www. marcosnicolini .com.br
Home
Biografia
Bibliografia
Textos
Vídeos
Agenda
Contato

Talvez, antes da fundação do mundo,...

Talvez, antes da fundação do mundo, Deus tenha perguntado para si, perguntado em si, entre si: Ok. Eu criarei tudo e com isto desfarei os limites de meu todo-poder. Minha criação será produto de meu todo-poder, aquele que é poder infinito, ilimitado, incontível. Contudo, ao criar por meio de meu todo-poder estarei dentro dos limites dos deuses, isto é, ter poder, demonstrar poder, barganhar poder. Ilimitado ou limitado, todos os deuses são poderosos e negociam este poder em troca de sacrifícios, ou, os sacrifícios acionam os poderes divinos. Uns lançam trovões e relâmpagos, outros sacodem os mares, alguns que cuidam do sub-mundo dos mortos, alguns têm em si o tempo e há deusas e deuses.

Continua Deus dizendo a si: O que farei então para demonstrar que não o meu ilimitado e infinito poder, meu absoluto e todo-poder, este que me conformaria ao panteão de deuses, deusas e seus sacrifícios, mas, que a criação antes de ser uma demonstração de poder é extensão do meu amor? Assim, seja revelado, desvelado, verdadeiro que antes de produzir o céu e a terra pelo meu poder, antes de produzir poder, saibam que eu tenho amado. O meu amor funda o meu poder e este produz o céu e a terra. O céu e a terra podem passar, meu poder é contível, mas meu amor diz quem sou.

Nisto uma voz em Deus, inteligência de si mesmo disse: mas quem ama põe-se na proximidade da traição! Pode alguém amar tanto uma causa que para realizá-la põe-se no campo gravitacional da traição? Pode alguém trair sabendo que este ato ao mesmo tempo que se inscreve no projeto também o escreve na solidão, na angústia e no inferno? Pode alguém amar tanto o amor que deixa suas obras a mercê de si mesmas à medida que estas transparecem um poder que deve seu mérito a ser meio e não fim? Trair o poder não seria fazer ruir um edifício erguido e que oculta o próprio fundamento incognoscível do amor?

Então Deus mesmo disse a si: certamente que minha inteligência me trai com tais sutilezas. Mas como serei traído e por quem?

Ao que Deus mesmo, em seus conselhos mais secretos, encontrou uma resposta a tais questões: Trairei a mim mesmo esvaziando-me do meu todo-poder. Serei o único Deus que por amor infundado se desapoderará de si e em si, traindo-se, traindo a qualidade dos deuses, de ser deus. Criarei algo absolutamente diferente de mim, operando segundo o meu poder, e lá nesta criação que começará como o tempo e o espaço, meter-me-ei em meio a ela na forma de uma de minhas criaturas formadas, contudo desprovido de poder, como tal animal. Antes, porém, criarei tudo e entre este tudo criarei um homem e mulher que seja minha imagem e semelhança e posteriormente viverei entre aqueles animais formados, no corpo desta criação radicalmente absoluta transcendência de mim mesmo. Transcenderei a mim mesmo, apagando-me, mas pelo amor tornarei minha imagem humanizável, humanizada: deixarei minha morada e como um nômade serei encontrado entre eles, em meio a eles, como o Deus que será encontrado no caminho.

Mas Deus questiona-se: Então criarei, no tempo e no espaço, uma criatura que saia raios dos olhos, folgo da língua, com mãos de martelos, pés de que moem e força do aço? Perguntou-se o criador segundo sua inteligência. Não, respondeu-se, mas criarei alguém que me trairá: será radicalmente puro amor, esvaziado de poder. Trairei a mim tanto ao desvelar, negar e me opor ao meu poder, quanto em, expondo-me a nu, desfazer em mim o poder, sendo servo sofredor. O único poder que restará a esta imagem de mim mesmo será o poder do amor. Andarei entre excluídos, sujos, doentes, prostituídos, famintos, esquecidos, deixados, perseguidos, destruídos. Serei conhecido e reconhecido apenas e quando houver amor em pelo menos dois ou três deles. Não andarei pelo caminho dos poderosos e ricos, não me deterei entre aqueles que, pregando Deus, falam de si mesmos e não se assentarei nos tronos dos deuses, nos lugares altos e nos pináculos do templo.  Minha traição a mim mesmo será denunciar e negar meu poder até o limite de minha morte vil, solitária e marginal, provocada. Perguntar-me-ão, ali em meu leito dolorido de morte: se és todo-poderoso, porque não tira a você mesmo desta ignomínia? E eu lhes darei o amor, lhe verterei minha vida pelo sangue que sairá de mim. Assim me revelarei como o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Num pré-tempo sem lugar. O amor vencerá o vencedor e o despojará.

Mas como Deus pode ser morto? Perguntei-me inteligentemente. Sou morto por me trair e nesta traição o todo-poder é vencido pelo todo-amor. Vou despojar meu poder como um templo derriçado, implodido, obsoleto. Desta maneira morro como Deus distante, transcendente, confundível com os deuses olímpicos e que requerem sacrifícios, e ressuscito como o que estará sempre entre as criaturas, apagando a morte. Serei um Deus que ao ser morto faz cessar o sacrifício a todos os deuses, pois não haverá nada além para onde se dirijam os incensos, as fumaças das partes queimadas, os oferecimentos de sangue dos animais/homens. Somente posso ser morto por mim mesmo e o farei quando, pelo amor infundado e anterior, traído por mim, esvaziar-me do meu todo-poder sucumbindo com os assassinos por amor. Eu mesmo me trairei, por mim mesmo em forma animal, por isso não serei reconhecido, nunca. Esperarão um deus, um sacerdote, um rei, e irei eu, nu de amor, desnudado pela traição ao meu poder.

Neste não espaço atemporal, disse Deus: ponho-me na proximidade da traição, e por amor passo a dizer: haja luz... Talvez, o princípio da criação, o que funda o poder, o “arché” do “aché”, aquilo que é sem fundamento e sem princípio, seja o amor. Talvez o Amor éanaché”, anárquico, sem princípio, desfundado, inapreensível.

 

 

Obs.: texto que toma referências em passagens do livro: ZIZEK, Slavoj; The Puppet and the Dwarf: Perverse Core of Christianity, Cap 1- Introduction: The Puppet called Theology; Massachusetts- USA: Ed. MIT, 2003.