www. marcosnicolini .com.br
Home
Biografia
Bibliografia
Textos
Vídeos
Agenda
Contato

Lucas 16: O Reino e o fim da economia sacrificial

Especulações iniciais

Em um dos primeiros dias do ano de 2003 estava presente a um culto em uma igreja evangélica em que o pastor teceu alguns comentários sobre as palavras de Jesus segundo a tradução feita por Lucas e contida no evangelho que leva seu nome, no capítulo 16. Esta parábola é intitulada a “parábola de administrador infiel”. A leitura que aquele pastor propunha partia da premissa de uma moral financeira, isto é, que Jesus estaria se opondo à avareza dos fariseus no trato dos recursos financeiros. Percebi duas coisas ao ouvi-lo falar: primeiro que este é o lugar comum na interpretação deste texto, segundo que esta interpretação não dá conta do texto e o torna ainda mais enigmático e imoral.

A imoralidade paradoxal do texto esta em Jesus fazer a apologia do fazer amigos com as riquezas injustas. Há de se fazer uma ginástica para se chegar à conclusão que Jesus estaria defendendo o uso de recursos obtidos de maneira não idônea. O que não nos pareceu ser o caso.

Desde aquele momento, então, procurei um ponto de vista alternativo que me permitisse uma perspectiva diferente e que fosse coerente com o Jesus dos evangelhos. Aquele Jesus que se debruça na causa dos pequeninos e se opõe aos poderosos. O Jesus que confronta os líderes religiosos de todas as épocas e se alinha aos despossuídos e oprimidos. O Jesus que prega o Reino que está próximo e entre nós, e critica o clero judeu chamando-os de hipócritas. O Jesus de uma religiosidade das casas, das ruas, dos encontros, contra uma religião de um Templo que haveria de ruir. O Jesus, Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo, contra o sacerdócio que cobra dízimos e sacrifícios.

O escrito que segue abaixo teve início no primeiro semestre de 2003, tem esta versão que procurou respeitar aquele momento e que apenas procura complementar as idéias ali iniciadas. É uma proposta interpretativa que em nada tem de novidade ou de originalidade, muito menos de verdade acabada. Apenas uma interpretação dentre tantas que visa desestabilizar as leituras focadas numa ética do dinheiro.

Introdução

Certamente que a parábola apresentada em Lucas 16 é uma das mais intrigantes, dentre o conjunto de parábolas contadas por Jesus Cristo. A forma como temos nos predisposto a ler as palavras de Jesus e, no geral, o texto bíblico, nos conduz à complexas interpretações que para desfazermos estes nós torna-se necessário alterarmos a perspectiva inicial adotada.

O olhar proposto para o entendimento deste e de outros textos, é aquele calcado sobre a nossa contemporaneidade, isto é, lemos o texto de Lucas 16 sob a égide das estruturas econômicas, sociais, políticas e religiosas do século XX. Ou, por outro lado, entendemos que um texto bíblico deva sempre ser apreendido pela chave da sua trans-historicidade, e que aponta para coisas eternas e celestes, sempre desarraigada de sua própria história. Mas, é certo que Jesus não tinha diante de si um público do século XX, antes, do primeiro século; desta forma, questões como as que são atualmente levantados pela “Teologia da Prosperidade” (ou melhor, “Pseudo-Teologia da Sacralização da Riqueza Financeira”) não passavam pela mente de Jesus. Nem naquele tempo e nem em nenhum outro tempo.

Assim, ler Lucas 16 pelas lentes do calvinismo smithiano (João Calvino e Adam Smith) de Kenneth E. Hagin, não passa de um exercício da tirania de palavras absolutamente inútil e que requer um trabalho criativo e mágico que permita ocultar aquilo que impede sua leitura significativa.

Na qualidade de parábola proposta por Jesus, Lucas 16 requer de nós, leitores, a atenção às figuras de linguagem, as quais nos apresentam os ouvintes primários (o povo de Israel do século primeiro) e os personagens daquele discurso. Ou seja, as palavras de Jesus estão contextualizadas para o século primeiro e somente depois de apreendermos este contexto que poderemos entender o propósito desta e, assim, obtermos a síntese que pode ser útil a nós.

A proposta de leitura que apresentamos a seguir segue este caminho interpretativo, ou seja, permitir ouvir Jesus falando para o povo de Israel e os líderes religiosos do primeiro século, e entender que ele não estava pregando sobre finanças, mas sobre o Reino de Deus, utilizando-se da metáfora do dinheiro. Jesus toma como metáfora, neste texto, a administração de bens, assim como em outros textos ele toma a agricultura, a administração doméstica, relacionamento de pai e filhos, etc. Mas, em nenhum momento fala sobre o tema que se apresenta na superfície do discurso. Não é uma questão de profundidade de discurso, mas de jogo metafórico, no qual ao dizermos “estou com uma fome de leão”, não nos transformamos no felino rei da floresta (outra metáfora), mas declaramos a intensidade de nossa fome. É a partir desta a perspectiva metafórica que nos proporemos a pensar nas palavras de Lucas 16 e que apresentamos a seguir.

1 - Uma parábola

Uma parábola é pelo seu sentido semântico, ou, por premissa numa convenção lingüística, um discurso que traz uma simbologia, é, em outras palavras, exposição de um pensamento sob forma figurada que encerra uma doutrina moral, ou, série de empregos de palavras em sentido figurado em que a significação natural desta é substituída por outra, por virtude de relação de semelhança subentendida, significando uma coisa no que foi dito e outra no sentido.

Quando nos deparamos com uma parábola, devemos ter claro que há um jogo de palavras, um significado que não se encontra na tradução imediata do texto. A parábola usa um código, uma transmutação de valores semânticos que se esconde na relação travada entre aquele que fala e aquele que a ouve. Para entendermos a parábola, devemos romper com a relação primária símbolo-significado e percebermos que o símbolo é um sinal que remete um outro lugar. Passamos a perceber que saber quem é o ouvinte imediato da parábola é uma chave essencial para que seja possível compreendermos os signos e significados do discurso e consequentemente a doutrina moral que ali se encerra. Este conjunto de signos e significações deve fazer parte do repertório do contador de parábolas e do destinatário, para que efetuemos a transação da informação, a comunicação efetiva.

Interpretar uma parábola requer certa arqueologia: das palavras – seus signos e significados, históricos e trans-históricos -, dos contextos, do narrador e do interlocutor.

2 - Jesus, a parábola e os fariseus

A parábola de Lucas 16 é um discurso atribuído a Jesus pelo escritor deste evangelho (versículo 14), no qual podemos perceber que os fariseus eram os interlocutores privilegiados pro Cristo. É de extrema importância entendermos que Jesus está direcionando este discurso para o clero/sacerdócio de Israel, para o corpo de sacerdotes e religiosos de Israel, representado naquele momento pelos fariseus. O grande erro na interpretação desta metáfora é tomá-la em sua literalidade e pensar que Jesus estaria falando de administradores de negócios e das riquezas fiduciárias envolvidas. Antes, estamos diante de um jogo de palavras em que as figuras apontam para outros personagens.

Percebemos que, na seqüência apresentada por Lucas, após a parábola do administrador, Jesus tem um breve diálogo tenso com os fariseus (Lucas 16: 14 a 17). Procede-se, então, uma outra parábola que utiliza a figura de um rico e de um homem chamado Lázaro, os quais têm por pai a Abraão (Lucas 16: 24). Ambos têm intimidade com os textos da Lei e os Profetas (Lucas 16: 24 e 30). Portanto, nesta parábola fica claro que o rico pode ser entendido como uma tipologia do fariseu, enquanto Abraão pode vir representar Deus, demonstrando assim a tensão existente entre Jesus e o clero. Sem querermos interpretar a parábola do rico e do Lázaro, podemos pontuar que este homem simboliza a pobreza do conhecimento, dos saberes, do domínio de textos, dos ritos e do acesso direto a Deus, enquanto aquele era rico nestes atributos.

No desenho cronológico que percebemos em Lucas 16, encontramos Jesus, mais uma vez, confrontando o clero: o sacerdócio de Israel, aqui representado pelos fariseus. É um embate direto entre Jesus e aqueles que se faziam ricos pela apropriação indébita de coisas espirituais, os quais subjugavam o povo empobrecido espiritualmente, por meio de uma pseudo-verdade que ratificava uma crença na inacessibilidade direta ao divino, ao Reino. Assim, preconizavam, estes doutores da Lei, que apenas por intermédio do clero se poderia chegar a Deus. Entre Deus e o homem comum havia a Lei e seus intérpretes, os quais detinham as chaves do Reino, não permitindo acesso a ele. Este nos parece ser, o cerne deste embate.

Temos então um homem que conta parábolas: Jesus. Estas trazem, nas palavras do narrador, signos cujos significados devem ser buscados no interior do seu discurso, ou em textos correlatos que tenham significância para aquele povo, naquela época e, então, a partir daí, desta doutrina moral é que podemos extrair ou criar uma ponte que referencie a geração atual.

Quando lemos atentamente os textos dos evangelhos e os diálogos de Jesus, percebemos que seus embates e antagonismos sempre se dão com o clero/sacerdócio de Israel, enquanto acolhe e incluí no Reino o publicano, a prostituta, o doente, a viúva, o soldado romano, o endemoniado, aqueles que se encontram excluídos, marginalizados e sobrecarregados pela religião institucional, a qual se impunha sobre o indivíduo comum com uma hiper-religião, como uma religião que transcendia o próprio divino.

Atentando inicialmente ao evangelho de Jesus, relatado por Lucas, podemos notar que a controvérsia entre Jesus e o clero/sacerdócio é citada pela primeira vez em Lucas 4: 27 a 29; outra vez encontrada em Lucas 5: 20 a 26; mais uma vez eles se confrontam, segundo o relato de Lucas 6: 1 a 11.

Na seqüência deste livro, percebemos que a primeira parábola que Jesus apresenta é aquela conhecida como a do ‘bom samaritano’ (Lucas 10: 29 a 37). Ali Jesus está falando com um ‘intérprete da Lei’, um fariseu (Marcos 12: 28), expondo em parábola a sonegação de amor e socorro por parte do sacerdote e do levita ao homem ferido deixado ao largo do caminho, ou seja, ao próximo. Violam, assim, o princípio universal e fundante da Lei (Lucas 10: 25 a 28): o amor a Deus. Esta parábola é uma denúncia ao descumprimento do cerne dos Mandamentos de Moisés, por parte do clero/sacerdócio, assumindo contornos de uma confrontação direta e contundente contra aqueles que deveriam manifestar em suas práticas cotidianas e religiosas –ambas são a mesma coisa - os conceitos e princípios da Lei.

Em Lucas 11: 14 a 26, Jesus, após ter expulsado um demônio de uma pessoa, é acusado pelos fariseus (Mateus 12: 24) de estar expulsando em nome, pelo poder, de Belzebu, demonstrando a rivalidade crescente e que se acentua entre eles.

Até o versículo 33, de Lucas 11, Jesus está fazendo um severo discurso tendo como interlocutores e referência os fariseus, pois que em Lucas 11: 37 lemos: ‘ao falar estas palavras, um fariseu o convidou para ir comer com ele’. Neste contexto são encontrados: Jesus, os fariseus e um discurso recheado de signos e significados que confrontam a posição religiosa dos líderes espirituais. Entretanto, Jesus mais uma vez desafia a religiosidade excessiva e o apego a ritos vazios que não apontam para a síntese e cerne da Palavra de Deus: o Caráter transformado revelando o Reino. Jesus deixa – segundo uma ótica particular -, propositalmente de lavar as mãos a fim de instigar um debate contra a doutrina daqueles homens santos. Nesta ocasião Jesus profere mais um duro discurso contra os fariseus e escribas, chamando-os de ‘insensatos’ (Lucas 11: 40), acusando-os de ‘desprezarem a justiça e o amor de Deus (Lucas 11: 42), e de serem ‘sepulturas invisíveis’ (Lucas 11: 44), ‘assassinos dos profetas (Lucas 11: 47 a 52) e ‘impedidores da ciência’ (Lucas 11: 53) de Deus. Esta conduta mantém acesa e intensifica a ira do clero contra Jesus.

Quando poderíamos esperar que Jesus amenizasse o tom se suas palavras, indo ao encontro da multidão e proferindo palavras de alívio e esperança, ele, diferentemente, acusa mais severamente os fariseus e os chama de ‘hipócritas’ (Lucas 12: 2).

Há um hiato, um tempo, um distanciamento entre Jesus e seus oponentes, o clero/sacerdócio, no evangelho de Lucas (de Lucas 12: 13 até Lucas 14: 35) traduzido pelo tom ameno de seu discurso, passando a dialogar com a multidão. Por conta de estar falando com a multidão e desta não excluir ninguém, aproximaram-se dele os publicanos e pecadores, ascendendo novamente a ira do clero, que entendia que um judeu não poderia se relacionar com esta espécie inferior de animais (Lucas 15: 1 e 2). O distanciamento que se verifica entre Jesus e o clero não é necessariamente físico, mas dialogal, de perspectiva do Reino. Jesus deixa de falar com eles, embora, aparentemente eles estivessem circunvizinhos.

