Gênesis 2: 27 – Bará Elohiym tselem...
Deus
criou a sua imagem o macho e a fêmea! Aqui está a chave para o criacionismo: “Bará” na língua do
Velho Testamento aponta, tem o sentido de algo que se faz, ou algo que surge,
sem as condições materiais prévias, sem recursos pré-existentes para tal feito
ou surgimento. Criar a partir do nada. Nada no latim é “nihil”,
daí vem o niilismo, aquele sentido em que nada escora nossa existência, digo, a
existência de quem é niilista. É baseado neste texto que os criacionistas,
mais ou menos fundamentalistas, dizem que o homem não é resultado de
modificações genéticas ocorridas em animais menos divinos, mas é criação direta
e niilista de Deus. Deus, num dado momento da história cósmica, ao sexto dia,
criou do “nihil” a “‘adam”.
Deus
criou o homem à sua imagem! Aqui está, também, a chave para aqueles que dizem
que o homem, o ser humano traz ou é a imagem de Deus: a Imago
Dei. Deus não teria utilizado nenhuma forma prévia, mas projetou sua
sombra sobre a matéria prima, sobre a terra, e desta emanação de sua glória fez
surgir niilistamente ao ser humano. Deus em si nada tem de material, então ao
projetar-se o faz de si mesmo como o Sol emana calor e luz sobre a terra. O
homem criado segundo a imagem e semelhança de Deus, e não à sua identidade, traz
a forma divina a uma matéria, e posto precisamente numa posição cósmica
singular: de domínio sobre toda existência sensível, isto é, sobre a terra, os
animais e vegetais. Para que realizasse este propósito divino, o homem como
senhor da criação é a Imago Dei. Esta imagem divina emanada, ou, que enforma à matéria, um dia deseja mais do que isto: deseja
assemelhar-se a Deus, ser como Deus.
Temos
com estes dois sentidos de “Bará Elohiym
‘adam”, daquele que vem da
ação niilista divina e que traz a Imago Dei como forma na matéria, uma
singularidade humana que se assemelha a unicidade divina frente à criação:
enquanto Deus transcende radicalmente a criação, o homem singulariza-se e
segrega-se na criação. O homem como animal racional é um imanente transcendente
em meio às coisas criadas.
Por
meio desta operação criativa, como dar forma assemelhada à matéria prima, ou
seja, o “Bará” como uma emanação de Deus na matéria a
qual toma forma assemelhada do divino, nos permite aproximar um pouco mais do
Gênesis 2: 7: O Senhor Deus formou o homem do pó da terra... Em outras
palavras: a forma humana que estava em Deus, o ser humano foi declarado por Deus e esta inteligência divina verbalizada
alcança a matéria informe, dando forma num ser assemelhado a Deus.
Poderíamos
dizer que há três momentos cósmicos aqui envolvidos: num primeiro momento Deus,
o Ser Absoluto, emanando a Si mesmo como Inteligência verbaliza o ser humano;
num segundo momento este verbo divino atinge a matéria e lhe confere forma de
homem; num terceiro momento Deus assopra naquele boneco de argila a vida. Mas,
aquele animal racional deseja transcender a si mesmo, identificando-se com
Deus. Talvez não haja nada mais divino do que esta vontade de identificar-se
com o Ser, pois o próprio Deus tem vontade de Si mesmo. Talvez com isto poderíamos dizer que o relato de Gênesis 3 não nos fala de
um defeito de fabricação, mas a própria presença da semelhança divino no homem,
isto é, sua vontade de ir além de si mesmo. Mas como assemelhado, mas não
idêntico, o homem trouxe nesta emanação o egoísmo narcisista de quem somente
olha para si.
O
homem, então, deixa sua condição original criada à imagem e semelhança de Deus
e passa a uma condição ambígua de ser à Imago Deis, mas não-ser em pecado. Agora ele é
menos do que deveria ser. Agora Deus provê na história a história da salvação:
o caminho do retorno da alma a Deus! A Bíblia, então, segundo uma precisa lente
neoplatônico-cristã, trata da providência divina de
salvação por meio de Jesus. Jesus é meio de salvação cujo protagonista é “’adam”. O centro da história é “’adam” e o meio de resgatar esta
história da queda é Jesus Cristo.
