Filhos, não sigam...por amor
prossigamos
Estávamos
nós sentados naquela sala, da casa daquela pastora, o apóstolo, a hospedeira,
dois pastores (um argentino e outro brasileiro), um diácono e eu. A conversa
girava em torno das relações entre os ministérios: o apostólico de cunho global
e estrutural, e o pastoral de cunho local. O apóstolo queria me convencer da
necessidade da cobertura espiritual, da submissão a uma liderança e das relações
hierarquizadas das unções, que num primeiro momento passaria pelos dízimos. Dizia
que um pastor deve seguir a unção do apóstolo e submeter-se a esta ordem, pois
assim como o apóstolo recebe diretamente a revelação de Deus, o pastor tem o
contato direto com as pessoas. Ele, como uma mão sobre a outra, mostrava-me
como deveria ser nossa relação espiritual: primeiramente os apóstolos, depois
os pastores, baseado nas palavras de Paulo aos de Corinto. As unções
representam a presença de Deus na vida de uma pessoa,
e cada unção representa, qualitativamente, a excelência divina ali depositada e
o recurso espiritual em ter um depósito de revelação. Assim, ao escrever
“primeiro os apóstolos”, Paulo estaria dizendo que há uma hierarquia de unções
e que os apóstolos têm a porção mais excelente de Deus, uma proximidade maior
de Deus, uma palavra revelada mais atual e dinâmica. Desta forma, submeter-se a
um apóstolo é submeter-se a uma presença mais excelente de Deus depositada em
uma pessoa. As mãos significavam que sobre o pastor, sobre a unção de pastor há
uma unção ainda superior que se aproxima mais de Deus, aquela que é a unção
apostólica. O povo deve estar debaixo da cobertura espiritual de um pastor,
este deve estar sob a cobertura espiritual de um apóstolo e este sob Cristo. Ao
alto e avante.
Minhas
mãos diziam outra coisa, que o inervava e escandalizava os demais presentes
naquele encontro. Eu, intercalando os dedos da mão direita com os da mão
esquerda dizia: ofereço-te minha amizade, que andemos lado a lado como dois
amigos, co-dependentes, cada qual realizando aquilo que crê ser o desígnio
divino para sua vida, mas buscando no outro os recursos que não temos em nós
mesmos. Não à hierarquia de unções e sim a complementaridade de recursos e
propósitos. Nem cobertura, nem hierarquia, nem submissão, apenas sermos
diferentes segundo os diferentes propósitos que temos em nossos corações, e
nestas diferenças nos complementarmos horizontalmente como amigos que andam
juntos. Não me valia de nenhum texto bíblico de referência, mas apenas um
sentido interno, o qual me levava a ter com Jesus uma amizade franca de um
homem para com um homem, do Filho para com o filho.
Enquanto
ele insistia na sobreposição das mãos, como um coito espiritual e sagrado do
tipo papai e mamãe, eu insistia na interpolação de dedos que insinuava, para
ele, uma esterilidade radical. Enquanto ele insistia em cavar a terra com seus
pés para que seguíssemos suas marcas, ele sendo um desbravador e nós seguindo-o
como bons discípulos, eu insistia que andássemos ombro a ombro como quem
desbrava uma terra não visitada e prefere ter ao seu lado amigos de confiança
em quem possamos buscar auxílio em momentos de desafios extremos. Enquanto eu o
traía em suas expectativas de uma rede apostólica hierárquica, eu sabia que
minha decisão apontava para o cerne do que eu cria ser ekklésia.
Traía uma expectativa de mil e quinhentos anos de hierarquia celeste. Desde
então nunca mais abandonei este sentido horizontal das relações entre aqueles
que crêem em Cristo, de fato, nunca abandonei isto como componente do núcleo
central de crenças que entendo nos dotou Cristo: a proximidade entre amigos e
iguais, co-operadores, co-herdeiros, fundado na fé no Emanuel. Nossos ânimos se
exaltaram e houve silêncio naquele lugar. Talvez tenhamos nos exaltado tanto
quanto Pedro e Paulo, onde o primeiro pensava segundo a Lei e a ordem da
circuncisão e dos sacrifícios, enquanto o segundo cria na graça e nas relações
de co-dependência no corpo. Percebi que a atitude a tomar era de minha
ausência. Deixei aquela casa, ainda ocupada por todos os demais, imaginando as
conversas que sucederam aos meus atos e palavras, sem, contudo, a minha
presença.