O cenário aonde a parábola do ‘administrador infiel’ será proferida está armado: Jesus, o clero, os signos e os significados do discurso parabólico-metafórico de Jesus, o contexto histórico e o clima beligerante entre Cristo e o clero. Este novo embate tem inicio no relato em Lucas 15: 1 e termina em Lucas 18: 14.

As três primeiras parábolas nos contam da alegria de se re-encontrar o que havia sido perdido: o homem que encontra a sua ovelha e festeja com os amigos; a mulher que encontra o dracma e festeja com as vizinhas; o pai que re-encontra o filho e festeja seu retorno. Aqui pode ser encontrado um dos valores universais do evangelho de Jesus: a restauração do que se havia perdido, a reconciliação, o re-encontro. Nestas três parábolas um homem/mulher reencontra com o que estava perdido, não havendo intermediários nesta re-aproximação. É obra exclusiva daquele que deseja a proximidade. O que se perdeu é a imediatez do Reino sem a mediação de ritos, cleros, templos, leis.

Voltando um pouco aos discursos de Jesus, a fim de tentarmos compor mais precisamente o cenário que se está armando nestes confrontos que se iniciam em Lucas 15, devemos voltar a Lucas 13: 34, aonde ele havia dito: ‘Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste!’. Quem é Jerusalém? Para podermos apreender este campo discursivo de Jesus faz-se necessário perguntar preliminarmente: Quem mata os profetas e apedreja o que a ti são enviados? Em Lucas 11: 47 a 51 é possível obter uma perspectiva para esta dúvida: a geração de escribas e fariseus são aqueles que Jesus está declarando serem os assassinos dos profetas. O clero, nesta parábola da galinha, é que é chamado de Jerusalém, pois esta cidade representa o centro religioso do universo de Jesus. O clero são os assassinos desta religiosidade sem ritos, templos, lei.

Em Lucas 13: 34, fala-nos de uma intenção, esforço e propósito divino em estabelecer um relacionamento de intimidade entre Deus e Israel, (e em uma transposição cristã) com a humanidade, entretanto, alguém se interpôs sistematicamente contra este projeto procurando impedir este contato sem intermediários. Esta interposição é denunciada, assim como as estratégias desenvolvidas por estes agentes.

Estas estratégias são expostas em Lucas 11: 37 a 12: 1, que, resumidamente, podemos dizer que é uma religiosidade que sobrecarrega o homem com obrigações ritualísticas e dogmáticas, tornando-o servo do sistema religioso e particularmente do clero/sacerdócio, impedindo a humanidade de edificar um Reino como a justiça pelo amor entre nós. Uma abordagem mais ampliada deste discurso de Jesus pode ser encontrada e estudada em Mateus 23: 1 a 39, onde seu discurso termina da seguinte forma: ‘Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!’ São os ‘Ais’ de Jesus sobre os fariseus e escribas, que culmina numa metáfora chamada Jerusalém. Ai de ti, escribas e fariseus...

Então, entre Deus e a humanidade, foram estabelecidos homens que auxiliassem no encurtamento da distância, na ausência de distância, sinais de trânsito que aumentassem a eficácia e a dinâmica espiritual, mas que por virem a intencionar o poder e a manutenção do poder, adulteraram as ‘Escrituras’, matando os profetas: aqueles que falavam de paz, de reconciliação, de relacionamento direto entre Deus e a humanidade. Homens, que usando das riquezas injustas, dominaram sobre aqueles com quem Deus quis estar. Este domínio se dá pela sobrecarga religiosa, o sobre-peso institucional que gera a crença numa dívida adicional, implicada sobre a dádiva da vida.

Após Jesus ter concluído a parábola conhecida como a ‘do filho pródigo’, em seqüência inicia uma nova, mas ainda está falando para os mesmos interlocutores: o clero/sacerdócio, os escribas e fariseus. A nova parábola, agora, acrescenta elementos não trabalhados nas três anteriores, possivelmente visando ampliar e expandir seu discurso. O jogo metafórico é sempre aquele que amplia e expande, sempre com novas buscas de significados.

Nesta nova parábola (Lucas 16: 1 a 8) fala de um senhor que tem negócios com diversas pessoas e para auxiliá-lo neste negócio, estabelece um administrador. Este administrador é corrompido pelo poder, que se viu instituído e passa a defraudar, enganar, fraudar, espoliar, burlar, quando é denunciado por alguém.

Uma vez o senhor tendo ciência da conduta maculada do administrador, este o chama e pede-lhe para prestar contas.

3 - Jesus Eschatos

Antes de avançar é devemos entender o sentido escatológico do discurso e vida de Jesus e o significado deste ‘prestar contas’, referenciando historicamente este conceito central exposto na parábola.

Como prefácio desta busca de entendimento do Jesus Escatológico e da escatologia no discurso de Jesus, pode-se transcrever o que disse o Teólogo Eurípedes da Conceição: ‘O cristão de coração sábio não se debruça com curiosidade sobre os “eschata” (plural grego: coisas últimas), mas sobre o “eschaton” (singular grego neutro: Futuro Absoluto), ou talvez mais exatamente sobre o “Eschatos” (singular masculino) - Jesus Cristo: plenitude, pleroma, evento escatológico por excelência, que coloca toda nossa existência sob juízo, que diz respeito, em última instância, a nosso ser, a nosso destino definitivo. O núcleo central da mensagem de Jesus é também escatológico, sob a forma do juízo iminente de Deus. Por isso, a figura que melhor traduz a atividade de Jesus, na sua consciência e na percepção de seus ouvintes, é a de “mensageiro escatológico”’ (Escatologia, uma análise introdutória – Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro).

O que é importante salientar é que Jesus não fala de escatologia, antes, vê-se escatologicamente, tem consciência de sua posição escatológica (“eschatos”) e que está centrada nele, que ele representa, vê-se como cumprimento profético para Israel e para a humanidade.

Na narrativa de Lucas é estabelecida uma cronologia onde um dos primeiros atos de Jesus é revelar-se o Cristo, isto é, o homem que se revela como o Messias, o Ungido, então em Lucas 4: 14 a 21, pode-se ler:

Então voltou Jesus para a Galiléia no poder do Espírito; e a sua fama correu por toda a circunvizinhança. Ensinava nas sinagogas deles, e por todos era louvado. Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; e abrindo-o, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu (no grego é “chrio”, de onde deriva “christos” que é o ungido) para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor. E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos.

 Jesus estava lendo Isaias 61: 1 e 2 e a palavra ungiu, no texto original, é “mashach” de onde deriva “mashiyach”, ou, messias em português.

A palavra “mashiyach” é utilizada duas vezes apenas no Velho Testamento, em Daniel 9: 25 e 26, onde se lê:

Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém até o ungido (“mashiyach”), o príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; com praças e tranqueiras se reedificará, mas em tempos angustiosos. E depois de sessenta e duas semanas será cortado o ungido (“mashiyach”), e nada lhe subsistirá; e o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até o fim haverá guerra; estão determinadas assolações.

Quando Jesus está afirmando que se cumpriu o que havia sido profetizado por Isaias, ele deixa subentender nas entrelinhas, nas notas de rodapé que ele é o “mashiyach”, o Cristo – verdade que os escritores incorporaram no Novo Testamento, em suas epístolas - e, portanto, por premissa, ele estava dizendo que as profecias de Daniel 9 estavam em curso de cumprimento e como tal, um tempo de juízo se abateria sobre Israel, um tempo de “prestar contas”. A revelação do Cristo traz como conseqüência o cumprimento escatológico de todo o Velho Testamento e sobre esta premissa se desenvolve o ministério de Jesus, o Cristo.

Em Mateus 24: 1 a 25: 46 encontramos o grande discurso escatológico de Jesus, o Cristo. Este discurso é precedido pelo que ele proferiu contra o clero/sacerdócio – escribas e fariseus – em Mateus 23: 1 a 39 (ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas...) e as conseqüências são vistas em Mateus 26: 1 a 5 (então os principais sacerdotes...reuniram-se...e deliberaram...matá-lo). Ele, Jesus, ciente de sua messianidade, confronta o clero/sacerdócio, confronta o templo (Mateus 24: 1 e 2), prediz as dores profetizadas por Daniel e termina dizendo que o Cristo será cortado (Mateus 26: 2), ou seja, morto na cruz.

Com freqüência Jesus está dizendo aos seus discípulos que ele é aquele que foi predito e previsto pelos profetas. Em Lucas 10: 24 ele diz: “Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram.” Em Mateus 16: 15 a 17 há um impressionante e importante diálogo de Jesus com os discípulos: “Mas vós, perguntou-lhes Jesus, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus”.

Podemos pensar que se Jesus se pensa escatologicamente, ele pensa num tempo de juízo, de prestar contas. Um tempo onde os que estão imbuídos de autoridade são chamados a dizer o que fizeram com os recursos a eles tornados disponíveis. Um tempo escatológico é um tempo de transmutação paradigmática, onde uma velha ordem se desfaz e uma outra nova toma curso.

4 - Prestar contas no dia do Senhor

A escatologia de Jesus tem como o alfa a revelação messiânica: Jesus, o Cristo. A escatologia messiânica de Jesus tem como ômega o juízo, o ‘prestar contas’. Assim como um tempo de prestar contas traz em si a crise dos valores, a passagem desértica de uma antiga ordem para uma nova ordem. Diferentemente dos dias atuais aonde o estudo das coisas últimas produz um discurso esperançoso e de alívio para a multidão, a escatologia representava para Israel, nos dias de Jesus, era um dia terrível, era o ‘dia do Senhor’. Os profetas falavam do ‘dia do Senhor’ – o dia escatológico, os últimos dias - não como um que devesse ser desejado, como quem dissesse: “Maranatha, vem Senhor”, mas como falou Amós: “Ai de vós que desejais o dia do Senhor! Para que quereis vós este dia do Senhor? Ele é trevas e não luz.” (Amós 5: 18).

Há um profeta que não somente tem uma visão do ‘dia do Senhor’, mas como este dia, segundo suas profecias, é um dia terrível - estas profecias passam a integrar o Novo Testamento -, este profeta é Joel e ele diz: “Tocai a trombeta em Sião, e dai o alarma no meu santo monte. Tremam todos os moradores da terra, porque vem vindo o dia do Senhor; já está perto” (Joel 2: 1); “...o dia do Senhor é grande e muito terrível, e quem o poderá suportar?” (Joel 2: 11); “O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor” (Joel 2: 31); “Multidões, multidões no vale da decisão! porque o dia do Senhor está perto, no vale da decisão” (Joel 3: 4). É Pedro que citando Joel diz: “E acontecerá nos últimos dias...” (Atos 2: 17), referindo-se ao fenômeno das línguas ocorrido no seio da Igreja. Os “últimos dias” para Pedro eram aqueles dias que ele estava vivendo, era o cumprimento escatológico iniciado na revelação do Messias e a ser cumprido com o juízo de Deus: prestar contas.

O mesmo Pedro escrevendo à Igreja diz: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e se começa por nós, qual será o fim daqueles que desobedecem ao evangelho de Deus?” (I Pedro 4: 17). O messianismo escatológico impregnado naquela Igreja era imenso, pois eles haviam visto o Cristo e agora aguardavam o cumprimento das coisas que os profetas haviam falado, e que tinha uma relevância singular naquela geração, na vida deles. A fé deles era uma que aguardava as últimas coisas serem cumpridas, um tempo de juízo, um “prestar contas”, não milhares de anos depois, mas naqueles dias.

5 - Geração escatológica

Voltando ao texto de Lucas 16: 2, quando Jesus, o Messias, está falando sobre “prestar contas”, ele está trazendo subjacente um discurso escatológico sobre algo para ser cumprido naquela geração, de onde surge uma nova questão, relevante para destrincharmos o texto, assim, emerge naturalmente a pergunta: o que é uma geração no discurso de Jesus, o Cristo “Eschatos”? E nesta geração a que ele se refere, quem seriam os filhos do mundo?

A mesma palavra no original grego utilizada em Lucas 16: 8, para geração, é também usada em Lucas 21: 32, porém, enquanto no primeiro texto está no contexto da parábola do administrador, no segundo está no contexto do discurso escatológico transcrito por Lucas e que é paralelo ao de Mateus 24. Em Lucas 21: 32 está escrito: “Em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo isso se cumpra.” Jesus está dizendo que uma série de eventos escatológicos ocorrerão e que uma determinada geração será testemunha e além disto será co-autora dos fatos.

