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A famosa lei da física

A dinâmica maniqueísta e a moral das virtudes procuram se impor em nossa leitura da realidade, em oposição à ética dialógica.

A primeira pergunta óbvia ao lermos esta afirmativa é: “o que este cara está falando?” Então proponho que “comamos o boi aos bifes”.

Maniqueísmo é a doutrina filosófica, que está impregnada em nossa cultura ocidental, que vê o mundo sob a ótica dualista e conflituosa, fazendo uma leitura da vida sempre como sendo dia ou noite, certo ou errado, vida ou morte, nós ou eles, bem ou mal, santo ou profano, “eixo do mal” ou “coalizão”, alopatia ou homeopatia, alma ou espírito, ciência ou religião, perfeito ou imperfeito, etc. Para ele não há a possibilidade de uma terceira pessoa, ou que as coisas sejam isto e aquilo, ainda que não simultaneamente, pelo menos coexistentes.

A moral das virtudes, que não devemos confundir com o moralismo em sua simplicidade, perfaz uma doutrina onde o grupo social determina ao indivíduo quais são os atos virtuosos e aqueles que são relegados ao plano do submundo. Por meio desta lente, seremos considerados seres morais, quando nossos atos forem morais, as atitudes forem coerentes e suportadas pelo código de valores vigente.

Para a lente moral, o “estar casado” é aquele que estabeleceu um contrato civil de casamento, é co-proprietário de bens econômicos e financeiros com o cônjuge, é co-responsável pela guarda, sustentação e educação dos filhos, compartilha o mesmo espaço físico chamado residência, algumas vezes dormem no mesmo quarto e na mesma cama, quando não tem outro jeito, fazem algo parecido com sexo sem culpa social e sem a busca pelo prazer compartilhado, são obrigados a participar de festas na casa da sogra, etc.

A lente moral é ajuizadora por excelência, não a partir da conduta pudica do “juiz”, mas da brutalidade em que ela compara a lei ao ato. O juízo se faz a fim de que se avilte a culpa alheia e minimize a própria incapacidade de cumprir o código moral. Em outras palavras: “quanto mais culpado você for, menos eu serei”.

É pela ótica absolutista da moralidade maniqueísta que somos levados a fazer uma leitura da realidade. Neste momento não estamos preocupados com a verdade, antes, com o estabelecimento de uma realidade moral maniqueísta. Os grupos de interesses e os formadores de opinião determinam, por meio deste regimento de força, como os indivíduos devem conceber e projetar a realidade percebida. Há uma lente entre a realidade que se pode perceber e a realidade concebida.

O confronto de valores, não maniqueísta, se dá quando passamos a discernir a ética, ou como adotamos anteriormente, a moral metafísica cristã. A ética não está preocupada e ocupada em estabelecer um código de valores percebidos socialmente e que sejam tidos como virtuosos, que determina a qualidade do que somos pelo que fazemos, antes, a ética parte da premissa de que a essência determina a experiência, ou seja, o ser dita o fazer. Muda-se a árvore e os frutos serão mudados.

Para a ética cristã o “ser casado” é aquele que estabeleceu uma aliança, o individualismo cede lugar ao compartilhado, o amor é o vínculo e o sonho é produzido por unidade, o sexo é uma possibilidade, o fazer amor é uma instância desejada e a transcendência num só corpo é mística constante. As questões sociais, de responsabilidades, logísticas, econômica, financeiras, legais, etc virão à reboque, revistas e revitalizadas.

O casar na ótica da moralidade, dentro do contexto de nossa pós-modernidade, é um rito social arcaico e obsoleto, que no máximo produz em nós o “estar casado”. O casar pela égide da ética cristã, no mínimo nos remete à dimensão do “ser casado”. A mesma temática vista por lentes distintas, produzindo dois frutos singulares.

O dialógico, por sua vez, vem da idéia de pólos radicais e que se opõe, que se sentam à mesa, expõem suas razões e buscam, pelo diálogo, o bem comum, embora mantenham suas posições radicais bem fundamentadas. O dialógico pressupõe a existência do antagonismo, para a geração do diálogo.

Embora parecendo, e de fato sendo mesmo contrário aos dogmas da religião, a semente dialógica está nos entremeios bíblicos, autorizando-nos, assim, a tecer uma trama pela ética cristã e o diálogo entre radicais opostos.

Abrindo uma seção de exemplos, podemos afirmar que Cristo é, pela Palavra de Deus, Cordeiro (João 1: 29) e Leão (Apocalipse 5: 5), Pedra (I Coríntios 10: 10)e Água (I João 5: 6 a 8), Homem (I Timóteo 2: 5) e Deus (Mateus 1: 18 a 25). Nos parece ser improvável, a menos que utilizemos malabarismos, que consigamos pela leitura da moral maniqueísta, conjugar a possibilidade da caça e do predador, do sólido e do líquido, do tangível e do intangível serem a mesma pessoa, congregarem no mesmo ser.