Ademais
era domingo. A programação dizia que o apóstolo iria falar no culto noturno de
nossa Igreja. Sua pregação naquela noite foi sobre as chaves hermenêuticas para
se ler a escatologia de Mateus 24. Aquela pessoa que era responsável por
transcrever as mensagens do apóstolo, a fim de que as colocássemos
primeiramente no boletim da Igreja e mais tarde no website,
nunca transcreveu aquela mensagem por discordar peremptoriamente desta sua
pregação. Sua inospitalidade com algumas pregações do
apóstolo já havia feito outras vítimas de sua censura. Havia uma hospedaria em
que esta hospedeira era hostil ao apóstolo, sem, contudo, revelar tal endereço.
Havia um silêncio e uma negação em explicitar tal recusa. Ao término do culto,
aquele que seria o último culto em São Paulo, além de ser o último em nossa Igreja, pois
nunca mais voltaria ao Brasil, o apóstolo fez uma (ou duas, como queiram) oração.
Orou por mim, dizendo apenas: Deus, oro pelo pastor
Marcos Nicolini, para que seu ministério seja segundo
o que ele tem em seu próprio coração; oro, Senhor nosso, pela pastora, esta
mulher que nos acolheu com coração sincero e pleno de alegria, que tem ouvido
tua vontade, acolhido obedientemente suas determinações e andado em Seus
caminhos. Agradeço, Deus, pela acolhida que me fez
sentir em casa. Estendo
minha benção sobre seu ministério neste lugar e declaro a perpetuação de seu
pastorado. Alegro-me por ela O conhecer e a ela revelar-se. Etc., etc.
Ao
final da reunião, em que ele tomando um carro, que na companhia dos outros dois
pastores se dirigiria à cidade de Guarujá, fui até ele e lhe disse: apóstolo, você
sabe que te amo muito, e o que ofereci foi tudo que posso oferecer-lhe. Seus
olhar e sua feição mudaram, enquanto minhas palavras iam sendo expostas, de
esperança em um pedido de perdão e reposicionamento segundo a unção, para uma
dureza fria que nem valeu um último adeus.
Aquela
Igreja não durou muito mais tempo, depois daquela última visita do apóstolo.
Percebi minha própria incoerência e incompetência. Se eu prego (mal) uma ekklésia onde todos são iguais diante de cada um (isonomia)
e todos tem igual direito à palavra (isegoria),
porque manteria este modelo anti-eclesiástico por
excelência? Se igreja é a reunião de pessoas que crêem nos valores legados por
Cristo e mantidos acessos pelo fogo do Espírito em torno do evangelho de
liberdade, igualdade e justiça, coisas extremamente difíceis de conjugar no
presente, como poderia manter uma Igreja que nega em sua própria existência
este evangelho. Assumi pessoalmente e solitariamente, paradoxalmente, a oração
do apóstolo feita por mim. Assumi minha fé numa ekklésia
feita por filhos maduros, cooperadores de Cristo, os quais fundam suas relações
no acolhimento incondicional do próximo como igual, onde não há judeu ou grego,
homem ou mulher, livre ou escravo. Fechei a bodega, segundo aquilo que tinha
dentro de mim e não segundo as expectativas dos outros. Mas, debrucei-me em
escrever sobre esta possibilidade e tornar público pela via da internet todos
estes pensamentos e interpretações sobre o que poderia ser,
ser ekklésia no século XXI. Aqui estou eu, não mais
como pastor, mas como pseudo-escritor.
Durante
anos (pelo menos cinco) mantive na internet o único website
do mundo que tinha textos transcritos das pregações, ou escritos pelo Rinaldo Texidor Jr. Pessoas da
América Latina, inclusive do Brasil, acessavam o website
do Tabernáculo Real (nome da Igreja e do site) para
lerem os textos do apóstolo. Dezenas de Igrejas haviam se submetido à unção
apostólica, várias delas com websites próprios, mas
apenas um com textos assinados pelo Texidor: o www.tabreal.com.br (que não existe mais).
Inclusive um pastor de uma Igreja do interior da Argentina, meses depois deste
entrevero, enviou um e.mail para todos os pastores da
Rede Voz no Deserto, instituição do apóstolo Rinaldo Texidor Jr para a organização de
sua relação com Igrejas locais, fazendo apologia da submissão as unções e condenando os rebeldes que não obedecem a esta
Palavra de Deus. Guardei silêncio, mas deletei o e.mail.