Existe
a possibilidade de que toda a nossa leitura da Bíblia esteja impregnada de
filosofia grega. Esta desconfiança é um lugar comum nos meus textos. A
importância de dizermos isto é a de nos permitirmos a ousadia herética de
questionarmos esta herança atávica, a influência de um pensamento grego antigo
alienado e tomado como ortodoxia. A importância disto é que a tradução e interpretação
dos textos são referenciados em conceitos e
prescrições da filosofia grega antiga sem que possamos questiona-los. O ponto
que nos favorece questionar, aqui, é o conceito de verdade.
Para os
gregos a “alethéia”, ou verdade, é correspondência. A
verdade é dizer do que é uma coisa que é e que não é uma coisa que não é. Por
exemplo, quando digo “há uma xícara de café sobre esta mesa”, é verdade se e
somente si “há uma xícara de café sobre esta mesa”. Ou ainda quando digo, “esta
xícara não é de cristal” e está xícara é de outro material que não seja
cristal. Há em larga medida uma correspondência real entre a minha descrição e
a coisa descrita. Mas para os hebreus a verdade é “emunah”
e aponta para o cumprimento de promessas. Falo a verdade quando faço cumprir
uma promessa, ainda que no presente ela não tenha correspondência real. A “emunah”, em certa medida esvazia o presente, mas funda o
sentido de história, a qual é o espaço do cumprimento da promessa.
Esta
pequena alteração referencial permite-nos reler o Gênesis e a Bíblia refundando o centro de gravidade da história: passando de
Adão para Cristo. O que queremos dizer com isto é que se deixarmos de ler a
Bíblia a partir do ponto de vista da “alethéia” e
adotarmos para o Velho Testamento a perspectiva da “emunah”,
então poderemos deixar de buscar no imediato da realidade a correspondência de
uma promessa, e permitirmo-nos uma leitura escatológica messiânica que redunda
na “alethéia”.
Em
outras palavras, se não lermos o Gênesis 1: 27 pela referência grega e,
portanto, abandonando o conceito, ai, de verdade como correspondência,
então poderemos ler Gênesis 2: 7 não como a realidade desta emanação da
Inteligência de Deus dando forma à matéria. Em outras palavras, podemos ler o
Gênesis 1: 27 como uma “emunah” cuja promessa se dará
numa história a ser desenrolada, e o Gênesis 2: 7 como o primeiro momento da
história do homem com Deus, ou, com o momento em que Deus sopra no homem a
vida. Não a vida que o distingue do barro, mas a consciência de vida e de Deus.
O animal, que vivendo entre animais, tem o sopro da consciência de si, do outro
e de Deus. Temos de um lado a “emunah” de divina para
a criação de macho e fêmea, à imagem e semelhança de
Deis, conforme o Gênesis 1: 27; de outro um animal que se percebe distinto, mas
não aparte ou segregado dos demais, consciente do sopro vital que perpassa a
vida na terra, segundo o Gênesis 2: 7.
Aqui
estamos desconsiderando a crítica literária e o embate entre os partidários de “Elohiym” e os de Javé e a escrita
a quatro mãos do texto de Gênesis. O que desejamos pensar é se aparte do embate
entre estes tais escritores, se não haveria no próprio texto e nos significados
fundadores do texto uma outra possibilidade, cristã, de lermos a criação do
homem segundo a imagem e semelhança de Deus. Em outros termos, pensamos que se
a “emunha”, a verdade como promessa, não exige a
realização imediata da promessa, mas a história da promessa, então o “’adam” do Gênesis 1: 27 pode não
ser o “’adam” do Gênesis 2: 7.