Também é desconcertante, aos olhos do legalismo moral e do maniqueismo, buscar virtudes num homem que, contrário aos dogmas sociais e religiosos de sua época, freqüentava casa de prostitutas, comia com ladrões, agia hereticamente ao trabalhar no sábado, falava com gentios e samaritanos, expulsava à força os vendilhões do templo e tantas outras heresias e profanações à lei moral de sua sociedade. Mas este homem é Jesus e ele tem algo a nos dizer.

Em suma, quando entendemos a ética de Jesus, podemos compreender que não havia outro lugar onde Ele pudesse estar, a não ser onde esteve.

Pela ética dialógica podemos ver o caráter de Cristo, sendo demonstrado a partir dos símbolos lingüísticos díspares e da conduta voltada ao ser e não ao fazer.

Tendo em mãos a mesma chave hermenêutica, podemos extrapolar este conceito para a Igreja e para nós, indivíduos deste Corpo e encontrar elementos dialógicos nos símbolos lingüísticos utilizados na Bíblia, quando se refere ao ser humano, ou seja, há um tratamento antagônico e coexistente, quando Deus fala sobre Seu projeto para o ser humano.

Para começarmos com um exemplo simples e com pouca implicação moral, podemos citar o fato de que somos tidos como “peregrinos e forasterios” (I Pedro 2: 11), concomitantemente que não somos “estrangeiros e peregrinos” (Efésios 2: 19). Este contra-senso é facilmente desfeito quando entendemos que peregrinamos do “status quo” espiritual (ético) atual, para um lugar de conhecimento, maturidade e herança espiritual, projetada e proposta por Deus, demandando uma migração, uma postura nômade espiritual, para que o alcancemos, ao mesmo tempo em que não ficamos desterrados, desarraigados, despatriados, antes, estamos inseridos numa comunidade espiritual chamada família de Deus.

Deste ponto antevemos uma segunda condição para o dialogismo. O Reino de Deus nos coloca como família de Deus (Efésios 2: 19) e também fomenta em nós posturas pragmáticas empresarias (Mateus 20: 1 a 16). Diante da moral metafísica cristã, que se entende como a edificação dum ambiente de escolha de um caráter, podemos conceber um ambiente dialógico que permita a coexistência de uma Igreja família, segundo os critérios de comprometimento, envolvimento, educação, perdão, sustentação, irmandade, sabedoria, etc e uma Igreja pragmática, segundo os critérios de busca por objetivos, métodos, organização, recursos, força, trabalho, determinação, inteligência, etc. A radicalização destes antagônicos permitirá a construção, migração do estado A para o B, de uma Igreja (entendamos como indivíduos coletivos) que incremente sua eficácia.

E por falarmos em Igreja, o Corpo de Cristo, ela é comparada a uma noiva virgem (Mateus 25: 1 e Apocalipse 21: 9) e também a um homem perfeito (Efésios 4: 13). Pela leitura moral maniqueísta, somente conceberíamos tal heresia caso enxergássemos uma possível androgenia no Corpo de Cristo, mas quando colocamos a lente da ética cristã e buscamos a formação de caráter, então entendemos que a noiva virgem tipifica a fidelidade, a pureza, guarda da aliança, paz, conciliação, etc, o homem representa a força, deliberação, intrepidez, ação, beligerância, etc. Traços de caráter de Cristo: macho e fêmea em santidade.

Espírito e carne “co-habitando” na mesma pessoa fecha nossa série de exemplos. Entendemos que o ser humano é um espírito que está amalgamado a uma carne, trazendo à evidência o que chamamos de alma. Os desejos da “carne” humana digladiam-se com o seu “espírito”, como na metáfora freudiana do “id” e o “super-ego”. Mas, nossa carne representa a nossa legalidade e legitimidade de “sermos”; podemos dizer “eu sou”, pois existimos num meio físico e tangível; nosso corpo é o “tichet” para a imortalidade. Nossa carne nos confere vida física, biológica e social, sem a qual não teríamos o direito a conhecer Deus.

Nosso espírito é a via de acesso que torna viável o relacionamento com Deus. A alma é o ambiente lógico, racional e emocional, que deve compor a co-existência sinérgica do que chamamos de “nosso ser”. A unidade harmonizada do “nosso ser”, operada pela ética cristã dialógica, nos projetará ao caráter de Cristo e a uma unidade tal qual a do Pai com Cristo e o Espírito.

Assim, de tudo o que expusemos, podemos ainda concluir e sintetizar:

1 – Tem-se buscado a essência de Deus e da referência do ser humano, por uma leitura estereotipada e lastreada nos signos morais maniqueístas, quando a essência tem um caráter ético, que por motivações internas gera uma moral, redundando em ações.

2 – Pelo ajuizamento moral maniqueísta dos atos de terceiros, não definimos a moralidade ou a imoralidade das pessoas, antes revelamos a não referência divina em nossas vidas.

3 – Não se realiza unidade na exclusão, mas na inclusão.

4 – Não se realiza unidade em silenciarmos o antagônico, mas no dialogismo radical.

Obs.: A famosa lei da física clássica criada por Deus e descoberta por Faraday na lei das cargas elétricas é: “os opostos se atraem”.