Geração pode ser entendida a partir do simbolismo cronológico, ou seja, pessoas que vivem dentro do mesmo espaço e tempo, assim, uma geração pode ser entendida como um período de tempo, por exemplo, de 33 anos; ou, geração pode ser entendida a partir do simbolismo dos valores e crenças, ou seja, da mentalidade prevalecente, uma forma de ver, interpretar e conduzir sua presença no mundo, neste caso são participantes de uma mesma genealogia axiológica - de valores morais e éticos -, aonde os descendentes reproduzem o mesmo conjunto de valores e praticam o mesmo estilo de vida de seus predecessores: uma continuidade generacional axiológica.

Além dos evangelhos, o sentido de geração como genealogia axiológica é empregado por Pedro, quando escreve às Igrejas, dizendo: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pedro 2: 9). Este texto de Pedro é uma releitura da Lei (Êxodo 19: 5 e 6; Deuteronômio 7: 6), um inserção de continuidade genealógica axiológica, uma ruptura da raça geneticamente determinada e uma conceituação de raça espiritual, por fé. Também na Revelação de Jesus, o Cristo, às Igrejas, ele mantém o sentido de geração, dizendo ser raiz e a geração de Davi (Apocalipse 22: 16), ou seja, um homem que foi segundo o coração de Deus.

O viés escatológico do Cristo se torna único, pois, cruzam-se por um lado o tempo-espaço e a plenitude de uma geração, por outro lado cruza com a própria presença do Emanuel. Naquele lugar e naquela data, a geração que carrega o simbolismo cronológico e a geração que traz o simbolismo axiológico são a mesma ‘pessoa’ e se encontra com Jesus, o Messias.

Em Lucas 17: 25, Jesus declara que aquela geração deverá rejeitá-lo antes que eventos escatológicos sejam evidenciados. Tal geração é comparada com aquela verificada nos dias de Noé (Lucas 17: 26 e 27) e como a geração de Sodoma (Lucas 17: 28 e 29). Geração como uma uniformidade temporal e local de valores e crenças. Primeiramente a geração que é o epicentro de uma ocorrência escatológica, deve rejeitar e matar o Cristo, para que posteriormente os eventos do juízo se verifiquem. Uma das características da geração escatológica, segundo o simbolismo de Jesus, é que ela rejeita e mata o Cristo: a morte de Deus.

Estes expectativas estavam anteriormente postas por Jesus, quando, em Lucas 11: 29 a 32, declara que esta geração espera um sinal, mas o único sinal é o de Jonas, ou seja, de sua morte, e por isto eles o rejeitam. Assim, esta é uma geração que não busca sabedoria e nem há arrependimento (“metanóia”, mudança de valores e crenças) diante do Reino de Deus. Rejeitam a Deus por não crerem nos novos valores do Reino. A religião rotinizada, ritualizada e dogmatizada nada mais produzia do que um ir além de Deus, transcender a Deus, simular Deus, assassinando-o.

Em Lucas 11: 45 a 52, Jesus está dizendo que esta geração mata os profetas, ou seja, quando a história dos assassinatos é detalhada percebemos a mentalidade, o código de valores morais e corporativos dos assassinos é da defesa do interesses corporativos, institucionais, para isto se lançam contra todos os que sinalizando a ruptura dogmática, desestabilizam a instituição. Uma geração de um Deus morto.

Ainda mantendo esta retroação nos escritos de Lucas, lê-se em Lucas 7: 31, as palavras de Jesus, antes, uma indagação dele: ‘A que, pois, compararei os homens desta geração, e a que são semelhantes?’ O entendimento do porque desta pergunta, antes, desta incitação à uma reflexão, está no contexto no qual Jesus profere um discurso: o povo e os publicanos compreendem, crêem e são batizados – como sinal de determinação de fé e mudança de conduta – “mas os fariseus e intérpretes da lei rejeitam, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus.” (Lucas 7: 30) Quem são os homens desta geração senão aqueles que não creram e rejeitaram o desígnio de Deus? São estes os homens que tinham intimidade com a Bíblia, as Escrituras Sagradas, a Lei e os Profetas, mas não viram nelas o Cristo. Tinham no ministério, no mistério, na mitologia, no sagrado, no intransponível, no inacessível, no impossível os alicerces, as fundações de sua intocabilidade, na manutenção institucional da religião. A manifestação do Cristo vem tornar obsoleto o sacrifício, portanto a Lei, portanto o Tempo, portanto o sacerdócio, portanto a obediência. Reconhecer o Cristo era reconhecer que estavam sendo demitidos pelo Senhor. Aqueles que estavam administrando a Lei estavam sendo chamados a prestar contas, pois estavam sendo demitidos de suas funções tiranizadas.

Naquele contexto histórico há um prestar contas de uma geração a quem se confiou os oráculos de Deus. É esta a geração em que o “senhor da vinha” tendo arrendado-a a alguns lavradores, posteriormente envia seus servos para obterem seus frutos, mas são mortos pelos arrendatários que se proclamam senhores da vinha; mais tarde o “senhor da vinha” envia seu próprio filho e os mesmos agricultores dizem: “este é o herdeiro, vamos matá-lo e nos apoderar da vinha”. Então o próprio “senhor da vinha” vem executar juízo contra os agricultores, os arrendatários. Esta parábola contada por Jesus, o Filho do Senhor da Vinha é entendida pelos principais sacerdotes e fariseus (Mateus 21: 33 a 46 e Lucas 20: 9 a 19) como sendo uma parábola que os retrata. Mas é esquecida pelos padres, pastores, bispos e apóstolos de nosso tempo.

Esta é a geração para a qual Deus está fazendo um “prestar contas”. Os maus e corruptos no evangelho de Cristo não são necessariamente os publicanos, os adúlteros, as prostitutas, os ‘pecadores’, antes, e, sobretudo, são aqueles que possuindo as chaves do Reino não entram e não permitem que os outros entrem, estes serão ajuizados por Deus.

6 - O mundo

No texto de Lucas 16: 8 a palavra usada para mundo é o vocábulo grego “aion” que significa “um período de tempo longo e contínuo, uma era, um tempo não exposto à cisalha, quebrado, rompido, descontínuo”. O mundo é algo que se dá num tempo contínuo. No pensamento dos dias de Jesus, representava o período de tempo messiânico, em outras palavras, era o tempo transcorrido desde o Éden e a promessa daquele que esmagaria a cabeça da serpente, até aqueles dias. “Aion” é traduzido por “mundo”,”‘era”, “para sempre”, “desde a antiguidade”, “século”, ou seja, sua tradução traz implícita o entendimento de um tempo significativamente longo e contínuo, o mundo como a idéia de um tempo que o encerra.

A palavra “mundo” – no português – também é a tradução de outro vocábulo grego: “cosmos”. “Cosmos” significa o arranjo harmônico, ordenação, ornamento, trazendo implícito o sentido de leis, normas, valores, crenças, arranjo. Quando lemos no português a palavra “mundo”, este vocábulo pode ter sido a tradução de “aion” – como em Lucas 16: 8 – ou pode ser a tradução de “cosmos” – como em João 3: 16.

Enquanto “aion” implica um tempo e a partir daí, como as pessoas se colocam neste tempo e este colocar-se no tempo é o mundo, o ‘cosmos’ implica num conjunto de valores e leis com que as pessoas apreendam e ordenam os fenômenos internos e externos. Enquanto Deus criou o “cosmos” (João 1: 10), amou o “cosmos” de tal maneira que deu o seu Filho (João 3: 16) para resgatar o “cosmos” (João 3: 17), não há referência de um amor divino pelo “aion”. Como que se pudéssemos falar que Deus ama o recurso humano de apreensão e ordenamento das coisas, mas que Deus não necessariamente ama a continuidade eterna das ordens produzidas.

O mundo, o século, a era não é boa e nem ruim em si, mas os homens podem edifica-los no tempo de maneira boa ou ruim. A moralidade, a imoralidade e a amoralidade não estão na matéria, mas na ordenação produzida no e pelo homem. O ser humano é quem concebe um mundo e esta concepção se dá a partir de uma rede de crenças.

Um texto que parece ser exemplar para entender o “aion” como sendo um conceito esvaziado de valores próprios está em Mateus 13: 49: “Assim será no fim do mundo (“aion”): sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos”. No final do “aion” os maus serão retirados, permanecendo os justos, mas não é o “aion” nem mau nem justo, apenas é um mundo que se realizou num tempo, uma era que chega ao fim, onde habitam maus e bons.

Uma determinada geração é uma estrutura compartilhada que determina uma leitura segundo uma rede de crenças, valores, pensamentos, poder, etc. Mas um determinado mundo (“aion”), era, século implica numa leitura não axiológica. O mundo somente está preenchido de valores quando há uma geração que o leia, apreenda-o, conceba-o: o fenômeno, as ocorrências, os acontecimentos somente serão bons ou ruins quando houver um sujeito moral que valores os fenômenos.

Sabendo que “aion” é um tempo que encerra um mundo no tempo, que contém um mundo temporalmente, é necessário saber que o tempo é concebido, no Novo Testamento a partir de dois vocábulos: “cronos” e “kairós”. O tempo “cronos” é aquele entendido pela sucessão das horas, dos dias, é o tempo cronológico. O “kairós” é um período de tempo, um tempo aonde ocorrem eventos que culminam numa crise, um tempo aguardado.

“Cronos” e “kairos” são medidas de tempo, enquanto “aion” é a estada no tempo, é o homem no tempo, interferindo, reagindo, apreendendo no tempo: mundo.

Não há, segundo uma leitura pormenorizada, dois mundos: o mundo do bem supremo e o mundo do mau supremo. Há, entretanto, o mundo e o sujeito moral que inserido nele interage beneficamente ou destrutivamente.

7 – Mammonas Adikia

No texto de Lucas 16: 9 a palavra traduzida por riqueza é a palavra “mammonas”, se origem caldéia – babilônico - e que significa “desejo exacerbado de sucesso, desejo exacerbado de ter poder ou fama, avareza”. Esta palavra – “mammonas” – é utilizada apenas quatro vezes no Novo Testamento: Lucas 16: 9, 11 e 13 e Mateus 6: 24.

“Das ‘mammonas’ de origem iníqua...”. A palavra grega “adikia” foi traduzia aqui por “origem iníqua”, entretanto poderia ser traduzida por: “uma ato de violação da justiça’”. Desta forma poderia para frasear este “mammonas adikia” da seguinte forma: “do desejo exacerbado de ter poder e fama proveniente de uma violação da justiça...”

A questão central que agora se levanta, para a abordagem de Lucas 16 é: como fazer amigos do desejo exacerbado de poder e fama que é proveniente de uma violação da lei e da justiça?

8 – Desviando dinheiro de uma factoring

Uma metáfora contemporânea poderia ser proposta para trazer certo entendimento sobre a parábola de Lucas 16.

Imaginemos um homem rico que decide emprestar parte de seu dinheiro para pessoas diversas. Este empréstimo é feito com a cobrança de juros de mercado: vamos supor que fosse inflação mais 12% ao ano. Como este negócio começa a prosperar, o homem rico contrata um hábil administrador para auxiliá-lo nas questões comerciais e de cobrança. Certo dia o homem rico recebe uma denúncia de que o administrador o está lesando, está faltando com a confiança nele depositada. Como poderia o administrador lesar o homem rico? A resposta mais simples e direta é que o administrador estaria cobrando juros adicionais, um spread, um over-price, em outras palavras, cobrando correção monetária mais 12% ao ano, mas 30% ao ano!

Este spread tem conseqüências na formatação das relações senhor-administrador-cliente:

1 - O senhor poderá ser visto pelos clientes como sendo aquele injusto homem avarento, que se beneficia da carência alheia, usurpando e despojando os recursos, devendo ser temido, pois pode colocar o inadimplente na cadeia.

2 - O senhor pode vir a ser visto pela lente do administrador, que por cobiça e desejo de poder, manipula a sua imagem a fim de obter recursos extras, além daqueles acordados entre senhor e administrador.

3 - O administrador poderá ser visto pelos clientes como sendo o representante legal do senhor, cumprindo ordens e repassando os veredictos do senhor. O administrador é um homem do povo, que foi sacado do meio do povo e que agora cumpre as ordens do senhor: um capataz.

4 - O cliente poderá ser visto pelo administrador como fonte inesgotável de lucro enquanto as relações de força, poder e dominação mantiverem-se inalteradas.

A parábola de Lucas 16 inicia quando o senhor torna-se ciente de que o administrador está cobrando um spread além daquele acertado. Administrador é no grego “oikonomos” e significa: mordomo (Lucas 12: 42), administrador (Lucas 16: 1), superintendente, despenseiros (I Coríntios 4: 1), curadores (Gálatas 4: 2) e tesoureiro (Romanos 16: 23). “Oikos” significa casa e “nomos” significa ordem, então, “oikonomos” é o que ordena as coisas domésticas, pessoais.

 9 – A parábola da vinha e do administrador

“Havia certo homem rico, que tinha um ‘oikonomos’” (Lucas 16: 1). Mas, vamos antes aproximar esta parábola de outra, já apontada por nós.

