Haverá fé na terra?
Noite
fria, a chuva batendo na janela levemente descoberta pela cortina, a lareira
acesa, duas poltronas e uma pequena mesa entre elas, tapete aconchegante, apenas
a luz do abajur iluminando o espaço necessário à leitura, a caneca com
chocolate quente sobre a mesa, dois livros abertos, um sobre o colo e outro no
chão com a caneta marcando a última página lida, assim como a mão posta como
marco e o dedo apontado para o lugar do que se leu e parou alí,
o computador ligado e plugado na caixa postal e nas
notícias, silêncio, apenas silêncio escuro e uma leitura breve, mas
arrebatadora: Lucas XVIII, 8. Um suspiro, um som que não
foi possível conter fendeu a solenidade e decoro daquele encontro. Quase um
espanto, algo instalado ali onde tudo era conformidade, harmonia, esquecimento.
De uma conversa sobre religião, política, economia, cultura, sociedade, para se
falar de fé. Livros trazidos apressadamente, lembranças, procuras, perguntas. A
força de fundações em deslizamento, o poder das referências móveis. Um diálogo
incontido, palavras vinculadas pelo não dito, pelo silêncio governante:
Depois
de tudo você ainda tem fé?
Depois
de tudo o que?
Depois
de Nietzsche, Heidegger, Baudrillard, Freud, os pós-estruturalistas e pragmatistas...toda
esta escritura.
Mas em
que sentido estes homens nos falam da fé? Estes homens não falam em nome de
todos, do todo. São homens que pensam parcialmente sobre as crenças dos homens.
Contudo
são homens singulares.
Com
certeza! Mas não foi um dentre eles, não foi Foucault quem disse: o homem está
morto?
Sim, em As Palavras e as
Coisas. Todavia esta morte é contestada. A que se atribui a
morte do homem?
Pergunto-me
se o homem não teria morrido tão logo se fez aquela anunciação da morte de Deus?
Pelo menos para Foucault e àquele que ele se remete e àqueles que a ele se remetem.
Sim,
sessenta anos depois. Mas você, eu e mais de seis bilhões de nós estamos por
aqui. Nascemos todos os dias e morremos todos os dias, todas as horas, a cada
segundo. Trabalhamos, cantamos, jogamos.
Até
podemos dizer que estamos vivos num sentido, em sentido biológico e operacional.
Mas o que é a vida, afinal? Há espaço para a pergunta sobre o que somos?
Haveria ainda quem pensaria, articularia sobre o que é o homem? Haveria algo
além da vida biológica e operacional que implicaria a nossa humanidade? Podemos
ainda pensar na vida, e na morte? Não seríamos produtores de uma entrega
maquinal? Não estaríamos postados como maquinaria nesta maquinação?
Além do
homem, Deus também está por ai, mas nada se fala sobre Ele, tão somente sobre suas
promessas, suas dádivas e sua falação. Deus salva,
Deus cura, Deus fala, mas quem seria este que salva, que cura e que fala? Não
seria esta a maneira que matamos Deus, todos os dias, todas as horas e a cada
segundo?
É
possível, então, dizermos que morremos. Nós e Ele! Pois do homem nada se fala,
apenas se aponta para suas realizações e sua objetivação. De Deus nada se fala,
apenas armazenamos ente Grande Recursos soteriológico.
Mas
como morremos se estamos vivos?
Morremos
como deuses!
Você
quer dizer que morremos como Deus morre? Mas Deus morre? Para morrer há de se
estar vivo, antes! Somente o existente pode ser vivo.
Morremos
a morte que apenas os deuses podem morrer.
Mas
Deus está aí, nos templos, nas orações, nos livros, nos sacrifícios, nas
ofertas, nas pregações, em tantos lugares. Deus está na TV. Ninguém que está
diante das câmeras está morto, mesmo quando a morte o alcança. Por meio de uma
câmera e um microfone tudo passa para o lado da verdade e a verdade é eterna! A
religião retornou a despeito dos profetas do ateísmo. Re-encantou-se
a representação a despeito da morte do autor.
E se
for da morte de Deus que surgem as religiões, como já nos relembrou Heidegger e
ratificou Baudrillard? Seria também da morte do Homem que surgiria o humanismo?
Será que apenas quando deixarmos de determinar positivamente Deus e o Homem que
poderemos, então, retomar a trilha vital?
