Elegias às Estrelas Cadentes.
Desde a Antiguidade até a Idade Média o Universo, o Cosmos, era concebido
como que dividido em duas regiões: a supra-lunar e a
sublunar. Conforme podemos perceber, era a Lua quem perfazia a fronteira entre
o que está abaixo e o que está acima, entre o celeste e o terrestre. Mais do
que uma marca espacial, ela marcava diferenças quanto às leis do movimento, o
elemento material e corruptivebilidade. Tudo o que
estava na região supra-lunar era formado de uma única
matéria, o éter, a qual não estava sujeita à corrupção. Os Planetas, o Sol, a
Lua, e as Estrelas fixas eram formadas por éter e percorriam trajetórias
circulares ou compostos de trajetórias circulares, em velocidades uniformes e
não estavam sujeitas à mudança, corrupção. A perfeição deste movimento estava
no fato de que sempre estes Astros perfaziam um movimento, mas retornavam ao
status quo antes, isto é, ao estado que se
encontravam antes de iniciar o movimento.
Tudo o que estava na região sublunar, opostamente, era formado por quatro
elementos, a saber: fogo, ar, água e fogo. Cada elemento tendia, movia-se para
o seu lugar de equilíbrio: o fogo e o ar subiam, a água e a terra desciam. Portanto,
não se moviam em movimento circular e uniforme, mas segundo outros princípios
de movimento. Ademais, estavam sujeitos à corrupção, por exemplo, o movimento
deles gerava envelhecimento e morte. Cada coisa da região sublunar se movia
numa direção diferente daquela que ela tinha no início, ainda que a vida
seguisse um fluxo circular de nascimento, vida, reprodução e morte, em que a
reprodução dava início a um novo ciclo.
Na cosmologia aristotélica, aquela que vai explicar o movimento dos
corpos e organizar o Cosmos de uma dada maneira, havia na parte mais exterior
do Universo finito e esférico um Motor Imóvel que se movia sem alterar seu
estado inicial, sem movimento, que, embora se movesse, não sai do lugar. Assim
ele determina o movimento da esfera das Estrelas Fixas e esta promovesse o
movimento dos Planetas, do Sol, da Lua e das coisas na Terra. A Terra se mantinha
imóvel como centro deste Universo, mas as coisas na Terra se moviam.
Lembremos que as coisas na Terra não se moviam em movimento circular e
uniforme, como as Estrelas, Planetas, o Sol e a Lua, mas o movimento era para o
seu lugar de equilíbrio. O movimento, na Terra, não era apenas o deslocamento
de um ponto A para um ponto B, tal qual aprendemos na física newtoniana, mas movimento
para Aristóteles era a mudança de um estado inicial para outro estado, tal qual
o nascimento, a reprodução, o crescimento, o encolhimento, a morte, a mudança
de estado de líquido para gasoso, etc. A questão é que as coisas se moviam na
Terra porque eram movidas e eram movidas porque eram animadas. Para Aristóteles
tudo o que é, é segundo o conceito do hilemorfismo,
isto é, um composto de matéria e forma, um composto indissociável de matéria e
forma, não havendo forma sem a matéria e a matéria sem forma é matéria bruta,
sem alma. A matéria, como dito anteriormente, compunha-se nos quatro elementos,
mas a forma era determinada pela alma. Assim, por exemplo, um composto de
matéria e forma se apresentava como ser humano, que os medievais dirão mais
tarde ser um animal racional, isto é, seu gênero é animal e sua forma é
racional. Toda matéria com uma dada forma tendia para seu lugar de equilíbrio,
então, uma semente tendia para uma árvore, tanto quanto um bebê tendia para um
ser adulto.
O que nos cabe retornar e salientar é que as Estrelas, Planetas, o Sol e
a Lua que estavam na região supra-lunar são incorruptíveis,
imutáveis, eternos e se moviam de tal maneira a representar o movimento do
Motor Imóvel, isto é, em movimento circular e uniforme, um movimento que faz
retornar ao estado inicial, um eterno retorno do igual. O Motor Imóvel para os
Medievais podia ser entendido como Deus, aquele que movia as coisas sem ser
movido por nada, ainda mais, não saia do mesmo lugar. Aqueles seres, que
estando mais próximos do Motor Imóvel, tinham uma presença maior do Ser e,
portanto, representam mais amiúde a perfeição divina. Havia, no entanto, um
dado estranho nesta cosmologia, pois enquanto a Lua determinava a fronteira entre
a região supra-lunar e a sublunar, era o homem quem
estava na fronteira entre os seres racionais e os irracionais. Por isso, para
alguns, o homem seria pura indeterminação, pois somente este poderia decidir
entre o ser e o não-ser, entre a divindade e a animalidade, fazer inclinar sua
vontade para o ser ou para o não-ser.