Começou (Jesus) então a dizer ao povo esta parábola: Um homem plantou uma vinha, arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se do país por muito tempo. No tempo próprio mandou um servo aos lavradores, para que lhe dessem dos frutos da vinha; mas os lavradores, espancando-o, mandaram-no embora de mãos vazias. Tornou a mandar outro servo; mas eles espancaram também a este e, afrontando-o, mandaram-no embora de mãos vazias. E mandou ainda um terceiro; mas feriram também a este e lançaram-no fora. Disse então o senhor da vinha: Que farei? Mandarei o meu filho amado; a ele talvez respeitarão. Mas quando os lavradores o viram, arrazoaram entre si, dizendo: Este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança seja nossa. E lançando-o fora da vinha, o mataram. Que lhes fará, pois, o senhor da vinha? Virá e destruirá esses lavradores, e dará a vinha a outros. Ouvindo eles isso, disseram: Tal não aconteça! Mas Jesus, olhando para eles, disse: Pois, que quer dizer isto que está escrito: A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular? Todo o que cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó. Ainda na mesma hora os escribas e os principais sacerdotes, percebendo que contra eles proferira essa parábola, procuraram deitar-lhe as mãos, mas temeram o povo. (Lucas 20: 9 a 19).

Fazendo um paralelo entre as duas parábolas, pode-se encontrar a pessoa do senhor, de um recurso valioso deste senhor e de pessoas postas para cuidar, proteger e fazer prosperar certo negócio. Tais pessoas no transcurso de um tempo passam a ter um desejo exacerbado pela posse do recurso e procuram obtê-lo pela violação da lei e da justiça, ou seja, de um acordo pré firmado entre as partes. Nas duas parábolas há um tempo específico ao fim do qual o senhor vem pedir as contas para aquele que foi posto para gerir os recursos.

Leiamos, então, a parábola de Lucas 16, procurando entender os simbolismos desta metáfora. Entendendo o que dissemos antes de uma metáfora, isto é, que um significante (uma palavra) abandona seu significado original a fim de apontar para um uso próprio dentro da parábola. Sigamo-la:

Lucas 16: 1 - Dizia Jesus também aos seus discípulos: Havia certo homem rico, que tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de estar dissipando os seus bens.

Podemos ler as palavras de Jesus ao dar início a mais uma parábola, e como tal usa figuras de linguagem que apenas apontam para um sentido outro que não aquele primeiro do significado das palavras corriqueiramente aceito. Esta é uma parábola que apenas podemos ler no evangelho escrito por Lucas. Talvez devêssemos perguntar o por que desta singularidade. Ademais, deveríamos perguntar pela singularidade de algumas parábolas que apenas podemos ler este evangelho. Das quarenta e quatro parábolas de Jesus constantes nos quatro evangelhos, Lucas transcreve trinta e uma delas, Mateus vinte e duas, Marcos seis e João apenas duas. Contudo, não o faremos por hora, mas marcamos o registro de tal estranheza.

Antes, voltemos-nos apenas a este texto e procuremos o lugar da metáfora ali presente e não o sentido imediato das palavras. Para tanto, entendemos que o homem rico assim como o agricultor representa Deus: ele é o dono da riqueza, da vinha. Claro que não estamos imaginando a insanidade de defender que Deus é o Senhor do ouro e da prata e com isto pleitear uma herança financeira, mas dizer que nesta parábola o homem rico, aquele que possui os bens, tipifica a Deus. Por se tratar de um jogo de símbolos e significados, a riqueza não deve ser entendida como bens tangíveis, patrimônio, bens fiduciários, mas isto que esta no primeiro plano do texto (a riqueza econômica) deve ser transposta para um outro plano (o metafórico). Uma vez que o homem rico deva representar Deus nesta parábola, a riqueza deva apontar para o inominável do divino.

Também entendemos que o administrador (“oikonomos”) nos fala do clero/sacerdócio de Israel: o clero não é proprietário, mas um que tem a responsabilidade por ordenar as coisas pessoais do senhor rico. O homem rico, cuja riqueza econômica aponta para um Deus rico em sua dadivosa graça, empregou um “oikonomos” para ordenar suas coisas pessoais (economia). Longe de tratar de finanças e de bens econômicos, a parábola aponta, metaforicamente, para algo que não é imediato nela mesma. Neste caso está falando de Deus, da dádiva da vida e do suporte à vida e de homens que outrora midiatizavam a relação entre o sagrado e o profano. Uma metáfora, ao procurarmos entendê-la nela mesma no sentido primário de suas palavras, esvazia-se e perdemos o sentido, no caso da parábola, moral que ela aponta.

De maneira similar e no mesmo apontamento, podemos dizer que sobre o acusador. Poderiam alguns determinar numa leitura viciada ser o diabo aquele que acusa. Mas damos nossa preferência a uma outra leitura, para esta parábola específica e no contexto que reclama tal perspectiva, que aquele que acusa o “oikonomos” de injustiça no trato da economia do senhor rico deve ser entendido como o sangue dos profetas e dos justos que foram mortos pelos administradores/agricultores, conforme pode ser lido em Apocalipse 6: 9 a 11. Não há uma acusação injusta, mas o próprio sangue vertido injustamente, ainda que sob o manto da Lei, clama por justiça. Se há uma ação dissipadora (morte, roubo ou destruição) esta é executada pelo “oikonomos”, pelo administrador e não por um agente externo, um diabo, ou um demônio.

Desta maneira entendemos poder melhor recompor a cena desta parábola e seus atores principais: os representantes que atuarão em nome de outros. Temos o homem rico que representa Deus, as riquezas que nos lembram das dádivas da vida e do suporte à vida, o “oikonomos” que nos lembra os intermediários de Deus segundo uma dada economia (ordem pessoal do senhor rico) e o acusador que é o odor de injustiça que clama por justiça. Falta-nos ainda falar do homem e da mulher comuns, que pagam tributo ao “oikonomos” nesta economia, assim como da própria dívida.

Lucas 16: 2 - Chamou-o, então, e lhe disse: Que é isso que ouço dizer de ti? Presta contas da tua mordomia (economia); porque já não podes mais ser meu mordomo (“oikonomos”).

Prestar contas é o fim de uma geração, é um tempo aonde Deus vem trazer juízo sobre o “aion”. O fim de um modo de operação, o fim de um conjunto de crenças, de uma dada ordem ou ordenação, de uma economia. O fim do tempo da Lei, do Templo, dos Sacrifícios, do sacerdócio clérigo conforme está escrito em Hebreus. A ordem pessoal de Deus, sua economia, é traduzida pelos aparatos, instrumentos, dispositivos: os ritos, as festas, os sacrifícios, a obediência, etc. É o fim de uma “oikonomia”, de um tempo em que alguns tratavam de cuidar da ordem pessoal de Deus, de um tempo de intermediação sacerdotal entre Deus e o povo. Pois, os edificadores de um mundo devem prestar contas do uso que fizeram dos recursos, próprios deste tempo.

A escatologia de Jesus (e Jesus é um homem escatológico, além de ser o homem da escatologia) marca um tempo em que o Templo é posto abaixo, isto é, toda uma geração deverá passar; toda uma geração de “oikonomom” será destituída de sua função e uma outra geração tomará seu espaço, seu mundo. A geração da lei não mais deverá administrar o Reino. A Lei passa assim como os “oikonomom” que a administram. Este tempo de prestar contas, pois o odor da injustiça sobe até Deus como um incenso, é chegado com o Reino de Cristo, marcando abissalmente a distância entre a economia em que o “oikonomom” mediava a relação do homem rico com o povo que lhe devia algo.

Esta não é uma passagem que trata de dinheiro e nem de como administrar recursos financeiros. Quem assim pensa ou cai numa armadilha ou está ocultando o ponto central. Mas é uma metáfora escatológica que trata da passagem da geração da Lei para uma geração do Reino, da geração do clero para a geração dos filhos no Reino, da geração de um grupo escolhido e aparte, para um Pai que está em meio a todos. De uma maneira de produzir cosmos a partir de elementos religiosos centrados no Templo, na Lei, nos ritos, nas festas e no sacerdócio clérigo, para uma produção de cosmos, de mundo nos quais os elementos religiosos estarão centrados nos relacionamentos, no amor gracioso, no encontro comunitário, no partir o pão e no sacerdócio universal, na ausência de sacrifícios e de sacrificadores.

A armadilha que se deixam enredar os intérpretes deste texto é a de lê-lo literalmente, e, portanto, sacam a conclusão de Jesus apontando para uma moralidade imoral. A armadilha é pensar que o centro da parábola está presente no plano primário dela, ou seja, na questão econômica e financeira segundo uma mentalidade do século XXI. Esta parábola, como outras, toma um tema a fim de falar de outro assunto. Como a parábola da vinha, em que um homem plantou uma vinha e ausentando-se dali deixou-a aos cuidados de agricultores. Trata-se de um jogo de palavras cujo significado não é imediato, mas mediado metaforicamente.

Lucas 16: 3 - Disse, pois, o mordomo consigo: Que hei de fazer, já que o meu senhor me tira a mordomia? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha.

A questão central aqui é: para que serve um “oikonomom” quando não mais é necessário um “oikonomom”? Caso estejamos certos e “oikonomom”, nesta metáfora, representa o clero, então a pergunta seria: para que serve o clero (um grupo de homens que exerce o sacerdócio, ou seja, a intermediação entre o sagrado e o profano, e que são separados para tal função) quando não mais é necessário separar homens para a função sacerdotal? Que fazer do clero? O que fazia o clero? Guardava os ritos, os sacrifícios, cuidava do patrimônio, organizava os negócios do Templo e interpretava a Lei. A pergunta que é posta é: porque não é mais necessário o “oikonomom”?

O “oikonomom” pergunta a si: o que farei, se somente sei ser “oikonomom” e não tenho força para trabalhar a terra e tenho vergonha de mendigar? Entendamos a radicalidade desta leitura das palavras de Jesus: ele estaria pondo um fim ao sacerdócio clérigo, a separação de homens os quais seriam incumbidos de coisas sagradas. Jesus estaria dizendo que no fim de um “aion” não seria caracterizado pela mudança no clero, mas eliminação desta função. Se “oikonomom” pode ser entendido como sacerdócio clérigo, ou seja, homens separados do restante do povo, cuja responsabilidade era ordenar os negócios do homem rico, então o que significaria trabalhar a terra e mendigar? Antes, porém, percebamos o isolamento do “oikonomom”. O “oikonomom” é um homem que encontrando-se entre o homem rico e o povo, é, contudo, um homem só. Sua solidão é expressa no pensar consigo: um homem sem amigos, sem iguais, sem ter com quem compartilhar sua carência absoluta de sentido de existência.

Retornando, o que seria trabalhar a terra e mendigar? Não temos muita idéia do que poderia ser, mas, podemos sugerir a seguinte hipótese: Trabalhar a terra é abandonar a segregação e fazer o que todos fazem. Numa cultura eminentemente agrária ou pastoril, o trabalhar a terra é o trabalho de todos. Trabalhar a terra seria fazer o que todos fazem, sem as segregações próprias de um clero, de homens separados. A partir daí poderíamos entender como uma vida despida de intermediários, da midiatização, onde vivemos e enquanto vivemos nos relacionamos com Deus ao nos relacionarmo-nos mutuamente, e o fazemos como qualquer outro o faz, na labuta diária. Uma mística da existência e uma religiosidade do comum, sem a presença estranha de um grupo que fala em nome de Deus: de capatazes, de cobradores de juros. É o fim do clero e o início de um sacerdócio a ser exercido pelo leigo, pelo comum, enquanto comum. Mas não um sacerdócio voltado para a sacralização de parte da vida, mas a vida sacra; não haver mais classes de homens e mulheres segundo a espiritualidade: clero e leigo, onde todos são sacerdotes (I Pedro 2: 9 e Mateus 23: 1 a 12). Não haver as atividades sagradas e as profanas, mas tudo ser trabalho.

O “oikonomom”, contudo, não sabe transpor a linha que o coloca lado a lado com o agricultor, com o homem comum. Uma vez que o homem rico elimina esta função intermediária, este passa a se relacionar diretamente com todos os homens, de maneira direta e comum. O “oikonomom” somente sabe ser e viver num mundo onde ele intermedia a relação entre o sagrado e o profano. O “oikonomom” é um ser do rito, da contabilidade, da escritura, das datas, dos prazos, das hierarquias, dos patrimônios, das estruturas. Ele não sabe viver num mundo onde Deus se profana, ou, se esvazia e se põe em meio aos homens: Emanuel. Também não sabe trabalhar num mundo onde o profano se diviniza, uma vez que o Reino está entre nós.