Anos
depois, meses antes da morte do Texidor, o apóstolo
me enviou um e.mail no qual dizia que algumas pessoas
do México estariam desenvolvendo um website para a
Rede Voz no Deserto e que precisaria dos textos que estavam no www.tabreal.com.br, em português, na
época cerca de 90 textos. Respondi-lhe dizendo algo como: Tex,
aqueles textos são seus e eu os mantenho no ar por amizade a você. Quando você
me disser para enviar estes textos para outro website,
e não mais publicá-los no meu website, eu o farei
prontamente, porque apenas os guardo para você, até quando você permitir. Mais alguns dias e ele me escreveu dizendo que não era para
tira-los do meu website, mas para permitir links desde o outro. Ele me agradeceu por ter sido o único,
dentre tantos que ele conhecia, que proporcionou esta
divulgação de seu trabalho. Alguns meses depois ele morreu de câncer.
Este
relato serve para ressaltar o modelo relacional que temos mantido sob o
guarda-chuva da sã tradição eclesiástica. Temos crido que o sinônimo de ordem é
traduzido pela hierarquia e pela obediente submissão àqueles que ocupam os
estratos mais elevados do conhecimento de Deus, quer pela via da revelação,
quer pela via do estudo formal do texto, ou ainda pela herança sacramental. A
Igreja desde muito cedo, na virada do primeiro para o segundo século, já
apontava para uma estruturação hierarquizada, tomando como referência a ordem
militar romana. Estas relações fundadas em obediência para a santidade e
rebeldia para a perdição já estão presentes em Clemente de Roma e Irineu, como
teremos oportunidade própria de analise.
Por
volta do ano 500 d.C. Pseudo-Dionísio Areopagita
escreve seu “Corpus Areopagiticum”,
texto em que apresenta a hierarquia celeste e a hierarquia eclesiástica. Destacamos
as palavras de Pseudo-Dionísio, em que a “hierarquia é uma santa ordem, um saber e uma ação tão próxima
quanto possível da forma divina elevada à imitação de Deus na medida das iluminações
divinas.” Segundo Régis Debray, a palavra hierarquia
foi cunhada por este escritor do século V e VI, onde “hier”
significaria sacrado e “arquia”
significaria princípio, fundamento ou ordem, então “hierarquia” nos fala dos
fundamentos da ordem sagrada. E de acordo com Giorgio Agamben,
Pseudo-Dionísio não estaria escrevendo este texto para nos apontar as
possibilidades teológicas, sobre as possibilidades de se falar de Deus, ou
seja, para a teologia positiva e a negativa, ou apofática,
mas nos falaria sobre uma ordem celeste e seu necessário espelhamento na ordem
eclesiástica.
Para
Dionísio, os anjos estariam dispostos em três ordens, a
ordem primeira dos Tronos é formada pelos Querubins, Serafins,
a segunda pelas Virtudes, Dominações e Potestades, e a terceira pelos Anjos,
Arcanjos e Principados. A Igreja deve necessariamente espelhar esta ordem e
organizar-se segundo uma hierarquia de iluminações, ou seja, da presença do
Ser. Ora, sabemos que Pseudo-Dionísio era um leitor compenetrado dos neoplatônicos e seus escritos trazem esta marca do Ser e
dos seres dispostos segundo uma ordem do ser. Seu “Corpus Areopagiticum” é uma construção
humana que toma como referência os escritos de filósofos pagãos do quarto e
quinto século, servido como ponto referencial e lente para uma leitura da Bíblia.
Os escritos cristãos canonizados, a Bíblia, agravam-se como reféns da
perspectiva cósmica do paganismo filosófico. No entanto é ingênuo pensar que
este seqüestro pede resgate apenas à Grande Igreja Medieval e sua filha a
Igreja Católica, assim como aos Neopentecostais do século XXI.
Alguns
grupos religiosos, não neopentecostais como éramos, não utilizam os termos
“cobertura espiritual”, mas usam a palavra “mentoria”.