O “’adam” do Gênesis 2: 7 seria aquele
consciente de sua singularidade entre os animais e movido por sua consciência
de si e do outro, do espaço e do tempo e de Deus, deseja ir além de si,
realizando a imagem e semelhança de Deus por um esforço humano, demasiado
humano. O “’adam” de Gênesis
2: 7 não cai de sua condição semi-divina, mas realiza sua condição humana e seu
desejo de se fazer pelo esforço e poder próprios. É pelo êxtase de sua
consciência de falante que extrapola seus limites e se lança a uma empreitada
metafísica de domínio do saber, concebendo o acima e o abaixo, o superior e o
inferior, o poder de conhecer. É o ato mesmo do conhecimento que o
individualiza, o segrega e o projeta, ou, projeta-se sobre a vida na terra. Até
então ele é “’adam” (macho e
fêmea), um animal entre animais, contudo consciente da singularidade
inter-dependente da vida. Agora é Adão, que submete a fêmea a um nome, Eva, e
se apodera da vida. Adão é apenas um animal que toma consciência da
possibilidade do conhecimento e da vida, mas, como humano, demasiado humano,
este animal deseja (animal desejante de desejos) se
Deus que o conhecimento em si permite esta caminhada rumo ao céu. Chamemo-lo Adão,
este homem da inteligibilidade do conhecimento e da sensibilidade da nudez.
Homem construtor da Torre de Babel, aquela que saindo da terra pretende chegar
ao céu e perpetuar o nome de seu edificador. Homem violento e soberbo que
inveja Deus e pretende assentar-se sobre as nuvens, como na visão de Isaias
sobre o rei da Babilônia:
Como caíste do céu, ó estrela da manhã,
filha da alva! como foste lançado por terra tu que
prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das
estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me
assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e
serei semelhante ao Altíssimo. Contudo levado serás ao Seol,
ao mais profundo do abismo. Os que te virem te contemplarão, considerar-te-ão,
e dirão: É este o varão que fazia estremecer a terra, e que fazia tremer os
reinos? Que punha o mundo como um deserto, e assolava as suas cidades? que a seus cativos não deixava ir soltos para suas casas?
Todos os reis das nações, todos eles, dormem com glória, cada um no seu túmulo.
Mas tu és lançado da tua sepultura, como um renovo abominável, coberto de
mortos atravessados a espada, como os que descem às
pedras da cova, como cadáver pisado aos pés. Com eles não te reunirás na
sepultura; porque destruíste a tua terra e mataste o teu povo. Que a
descendência dos malignos não seja nomeada para sempre! (Isaias 14: 12 a 20)
Adão, o
“’adam” de Gênesis 2: 7, aquele
que conhece o bem e o mal e que cobre sua nudez. Adão o homem violento que
submete sua mulher nomeando-a como Eva. Adão, o homem que tem sua cabeça
voltada para o céu, mas está condenado a cavar a terra como um animal de
linguagem.
Mas os
discípulos de Jesus o Cristo não, necessariamente, observam este primeiro Adão
como aquele que é a Imago Dei. A imagem e semelhança de Deus não era procurada neste bípede implume, mas em outro lugar. Os
escritores do Novo Testamento não procuram a completude da promessa no retorno
da humanidade ao Éden, ou da alma a Deus. A oração do Pai nosso diz: venha o
teu reino. Vir não é ir, e nem mesmo retornar. Podemos observar que o autor do
evangelho de João inicia assim este livro:
No princípio era o Verbo, e o Verbo
estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as
coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez...E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de
graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai.
(João 1: 1 a
14)
Há um
movimento muito interessante neste texto. O evangelista diz que no princípio o
Verbo estava com Deus e era Deus, mas que ele se faz carne nos dias de vida do
evangelista. O Verbo criador se faz carne não no Éden, mas habitando na
Palestina de dois mil anos atrás. Apenas quando a promessa (o Verbo) se faz
carne é que podemos falar do trânsito da “emunah”
para a “alethéia”. Deus em Gênesis 1: 27 faz uma promessa e esta encontra sua correspondência
factual, real, humana em João 1: 14. Passamos da promessa ao dado.