Também podemos entender que ele estava ciente de que em virtude dos relacionamentos desiguais que foram estabelecidos, não poderia mais conviver harmoniosamente com aqueles que ele havia subjugado, dominado e espoliado; também não haveria espaço para pedir esmolas àqueles que antes haviam pedido clemência e ele lhes havia dado a Lei. Tinham suplicado pela justiça e ele determinava a obediência legal. A mendicância o poria abaixo da linha comum da vida. Na economia do “oikonomom” a vida está hierarquizada e estratificada e a mendicância é o nível mais inferior deste “cosmos”, de seu mundo. Ordenar, para ele, é valorar a vida numa escala de funções, onde tratar da economia (ordem das coisas pessoais) do homem rico (Deus) ocupa o mais auto nível social.

Percebamos três posições possíveis segundo o “oikonomom” para estar: no pináculo do Templo como sacerdote clérigo, em meio ao povo como trabalhador da terra, ou abaixo da dignidade humana como mendigo. Estava em vias de perder o emprego, portanto, não mais seria “oikonomom”. Não quer pegar na enxada. E não pode mendigar, em virtude da posição ocupada antes do desemprego. Num “aion” onde todos trabalham, num mundo de pleno emprego, somente mendiga quem não quer trabalhar. Mendigar é estar fora da relação com Deus, fora do Reino. Este “oikonomom” viveu uma relação hierarquizada, por meio da qual tiranizou o trabalhador. Agora ele não pode pedir esmolas àqueles a quem espoliou. Entretanto está em via de desemprego.

Mas a questão permanece: porque não é mais necessário o “oikonomom”? Longe de ser uma resposta fácil e imediata, a pergunta é sutil e complexa. A melhor resposta que temos é: Jesus estava errado! Como nos demonstram os rabinos, os padres, os pastores, os apóstolos e seus correlatos, os “oikonomom” redescreveram a economia (“oiko-nomia”), e tanto a religião cristã ocidental quanto o Ocidente laico vivem e sobrevivem em torno das hierarquias, das mediações, dos símbolos e dos transcendentes. A culpa, o medo, a obediência, a ordem institucional, etc., exigiu que Jesus viesse ser morto tantas vezes quanto preciso a fim de que certa aristocracia (religiosa ou laica) mantivesse a coisa funcionando como tem funcionado: negociando com o sagrado por meio do sacrifício. Mas para Jesus a economia sagrada, os negócios que exigiam a intermediação de um “oikonomom”, já estava fadada a um fim escatológico. Neste sentido é que a crítica de Nietzsche (O Anticristo e Crepúsculo dos Ídolos) parece ser tributária às palavras e ao ensino de Jesus.

A economia e o respectivo “oikonomom” somente não é necessário para Jesus. Para o cristianismo é necessário. A “Revolução dos bichos” apregoada por Jesus teve o fim que George Orwell descreveu. A escatologia de Jesus se cumpre quando todo sacrifício for abolido, isto é, todo sacerdócio, toda mediação.

Lucas 16: 4 - Agora sei o que vou fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas.

Vamos dar um passo atrás e refazer o caminho da “metanóia”. “Metanóia” tem sido psicologizada, isto é, pensamos como arrependimento íntimo, pessoal, quando lamentamos e choramos nossas falhas e pecados morais. Contudo Jesus não foi o maior psicólogo que já existiu, nem mesmo foi psicólogo pois esta função não cabia em Israel de dois mil anos atrás. Antes, devemos abandonar a falácia psicologisante da “metanóia” e pensar na pragmática da “metanóia”. “Metanóia” é mudar, alterar a direção. É deixar de acreditar em certas verdades e re-tecer nossas redes de crenças que tenham a correspondência com condutas novas. É desfazer da esquizofrenia entre crença e conduta. Nossas condutas refletem o cálculo de custo-benefício de nossas crenças verdadeiras. Caso tenhamos uma crença que nos diga “não matarás”, contudo, em um momento de defesa pessoal ou da família, ou mesmo na guerra, matamos alguém, então nossa crença verdadeira é: não matarás a não ser que sua vida, ou a de seus amados corra perigo. “Metanóia” tem a haver com existência, ação, prática e realizações.

Este “oikonomom” determina-se a uma “metanóia” (ainda que esta palavra não esteja neste estrato), isto é, ao dizer “eu sei o que vou fazer”, ele rompe com, ele acompanha o corte no tempo do “aion” e propõe-se a uma nova ordem de conduta. Ele sabe que suas crenças não encontram mais fundamento de autoridade, então ele altera suas crenças, suas condutas, e determina-se a uma nova prática. A rede de crenças anterior estava centrada numa autoridade delegada pelo homem rico. No entanto, esta autoridade estava lhe sendo retirada e em sendo retirado sua representatividade nada mais poderia fazer, pois o que sabia fazer era “oikonomia”, para o homem rico. Pensou ele (“metanóia”): como não poderei ser “oikonomos”, então prepararei novas bases de relacionamento com aqueles que hoje espolio.

Ao dizer “agora sei”, o “oikonomom” reflete a percepção de que estava em processo o fim de um “nomos” (ordem) e de uma “oikonomia” (ordem doméstica, pessoal do homem rico) e que este fim demandava uma “metanóia” (mudança de conduta) a fim de ele mesmo pudesse sobreviver em um novo mundo. O homem rico ao determinar uma escatologia, um tempo do fim do “aion”, traz a demanda por “metanóia”, posto que a economia será transmutada. A economia, ela mesma, será submetida a uma transmutação metafórica, isto é, aquela ordem se desfaz em prol de um outra que nada tem em si de relação com a anterior. A escatologia de Jesus aponta para o fim dos “oikonomom” e para uma outra economia.

O “agora sei” remete para uma prática determinada por ser recebido nas casas (“oikos” em grego). O “oiko-nomom” redescreve suas crenças e suas condutas, a ordem (“nomos”) de suas relações com o povo, a fim de encontrar um espaço nos “oikos”. Uma outra economia (“oikonomia”) marcada por um instante de mudança de direção que desfaz a hierarquia social e que reconfigura as relações entre os humanos. A percepção do tempo de mudança, a agilidade em reconfigurar seu estar no mundo, o desprendimento em relação a economia passada e a mudança em si são traços deste “oikonomom”.

Lucas 16: 5 a 7 - E chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, perguntou ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? Respondeu ele: Cem cados de azeite. Disse-lhe então: Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinqüenta. Perguntou depois a outro: E tu, quanto deves? Respondeu ele: Cem coros de trigo. E disse-lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta.

Vamos lembrar outra parábola que também está em Lucas. Certa vez Jesus contou uma parábola e depois a explicou: certo homem saiu a semear e lançou a semente pelo caminho. Umas caíram em solo rochoso, outras perto de espinheiros, outras em solo bom e fértil. Depois ele mesmo deu o significado: o semeador é o Pai, a semente a palavra de Deus e o solo é o coração do homem. Assim como não há nenhuma relação direta entre semeador, semente e solo, com o Pai, a palavra de Deus e o coração humano, também não há nenhuma relação direta entre homem rico, administrador, azeite e trigo, com Deus, sacerdócio clérigo e coisas que pretendemos pensar.

O azeite e o trigo eram recursos valiosos na economia do povo da Palestina de dois mil anos atrás. Falar destas coisas é falar do que é próximo, é buscar referências e identidades a fim de apontar para diferenças e mudanças. Mas também eram resignificados dentro da economia religiosa. O azeite poderia representar a unção divina que escorria do alto da cabeça até os pés (como no Salmo 133). Representava a presença de Deus sobre aqueles homens escolhidos para serem reis e profetas. O óleo representava algo agradável diante de Deus, mas que também representava o agrado de Deus sobre alguém ou algum lugar ou coisa. O pão é o fruto da terra, é o agrado do Senhor manifesto na abundância dos recursos vitais dados por Deus para a subsistência de seu povo. Esta é uma das possibilidades de interpretação que toma a alegoria como referência.

O “oikonomom” administrava os recursos repassados pelo homem rico aos homens e suas dívidas diante este homem rico, o qual representa Deus, enquanto as dívidas representam os recursos da economia divina. O “oikonomom” estabelecia uma relação econômica (embora pervertida) entre o homem rico e os trabalhadores, mantendo os segundos em constante e impagável dívida: culpa e medo. Ora, outra possibilidade interpretativa é que o azeite tipifique a dádiva da existência da vida que é proveniente de Deus, assim como o trigo tipifique a dádiva da existência da vida que é proveniente do suporte nas coisas tangíveis: o ar, os alimentos, a matéria.

Haveria, assim, uma dívida impagável devido a Deus pela providência da vida espiritual e da vida material. Do homem rico vem o azeite e o trigo, então, de Deus vem o espírito de vida e sustento material indispensáveis para que possamos dizer: sou vivo. Contudo, o “oikonomom” sobre-valora a dívida, trazendo maior peso sobre os ombros dos homens e mulheres comuns, aqueles que cavam a terra. Os homens e mulheres devem ao homem rico o azeite e o trigo, mas os “oikonomom” lhes cobram a mais do que a dívida, fundado numa autoridade legal a eles delegada pelo homem rico. Somos devedores a Deus pela vida e por sabermos que há vida, mas os intermediários, o sacerdote clérigo nos diz que devemos a Deus sacrifícios de jejuns, orações, leituras bíblicas, participação de cultos, vigílias, etc.

A atuação, a partir da “metanóia”, do “oikonomom” é de rapidamente desfazer a dívida acrescentada e, assim, poder, futuramente, partilhar da mesa dos trabalhadores: comer do pão com azeite, partilhar da vida plenamente. A “metanóia” foi efetivada na redução do spread, tornando a “oikonomia” uma relação vital aceitável. Haveria sempre uma relação diante da dádiva e da providência, da vida e dos meios vitais, entre a doação divina e o encontro humano. Como na metáfora da factoring, o administrador retira o spread, deixando somente a dívida real, cujo peso é o inerente à própria vida. O homem deve a Deus a vida espiritual e a vida material, entretanto a religião diz que devemos dízimos, jejuns, vigílias, evangelismos, decorar a bíblia, reuniões, etc. Nos dias de Jesus o ‘crente’ devia a guarda do sábado, os dízimos, os sacrifícios, quando a única dívida era amar a Deus (azeite) e ao próximo (trigo). Quando o administrador retira o spread, os clientes têm restaurados a dignidade, o relacionamento direto com o senhor e uma gratidão ao administrador, proveniente da justeza entre vida e alegria.

Lembramo-nos de Paulo que nos diz: a ninguém deveis coisa alguma, exceto o amor. Uma vez expurgado o intermediário, resta-nos o gozo pleno e a gratidão da existência, os quais são postos diretamente diante de Deus. Não devemos dízimos, vigílias, orações, leituras, evangelismos, pregações, cultos, sacrifícios, mas o amor pela vida, pelos vivos e pelo que possibilita a vida. Aquelas coisas são sobre-valorações impostas por sacerdotes clérigos ávidos por manter o emprego desonesto. Qualquer intermediação entre Deus e os homens é injustiça, é cobrança indevida por meio de culpa e medo.

Lucas 16: 8 - E louvou aquele senhor ao injusto mordomo por haver procedido com sagacidade; porque os filhos deste mundo são mais sagazes para com a sua geração do que os filhos da luz.

O senhor então elogia a administrador por se comportar de forma sagaz, astúcia, perspicácia, finura, penetração de inteligência que de maneira ajuizada retira de sobre os ombros dos homens um peso que não era correto. Segundo podemos interpretar, o homem rico não elogia a injustiça, mas a “metanóia”, elogia a percepção de um tempo de prestar contas, sua prontidão em mudar de conduta e pelo abandono do legal em prol do justo. Ele não louva a cobrança indevida de valores a maior sobre a dívida dos trabalhadores, mas louva a sagacidade de perceber a prestação de contas, o fim de um tempo para aquele “aion” e a pragmática, flexibilidade e agilidade em mudar sua conduta. Está na sagacidade em mudar a conduta em face aos novos tempos, e não no aferrar de sua à condição prévia, que é elogiada. O homem rico elogia a pragmática do “oikonomom” em alterar sua conduta em face um tempo de fim de “aion”.

Os filhos deste mundo, aqueles que são gerados segundo a ordem própria das coisas tem mais habilidades, flexibilidades, respostas pragmáticas do que os que são gerados segundo uma ordem pretensamente imutável da luz. Quando há mudanças de paradigmas no que tange ao azeite e ao trigo, quando o homem rico está trazendo um tempo escatológico sobre a terra, de prestação de contas, ele requer um rearranjo interno de valores (“metanóia”) e re-adaptação de seus “oikonomom” (pragmática). Tratando-se especificamente de Lucas, podemos sugerir que aqueles que não são judeus tem uma sagacidade maior em promover a “metanóia”, do que aqueles que são filhos da Lei.

Diante da impossibilidade de manter o emprego, da dificuldade de cavar a terra e da vergonha da mendicância, o “oikonomom” encontra uma quarta via: re-estruturar as bases de seus relacionamentos, retirando de sobre os ombros dos trabalhadores as dívidas injustas. Deixar de cobrar spread injusto não o mantém no emprego, mas o recoloca diante dos homens. Esta é a chave da sagacidade, re-estruturar sua existência a partir, não mais de sua autoridade representativa oriunda do homem rico, mas de sua proximidade para com o próximo. Se o Reino, agora, se manifesta entre os que cavam a terra, a sagacidade do “oikonomom” está em se colocar entre os que cavam a terra e para isto ele retira deles o ônus acrescido da dívida da proveniência da vida.