Ora, os seres, nesta cosmologia, estavam organizados hierarquicamente
segundo sua “distância” do Motor Imóvel, como ressaltado, quanto mais próximo à
esfera mais exterior do Universo, mais Ser era ali presente no ente. As
estrelas representavam esta presença máxima do Ser num ente. Podemos perceber em São Tomás
de Aquino certa confusão, certa fusão entre as Estrelas e os Anjos. As
Estrelas, os Planetas, o Sol e a Lua são os primeiros seres desta hierarquia
celeste, como os Anjos o são na hierarquia celeste. Esta hierarquia segundo a
presença do Ser na existência é chamada de Grande Cadeia do Ser. A Grande
Cadeia do Ser inicia-se com o Ser absoluto e irradia-se pelas Estrelas, os
Planetas, o Sol, a Lua, o homem, os animais, os vegetais, os minerais e os
quatro elementos, até chegar no absoluto não-ser da
matéria primordial.
A Astrologia, fortemente combatida por Santo Agostinho, partia desta
premissa da divinização dos Astros. Também no Renascimento a Magia tomava os
Astros como semi-divindades, seres que, por sua posição
na região supra-lunar, tinham poderes mágicos sobre a região sublunar, segundo
o movimento que eles moviam as regiões mais interiores do Cosmos. Mas, Ticho Brahe, observador da região
supra-lunar e que hoje chamaríamos de astrônomo, observou por volta de 1572 a
explosão de uma estrela, rompendo, assim, a crença na imutabilidade do céu. Copérnico
já havia, em 1543, publica sua obra “Da Revolução das Esferas Celestes”,
retirando a Terra do centro do Universo e colocando em seu lugar o Sol. O heliocentrismo de Copérnico não é original, pois Aristarco
de Samos em 270 a.C. já havia apresentado argumentos contra
o modelo geocêntrico.
O fato é que Copérnico põe em dúvida uma Cosmologia que integra ciência e
religião num mesmo corpo de argumentos. O modelo de Copérnico apresentava
muitos problemas, sendo severamente combatido. Sua aceitação, assim, não se dá
de imediato, mas devem-se passar dezenas de anos para ser mais correntemente
aceito. É com Galileu que não só o heliocentrismo
ganha corpo, como se inicia o fim da idéia de um Cosmos com duas regiões. Por
meio do uso de telescópios, Galileu observa não apenas a existência de luas de
Saturno, como o relevo da superfície da Lua, quanto manchas no Sol. Galileu
propõe que as leis que regem os corpos celestes são as mesmas leis que regem o
movimento na Terra. Além de extinguir a fronteira que separava tais regiões,
determinando uma universalidade das leis, ele propõe a matematização
da natureza. O Universo é um grande livro aberto escrito pela linguagem
matemática e quem deseja compreendê-lo deve falar tal língua. Assim, no momento
em que ele universaliza o Cosmos e propõe seu conhecimento pela matemática, ele
fende a vida propondo que uma é a linguagem da ciência e outra é a da Teologia.
Este golpe põe abaixo todo um Cosmos estável que reunia numa mesma linguagem
todos os saberes. De fato não havia saberes, mas o saber cujo lugar central de
qual emanava todo o conhecimento era a Teologia.
Desta breve introdução podemos destacar pelo menos três agravantes do
discurso religioso contemporâneo, aquele que se mantém em meio a esta querela
entre fé e ciência: primeiro, a hierarquia e segregação de regiões de ser e
existência; segundo, a desconsideração com peso que os Astros tiveram numa
linguagem apocalíptica; terceiro, o debate sobre a linguagem: natureza e sobre-natureza, especialidade e universalidade,
racionalidade e fé, finitude e infinitude.
Sobre a primeira ênfase do discurso religioso contemporâneo, podemos
dizer que se torna possível perceber que tal discurso religioso, de diversos matizes,
mantém este ranço cosmológico medieval fundado na segregação de regiões. Acima
está a região da imutabilidade, da incorruptibilidade, da veracidade, da
certeza, da presença crescente do Ser. Abaixo há uma região que se move de
maneira diferente, uma região em que os corpos sujeitos à mudança, à corrupção,
às transformações. Acima Deus, o céu, a incorruptibilidade, o eterno, o espírito,
o espiritual, abaixo as trevas, a Terra, a corrupção, o perecível, o transitório,
o carnal, a carnalidade. Assim como há este
macrocosmos segregado, também o microcosmo está segregado em uma dupla
dimensão.