Mas
qual a religião do homem? A política? As finanças? Certamente que o dinheiro é
deus, mas, seriam os modos de produção de riqueza
centrado no dinheiro uma religião?
Seria
mais fácil dizer que sim... Mas tampouco como a religião surgente
é a dos templos e das câmeras de TV, também esta não é a da indústria ou dos
serviços. Não é este o templo que abriga o sem-fundo abismático do sagrado
ausente.
“Sem-fundo
abismático do sagrado ausente”? Fingirei que não ouvi isto. Voltemos à religião
nos moldes que você argúi. Se a religião, tanto de Deus quanto dos deuses não é
conhecida pelos seus templos e corpos em sacrifícios, como saber dela?
Primeiramente
não estou argüindo, mas questionando, em segundo lugar uma coisa é o que é
decorrente e outra é a causa. Contudo não digo que haja algo oculto por trás da
religião. Pelo contrário! Não havendo nada por trás da fachada é que há a
religião. E é nisto que se assemelham a religião e o desencantado: o sagrado
ausente, a presença do sem-fundo abismático.
Não me
venha com frases de efeito que pouco nos dizem de fato. Não sendo o que está aí
e nem o que estaria por trás, como uma ideologia, o que seria?
Haveria
todo um aparato que funciona, mas este funcionamento tem a haver com a
preservação da máquina e não com um conteúdo, ou aprofundamento, ou um sentido
mais além. Tudo o que se faz, toda a novidade já
estaria integrada na manutenção do que já está e deve manter-se.
Vai-se
a qualquer lugar, desde que não se sai de onde está?
Pensemos
por meio de uma esteira rolante: andamos, trotamos, corremos, exaurimo-nos, mas
não saímos do lugar. Quanto mais corremos, mais ficamos no mesmo lugar! Quanto
mais transpiramos, mas trabalhamos para a preservação de nós mesmos.
A
imagem da esteira rolante está comigo, mas a metáfora me fugiu. Como Deus e o
Homem morrem nesta operação?
Busquemos
outro caminho. É como aquela brincadeira de crianças, que tomam uma palavra, um
signo desconhecido até então para elas, como, por exemplo, “cogito”, e a
repetem em coro, em diversos tons, ritmos e melodias, até à exaustão. Ao fim a
palavra “cogito” não falaria nada, apenas é a
materialidade do som, da brincadeira, do esgotamento do referente exposto à
repetição infinita. A partir de então podemos repetir esta palavra quantas
vezes quisermos, que ela não nos remeterá a lugar algum, pois já faz parte do
jogo do sem sentido. A palavra é posta em movimento, mas ela já não nos remete
a sentido algum.
Certo.
Estou ainda na esteira rolante. Entendo o que você fala, mas não entendo o
sentido de suas palavras. Estamos “correndo” sobre duas metáforas, mas ainda
não saí do lugar. Talvez o seu próprio jogo com as
palavras e com as metáforas já seja uma brincadeira de criança. Ficamos girando
e girando num mesmo lugar, sem nunca avançarmos para o próximo lugar. A acusação
que fazem a você, de ser prolixo, se confirma.
Deixando
os argumentos “ad hominem”,
concentremos no diálogo. A palavra que até então tinha o sentido de um
movimento do pensamento humano em vista à determinação do humano, nesta
brincadeira torna-se ela mesma sem nada dizer. Ela é raptada de todo sistema de
referências, de toda articulação, tornando-se forma absoluta. A palavra é morta
por inflação, por hiperinflação...
Como
queira: deixemos sua prolixidade de lado e tomemos uma terceira metáfora, a da
inflação.
Não
apenas inflação, mas hiperinflação. Podemos dizer que a hiperinflação é a
descrença no papel moeda, o dinheiro, como aquilo que possibilitaria trocas de
mercadorias. O dinheiro que de alguma maneira pode ser entendido como um
dicionário, aquele que indicializando o valor de
troca de cada mercadoria, traduz este valor de tal maneira a ser aceito pelos
trocadores, sendo, assim, o fundo da compra e venda. Na hiperinflação é
desfeita a relação entre o dinheiro e o produto, ou, entre o valor de troca de
uma mercadoria traduzido como valor monetário e o valor de uso. Na
hiperinflação haveria um embaralhamento do índice, como
que se num dicionário as palavras e seus significados se desatrelassem e não
houvesse mais a possibilidade de saber o sentido das frases, das palavras,
fazendo cessar, assim, a comunicação. A moeda deixa de ser referência, deixa de
traduzir o valor aceito nas relações de compra e venda, tornando impossível o intercambio
de mercadorias, e o papel moeda se torna apenas papel: matéria. A multiplicação
exponencial do papel moeda tanto é motivo e agravante do
problema do desequilíbrio do valor das torças, antes, as desqualifica, quanto
remete o papel moeda à sua materialidade, a mais um signo hiper-presente sem estar
referenciado a nada.
