Talvez, antes da fundação do mundo,...
Talvez,
antes da fundação do mundo, Deus tenha perguntado para si, perguntado em si,
entre si: Ok. Eu criarei tudo e com isto desfarei os
limites de meu todo-poder. Minha criação será produto de meu todo-poder, aquele
que é poder infinito, ilimitado, incontível. Contudo,
ao criar por meio de meu todo-poder estarei dentro dos limites dos deuses, isto
é, ter poder, demonstrar poder, barganhar poder.
Ilimitado ou limitado, todos os deuses são poderosos e negociam este poder em
troca de sacrifícios, ou, os sacrifícios acionam os poderes divinos. Uns lançam
trovões e relâmpagos, outros sacodem os mares, alguns que cuidam do sub-mundo dos mortos, alguns têm em si o tempo e há
deusas e deuses.
Continua
Deus dizendo a si: O que farei então para demonstrar que não o meu ilimitado e
infinito poder, meu absoluto e todo-poder, este que me conformaria ao panteão
de deuses, deusas e seus sacrifícios, mas, que a criação antes de ser uma
demonstração de poder é extensão do meu amor? Assim, seja revelado, desvelado,
verdadeiro que antes de produzir o céu e a terra pelo meu poder, antes de
produzir poder, saibam que eu tenho amado. O meu amor funda o meu poder e este
produz o céu e a terra. O céu e a terra podem passar, meu poder é
contível, mas meu amor diz quem sou.
Nisto
uma voz em Deus, inteligência de si mesmo disse: mas quem ama põe-se na
proximidade da traição! Pode alguém amar tanto uma causa que para realizá-la põe-se
no campo gravitacional da traição? Pode alguém trair sabendo que este ato ao mesmo tempo que se inscreve no projeto também o escreve
na solidão, na angústia e no inferno? Pode alguém amar tanto o amor que deixa
suas obras a mercê de si mesmas à medida que estas transparecem um poder que
deve seu mérito a ser meio e não fim? Trair o poder não seria fazer ruir um
edifício erguido e que oculta o próprio fundamento incognoscível do amor?
Então
Deus mesmo disse a si: certamente que minha inteligência me trai com tais
sutilezas. Mas como serei traído e por quem?
Ao que
Deus mesmo, em seus conselhos mais secretos, encontrou uma resposta a tais
questões: Trairei a mim mesmo esvaziando-me do meu todo-poder. Serei o único
Deus que por amor infundado se desapoderará de si e
em si, traindo-se, traindo a qualidade dos deuses, de ser deus. Criarei algo
absolutamente diferente de mim, operando segundo o meu poder, e lá nesta
criação que começará como o tempo e o espaço, meter-me-ei
em meio a ela na forma de uma de minhas criaturas formadas, contudo desprovido
de poder, como tal animal. Antes, porém, criarei tudo e entre este tudo criarei
um homem e mulher que seja minha imagem e semelhança e posteriormente viverei
entre aqueles animais formados, no corpo desta criação radicalmente absoluta
transcendência de mim mesmo. Transcenderei a mim mesmo, apagando-me, mas pelo
amor tornarei minha imagem humanizável, humanizada: deixarei
minha morada e como um nômade serei encontrado entre eles, em meio a eles, como o Deus que será encontrado no caminho.
Mas
Deus questiona-se: Então criarei, no tempo e no espaço, uma criatura que saia
raios dos olhos, folgo da língua, com mãos de martelos, pés de que moem e força
do aço? Perguntou-se o criador segundo sua inteligência. Não, respondeu-se, mas
criarei alguém que me trairá: será radicalmente puro amor, esvaziado de poder.
Trairei a mim tanto ao desvelar, negar e me opor ao meu poder, quanto em, expondo-me
a nu, desfazer em mim o poder, sendo servo sofredor. O único poder que restará
a esta imagem de mim mesmo será o poder do amor. Andarei entre excluídos, sujos,
doentes, prostituídos, famintos, esquecidos, deixados, perseguidos, destruídos.
Serei conhecido e reconhecido apenas e quando houver amor em pelo menos dois ou
três deles. Não andarei pelo caminho dos poderosos e ricos, não me deterei
entre aqueles que, pregando Deus, falam de si mesmos e não se assentarei nos
tronos dos deuses, nos lugares altos e nos pináculos do templo. Minha traição a mim mesmo será denunciar e negar
meu poder até o limite de minha morte vil, solitária e marginal, provocada.
Perguntar-me-ão, ali em meu leito dolorido de morte: se és todo-poderoso,
porque não tira a você mesmo desta ignomínia? E eu lhes darei o amor, lhe
verterei minha vida pelo sangue que sairá de mim. Assim me revelarei como o
Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Num pré-tempo sem lugar. O
amor vencerá o vencedor e o despojará.
Mas
como Deus pode ser morto? Perguntei-me inteligentemente. Sou morto por me trair
e nesta traição o todo-poder é vencido pelo todo-amor. Vou despojar meu poder
como um templo derriçado, implodido, obsoleto. Desta
maneira morro como Deus distante, transcendente, confundível com os deuses
olímpicos e que requerem sacrifícios, e ressuscito como o que estará sempre
entre as criaturas, apagando a morte. Serei um Deus que ao ser morto faz cessar
o sacrifício a todos os deuses, pois não haverá nada além para onde se dirijam
os incensos, as fumaças das partes queimadas, os oferecimentos de sangue dos
animais/homens. Somente posso ser morto por mim mesmo e o farei quando, pelo
amor infundado e anterior, traído por mim, esvaziar-me do meu todo-poder
sucumbindo com os assassinos por amor. Eu mesmo me trairei, por mim mesmo em
forma animal, por isso não serei reconhecido, nunca. Esperarão um deus, um sacerdote,
um rei, e irei eu, nu de amor, desnudado pela traição ao meu poder.
Neste
não espaço atemporal, disse Deus: ponho-me na proximidade da traição, e por
amor passo a dizer: haja luz... Talvez, o princípio da criação, o que funda o
poder, o “arché” do “aché”, aquilo que é sem
fundamento e sem princípio, seja o amor. Talvez o Amor é
“anaché”, anárquico, sem princípio, desfundado, inapreensível.
Obs.: texto que
toma referências em passagens do livro: ZIZEK, Slavoj; The Puppet
and the Dwarf: Perverse Core of Christianity, Cap 1- Introduction: The Puppet
called Theology; Massachusetts- USA: Ed. MIT, 2003.