Por fim, podemos dizer que a palavra filho, que Jesus utiliza, é “huios” e significa filho maduro, que está pronto para herdar. Os filhos herdeiro que estão no “aion” (sintonizados com o tempo deles) são mais hábeis dentro de um tempo messiânico, de uma geração messiânica, respondem com precisão ao tempo deles, na geração deles, mais do que aqueles que já nascem para contemplar a luz. Do filho maduro que está numa geração messiânica e que percebe o tempo de Deus, deve ser hábil em sua “metanóia”.

Parece-nos que o grande problema na interpretação destas palavras está não perceber o caráter nômade de Jesus. Jesus não é um representante do sacerdócio, nem trabalha no Templo, mas é um homem que percebe a obsolescência de uma religião e apregoa um novo mundo. Jesus é um homem de trânsito, em trânsito e que prega o trânsito, portanto, é requerido que olhemos a mudança (“metanóia”) como o elogiável, e não uma economia sedentária, isto é, não a estabilidade do negócio de venda (com ou sem spread) de azeite e trigo. A sagacidade está em pôr-se em trânsito, está em mudar de conduta frente à obsolescência de uma “oikonomia” e não na manutenção do jogo da dívida.

Lucas 16: 9 - Eu vos digo ainda: Granjeai amigos por meio das riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos.

Aqui podemos perceber um corte na maneira com que Jesus fala. Neste momento ele deixa de ser um narrador e, de certa maneira, inclui-se e inclui os ouvintes na parábola. Os significantes e os significados na parábola, os elementos metafóricos já estão apresentados, agora pode falar utilizando-se deles, relacionando-os diretamente com os interlocutores privilegiados: o sacerdócio clérigo e os homens e mulheres comuns. Lembramos, no entanto, que “riquezas da injustiça” é a tradução para “mammonas adikia”, que nós anteriormente propusemos entender como: “desejo exacerbado de ter poder e fama proveniente de uma violação da justiça”. Precisamos perceber, também, a distância e diferença entre lei e justiça. Fazer tudo conforme a lei, ou, dentro das fronteiras permitidas pela lei, ou, de acordo com as possibilidades da lei não garante e não é certeza de justiça. A justiça perpassa e transpassa a lei e não a contém e não é por ela contida. A lei tem a pretensão de justiça, mas não a alcança. A justiça é o lugar para aonde se dirige a lei.

Não há nesta parábola nenhuma alusão a um mandamento do homem rico ao seu “oikonomom” de que ele não poderia cobrar valores extras nas transações. A função para a qual o “oikonomom” tinha autoridade era a de fazer economia, no sentido de tratar das coisas pessoais do homem rico e isto ele estava fazendo, de maneira injusta, mas legal. Portanto, não há nenhuma violação de lei em cobrar o spread. O “oikonomom” não estava sob ameaça de prisão, mas de desemprego. Mas há a prática da injustiça, ou seja, ao cobrar algo além, impunha pesos de dívidas. Contudo a lei, a ordem econômica ainda vigorava.

Caso insistamos em ler esta parábola tentando encontrar um moral monetária, ou, para o uso de recursos financeiros, então estas palavras de Jesus nos pode levar a um paradoxo, que nos conduziria a ler o seguinte: faça amizade com o dinheiro que você obtiver injustamente, pois se um diz estes recursos financeiros faltarem, então seus amigos conquistados por meio destes meios vos auxiliarão. Em outros termos, ganhemos dinheiro de maneira injusta, mas estabeleçamos uma rede de amigos (tipo máfia) que nos suporte nos dias de vacas magras. Ito é um absurdo! Ler um parábola sem levar em conta seu caráter metafórico é perverter, violar, prostituir seu sentido moral.

O que nos parecer é que Jesus estaria dizendo aos fariseus, escribas e sacerdotes da religião dos Judeus: hoje vocês estão autorizados pela Lei de Moisés, e por meio dela estão sendo injustos. Mas eu vos digo, é chegado o tempo que Deus pedirá contas a vocês. Utilizem desta autoridade para deixar a injustiça e fazer amigos, pois quando a Lei deixar de vigorar, os homens e mulheres os receberão nesta nova ordem doméstica. Em outros termos, abandonem a injustiça possibilitada pela Lei e façam amigos pela justiça, assim estes se perpetuarão no Reino. Nas casas, e não na Casa é que encontramos os amigos do Reino. O Reino é mudança que exige mudança de crenças e condutas, e pluralidade de casas onde se pratica a justiça.

Jesus faz um convite aos fariseus, ao clero/sacerdócio: das “mammonas adikia”, fazei amigos, isto é, percebam que ao abdicar do desejo exacerbado de ter poder e fama proveniente de uma violação da justiça vocês estabelecerão uma rede de conexões que vos introduzirá no Reino. Quando as “mommonas adikia” forem abolidas, deixadas para trás antes que o tempo escatológico se realize, então você será recebido no Reino quando se cumprirem as prestações de contas. Vejamos que a maneira proposta por Jesus para que os “oikonomom” sobrevivam o tempo escatológico é a sagacidade que permite a mudança de conduta, pelo abandono da injustiça legal e a prática da justiça amistosa.

Lucas 16: 10 – Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; quem é injusto no pouco, também é injusto no muito.

Ora, estamos diante de dois tempos que são marcados por uma fenda abissal: a escatologia de uma prestação de contas. De um lado a injustiça legalizada e de outro a justiça amistosa. De um lado a Lei, o Templo, os ritos, as festas, os sacrifícios, o sacerdócio; de outro a reunião, o partir do pão, os relacionamentos, a proximidade, os encontros, o ágape, a amizade, a graça. Pouco é a Lei; muito é o Reino. Quem é fiel na Lei, ama a Deus e ao próximo, portanto está apto a ser fiel no Reino. Quem é fiel no amor e abandona-se ao amor não necessita e não requer qualquer instrumento legal para fazer a justiça. Mas quem não pratica a justiça sob a batuta da Lei, não ama o suficiente para ser justo quando não houver Lei e obediência que determine sua conduta moral.

Jesus falou a respeito de João Batista: “Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior do que João, o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele. E desde os dias de João, o Batista, até agora, o reino dos céus é tomado a força, e os violentos o tomam de assalto.” (Mateus 11: 11 e 12). João Batista e Jesus viveram sob o domínio da Lei e nela encontraram a justiça de Deus. O primeiro apontou para ela e disse: este é o Cordeiro de Deus, a justiça de Deus. O segundo pondo-se em meio a muitos disse: “eu e o Pai somos um”. Eles encontraram na Lei, não a sua observância e obediência necessária, mas o sentido e fundamento da Lei: o amor. O amor está na Lei e a funda. Mas o amor não é Lei, senão necessitaria de um outro fundamento. O amor está fora da Lei e não reclama por obediência, mas conduta justa.

Ser fiel à justiça num tempo de obediência torna apto a compreender a fidelidade num tempo em que a Lei já não está mais para ser referência de conduta. A justiça se encontra na amizade. Esta é a fidelidade à coisa maior. Na escatologia de Jesus, seu sacrifício põe a Lei em ilegalidade e torna obsoleto o sacrifício. A obsolescência do sacrifício o torna inútil, desnecessário, ilegal, desautorizado. Sem sacrifício não há sacerdócio, e não havendo estes não há nada a observar para agradar a Deus: cessa a Lei. Não havendo Lei, como haveremos de saber o que é certo ou o que é errado? Como repartir o azeite e o trigo? Resta-nos o ágape e a amizade. O fundamento de justiça que nos fazia interpretar a Lei e aplicá-la nas relações vitais é o mesmo fundamento vital que nos conduz no uso e distribuição do azeite e trigo. Quem ama não precisa de uma prescrição sagrada de Lei, pois sagrado é a vida e esta sacralidade da vida é fundamento da justiça. A Lei é pequena diante da vida.

Lucas 16: 11 e 12 – Se, pois, nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? E se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?

Esta passagem, segundo nossa perspectiva, é a que traz maior dificuldade ao texto. Tal dificuldade não está em relacionarmos a infidelidade com o desejo exacerbado de ter poder e fama proveniente de uma violação da justiça. Sua dificuldade não está em negar a posse da riqueza verdadeira a quem não foi fiel no trato das riquezas injustas. Sua dificuldade não está na impossibilidade de que alguém cuide do que é próprio, quando não cuidou do que era de outros. A dificuldade está na passagem das riquezas injustas para as riquezas verdadeiras, relacionando-a à passagem das riquezas alheias para a riqueza própria. Ou, ainda mais, dizer que as riquezas injustas estão para as riquezas alheias, tais quais as riquezas verdadeiras estão para ao que é próprio. Em outras palavras, dizer que a verdadeira riqueza é aquela que é própria do homem, assim como as riquezas injustas são aquelas adquiridas de alguém.

Duas coisas devem ser pensadas concomitantemente quando desejamos abordar esta fala de Jesus. Primeiro é a questão do trânsito (que já tratamos acima) da economia da Lei para o Reino. Uma das questões centrais da escatologia de Jesus é o advento do Reino: o Reino que está próximo e o que está entre nós, o que está em nossa proximidade, que se realiza na proximidade de dois ou três. A segunda questão é do ser filho. A questão do filho nos coloca no interior da questão da herança e da propriedade, de uma maneira especial e nova.

As riquezas verdadeiras nos falam da riqueza de Deus e nos pode falar em dois sentidos. Primeiro no sentido que propusemos acima, que a parábola do homem rico não trata de riquezas patrimoniais, monetárias, de como administrar negócios e ganhar dinheiro. Tais questões deixamos aos avarentos. Estas não são tidas por Jesus como as verdadeiras riquezas, embora sejam utilizadas metaforicamente para descrever a nova ordem das coisas e que apontam para o Reino. A riqueza material é apenas uma metáfora que aponta, que significa uma riqueza verdadeira. Aqui podemos pensar na verdade como correspondências, isto é, a correlação entre o que dizemos de algo que ele é e de como algo de fato é. A riqueza verdadeira não é a monetária, portanto, tampouco é a riqueza divina, assim como não é o tema desta parábola. A riqueza verdadeira também não pode ser pensada metafisicamente, isto é, à luz de sua idealidade, de sua transcendência, de sua essência, mas posta a trabalhar pragmaticamente. Assim como Deus nem é tangível e nem é nomeado, tampouco sua riqueza é tangível ou verbalizada. A partir deste ponto de vista podemos dizer que esta parábola não fala da gestão, ou, mordomia das finanças, pois estas não são, de fato, as riquezas verdadeiras.

Em segundo lugar, as riquezas verdadeiras não sendo riquezas tangíveis, monetárias, antes, sendo as riquezas de Deus, devem apontar para algo não tangível, não palpável, não material, contudo fazem parte da vida. São as riquezas expressas metaforicamente pelos símbolos do azeite e do trigo: da vida espiritual e material. Estas riquezas verdadeiras se expressam na justiça fraterna, ou, amistosa, das relações entre os vovos. Mas, não se realizam na Lei, que continua preza à materialidade das ordenanças, dos ritos, dos sacrifícios, etc. e que operam a fim de fazer comunicar pontualmente a esfera do sagrado com a dimensão profana. A justiça não pode ser contida pela materialidade da escritura legal.

Privilegiamos a perspectiva pela qual a transmutação proposta por Jesus não traz a referência da passagem, da mudança do regime físico para o metafísico, do sensível para o inteligível, do tangível para o ideal, como querem muitos. Não! Mas trata do trânsito da economia legal, do “aion oikonomikon” da Lei (seu sacerdócio e ônus atrelados), para o “aion” eterno da justiça amistosa (o encontro de dois ou três). Devemos ressaltar, no entanto, que ambos os regimes se realizam na pragmática da existência humana e não numa metafísica ao estilo dos gregos. Contudo a primeira toma como referência a imutabilidade da Lei dada por Deus à Moisés e seu apego ao Templo (sedentarismo religioso), e outra parte do amor que se dá na presença com o próximo (nomadismo).

A primeira tem sua origem na radical exterioridade do edifício legal e seus fundamentos sólidos, que determina a heteronomia da obediência à solidez imutável da Lei, em contraste à segunda que parte da radical interioridade da amizade e do ágape em seus inumeráveis arranjos e rearranjos. Mas a interioridade tampouco deve ser psicologizada, perspectivando-a apenas a partir do regime da subjetividade, isto é, pensando numa lei que age na intimidade do indivíduo. Antes, a interioridade no encontro, isto é, onde a norma moral se funda no amor, aponta para a justiça e realiza-se no diálogo. A interioridade do “nós”, do encontro, da reunião, da “ecclésia”, na interioridade do diálogo entre amigos. A interioridade de um “eu” que se encontra entre “nós”. Interioridade como inter-esse.