A primeira dimensão segrega o sacerdotal do leigo. A segunda dimensão
segrega o homem sagrado do homem profano. O sacerdote como aquele cujo espírito
se apega e tem mais presente o Espírito de Deus, enquanto o leigo é o ignorante
que não ascendeu a tão alta esfera da relação com o divino. O leigo não
contemplou a Deus em seu absoluto Ser e não pode ouvir diretamente as palavras
sagradas. O sacerdote como um Moisés que pode subir ao monte e descer dali com
as tábuas da Lei. Há o corpo sacerdotal neo-levítico
e há o povo que pertence a Deus, como um Israel espiritual, mas que não ouve a
voz de Deus diretamente.
Também o sagrado pode ser entendido como o que tendo crido em Deus e se
volta para ele, e o profano, o que dispõe sua vontade no sentido do não-ser. Na
mesma metáfora, assim como há o Israel de Deus, há os ímpios habitantes de Canaã:
os amorreus, os jebuzeus, os
filisteus, etc. O discurso teológico segrega a salvação, o sacerdócio, e a
amizade segundo esta disposição na ordem cósmica divinamente instituída antes
da criação do mundo, isto é, por predestinação.
A segunda ênfase nos coloca em meio à exegese bíblica escatológica por
excelência. Os empiristas cristãos, ou seja, os fundamentalistas e literalistas iconolastras da
Palavra, aqueles cuja fé é suportada por fatos dados aos sentidos, nos dizem
que nos últimos dias as Estrelas cairão dos céus, baseados em textos coletados
arbitrariamente, tal qual este que segue: “Logo depois da tribulação daqueles
dias, escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e
os poderes dos céus serão abalados.” (Mateus XXIV, 29) Dizem ser esta uma
alusão ou a um fenômeno astrológico em que meteoros ou meteoritos serão
precipitados à Terra, causando danos e desolação, ou a
instrumentos bélicos indisponíveis no passado mas que fariam sentido hoje, como
aviões, mísseis, etc.
Por outro lado, caso entendamos que as Estrelas, o Sol e a Lua seriam
astros representantes da grandeza do Ser, a presença mais acentuada do Ser nos
entes e que poderiam estar apontando para as divindades celestes, então sua
precipitação na Terra pode nos indicar um fim desta ordem sagrada que tem seus
representantes no clero, no sacerdócio exclusivo, nos poderes de intermediação
do sagrado, nas mediações. Caso tomarmos como foco a predição da queda de
Jerusalém no ano 70 d.C. e a grande tribulação que ali se viu, com o fim do
Templo e do Sacrifício, então o escurecimento do Sol (Sumo Sacerdote), a Lua (Sinédrio) sem brilho e da queda das estrelas (Sacerdócio),
seria de se ver o fim de uma ordem obsoleta. Caso retomemos os sentidos
arcaicos, originais dados pelos antigos aos astros, então poderemos perceber
que não estavam falando de seres supra-naturais, mas
ordens cosmológicas representadas pelos astros mas que falam do poder terreno. Mais
amiúde, os poderes de um clero sacerdotal.
Ainda dentro deste segundo momento o qual nos mantemos próximos, podemos
pensar na própria figura demonológica do Lúcifer. A Estrela da Manhã, cuja
tradução do hebraico para o Latim resultou na ficção lucefiriana,
no Lúcifer útil a uma teologia para a explicação do Mal. A metáfora utilizada
por Isaias para descrever a figura do Rei da babilônia, homem prepotente e
soberbo, que por meio da arrogância e do poder quis se igualar a Deus, foi a de
um Astro, de uma Estrela da Manhã. Aquele Planeta que brilha ainda na noite,
mas anuncia a chegada do Sol, não tem o sentido o sentido de um anjo, mas
aponta para um homem.
A linguagem anacrônica da teologia desenraiza totalmente o sentido das
palavras do profeta Isaias a fim de lançar um texto absolutamente no vácuo e
vazio de sua própria de uma ausência histórica. Anacronismo que toma uma
profecia historicamente referenciada e a recoloca numa teologia sedutora, mas
completamente comprometida com a proteção de seus axiomas frágeis e
imaginativos. Ou seja, aquele profeta que diante do tirano rei da Babilônia
escreve contra ele dizendo que a sua arrogância e presunção o colocava na posição
de pleitear a grandeza e glória de Deus. Aquele Deus que o profeta anteriormente
descreveu como o que está envolto por cânticos angelicais de Glória, Glória, Glória.
