Deixai as gentes e parta a um lugar que te mostrarei
Na
antiguidade e até mesmo na antiguidade tardia, e estamos falando do ano 300
d.C. para trás, cada homem, mulher, criança, estava intimamente ligada a um
povo. Ser alguém era ser em um povo, pertencer a um povo. Um
indivíduo, como conhecemos hoje, não existia naquele tempo. Um indivíduo, como conhecemos hoje, cosmopolita, que tenha nascido
na Nova Zelândia, com pai japonês e mãe russa, tendo sido criado no Canadá,
cursado faculdade na França, pós-graduado na Inglaterra, tendo casado com uma
Italiana e vive no Egito como arqueólogo, isto não existia naquela época. Apenas
se era alguém se se pertencesse a uma gente. Estamos
falando de outro mundo e outras maneiras de representar o homem.
A idéia
de individualidade tem seus rastros no pensamento de Paulo e toma vulto em
Lutero quando relembra que “o justo viverá da fé” e se aprofunda com os
pensadores políticos como Hobbes. Um indivíduo com identidade marcada por seu
corpo, sua biografia e valores pessoais, não existia. Um indivíduo tinha sua
identidade atrelada a uma Cidade, a uma herança histórico-genética e pela
religião de seus antepassados.
Um
homem sem um povo era um homem estrangeiro sempre, em qualquer lugar, contudo
um estrangeiro sem referências, sem paternidade. A palavra “estrangeiro”
nos é muito leve para reapresentar o problema daquele indivíduo sem pátria. Pois
tal estrangeiro, ou bárbaro, era radicalmente outro, o homem solto sem referências.
A palavra pátria vem de pai, assim como a palavra gente, genealogia, gênesis,
todas vêm de gen, origem.
Um
indivíduo para ser alguém naquele mundo deveria declarar de que gente ele era. O
evangelista Mateus nos fornece uma pista valiosa para aquele tempo. Assim é que
encontramos já nas primeiras palavras daquele evangelho um apontamento de que
Jesus é filho de Abraão, Davi de e José, assim como de todos os demais da
linhagem. O evangelista Lucas vai mais aquém e inclui nesta genealogia os
predecessores desde Adão, incluindo Jesus na raça humana. Aquela genealogia,
que nos parece enfadonha, marca o pertencimento de Jesus a uma gente específica,
a dos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó.
Para aqueles
povos do mediterrâneo e até o Eufrates, pelo menos, a gentilidade
era constituída por alguns elementos. Pertencer a um povo era ter um
descendente comum (no caso dos Israelitas era ter por pai a Abraão), ter uma língua
comum (neste caso o hebraico, a língua que Deus ensinou Adão a falar e foi
preservada pelos descendentes de Abraão), ter um lugar físico para morar (a
Palestina, ou Canaã), ter um Deus comum ou deuses comuns a todos (os Israelitas
em particular eram monólatras, adoravam a um Deus,
dentre os deuses das gentes vizinhas) e ter algum tipo de ordem política comum
(o Torá e outros escritos históricos, proféticos,
sapienciais e poéticos perfaziam este conjunto de leis e regras morais e políticas).
A ordem política e a ordem religiosa, com seus templos, sacerdotes, ritos e
sacrifícios, estavam imbricados um no outro, eram indissociáveis. Este conjunto
de elementos constituintes estava presente nas diversas gentes, com maior ou
menor aderência: Israel, Grécia, Roma, Egito, Filistia,
Persa, Medas, etc.
Assim
podemos dizer que as gentes, ou, os gentios, eram os povos constituídos pela
hereditariedade, uma única língua, um território, um conjunto de normas e uma
religião comum a todos deste povo. As gentes mais poderosas dominavam aqueles
menos poderosos e quando estes dominados se miscigenavam,
aderiam aos deuses, à língua, aos costumes e às leis dos dominadores, e eram
espalhados por outras terras, deixavam de ser uma gente específica,
desapareciam. Assim é que, segundo o relato bíblico, as dez tribos do norte, de
Israel, deixaram de ser um povo e perderam a identidade, sendo absorvido por
outros povos: gregos, romanos, etc.
Um
homem sem uma gente, sem uma pátria, ou seja, alguém que fosse banido de sua
cidade ou que deliberadamente deixou-a, era um homem sem lei, sem proteção,
passível de ser morto por qualquer um. No Velho Testamento podemos ler sobre
cidades refúgios para os estrangeiros e para aqueles que sofreram banimento por
sua gente. Havia em Israel uma tradição de hospitalidade. Um homem fora destes
lugares poderia ser morto, mas nestes refúgios estavam protegidos. Na
antiguidade um homem sem pátria, sem uma referência a uma gente, em terra
alheia poderia ser morto sem que isto significasse qualquer transgressão à lei
local ou de hospitalidade. Era um homem sem lei. Alguém abandonado, deixado ao
bando, ao desamparo e desprotegido.