Uma vez que se realiza, ou se dá num diálogo sem fim, este é um “aion” eterno, sem fim. Mas também é um regime que encontra sua ordem no encontro amistoso e amoroso. Deus deixa de ser o ditador da Lei, o que dita a Lei a Moisés no alto de um monte e este como o intermediário que repassa a Lei ao povo que o aguarda temerosamente no sopé, e torna-se um entre nós (Emanuel) que funda a ordem e aponta a justiça na distribuição e uso do azeite e trigo. Mas tal lei neste “aion” eterno é determinada por filhos e não por servos.

Paulo escrevendo aos Gálatas nos fala que no regime da Lei éramos como filhos que não tinham a posse da herança, e que, portanto, éramos guiados por educadores, por aios. O que ele diz é que naquele tempo, entre nós (aqueles que se deixavam guiar pela Lei) e Deus havia um grupo cuja responsabilidade era nos conduzir a um padrão pré-estabelecido de moral e conduta religiosamente definidos. Conformação do indivíduo a um código pré-estabelecido, revelado por YHWH por meio de Moisés, sem que o indivíduo pudesse questiona-lo. A palavra grega (no original) utilizada neste momento para descrever este status de filiação sob a orientação de um educador, aponta para um filho imaturo, não passível de herdar. Filho menor, não emancipado, criança. Contudo, segue Paulo, há uma segunda palavra grega que define a relação de pai e filho: o filho maduro, que pode herdar, emancipado, adulto. Esta palavra é “huios” e é a mesma que Lucas utiliza neste texto.

Há dois filhos, ambos carregam a DNA do Pai. Entretanto, um, embora sendo filho, está como que na posição de servo; mas o outro que também é filho percebe-se na posição de herdeiro. Isto nos lembra a parábola do filho pródigo. Um pai tinha dois filhos, o primeiro percebendo sua posição de herdeiro requer do pai sua parte, enquanto seu irmão, até o fim da parábola, mantém-se na posição de servo. A propriedade exige pelo menos dois atributos: a primeira que saibamos e creiamos na posse; a segunda que não andemos como servos que esperam as ordens do seu senhor. Aqui está a dificuldade da leitura do texto de Lucas 16, pois nos fala de trânsito de uma ordem legal, originada de uma Lei ditada por um Senhor aos seus servos, para uma ordem da herança em que os filhos possuem o que lhes é próprio, mantendo apenas o fundamento (o amor) e o destino (a justiça) exigindo a co-responsabilidade do diálogo em prol do justo.

Podemos, então, voltar a pensar nas palavras de Jesus. As riquezas injustas são aquelas granjeadas por um sacerdócio que mantém o filho como servo, e pesa sobre ele as dívidas impagáveis de sua existência, alienando-o de sua condição própria de filho. Este filho deve obediência aos educadores como representantes legais do pai, sem se dar conta de que tais educadores são seus empregados, tanto quanto são do pai. Há uma alienação inversa de sua condição de herdeiro, isto é, ele acredita (por obra própria do “oikonomom”) que é o educador quem é o senhor da casa e se submete a este abandonando sua própria herança ao domínio deste impostor. Mas há o filho, que mesmo errante em suas condutas, posto estar livre para proceder conforme sua vontade, isto é, segundo o DNA paterno, aquele que age por vontade própria, sabe-se herdeiro e não se coloca sob a cobertura nefasta de um ladrão. O filho maduro é o que não se deixa alienar de sua herança, mesmo ao custo de desacertos e erros.

A radicalidade da pregação de Jesus aponta para um trânsito desde a alienação da Lei para a propriedade da filiação. Dos filhos feitos servos pagadores de tributos aos “oikonomom”, para filhos cuja dívida com o Pai é a da vida e seu empenho é pela justiça em amor. Uma vez dispensados da obediência legal, cabe aos filhos o encontro com os próximos, os irmãos, e nestes encontros legislarem em prol da justiça. Neste trânsito saem do império da Lei, para o Reino do Filho do Seu Amor. Não havendo Lei não há educadores que a ensinem e garantem o seu cumprimento, mas há o encontro entre dois ou três filhos. A radicalidade da pregação de Jesus é a radicalidade da autonomia legislativa que se funda no amor e aponta para a justiça, realizada entre amigos, sabendo que há amigos mais chegados que irmãos.

O problema que nos encontra nesta interpretação é que ninguém quer ser acusado de ser responsável pelas próprias decisões. O indivíduo procurará bodes expiatórios sobre os quais lançará a culpa de seus erros pessoais. A servidão voluntária encontra raízes no desespero da indecisão e na desilusão do fracasso pessoal. Os tiranos servem como salvadores da pátria quando esta está em desordem e corrupção, já nos diria Platão e Aristóteles. Entregamo-nos servilmente à tirania dos salvadores de nossa vida em troca de um conjunto de regras e leis que nos garantam, se não a felicidade, pelo menos a certeza e a segurança da não infelicidade. Sujeitamo-nos ao poder tirânico dos economistas religiosos em troca de seguranças e certezas proferidas pela Palavra de Deus. Mas a Palavra do Pai proferida pelo Filho pode ser aquela que nos diz: sois filhos de Deus, herdeiros de Cristo, legislem, decidam, cuidem de suas próprias vidas, fundados no amor e apontando para a justiça.

A verdadeira riqueza é a riqueza da propriedade. A propriedade é assumir o que é próprio. O próprio é o que pertence ao humano. O que pertence ao humano é o diálogo e este deve ser produzido segundo a dívida que temos para com Deus. Tal dívida é a da vida a qual deve ser vivida amorosamente e na busca da justiça. Ao delegarmos nossa responsabilidade a uma Lei e a seus representante, compactuamo-nos com a injustiça e, portanto, alhearmos nossa propriedade nunca obteremos o que nos pertence.

Lucas 16: 13 – Nenhum servo pode servir dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar ao outro, o há de odiar a um e amar ao outro, o há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Jesus se volta aos “oikonomom”, aos servos do senhor rico e lhes diz que ou servem ao senhor rico ou servem as “mommonas adikia”. Ou buscam a justiça ou guardam a Lei. Ou garantem o emprego ou tornam-se amigos dos filhos do Reino. Não é possível ser sacerdote e ser recebido nas casas. Não é possível defender a hierarquia e apregoar a igualdade. Não é possível ser educador e ser filho maduro. Não é possível ser servo e ser herdeiro. Ou servimos à obediência da Lei, ou servimos ao amor e à justiça. Ou nossa riqueza está no Templo, no sacerdócio, na Lei, nos ritos e nas festas, ou nossa riqueza está no amor, no encontro, na graça, na justiça, no repartir o pão, etc. Ou nosso olhar está posto num “aion” cuja temporalidade já se esgotou e excedeu em muito seu peso de iniqüidade tendo ultrapassado sobremaneira o limite, ou movemo-nos para o Reino cuja eternidade se dá na amizade.

Enquanto mantemo-nos servos, tais questões se nos são apresentadas por Jesus. Somos servos quando somos “oikonomom” e somos servos quando pagamos tributos injustos: ambos servimos às “mommonas adikia”, ativa ou passivamente. Somos servos quando somos tiranos e servimos ao poder tirânico que nos tiraniza, e somos servos quando voluntariamente nos deixamos submeter a este poder injusto. Jesus, porém, nos diz: ou somos servos deste poder tirânico, de um jeito ou de outro, ou somos servos uns dos outros em amor e graça, para a justiça mútua, produzida em nossos encontros. Ou servimos às causas da injustiça, ou servimos às causas da justiça. O primeiro sob a tutela da tirania, o outro sob o fardo do amor com que amamos a Deus e ao próximo.

Enquanto servir às riquezas produz a injustiça, o serviço a Deus é aquele que aponta para a justiça. Servir a Deus não é re-ritualizar a vida mantendo o sacerdócio e o sacrifício, não é re-fender a vida separando o sagrado do profano, não é re-hierarquizar as relações humanas segregando os homens segundo a santidade, a comunidade e a marginalidade. Servir a Deus é não alimentar este monstro chamado “oikonomom”.

Lucas 16: 14 - Os fariseus, que eram gananciosos, ouviam todas essas coisas e zombavam dele.

Pensemos o que quisermos desta interpretação apresentada...mas o que Jesus nos diz é que o que os “oikonomom” querem é poder e dominar sobre os homens com suas leis, doutrinas e dogmas, com seus dízimos, coberturas espirituais e denominações organizadas, com suas tradições, revelações e hermenêuticas teológicas. Para isto eles sugam dos homens e mulheres uma porção maior da vida, espoliam os recursos vitais como sanguessugas espirituais. A ganância, isto é, o desejo exacerbado de poder e riquezas pela espoliação do alheio conduz o clero a negar a crítica e a se defenderem por meios distintos. Neste texto são destacados dois meios: a zombaria como meio de desqualificar as razões do outro e a auto-justificativa.

Lucas 16: 15 - E ele lhes disse: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações; porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.

Justifique você, como quiser, as suas teologias, diria Jesus, segundo sua lógica e sua coerência interna. A cosmologia e a justificativa de cada um diz o que somos. Nossas crenças e nossos atos são uma só coisa. O fariseu é o que prescreve ao outro um modo de vida, por assim dizer, mas não tem interesse de viver segundo tal prescrição. O fariseu é aquele que declara uma crença que de fato ele não tem, e ele não a tem porque vive de um modo diferente daquele que ele apregoa como correto e verdadeiro. A verdadeira crença é aquela que é correspondida na vida. Nos termos desta parábola, ele cobra dos homens e mulheres pelo azeite e pelo trigo, mas a si mesmo se exclui de tal ônus, antes, enriquece-se do alheio.

Em Mateus 23 Jesus faz um severo discurso contra os “oikonomom”. Tais sacerdotes clérigos criam longas justificativas e elaboram mundos coerentes, apenas para salvaguardar suas existências pretensamente necessárias neste mundo de homens e mulheres que cavam a terra e outros que mendigam. Mundos com anjo de luz que cai em trevas profundas e que governa exércitos contra Deus; mundos com exércitos hierarquicamente organizados que confrontam as hostes celestes e inibem a graça; escatologias cronogramadas de um Cristo que nunca vem; estruturas eclesiásticas que mais lembram exércitos romanos em marcha contra os bárbaros; morais extremas que se sobrepõem ao amor e à graça. Energia gasta com o que não é Reino, o qual é justiça, paz e alegria no Espírito, é dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, roupa ao nu, apregoar liberdade aos cativos e graça aos que estão longe a aos que estão perto. O Reino é ágape: alegria na presença do amigo e do inimigo.

Lucas 16: 16 - A lei e os profetas vigoraram até João; desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem forceja por entrar nele.

Aqui, parece-nos, está o ponto crucial da escatologia de Jesus: o Reino. Jesus não está tratando de uma moral do dinheiro como querem muitos. Tal ética protestante é importante para os calvinistas, para os neopentecostais e para os espirituosos capitalistas. Jesus está falando do Reino e dizendo que a Lei vigorou até João e que já se avizinha o Reino. Vigorou a Lei, o sacrifício e o sacerdócio até João, mas de agora em diante o sacrifício cessou, a Lei caiu em obsolescência e o sacerdócio deixou de existir. Estas coisas funcionam como engrenagens de um equipamento, quando um é subtraído todo o conjunto perde a função, gira em falso: estas partes se interligam e se complementam. A Lei prescreve e descreve a ordem sacrificial e os sacerdotes, cumprindo e fazendo cumprir os ritos sacrificiais, fazem a mediação entre Deus e os homens. O sacrifício é o momento ritual em que o homem comum se aproxima de Deus por meio do sacrificador (sacerdote) e da vítima (animal, vegetal ou financeiro).

Como nos falam Mauss e Hubert, “O sacrificador...é o agente visível da consagração do sacrifício. Em suma, ele está no limiar do mundo sagrado e do mundo profano e os representa simultaneamente: os dois se reúnem nele.”[1] Também salientam os autores que “a vítima representa tanto a morte quanto a vida, a doença e a saúde, o pecado e o mérito, a falsidade e a verdade. Ela é o meio de concentração do religioso: exprime-o, encarna-o, transporta-o.”[2] Mas onde se faz cessar o sacrifício, o sacrificador deixa de ser necessário e é esta a questão central da parábola: o desemprego dos sacrificadores diante da escatologia do Reino. Até João Batista o sacrifício foi necessário para ligar Deus aos homens, mas Jesus faz cessar o sacrifício de uma vez por todas, abolindo a economia da Lei para o encontro da graça. Na cruz todo o sacrifício está abolido, e aquele que permanece é simulacro.