Entendo
que o dinheiro menos é um signo financeiro-econômico e mais é um lugar de
depósito de em determinada crença, aquela que diz que seu portador tem
potencial de troca universalmente aceito, dentro de uma dada sociedade, medido
pela quantidade de papel moeda. Isto, grosso modo, significa que uma pessoa
tinha um certo conjunto de mercadorias com dado valor
de troca. Tendo realizado esta troca, obteve títulos que o fazem portador de um
potencial de compras de mercadorias, as quais devem ser postas à troca. Não
trocamos mercadorias por mercadorias, mas trocamos mercadorias mediadas por títulos
crives que atestam e quantificam nosso potencial de compra. Mas e a hiperinflação.
Imaginemo-nos
entrando num bar e pedindo uma garrafa d’água.
O vendedor nos revela o valor de troca para a garrafa d’água: R$1,60. O líquido que está na garrafa, grosso
modo, o qual é útil para refrescar e repor as perdas naturais de água do corpo
humano (seu valor de uso) tem um valor de troca de R$1,60 crido como ajustado
pela comunidade dos vendedores e compradores. Caso esteja muito caro, a demanda
por esta mercadoria recuará, caso esteja barato a demanda crescerá. Mas quando
há a hiperinflação, haveria um excesso de papel moeda e uma escassez de
mercadorias, rompendo este equilíbrio tênue. No outro dia vamos ao bar e a
garrafa d’água já custa
R$3,20; no outro R$6,40; no outro R$12,80; no outro nos dirigimos ao bar com
R$25,60, mas não há mais água para vender, nem por todo dinheiro do mundo. O
papel moeda já não realiza trocas pois ela já perdeu a
credibilidade, sua capacidade em traduzir o valor de trocas das mercadorias. O
dinheiro já não mais realiza trocas, ele é apenas papel pintado. O papel moeda
somente realiza seu papel de tradutor universal nas relações de trocas quando
conferimos a ele uma dada crença, a crença em sua indicialização
das mercadorias segundo o valor de troca.
E o que
isto se relaciona com a metáfora das crianças?
Podemos
dizer que todas as nossas trocas são realizadas por uma moeda ainda mais
sofisticada: as palavras. Quando na religião a palavra “Deus”, ou outra
qualquer, é hiperinflacionada, nada mais resta de
Deus a não ser o signo, a palavra, a grafia, as marcas pretas num papel em
branco, um som repetido que não aponta para nada. Nada se troca com o dizer: “Deus”.
Mas
Deus não é moeda de troca!
Certo.
Também minha fé diz que Deus não é moeda de troca. Nisto eu tenho fé. Não há
moeda alguma que leve estampado, ou, esteja representado a face de Deus, como
nas moedas romanas há a de César. No entanto quando digo a você a palavra
“Deus” estarei usando este signo que me significa algo: uma fé, um instrumento
de prosperidade, ou qualquer outra coisa, dependendo de quem sou e de quem você
é. Entre aquele para quem minha fé se dirige e a palavra “Deus” há uma
diferença, uma distância, um abismo, um lugar sem fundo, uma distância a
percorrer. Mesmo quando digo “Deus” para mim mesmo, há uma busca por uma
tradução, impossível. Mesmo que no caso de um solilóquio a impossibilidade se
dê não por hiperinflação, mas por ausência de palavras. No primeiro caso, da
hiperinflação, é a indiferença radical que se instala pela descrença no indicializador, neste, porém a desinflação é a diferença
radical que a ela se achega, sendo suportado por uma fé que está para além do
verbo.
Mas
Deus não é moeda de troca!
Deus
não é, definitivamente, moeda de troca. Entretanto a palavra “Deus” é um signo
que permite alguns de nós trocarmos vivências, experiências, esperanças,
motivações, buscas, fé. A palavra Deus pode significar a providência para o
desejo, ou pode abrir um espaço para a liberdade justa e amorosa. Buscarmos o
encontro desta tradução. É por isso que entre a fé e a palavra haveria um sem-fundo
abissal sagrado ausente, mas que, por não ser esgotável, mobiliza trabalho.