Davi,
quando deixa Israel por conta da perseguição infringida por Saul, passa a viver
na terra dos filisteus, no espaço geográfico de uma gente diferente da sua. Ali
naquele lugar o futuro rei de Israel estava passível de morte pelas mãos
daquela gente, assim como pelas mãos da sua própria gente. Deixar de pertencer
a uma gente é estar em estado de exceção, estar para fora da lei que regula e
protege os indivíduos de um povo. O que desejamos salientar é que um indivíduo
estrangeiro e que não pertence a uma gente específica, está à mercê dos cidadãos
da cidade em que ele se encontrava. O relato de Sodoma e Gomorra,
segundo o Gênesis, nos dá uma amostra da animosidade de uma cidade contra os
estrangeiros sem pátria. O estrangeiro sem pátria está numa posição de ser
morto, ele é “matável”, sem que isso implique numa
ilegalidade por parte do algoz. Ele é um fora-da-lei, um abandonado.
Mas não
paremos por ai, antes, confrontemos este panorama plausível da gentilidade e da estrangeridade com
as palavras de Jesus:
Não penseis que vim
trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.
Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe,
e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os da sua própria
casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama
o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua
cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. (Mateus X, 34 a 38)
Tomando
a perspectiva acima privilegiada, é plausível pensarmos que Jesus, embora sendo
Judeu e cumpridor das leis, segundo aquilo que ele mesmo entendia por “cumprir
a lei”, percebia, cria que sua pregação e obra
implicava em, não apenas em sua morte, mas na des-patriação
de seus amigos. Tomemos a cruz segundo dois agravantes: primeiro que o Ungido põe
fim ao sacrifício, segundo que Jesus traz uma mensagem fortemente implicada com
a extensão universal do amor de Deus: ide por todo o mundo e fazei discípulos.
A
injustiça da crucificação é o lugar da justiça de Deus. A vitória da cruz é a
vitória do fim dos sacrifícios. Jesus toma a cruz e diz: quando eles me matarem
(eles quem? As gentes, todo mundo que tem no herói fundador, na língua, na
terra, nos deuses, na lei sua concepção de existência; assim, todos são, por abstração, uma só maneira de pensar), pensando
terem me vencido, eu os vencerei, pois desfarei o mundo antigo e a crença gentílica.
Isto é, se o grão de trigo não morrer ele fica só, mas se morrer dará muito
fruto.
A
injustiça da crucificação se dá a partir da morte de um israelita, filho de
Abraão, cumpridor da lei, dos ritos e morador da palestina. A lei que dizia “não
matarás”, promoveu a morte de um homem justo,
tornando, ela mesma, injusta e, assim, passível de morte. O sacrifício injusto
de um justo põe fim à injustiça do sacrifício. Este homem, filho de Abraão,
cumpridor da lei dos judeus e romanos, é abandonado pelas gentes que o deveriam
proteger e posto fora do muro, assim é morto injustamente. Este cenário nos
permite perceber que a injustiça traz sobre ela a justiça, isto é, o fim do
sacrifício.
Mas
Jesus vai mais longe e diz: quem quer justiça deixe a casa de seu pai e sua mãe,
deixe esta ordem fundada no sacrifício, na religião, na gentilidade,
sabendo que as gentes o perseguirão e que carregará,
como eu, a cruz da injustiça sacrificial, cuja lei
dos sacrifícios que já foi abolida por mim. Ao auto-des-patriar-se
por meio da fé (como dirá mais tarde Paulo, lembrando Habacuque)
o indivíduo deixa as gentes, isto é, a herança, a língua, a terra, a lei, a
religião. Ao deixar sua gente ele está abandonado, e, portanto, passível de ser
morto pelo pai, mãe, esposa, irmão, filho, etc. Não há lei que proíba ou iniba
a morte de um homem de bando. Ele é um ninguém que vive fora da ordem legal,
fora da lei, ele é um fora-da-lei. Seguir a Jesus é colocar-se para fora da
fronteira da ordem tradicional que funda a cidade e caminhar em certo lugar de
desordem.
Seguir
a Jesus, ser seu discípulo, menos era seguir um conjunto de códigos morais e
mais era colocar-se fora da lei, da religião, da herança, da terra e da língua
paterna. Seguir a Jesus era ter em seu pescoço a espada e não a paz, pois suas
palavras implicavam numa ruptura com a tradição da gente. Um homem conseguiu
perceber nestas palavras uma implicação histórica: Paulo.
No
livro de Atos dos Apóstolos encontramos o relato de uma ecclésia,
de uma assembléia na qual discutiam a salvação daqueles que não pertenciam a gentilidade judia e estavam no abandono da gentilidade tradicional. De um lado Tiago defendia que todo
aquele que se tornasse cristão deveria circuncidar-se, ou seja, submeter-se à
lei e aos profetas, o que significava, na prática, adotar a pátria dos filhos
de Israel, se tornar gente de Israel. De outro lado Paulo defendia a graça, ou
seja, a liberação da circuncisão, isto é, um despertencimento
radical de toda gentilidade. O que estava em jogo era a gravidade e extensão da salvação.