O sacrifício é violento em si ao promover a morte de um animal, humano ou não. Todavia, mais violento é a “metanóia” requerida para desfazermo-nos da lógica do sacrifício, da engenharia sacrificial. Dois mil anos se passaram e esta engenhoca continua a funcionar eficientemente, com ou sem Deus, e o Ocidente não sobrevive sem ela. Conforme apontamos acima, a maioria de nós entrega sacrificialmente sua filiação em troca de certeza e segurança. O cristianismo é, enquanto agente de atualização dos sacrifícios como meio de aproximação de Deus, um paganismo. O Ocidente é, enquanto agente de laicização dos sacrifícios como meio de aproximação dos bens, um paganismo. A lógica estrutural está inalterada, mantendo-se a injustiça e alterando-se o sacerdócio.

Lucas 16: 17 - É, porém, mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da lei.

Para os crentes realistas materialistas, aqueles que têm na matéria a base e fundamento de suas crenças na existência em Deus e na confirmação do cumprimento de suas leis e promessas, estas palavras de Jesus estão plenas de uma gravidade singular. O vigor da Lei de Moisés atrela-se à manutenção do céu e da terra, isto é, das coisas espirituais como sempre foram e das coisas materiais que são desde a criação. A imutabilidade de tais esferas e dimensões garante a imutabilidade e permanência da Lei. Para estes crentes a matéria serve como fiadora da Palavra de Deus, enquanto não tiver fim a terra e o céu a Lei estará em vigor, em seu duplo sentido: vigor como validade e vigor como vitalidade.

Contudo, devemos salientar que Jesus é um homem escatológico e seu Reino insere-se em uma escatologia. De igual modo, conforme apontamos acima, Jesus é um nômade, um homem de transição e em trânsito, sabendo que as aves têm ninhos e as raposas covis, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. Ele prega um mundo que está deixando de existir e outro que se abre, ele prega o fim do sacrifício e o tempo de justiça. Ele prega “metanóia” dizendo: arrependei-vos porque é chegado o Reino dos céus. Encontramo-nos diante de um Jesus que prega o fim de um tempo e o início de um novo e eterno tempo, para os quais as palavras “prestar contas” tem um sentido preciso. Há uma violência a ser feita diante da inércia da Lei, diante do sedentarismo do clero, do peso do Templo, a fim de pôr-se em marcha para um Reino a se construir nas inúmeras relações horizontais entre os vivos.

Ademais, o Pai, o Reino, a Justiça, o Amor não são, para Jesus, observáveis, verificáveis, confirmados na e pela matéria ou no e pelo real. A matéria e o real não comprovam, não indicam e não suportam o Reino, mas este que se dá no inter-esse do “eu” no “nós” e ocorre num espaço privilegiado que é o mundo que lê a terra e o céu. O céu e a terra são vistos e re-vistos a partir do Reino, e, portanto, o céu e terra sofrem uma descontinuidade com a vinda do Reino. O céu e terra não são absolutos em si, como marco e referência material real imutável. O céu e a terra são construções, elaborações num mundo perspectivado a partir do Reino. O Reino propõe um lugar privilegiado para visualizarmos o céu e a terra e estas são descritas a partir desta visão de mundo. O azeite e o trigo são recolocados na perspectiva das relações justas, e não mais segundo a economia da Lei.

Lembramos, ainda, dois momentos interconexos apontados nas palavras de Jesus. No primeiro momento, o do Sermão do Monte, segundo Mateus, Jesus diz que não passará um i ou um til da Lei até que ela se cumpra. No segundo momento, na Cruz, Jesus diz: está consumado, ou, cumpriu-se tudo. As epístolas de Paulo e a carta aos Hebreus trazem esta leitura de um Jesus que cumpriu plenamente a Lei. A consumação da Lei traz dois agravantes: primeiro que o cumprimento pleno da Lei não traz justiça, ou, não produz justiça e que a justiça se faz para fora da Lei; segundo que a consumação da Lei traz seu próprio fim, para isto temos a carta aos Hebreus como referência e suporte.

Jesus ao consumar a Lei, cumprindo-a integralmente na cruz, encerra-a, e encerrando-a a faz passar. Esta é a escatologia do Reino que faz cessar o sacrifício e interrompe a continuidade do céu e da terra. Os céu e a terra antes de Jesus eram povoado por anjos, demônios e deuses, aos quais os humanos deviam oferecer sacrifícios. Os ritos sacrificiais eram executados por intermediários que conheciam e interpretavam suas datas, locais, instrumentos, vítimas, etc. Os céu e a terra estavam imbricados e congestionados por esta realidade sobre-humana e supra-sensível e que era indissociável. Os céu e terra era fundados e suportados por esta maquinaria sacrificial. Os sacrifícios garantiam a continuidade da existência do céu e terra. Jesus ao fazer cessar todo o sacrifício torna-se, como dirá Paulo à igreja em Colossos, o fundamento do céu e da terra. Torna-se fundamento, pois que a vida na terra e no céu passam a ser suporte para a vida mesmo sem os sacrifícios e os sacrificantes. Os cristãos são chamados de ateus.

Os evangelistas marcam este fim do “aion” com terremotos e escuridão, com o véu que se rasga de cima a baixo, com perplexidade e medo. Os céu e terra passaram, não nos termos do realismo materialista do cristianismo sacerdotal, mas nos termos metafóricos que uma linguagem religiosa messiânica exige. Os céu e terra passaram quando os fundamentos do céu e terra foram transmutados e seus sentidos foram re-apontados.

10 – Especulações finais

O sacrifício ligava duas instâncias: a sagrada e a profana. Para que houvesse sacrifício era necessário o sacrificante, aquele que oferecia o sacrifício, uma pessoa comum dentre o povo; o sacrificador, o sacerdote que pelo rigor ritual conferia ao sacrifício seu valor sagrado, assim como mantinha a conexão com o mundo material, profano; a vítima, a qual poderia ser um animal ou um fruto da terra, algumas vezes seria totalmente destruída, outras não; e por fim os instrumentos sacrificiais, as roupas, os cutelos, o fogo, as bacias, etc. Havia, no caso dos hebreus, uma série de prescrições legais, apresentadas na língua nativa, que determinavam o rito no qual o sacrifício seria aceito por Deus, e tais prescrições estavam contidas nos livros da Lei, segundo YHWH havia ditado a Moisés na língua dos hebreus. O santuário, os animais, as roupas, as datas festivas, os sacerdotes, etc., tudo determinado por Deus a fim de que aquele sacrifício tivesse a eficácia devida.

Conforme dissemos anteriormente, a Lei, o sacrifício, o sacerdócio, o Templo e a língua dos hebreus interconectavam-se harmonicamente e co-dependentemente. Mais do que apenas aparatos e dispositivos que compunham o equipamento sacrificial, a religião na antiguidade estendia-se para além de uma expressão de crença individual e privada. Era, não apenas para os hebreus como também para diversos outros povos no Oriente Médio e Mediterrâneo, o cimento social. Não havia uma família, uma cidade, uma nação, um povo que não estivesse fundado em crenças religiosas, assim como sua vida social se dava a partir destas crenças. Hoje e nos últimos quatrocentos anos, há uma distância crescente entre o público e o privado, entre o Estado e a Religião, e não conseguimos, muitas vezes, imaginar como é que um Estado Moderno poderia se organizar fundado em crenças religiosas. Mas naquele tempo o poder político e o poder religioso se confundiam, assim como a família e os deuses, ou Deus, a língua e a pertença a um povo. Todas estas instâncias estavam imbricadas formando um todo.

Caso aceitemos a proposta de interpretação apresentada acima que toma a parábola segundo seu jogo de significados e estes apontando para algo diverso do dinheiro, então poderemos perceber o nível de confrontação que se colocava Jesus. Caso possamos dar crédito à leitura feita que parte da premissa que a pregação escatológica do Reino apontava para o fim do sacrifício, portanto do sacerdócio e portanto da Lei e do Templo, devemos perceber o abalo às estruturas sócio-religiosas que o Cristo determinava. Pregar o Reino era pôr-se antagonicamente à ordem social tradicional fundada na gentilidade, na religiosidade e na língua, e Jesus estava fazendo isto.

A aceitação da proposta da centralidade da escatologia do Reino traz consigo a aceitação de um evangelho nômade em oposição a uma religiosidade sedentária. Enquanto o sedentário procura organizar cidades, casas e espaços para o trabalho, o lazer, as coisas públicas, o nômade vive em tendas e não reconhece fronteiras temporais e geográficas. Enquanto o sedentário ritualiza a vida, controlando as estações e os dias propícios para o plantio e colheita, o nômade transita sobre a terra não fixando domínios. Enquanto o sedentário tem casas, armários, gavetas, dispensas, lugares para armazenar água, comida e lenha, o nômade abandona os pesos extras. Enquanto o sedentário, no dia de guerra, procura reforçar os muros, produzir armas, estocar alimentos e água, defender seu território, o nômade se dispersa na terra, projetando-se em diásporas. Podemos perceber nas falas de Jesus este nomadismo escatológico que confronta o sedentarismo religioso do clero judeu.

A escatologia de Jesus, ademais, centra-se na ruína do povo de Israel deteriorado de dentro para fora. A escatologia de Jesus não se volta contra a dominação romana, mas contra a incapacidade, inabilidade e na injustiça do sacerdócio judeu em dar respostas precisas a um povo oprimido a partir de sua religiosidade em torno de YHWH. A escatologia de Jesus aponta para a implosão de Judá e para a injustiça própria das estruturas religiosas de seu tempo. A pregação do Reino não é uma proposta de reforma nas estruturas sócio-religiosas de Judá, mas uma busca no mais original e essencial da Lei: o amor a Deus e ao próximo.

Neste sentido expresso da pregação do Reino, que busca a originalidade e a essencialidade da Lei, vai ao encontro tanto da preservação da Lei quanto sua completa e total abolição. A abolição da Lei atrela-se ao fim do sacrifício, a destruição do Templo, ao fim do sacerdócio, a inobservância dos ritos e das festas, como já destacamos anteriormente. Contudo não passará um til ou um i da Lei, não em sua operacionalidade formal, em sua moral obsoleta, em sua engenhosidade corroída, mas em sua originalidade essencial: o amor. Mas agora o amor nômade se desfaz de todo o peso da Lei, de todo o aparato legal, de todo dispositivo de legislação heterônoma, de toda canga ritualística, de toda inércia escriturística. O amor aliviado de todo o extra da Lei suaviza-se para o encontro que objetiva a justiça, e que, portanto, é leve e suave. O que resta da Lei é o que está fora da Lei e que a sustentava. Todo o edifício legal ruiu para que se manifestasse aquele tesouro ocultado em vaso de barro.

Mas por em xeque a Lei desta maneira era, e é, dar xeque mate em toda uma sociedade voltada para o sacrifício e para as estruturas hierárquicas segregacionistas, que fendem os homens e mulheres segundo sexo, patrimônio, cor de pele, sanidade física e mental, etc. O edifício legal foi erguido em prol de um povo escravizado que se lança no deserto como famílias nômades em busca de um espaço que mana leite e mel a todos, indistintamente, e que seriam governados sem reis, mas apenas por uma Lei fundada no amor e que apontava para a justiça. Os encarregados desta Lei ocultaram seu fundamento e esqueceram seu lugar privilegiado e passaram a funcionar em torno dos ritos sacrificiais desta Lei. Jesus desnuda a Lei, antevê a implosão do edifício a fim de mostrar, ali no fundo ocultado pela tradição, o fundamento que permanece e a intenção que deve prevalecer: o amor e a justiça.

É no retorno à originalidade nômade do povo que Jesus reencontra a origem e essência da Lei. Sua pregação do Reino não traz um elemento absolutamente novo e inédito, pois que o amor a Deus e ao próximo já estavam ali mesmo na Lei. Sua pregação do Reino aponta para a originalidade e a essência que deve fundar toda lei que ordenará as relações humanas e tais leis oriundas da própria relação entre humanos. O elemento novo de Jesus, a originalidade de Jesus é o trânsito legislativo, que antes era Moisés e sua Lei e agora é o diálogo entre homens e mulheres em torno da memória do Cristo. A lei, ou seja, o código moral que regula as relações entre os vivos deve brotar no inter-esse dos humanos fundando tais diálogos no amor e no sentido da justiça.

Neste sentido último a lei não passa, pois sempre haverá leis que regularão as relações entre os vivos, contudo tal lei, que antes voltava-se ao sacrifício e provinha da revelação de Deus, agora volta-se a justa produção e distribuição do azeite e do trigo e é proveniente do diálogo entre filhos maduros e herdeiros de Deus. Neste sentido a lei sempre passa, pois que é regulada pela justiça e pelo amor, e não pela fixidez e imutabilidade. O fundamento e sentido garantem a existência de lei, mas o amor e a justiça reclamam a o despojamento nômade de um abandono dos pesos absoletos, inúteis e injustos do código legal. Neste sentido que a pregação do Reino é fundamental, essencial, radical, utópico e imaterial, ainda que não seja transcendente.



[1] MAUSS, Marcel e HUBERT, Henri; Sobre o sacrifício; São Paulo: Cosac Naify, 2005, pg. 29

[2] Idem, pg. 65.