Segundo o dicionário Priberam, mentor é um guia e
conselheiro de outra pessoa. Paulo usa a palavra “aio”,
ao escrever à ekklésia na Gália. Os três conceitos traduzem
algo muito similar, ainda que não idênticos: trata-se de uma relação
hierárquica entre duas pessoas, de um lado o ungido, o mestre e o interpretador
da ordem divina, e de outro a criança, o pupilo, o que segue. De um lado aquele
que conhece e como tal reflete mais propriamente a luz divina, e de outro
aquele que é imperfeito, uma criança espiritual que deve ser guiada por
educadores hábeis e competentes. O mestre deverá sempre assegurar à instituição
a perfeita conformação do pupilo à doutrina, às crenças, assim como o pupilo
deve submeter-se a fim de garantir a aprovação do mentor. O que está em jogo é
uma ordem institucional e a preservação desta no transcurso dos séculos.
Mas,
podemos dizer que o discipulado de Jesus não é estruturado verticalmente, segundo
uma ordem hierárquica, mas, podemos pensá-lo a partir de uma rede horizontal de
amigos. Jesus não é um homem que está pensando o futuro, ele é um homem escatológico,
que pensa no fim de um tempo. Jesus não é um homem de doutrinas e dogmas, mas
de amizade e amor mútuos. Esta mudança de perspectiva nos propicia um ganho
considerável nos resultados e no encaminhamento desta amizade no Reino. As relações
horizontais assim como quebram as cadeias de obediência e submissão, também
propiciam uma dupla mão de aprendizado. Cada nova relação configura um novo par
de possibilidades de conhecimento.
Jesus
nos diz: ide e fazei discípulos. Esta frase tem sido interpretada como: ide por
todo lado e reproduzam seguidores fiéis. Mas, a fim de podermos alterar o ponto
de referência que a lemos, devemos conjugá-la com outra: e conhecerão que sois meus discípulos quando vos amarem uns aos outros. O
discipulado seria, assim, uma relação horizontal de amor mútuo, tal qual Jesus
amou os seus amigos. O discipulado se define na vinculação amorosa entre os
discípulos. O convite de Jesus não é que façamos nossos discípulos, gente que
nos siga, mas que façamos discípulos dele, gente que ame ao próximo como ele
nos amou. Jesus mesmo propõe esta fórmula: já não vos chamo de servos, mas de
amigos... Somente no regime da Lei, portanto, do sacerdócio, do sacrifício e da
obediência legal é que podemos pensar em discípulo como pupilo, ou criança que
requer alguém que lhe diga por onde andar. Somente num regime de ordem
hierarquizada, num regime em que a hierarquia eclesiástica espelha-se na
hierarquia celeste é que podemos pensar em relações de mentoria.
No regime da graça e do amor o que está em jogo não é a obediência fiel, mentor-pupilo,
mas as possibilidades amistosas dos relacionamentos isonômicos e isegóricos. Ou seja, de igualdade entre os filhos na
participação da assembléia e do direito igual à palavra entre aqueles que fazem
a assembléia.
A ekklésia, ou assembléia, ou igreja é a reunião, o encontro
de dois ou três em nome de Jesus. Isto quer dizer, em nome das propostas, ou,
como queiram, das boas novas de Jesus. Tal evangelho não
está estruturado como um ordenamento do mundo segundo a ordem tirânica das
hierarquias, mas é fundado no amor, em encontros amistosos entre aqueles que
sabem que as diferenças são, fundamentalmente, produções humanas que inserem o
poder no regime da dominação do homem pelo homem. Jesus disse certa vez: “Os
reis dos gentios dominam sobre eles, e os que sobre eles exercem autoridade são
chamados benfeitores. Mas vós não sereis assim; antes o maior entre vós seja
como o mais novo; e quem governa como quem serve.” As ordens hierárquicas, as
coberturas espirituais, as mentorias participam desta
dominação efetivada por uma maneira de ordenar o mundo segundo o pensamento militaresco dos romanos e de acordo com as premissas e
hipóteses de uma filosofia pagã.
O
convite a ser feito a cada um de nós é este: desubmetamo-nos,
desmentorizemo-nos, des-aio-mo-nos.
Olhemos para aqueles que se arrogam cobertura espiritual, ou, mentores,
voluntária ou involuntariamente e digamos a eles: quero ser seu amigo e não seu
seguidor. Sigamos o mesmo mestre, a Jesus, nada além dele. Relacionemo-nos
horizontalmente como cooperadores da obra iniciada por Cristo e sejamos filhos
amigos. Ser filho é assumir os riscos dos erros e acertos, mas acompanhado de
irmãos do mesmo Pai.