às minhas práticas. Pastor não é um
título, um cargo, ou um emprego para qual alguém deve ser remunerado e que eu
ocupava impropriamente. Pastor não é alguém que deve dominicalmente falar
diante de um público religioso. Antes, é um dom e como tal faz parte da
economia do Reino, um recurso do Reino a fim de... E eu não sou alguém que age
afim de...pastorear. Tem apenas uma pessoa no mundo
que insiste em me chamar inapropriadamente de Pastor. Nem mesmo meus filhos o
fazem. Antes, quando alguém perguntava a eles o que o pai deles fazia,
respondiam: é Pastor. Hoje eles se silenciam, escamoteiam, disfarçam, desviam. Pois
não sabem se estou pseudo-filósofo, ex-engenheiro,
pretendente a cientista da religião, ou anti-clérigo. De fato eles sabem que me
coloco belicosamente diante de qualquer clero. Ufa!
Uma culpa a menos para me defender diante do tribunal divino.
A
segunda coisa que tenho trabalhado, com menor êxito, é a remoção da crença na existência
do Ser absoluto: o Deus da falontoteologia. Outro dia
li Paul Tillich, “A Coragem de Ser”, e percebi como
acreditamos que Deus existe como o Ser absoluto. Como necessitamos de um ponto fixo e central para sustentar nossa moral e nossa cosmologia
harmonicamente acabada. Como herdeiros do socratismo
das massas (como diria Nietzsche) e do neoplatonismo
(paganismo anti-cristão por excelência), nos aferramos
ao Uno, às Idéias, ao Ser e à Existência. Um edifício muito bem articulado
fundado no mais sofisticado paganismo grego. Platão e Plotino
estão de parabéns por terem feitos tão fiéis discípulos. Mas, graças a Deus,
encontrei um fantasma novo para me assombrar, um que corrobora com as palavras
do autor de hebreus, me auxilia sintetizar as crenças e me permitir orar sem
culpa. Não que tudo que diga seja aquilo que creio e resta-me apenas fazer eco,
mas que sua aparição me propicia recursos para re-elaborações de minha rede de
crenças em Deus.
Jacques
Derrida em “Ateísmo e Crença”:
...Eu não sou alguém que diz “eu sou...”. Por outro lado, penso que devemos ter
algumas duvidas sobre a distinção entre ateísmo e crença em Deus, caso crer em
Deus não seja aparte do ateísmo, caso não se passar por uma série de estágios ateísticos, os quais não sejam seguir a crítica à idolatria
e às imagens. Mas em outro sentido, pela crítica à ontoteologia,
a reapropriação de Deus na Metafísica...Caso
não se vá o mais longe possível na direção do ateísmo, então não se creu em Deus. Deus não é o Ser Absouto. Os verdadeiros crentes sabem que devem correr o
risco, devem correr o risco de serem ateus radicais...pois
não há senso algum em um Deus
como Ser Existente. Deus não é o Ser Absoluto. Então, caso você vá pela via da
teologia negativa, pelo cristicismo filosófico apofático, desconstrução, se não
for o mais longe possível em direção ao ateísmo, a
crença em Deus é ingênua e totalmente inautêntica. A
fim de ser um ateu autêntico, palavra esta que nunca uso, a crença em Deus deve
ser exposta à dúvida radical. Sei que grandes místicos já experimentaram isto,
experimentaram o deserto de Deus, o desaparecimento de Deus...Deus
que foi chamado como não existente. Eu oro para alguém que não existe, no
estrito senso e sentido metafísico de existência. Isto é, um Ser presente como
em essência e substância...Nos termos de Heidegger:
ser além do ser. Caso creia neste além do ser, creio como no ateísmo...Penso
no paradoxo que isto pode soar. Estou certo que os verdadeiros crentes sabem
disto melhor que os outros, que a experiência do ateísmo neste tempo os aparta
dos outros crentes. Nesta epoché, nesta suspensão da
crença, suspensão da posição da existência de Deus, nesta epoché
que a fé aparece. Esta é a única possibilidade da fé, nesta epoché.
Então quando digo que “je passé
a sur titre”, passei um
risco sobre a palavra fé, sei disto pois tudo o que
tenho feito em termos de desconstrução e daí por
seguinte...
Esta
passagem por Derrida requer que venhamos nos ater
mais tempo em degustá-la, mas não o farei, tenho feito de diversas maneiras em
diversos momentos. Talvez, penso, que ao ler esta (péssima)
tradução, você finalmente tenha a confissão que esperava de mim e que
justifique nossa distância, nossa inimizade. Talvez você esteja surpreso, não
esperando isto, mas sentia-se incomodado com meus modos, e de agora você sabe
que não sou boa companhia. Você precisa de um Ser Existente, cosmologicamente
centrado e cuja evidência por ser apreendida pela ordem nas coisas. Você
precisa de um velinho de barba branca, sentado num trono, com um cetro na mão
direita e que lhe diga: meu filho. Eu, por outro lado, dou crédito a Heidegger
que disse: o ser paira sobre o nada. Perceba nossas diferenças: você ouve o que
foi dito pelos antigos, eu as coisas originais. Há as coisas e aquilo que
dizemos que elas são (o ser é linguagem) e há o nada para além deste mundo. A
minha angústia se expressa numa fé desreferenciada.
Quando chamo Deus e quando clamo ao Pai, em minhas orações, esta palavra nada
representa. Não sou um crente apofático do tipo Meister Eckhart, em que Deus está para além
do Ser, mas que se mantém no centro cosmológico da criação. Sou um crente desreferenciado, descentrado, descomologizado,
desordenado, desdeificado. Minha fé aceita o radical,
de tal modo que duvido da própria fé. Não sei se creio ou descreio, não sei se
sou ou não sou, ou se sou-e-não-sou. Nem mesmo ateu
posso dizer de mim mesmo. Fica ai um alerta: não me leve tão a sério. Duvide,
inclusive, de minhas traduções.