Vivemos
mais de três mil anos de tradição e nela há certa fusão entre Deus e Sua
Palavra. Não é difícil ir às Escrituras e encontrarmos ali que no “princípio
era o Logos, Logos era Deus e o Logos estava com Deus”. Ou seja, você me diz
que a Palavra de Deus não é Ele? E Deus não é a Sua Palavra?
Será
que poderíamos pensar na palavra em quatro relações, ou, maneiras de pensá-la:
a grafia, o som, a escritura e o indizível? Será que ainda existe espaço para
uma fé iconoclastra? Uma experiência de fé em que a grafia
e o som, congelados por uma dicionarização dogmática,
fossem questionadas como ídolos? Será que o Protestantismo que tão firmemente e
violentamente combateu as imagens de santos e de deuses, não seria ele mesmo idólatra,
tendo como ídolo a letra? Mas não creio que devemos enveredar por este caminho,
agora. Voltemos aos signos, às palavras grafadas, ao escrito e ao sonoro. O
signo “Deus” repetido à exaustão, como nos jogos de crianças, hiperinflacionam a escritura até que esta palavra a nada
referencie...
Calma.
Ainda que concorde contigo que não devemos nos perder nestes descaminhos,
fale-me, a fim de sanar minha curiosidade, que níveis seriam estas relações com
a palavra?
A
grafia é a palavra escrita, printada, grafada,
marcada num papel, tinta preta no papel branco, que procura representar
graficamente um som. A grafia pode ser entendida como a palavra por meio de um
aparato material, sua impressão num meio material. Querem alguns que a palavra
escrita represente a palavra sonora, mas, sabemos que o desenho de um “a” em
nada traz o som “a”. A palavra sonora, fônica é aquela que dizemos ao conversar
com alguém, a que ouvimos de alguém, mesmo que este alguém seja nosso próprio
pensamento. O fonema pode ser entendido como a palavra por meio de um meio
material, o som. Sabemos que existem sons que nada nos dizem,
que podemos chamar de ruído, e sons que nos falam, como as palavras. Mas entre
o som e a escrita há uma distância, pois que uma palavra escrita não é,
necessariamente, a representação de um som, assim como um som não é,
necessariamente, a representação de um objeto. Quando temos uma coisa qualquer
diante de nós, algo que chamamos de árvore, uma coisa é aquele objeto da
natureza, outra é o som que associamos arbitrariamente a esta coisa chamando-a
“árvore”, como poderíamos ter arbitrado o som “tree”,
ou “arbor”, outra coisa ainda é arbitrar que aquelas
marcas no papel, aqueles desenhos no papel representam o som de “árvore”.
Aquela coisa na natureza somente é uma árvore quando nós emitimos um som que
tem um sentido próprio na estrutura de nossa fala. A escritura é a palavra
estruturada, é a palavra em seu jogo de linguagem, é a palavra jogada no dizer,
que traz as múltiplas relações de significados. É a palavra para além do
dicionário e da gramática, é aquela que domina a cena do dizer. É pela
escritura que entendemos o que se quer dizer com, “cada macaco no seu galho”. É
a palavra na articulação do querer dizer e do ser dito. Quando alguém diz,
“quero ver o céu”, esta escritura terá sentido distinto se for articulada por
um crente, um astrofísico, ou alguém que está preso numa caverna. Por fim, o
indizível seria, talvez, aquela anarquia que precede,
antecede o dizer, é aquela coisa que não encontrou, ainda, sua escritura. Mas
voltemos, por favor.
Voltaremos.
Mas, antes, diga-me sobre a iconoclastria.
Régis Debray em seu livro “Deus um itinerário” nos fala que os sumérios diziam que a língua falada era divina, mas que a
língua escrita certamente é coisa do homem. Talvez tenhamos que dar um passo
atrás deles e imaginar que no espaço abismal que se encontra entre o indizível
e a escritura habita o Espírito de Deus, como no Gênesis. A relação do humano
com o sagrado, talvez seja a relação do que está apegado à ordem com o que está
fora da ordem, do “arché” com o “anarché”.
