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Uma palavra para chamar de minha

 

I

 

Pensei escrever algo meu.

Original, visceral, de gesto.

Papel em branco, lápis preto.

Trancafiei-me em quarto.

Cerrei janela, acortinado.

Afastei mundo, meti o breu.

 

Pensei escrever algo eu.

Fechei cadernos e os livros.

Esqueci do rodapé a anotação.

Apaguei a luz em escuridão

Desfiz inimigos e amigos.

Espera que a letra prometeu

 

Quem poderá vagar

Em caminhos virginais

De bárbaros ancestrais

Sem se fazer acompanhar?

 

Quem poderá talhar

Do nada uma vogal,

Dizer pré-ancestral

Como seu rubricar?

 

II

 

Cada palavra escrita em noite

É um repetir do dito

Liberdade de dar-se do Cristo

em Stalin produz no outro em muito

Uma mesma palavra cito

Morrer como necessidade

 

Tantas palavras ditas só

São de jazz num coral

Dissonante, reverberante, plural

A fala representa tal

Todas as vozes deste vau

Ecoam conquanto pó

 

A professora que a mão

Conduziu com tal cuidado

Para nos fazer acompanhado

É presente em multidão

 

Mas se antes da palavra houver

Um não dizer do não dito

Esperar descanso lícito

Sob a árvore me detiver