Paulo
está a defender que o sacrifício de Jesus põe abaixo toda ordem gentílica, a
gente dos Judeus e a dos demais povos. Paulo nos diz que o sacrifício põe fim à
ordem religiosa, e esta ao estar imbricada com a ordem legal promove o ruir da
ordem política tradicional, ou seja, a totalidade da ordem sócio-político-religiosa.
Paulo é um homem de trânsito, em dois sentidos: um enviado que percorre as regiões
do planeta pregando a liberdade de Cristo e um homem que transita da ordem fariseu-judaica para uma ordem onde não há homem ou mulher,
judeu ou grego, livre ou escravo, todos são um em Cristo. Paulo abandona
seu farisaísmo, dizendo em sua carta aos de Filipos
que isto é estrume de cão, assim como deixa a língua paterna e escreve em grego
às ecclésias. Todas as fundações da cidade antiga são
desfeitas no interior da ecclésia cristã. A fé dos
cristãos preconiza a implosão do edifício da cidade antiga assim como, ou, mais
ainda as suas fundações. Os primeiros amigos de Jesus são chamados de ateus e
desordeiros da ordem pública, e não sem razão.
A nova
ordem democrática eclesiástica proclamada por Paulo deve re-escrever as bases
dos relacionamentos, da moral, tendo como premissa que todas as coisas são lícitas,
ainda que nem todas convenham. A licitude é fornecida pela liberdade frente à
lei obsoleta por estar fundada no sacrifício. A moral deve ser rescrita sob a
égide do amor e da graça, e não mais sobre o fundamento da religião
tradicional.
Somam-se
a isto outras características desta nova fé: a ausência do domínio geográfico,
das fronteiras físicas, sabendo que a ecclésia não
tinha espaço geográfico fechado, mas é um reino onde e quando se reúnem dois ou
três; não tinha um ancestral que lhes conferisse uma genética comum, mas todos
são herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; não havia uma língua que fosse
o suporte à Palavra de Deus, mas nos cultos se falavam muitas línguas, conforme
lemos na carta de Paulo aos de Corinto; não havia ritos, datas comemorativas, ou
alimentos sagrados, segundo podemos perceber na carta de Paulo aos de Colossos,
e nem mesmo sacrifícios como escreve o autor da epístola aos Hebreus; não havia
templos, pois os que criam se criam como templo do Espírito e Deus habitava
ali; não havia uma lei prévia, fundada numa tradição ou em escritos sagrados,
pois ainda que um dia isto tenha sido dito aos antigos, agora a igreja devia
fugir da idolatria da lei e apegar-se à graça do amor mútuo.
Enfim,
a ecclésia não era um conformar-se com este mundo, a
ordem tradicional fundada no sacrifício e na confusão de estado e religião, mas
num viver em que o nome de Jesus, o Ungido de Deus, o Cristo desse sentido. Os
discípulos de Jesus, os carregadores de cruzes, mais estavam interessados em
uma ordem justa, amorosa, graciosa, esperançosa e festiva da presença do outro,
do que com modelos prescritivos de boa moral e conduta social. A sociedade para
eles, conforme ela se apresentava fundada em estreita relação entre religião e
poder político, era o mais terrível representante do Império das Trevas, das
forças espirituais do mal. A ecclésia oriunda e sob o
campo de influência de Paulo, menos estava preocupada em determinar os limites
da sexualidade humana e mais em configurar relações onde o poder de uns sobre o
corpo de outros fosse abolido. Este ato de apoderar-se do outro exigindo deste
o sacrifício de sua liberdade é o que Paulo veementemente se opõe.
Passados
os séculos a ecclésia se transforma em Igreja Universal,
e mais tarde gera um filho bastardo chamado Reforma Protestante e um neto
bastardo que chamamos Neopentecostalismo. A Igreja, e seus múltiplos filhos e
netos, retomou o sacrifício como mandamento de Deus. Os sacrifícios,
entretanto, foram redescritos não mais como verter
sangue de animais e de humanos, mas determinação de obediência estrita a uma
hierarquia organizacional e a um conjunto de dogmas e a uma ortodoxia. O sacrifício
exigiu a re-introdução de um corpo sacerdotal e a construção de templos. Adotou-se
uma língua, o Latim, que mais tarde foi substituída pela linguagem teológica,
aquela que pode discernir as revelações de Deus e impor a leitura correta aos
textos canônicos. A paternidade foi re-elaborada como tradição apostólica na
Grande Igreja e nos seus rebentos chama-se rol de membros ou unção. Enfim,
Satanás, aquele que impede o livre mover dos homens em direção de uma terra de
justiça, paz e alegria, promoveu um golpe de Estado e governa astutamente como
se fosse um anjo de luz.
Texto
baseado em leituras de Fustel de Coulanges,
A Cidade Antiga e Giorgio Agamben, Homo Sacer, e nas Igrejas Contemporâneas que conheço.