O Homem é apegado à materialidade da coisa sensível e, portanto, encontrou na
escritura, e no caso da tradição judeu-cristã, nas Escritas a manifestação de
Deus. Ora, se o que se está dado no escrito é a Palavra de Deus e Deus se confunde
com sua Palavra, a passagem à adoração das Escrituras parece ter sido uma
questão de tempo e não de lógica. O Texto se tornou um ícone, um ídolo feito
pelas mãos humanas mas adorado como Deus. No princípio
era o Logos, mas o Logos não é o Princípio. Antes do Logos houve o Alógico. A iconoclastria é exatamente o repúdio aos ídolos feitos de
barros e madeiras, esta materialidade dos deuses. Talvez devêssemos ter um
pouco mais de fé. Crer que por trás das Escrituras há um sem-fundo anárquico desforme como um indizível. A passagem do Alógico para o
Logos, do anárquico para a ordem, é o próprio movimento pré-escritural que a fé
é remetida. Este vazio e este nada, que nem ouvidos ouvem,
nem olhos vêem, mas está reservado à fé.
Ok. Peço-te que voltemos outro dia a isto. Prossigamos na
questão de repetição à exaustão de um signo até sua desescrituração.
O
fonema (grosso modo, a palavra falada) e o grafema
(grosso modo, a palavra escrita) “Deus” foram repetidos a tal exaustão que a
nada remete. E isto, também, a palavra “Homem”. Assim “Deus” foi tão hiperinflacionado que foi preciso adjetivá-lo. “Deus” foi desescriturado, portanto, Ele deve retornar como “Deus”
adjetivado. “Deus” já não suportava qualquer significado, não acena para nenhum
pensamento vital, assim, acrescentaram-se a esta
palavra adjetivos de operação, de utilidade: Deus é fiel, Deus prospera, Deus
cura, Deus salva, Deus é Pai, etc. Podemos trocar o grafema
“Deus” por “Jeová”, “Yavé”, “Senhor”, “ “, que não fará a mínima diferença. Podemos
trocar este grafema por outro menos sagrado e teremos
algo muito próximo do resultado esperado: a moeda é verdadeira, a moeda prospera, a moeda paga o remédio, a moeda paga as dívidas, a
moeda é o princípio das trocas, etc. A palavra “Deus” não nos traz diferenças a
partir da qual pensemos nem mesmo a nós mesmos. Por outro lado, Deus está na
máquina e Ele é uma parte da maquinaria. “Deus” é posto a funcionar em meio às
relações de causalidade para a obtenção dos desejos de consumo. “Deus” prospera
tanto quanto ganhar na mega-sena, ou receber uma herança inesperada. Pensar a
palavra “Deus” não nos remete a nada a não ser na satisfação de desejos
reprimidos numa sociedade de consumo. “Deus” designificado
por hiperinflação do signo, por repetição, que o saca
das estruturas de significação e o faz flutuar em falso, agora pode ser
reconduzido ao movimento sem que se saia do lugar. “Deus” não apontando para
outro lugar que não seja o movimento em si: “Deus” se move sem sair do lugar,
sem levar o homem a lugar algum.
Então
Deus morreu, como disse o louco! Mas ele não morreu
esfaqueado, antes, morreu trabalhando no dia de descanso. Nós que matamos Deus,
mas o matamos não nas praças, nas ruas, nas academias, mas nas catedrais, nos
templos, nos seminários teológicos, na filosofia da religião. É sempre o sinédrio quem dá o veredicto: culpado! Matamos Deus ao
perguntar sua essência, sua existência, sua substância, sua participação cosmológica,
sua utilidade como motor imóvel, sua produção formal, seu lugar na intelegibilidade cósmica. A metafísica, o conhecimento do
bem e do mal, fruto assassino que nos está entalado, sufocando o homem, matando
o Homem. Nossa máquina lógica torturou Deus para que ele confessasse: Que é o
Ser? O que é a Idéia? Qual o pensamento de Deus? Como do Uno se dá o múltiplo?
O que é a existência, a essência, o real? O que precede: a fé ou o conhecimento?
Qual a hierarquia celeste? O que é o Bem? E o Mal? Idólatras narcisistas, matamos Deus!
O
“Deus” da metafísica parece ter morrido. O “Deus” essencial, sua morte foi
anunciada. O “Deus” que existe morreu mesmo. Mas esta história da morte de Deus
é passado, é coisa resolvida. Temos que pensar na fé,
por meio da fé. Não mais crer por ser absurdo, mas crer por ser impensável, incognoscível.