A
palavra “emunah” também é traduzida por “pistis”, no grego. Assim é que o profeta Habacuque diz, “o justo viverá pela ‘emunah’”,
enquanto o autor da carta aos Hebreus traduz: “o justo viverá pela ‘pistis’”. A “emunah”, a verdade
como promessa é traduzida como “dar crédito”, “conceder crença”, “ser crível”,
isto é, “pistis”, fé. Vejamos que o autor irá nos
contextualizar a “pistis”, isto é, a “emuah”, ao exemplificar por meio de Abraão.
Pela fé Abraão, sendo chamado,
obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem
saber para onde ia. Pela fé peregrinou na terra da promessa, como em terra
alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó,
herdeiros com ele da mesma promessa; porque esperava a cidade que tem os
fundamentos, da qual o arquiteto e edificador é Deus. Pela fé, até a própria
Sara recebeu a virtude de conceber um filho, mesmo fora da idade, porquanto teve
por fiel aquele que lho havia prometido. Pelo que
também de um, e esse já amortecido, descenderam tantos, em multidão, como as
estrelas do céu, e como a areia inumerável que está na praia do mar. Todos estes morreram na fé, sem terem
alcançado as promessas; mas tendo-as visto e saudado, de longe, confessaram que
eram estrangeiros e peregrinos na terra. Ora, os que tais coisas dizem,
mostram que estão buscando uma pátria. E
se, na verdade, se lembrassem daquela donde haviam saído, teriam oportunidade
de voltar. Mas agora desejam uma pátria melhor, isto é, a celestial. Pelo
que também Deus não se envergonha deles, de ser chamado seu Deus, porque já
lhes preparou uma cidade. Pela fé Abraão, sendo provado, ofereceu Isaque; sim, ia oferecendo o seu unigênito aquele que
recebera as promessas, (Hebreus 11: 8
a 17)
Podemos
perceber que ao traduzir a “emunah”, ou seja, a
verdade como promessa, por “pistis”, crença e
confiança, o autor de Hebreus nos permite aquela leitura em que o Verbo
proferido no Gênesis 1: 27, demanda do ouvinte uma “emunah”, isto é, fé, a qual é certeza de coisas que não se
vêem. Neste texto de Hebreus, o autor nos diz que Abraão andando na terra da
promessa, caminha sobre ela como peregrino, pois a promessa não se realiza
naquele lugar, mas num outro a ser manifesto. Mais do que apenas caminhar como peregrino, aqueles homens não tinham pátria para onde voltar.
Não há retorno pela fé, isto é, na “emunah”, a
qualquer pátria original, ou Éden. O Destino destes homens não estava fixado no
Éden, mas numa pátria espiritual, que à sua frente estava. A fé daqueles
discípulos de Jesus não apontava para o retorno ao céu, mas era a esperança da
vinda do Reino. É um vinde a nós o teu Reino, e não um
leva-nos ao teu céu.
Paulo
também utilizará deste distanciamento entre a jurisdição da “emunah” a qual reclama por uma fé na promessa e a
jurisdição da “alethéia” que aponta para o Verbo
encarnado, o qual cumpre plenamente a promessa. Leiamos o que ele nos diz: “Ora,
a Abraão e a seu descendente foram feitas as promessas;
não diz: E a seus descendentes, como falando de muitos, mas como de um só: E a
teu descendente, que é Cristo.” (Gálatas 3: 16) Não é Isaque
o filho da promessa, assim como não é a Palestina a terra da promessa, mas é
Cristo, o qual converge em si toda a promessa. Cristo é o Verbo da “emunah” cuja “alethéia” é Jesus.
A gravidade espiritual do Reino para aqueles homens e mulheres da igreja de
então realizava-se no mistério do Verbo encarnado que
no fim dos tempos havia habitado entre nós. A promessa, a “emunah”
se cumpria em Jesus
Cristo, a “alethéia” de Deus em
meio aos homens. Aqueles bípedes implume estavam
diante com a concretude do “Bará
Elohiym tselem...”, cuja “emunah” se faz “alethéia”, como o
“’adam” de Deus.