Agora é o rei quem reivindica tal glória divina. A fábula teológica construída
apenas para servir de escora para um edifício mal projetado, deveria tornar
rubro o rosto de homens inteligentes e estudados. Mas estes mesmos preferem a
segurança da ficção a uma busca por novas estruturas de fé. É a impossibilidade
latente de ver o Astro como metáfora do homem arrogante e presunçoso que
pleiteia uma impostura de ser como Deus e não uma metáfora de uma produção
literária que serve apenas para sustentar um edifício teológico.
A metáfora da estrela da manhã é a mesma imagem de Apocalipse quando
Jesus, o homem, o descendente de Davi diz: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para
vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a
raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.” (Apocalipse
XXII, 16) A mesma estrela da manhã, o mesmo lúcifer, o mesmo homem que
resplandece. Os Astros representam homens que brilham em glória, quer a dos
reis da Babilônia e dos Sacerdotes (produtores de sofismas teológicos à custa
da hierarquia e da áurea de conhecer Deus), quer a de Deus em Cristo Jesus.
Por fim, a cosmologia medieval que não deu conta do corte promovido pela
ciência, ainda não encontrou seu lugar. A harmonia promovida por Agostinho
entre fé e ciência foi rompida (rompimento este que tem em Lutero um algoz
impiedoso) e determinou o entrincheiramento da linguagem. A fé passou a
significar superstição arracional e a ciência
tornou-se sinônimo de ateísmo. Os defensores da fé procuram, em meio ao
discurso científico, encontrar uma neo-cosmologia, suportada por uma demiurgo
que projetou antes dos tempos algo inteligente. Os protagonistas da ciência
atacam, em muitas vezes, com discursos inflamados, fundamentados nas retóricas
religiosas, contudo apenas cambiando a palavra Deus por Ciência, clero por
cientistas, dogmas por provas empíricas, Bíblia por referências verdadeiras,
Templo por laboratórios, fé por saber certo, etc. Todo o edifício é dogmático,
ortodoxo, excludente, fundamentalista. Nenhum dos lados olha para os textos e
percebe que são palavras e como tais não têm o poder e recursos para aprisionar
a vida, a existência, a manifestação de coisas que não se explicam. O sublime
do indizível, do inexprimível, do inapreensível que nos arrebata e nos lança ao
chão como se fossemos algozes a caminho de Damasco, nos esgotam e nos proíbe de
positivar com símbolos e signos.
A ciência tem a sua dinâmica própria, seus embates e processos que tomam
uma teoria por refutável, falseável e o irrefutável é descartado como não científico. A religião, que em tantos
anos foi a expressão da Verdade, teve em Lutero o
grande questionador desta ordem tendo aberto a fenda, a ferida, para a inquirição
da veracidade da interpretação do edifício cosmológico. A fé, afora deste
espaço de refutações, que pouco tem a haver com religião e ciência, perfaz um
outro percurso. Em não poucos sentidos, a crença, a fé está presente em todos
os atos de fala. A fala requer fé, crença na comunicabilidade, na
expressividade, na tradutibilidade, na aceitação, no
envio. As matemáticas exigem fé nos axiomas e postulados, sem os quais o edifício
ruiria.
Devemos atentar, conclusivamente, que a cosmologia grega que séculos
serviu de estrutura para a teologia, ao ajustar a linguagem teológica com a
científica num só discurso, ruiu pela força de sua dinâmica interna que pariu
uma ciência autônoma. Contudo a teologia que se ancorava e tomava nos discursos
dos gregos uma lógica até então irrefutável, se viu ameaçada. A ameaça está em
que a linguagem teológica é filosoficamente grega, mas
redescrita, retraduzida, reelaborada segundo algumas exigências próprias do
pensamento e fé cristã. A ameaça está em que a
filosofia grega antiga, a de Platão e Aristóteles, no que tange não a seus métodos
e propósitos, mas as suas teses e axiomas, ruiu. Ruiu por auto-questionamento.
A filosofia, como a ciência, questiona-se a si mesma, pois é próprio de suas
proposições e métodos. Aristóteles certa vez disse: amo a Platão, mas amo mais
a verdade. Esta busca por um dizer mais verdadeiro trouxe exigências novas ao
pensar filosófico. Mas a teologia é filosoficamente ancorada e como tal ao ver
ruir as estruturas, vê, também ruir o edifício, mas não
seu fundamento.
Há de se ter fé quando as estrelas são precipitadas ao chão. Há de se ter
esperança quando a teologia é desafiada e perde sua estrutura formal. Há de se
amar quando o clero perde seu emprego e função na elaboração da vida cristã. Há
de se ter graça quando as Igrejas (instituições) perdem seu sentido sócio-histórico
de espaço de vivência de fé e a igreja reclama por comunhão. Há de se ter fé,
esperança e amor numa noite austral sem estrelas para guiar no caminho.