Mas
haverá fé na terra? Começamos a falar na fé e você me levou à morte de Deus e
do Homem pela hiperinflação da palavra “Deus”. Agora não sei mais em que crer!
Há possibilidade da fé? Se o Homem também está morto, não há nem de onde ter
fé.
Lembro-me
de uma citação que Heidegger faz de Hölderli: “onde
cresce o perigo, cresce também a salvação.”
Hölderlin pode ter dito isto no século XIX de nossa
era, mas os profetas do Velho Testamento já nos falavam, em suas visões
escatológicas, de uma Jerusalém sitiada. Mas em meio ao cerco haveria aquela expectação
de salvação, mais do que isto, uma oferta de salvação.
A
salvação parece sempre nos atrelar a esta imagem escatológica. Parece nos
lembrar sempre que estamos como ovelhas entre lobos. Parece nos lembrar sempre
que estamos expostos ao perigo. Somos sempre trazidos à beira deste abismo que
separa a sanidade da anarquia. Os idólatras fantasiam um armagedom
físico, uma Jerusalém tangível e um anti-Cristo material. Eles jogam o jogo dos
simulacros, dos ícones, dos ídolos, dos fonemas e grafemas,
da escrituração. Mas nós temos que nos colocar nos desafios de nosso tempo, nos
fins de mundo que se chama hoje. Nos fins do homem, na morte dos deuses. Na
nossa própria angústia da fé.
Mas
alguns ouvindo isto te chamarão de liberal, de fazer o discurso da teologia
liberal. Um teólogo que olha para o seu próprio tempo e não para a eternidade,
que discute com os sábios deste mundo.
Desviemo-nos
desta trilha. Não há mais espaço para estas categorias suplantadas. A questão
que se coloca urgente não é a da classificação entre ortodoxia, hetorodoxia e heresia; entre fundamentalismo,
tradicionalismo, liberalismo, etc; entre católicos,
ortodoxos, protestantes e neopentecostais. O que antevejo é a urgência de
desatrelarmos o pensamento de Jesus e de seus primeiros discípulos, do
pensamento pagão que foi incorporado como cristianismo a partir do segundo
século de nossa era. Pensamento que atrela o cristianismo às especulações
transcendentais, dos universais, do Ser. Nem mesmo a segregação entre teísmo, deísmo e ateísmo vale
para alguma coisa atualmente, pois o perigo nos coloca todos como participantes
da espera da salvação. Isto são pesos descartáveis que operam no sentido de
marcar identidade de grupos de interesses. É jogo de poder que marcou a
modernidade, mas que se dissolve em nosso contemporâneo. De fato nosso tempo é
mais marcado por um esforço por manter a tradição anacrônica aquela que se quer
sustentar à força, pelo movimento de des-sentido das
máquinas que giram sem sair do lugar e por um pensamento que busca novas
descrições, novas metáforas, novos sentidos sócio-históricos e à fé. Temos que
questionar o perigo. Talvez ai esteja a sinalização
para a salvação. Temos que pensar na salvação para dialogarmos sobre o perigo.
Salvação
e perigo se intercambiam?
Nem de
longe! Interpenetram-se e imbricam-se como se perfizessem um círculo, como uma
serpente que engole o rabo. Temos que perguntar sobre o “anarché”
do “arché”, o sem-fundo abissal que ordena. O “anarché” como o sem princípio, o sem origem, o sem ordem,
enquanto o “arché” é o princípio, a origem, a ordem
que daí se dá. Do indizível que se faz escritura. Da escritura que traz o
indizível; da ordem que se funda na anarquia. Perguntar sobre o céu e a terra
que provêem do nada; no “bará Elohyim
tselém” (no princípio criaram Deuses a partir do
nada) que se escriturou como “disse Deus”. Mais do que isto, num Espírito de
Deus que paira sobre a face do abismo, aquele que separa o indizível e a
escritura. Não seria Satanás, ou Lúcifer quem estaria naquele abismo, mas o
Espírito de Deus que traduz o sem-fundo abissal do incognoscível em linguagem,
escritura.
Mesmo
que você não queira, isto, factualmente, é papo de teólogo.