O
evangelista diz: “ele é o Unigênito do Pai”. Mas é nas
epístolas paulinas que podemos perceber esta correspondência entre a imagem de
Deus em Cristo Jesus. Aos
de Corinto ele escreve que “o deus deste século cegou os entendimentos dos
incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de
Cristo, o qual é a imagem de Deus.” (II Corítions 4:
4) Aos de Colossos nos fala que Jesus Cristo “é imagem do Deus invisível, o
primogênito de toda a criação” (Colossenses 1: 15). O
autor da carta aos Hebreus escreve que “sendo ele (Jesus Crsito)
o resplendor da sua glória e a expressa imagem do seu Ser, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo ele mesmo feito
a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas”.
(Hebreus 1: 3). Não pretendemos citar veementemente, ainda, a carta de Paulo
aos de Corinto na qual ele diz que o primeiro Adão é carne, e o segundo é
espírito, e tal qual levamos a imagem do carnal, também levaremos a do
espiritual.
Esta parece-nos ser uma das questões centrais que está em jogo
aqui. O homem, um animal entre animais, abdica de sua condição natural e deseja
sua auto-divinização. O bípede implume ao tomar
consciência pela linguagem que tem algo, o qual virá chamar de consciência,
deseja transcender-se de si colocando-se como Deus. Ele deseja estabelecer seu
trono ao lado do trono de Deus, para isto trabalha para fazer um nome a si que
seja elevado e perenizado. O relato bíblico pode ser lido como acontecimentos
sobre a presença destes nephyins (deuses) que enamorando-se das filhas dos homens causam danos a estes
animais falantes. Mas o homem não teria em si a Imago Deis, mas é apenas isto:
um bípede implume falante que por conta deste atributo adicional deseja ser
Deus, e neste esforço de auto-divinização ergue edifícios
religiosos e filosóficos. Este é o nada fundamental de sua condição animal
falante com desejos de eternidade.
O que
seria a essência da fé no Cristo, então? Seria a crença no momento histórico em
que a “emunah” se faz “alethéia”,
em que o Verbo se faz carne, em que a promessa habita entre nós como Jesus
Cristo. Assim crendo ou, dando nossa
anu qual nformados s. a presença destes nephyins (deuses) que enamorando-se das
filhas dosn homens podemos ser conformados à imagem de Cristo, o qual é a
imagem de Deus. Como nos fala Paulo, “... todos nós, com rosto descoberto,
refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em
glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (II Coríntios
3: 18). Isto é, não trazemos a Imago Deis como pequenos deuses decaídos de suas
esferas celestes, mas somos bípedes implumes que podem ser transformados para a
Imago Dei, uma vez despidos desta veste divina que
tecemos para nós. O alfa da Bíblia é o Verbo proferido como “emunah”, e o ômega é o Verbo
habitando entre nós como “alethéia”, não havendo
pátria para a qual retornemos.
O que
seria a essência da esperança no Cristo, então? Seria a fé na promessa de um
momento histórico em que o Verbo se faz carne entre nós e em nós, em que a “alethéia” dos filhos de Deus se realiza em nossos corpos
adâmicos. Pois que a vontade de Deus para nós desde antes da fundação do mundo
é que sejamos conformes a imagem de Cristo, o qual é a
imagem de Deus (Romanos 8: 27). A Imago Dei não é uma constituição determinada
na criação ao “’adam”
formado no barro, mas é uma promessa, antes, um convite de Deus aos bípedes
implumes.
É exatamente
por darmos anuência em fé a este convite que podemos amar ao próximo. A Imago Dei não é um código genético espiritual que carregamos
e que se encontra soterrado pelo pecado, mas um convite divino ao homem como um
caminho melhor a ser trilhado em prol da justiça amorosa. A
Imago Dei não é natural em nós, mas é resultado da fé naquele que é a
Imagem do Deus invisível e um convite à esperança numa transformação em sua
própria imagem. Não somos deuses decaído, mas somos amimais que aceitam ao
convite de sermos transformados na imagem de Cristo. A transformação na imagem
de Cristo nos dá o olhar amoroso de Deus pela vida. Por isso resta-nos a fé na
Imago Dei, o Cristo por nós; a esperança da Imago Dei
em nós; e o amor segundo a Imago Dei entre nós.