Nem de
longe! Teologia é o discurso e a racionalidade sobre Deus, o “logos” de Deus. Teologia
é o discurso e as razões de Deus com a Natureza. A
Teologia envolve as provas da existência de Deus e a partir destas provas
podemos reforçar nossa fé. Eu não creio num “logos” possível sobre Deus. Deus,
pela fé que acato, é o “anarché” do
“arché”, o que está fora do “logos”, para aquém do discurso racional,
não podendo, assim, ser apreendido pela escritura. Ele origina a escritura, Ele
a funda, mas não pode ser dito por ela. Deus não existe e nem tem essência,
portanto, a partir daí não há Teologia possível. Nem mesmo a teologia negativa
pode falar dele. Isto é o que chamo de fé. A fé vem quando não mais podemos ver
e ouvir. A fé vem da espera e não, necessariamente, funda o conhecimento. Para
se ter fé é preciso em estreita medida ser ateu. Face ao perigo esperamos a
salvação que não vemos. O perigo real não é a doença, o desemprego, o pecado,
fumar maconha e ter relações homossexuais. A salvação não é cura, emprego,
santificação, ir ao céu, retornar a Deus, converter-me
em um homem segundo as descrições bíblicas. Salvação é espera no perigo de um
indizível que pode vir ser escriturado, tornar movimento divino entre nós. A
brecha que se abre para o escape de uma cidade sitiada. A cidade como a habitação
do “ethos”. O perigo se avilta na ausência da fé,
quando não se espera a salvação e somos reduzidos a coisas úteis para a
produção que produz sua própria manutenção. O real perigo é o deixar a espera,
a esperança da espera, lançar-se ao fazer, ao ser objeto útil na maquinação da
maquinaria.
Traduza.
Não se
tem fé em esperar o ato providencial de Deus, mas a fé parece estar ali quando
traduz no pensar-se e descrever-se como providência. Jesus não inaugura a fé
por ser providência divina, mas inaugura a fé no homem providencial, o homem
verdadeiro, o eu sou filho. Ele é primogênito entre muitos irmãos. O indizível
da fé nos abre para o fechar dos olhos,
temporariamente, ao maquinal e espantar-se como o movimento atônico da fé. A fé
se dá na espera que distancia-nos da produção de mundo e aproxima-nos da
certeza de outros mundos possíveis, melhores. A fé não é certeza de uma
provisão de bens de consumo, de coisas que nos colocam na lógica da produção
desenfreada das coisas. A fé não é convicção de que Deus nos dará dinheiro,
saúde, restauração de relacionamentos. A fé é a certeza do indizível que se
move no mesmo sentido que sempre se moveu: do céu à
terra, do livre para o encadeado, do espírito livre para o poder sobre o corpo.
O indizível que sempre diz a Faraó: deixe meu povo ir. O indizível é esta
liberação da libertação, da liberdade. A indizível é a justiça que não tem lei,
que motiva a lei. O indizível é a horizontalidade do sagrado. O indizível é o
encontro do Cristo com a mulher adúltera: o silêncio que desfaz o juízo. O
indizível é o nascimento virginal, aquele que homem algum fecundou, mas veio. O
indizível é o ressuscitar da paixão original pelo indizível esperado.
Podemos
dizer que é pela morte do homem, como ser civilizado, ser superior que se aplica
a liberdade de arbítrio, que está no centro da criação para dominá-la, é da
morte deste humanismo que surge a fé num homem providência. Este homem providência
tem fé num Deus indizível cuja tradução mais próxima seria a justiça graciosa
que vem do amor. A fé vem exatamente de onde vem o perigo: da morte. A fé já não
seria a certeza de caminhos a trilhar, de coisas a conquistar e de verdades a
pronunciar, nem mesmo a convicção de realizações, de operações e domínios. A fé
fundaria a mais inquietante mobilidade e fluidez, seria a certeza apenas que o
gemido e a dor do que geme é o sofrimento do filho de Deus renovado. A fé é a
convicção de estarmos no mundo sem sermos do mundo. A fé nos colocaria no
limiar entre a máquina e a vida, ainda que esta distinção seja apenas retórica.
Mas eu
pergunto: depois de tudo, haveria ainda fé?
Tudo o
quê, se tantas coisas ainda estão diante de nós!
Neste
momento o fogo se apagou, o frio retomou seu espaço, do silêncio passamos ao
sono, ao sonho, e quietamente, ficamos ali conversando, olhando as letras,
pensando nas palavras, orando a Deus... A noite continuou sombria.