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Pai, estou com frio

Corro ao túmulo e ele está vazio, pois seu corpo não está ali. Nem mesmo sei se aquele lugar é o lugar em que seu corpo jazeu, mas para lá corri. Corri para onde? Antes da resposta me ser dada, a lembrança me alcança: não te lembras que ele mesmo disse que seria entrega à morte pelas mãos de pecadores? Quem são estes tais de pecadores? Que pecado cometeram? Que é pecado? Este parece ser, exatamente, o túmulo: o espaço vazio de respostas racionais, lógicas, que se fazem sentido pelos sentidos. O que morreu foi o organismo de onde todas as respostas emanam, o espaço de respostas prontas desde sempre produzidas pelos pecadores. O corpo do morto não está ali e a mensagem quer dizer isto: se não há corpo não há túmulo, tudo está vazio. O túmulo como o vazio de onde alguns correm e para onde alguns chegam atônitos, inquietos, procurando, interrogando. Mas vem a voz, que quer preencher o vazio, do representante do Sinédrio que diz: a dúvida não faz parte da fé, a certeza e a convicção sim. Não pergunte, mas creia! A fé se positiva como a sólida certeza e convicção. A fé é afirmativa, conclusiva, determinante. A fé não vacila, não para em frente ao vazio e espanta-se. Ela preenche, define, aponta, é resposta sempre presente.

Aqueles apaixonados por querelas e que arrogam a verdade, soberbos do verdadeiro, quando a verdade faz fundo e sombra sobre as disputas, estes congregados do Sinédrio dizem o discurso correto, verdadeiro. Discutem os dízimos da hortelã como se fossem filigranas que tecem a roupa de um rei. Cada tênue linha perfaz o todo do tecido. Mas este rei vestia roupas dos homens comuns, não se importa com fios de ouro. Antes, este rei está nu! O rei antes do vazio do túmulo e quando dali sai, é nu. É um rei nu de um reino vazio. Mas os congregados no Sinédrio apresentam a si mesmo como se fora o próprio Espírito e proclamam a verdade do “assim diz o Senhor”, do “assim está escrito”. Deus e a grafia se confundem, pelas palavras do Sinédrio, numa grafolatria universal. O tecido que cobre o vazio do Santo Lugar não pode ser rasgado, nunca. Sua fenda é costurada, re-costurada, para que Deus não deixe o lugar misterioso e não se misture às gentes, falando todas as línguas, como num novo pós-Babel, num Pentecostes contemporâneo e desnormatizado. Os novos tecidos postos sobre os rasgos e fendas deste tecido antigo, faz aumentar o estrago, e isto é o temor que os cobre. Assim suas vozes antigas são ditas em nova-língua. Os longos entreveros sobre os apocalipses, sobre a natureza da Igreja, sobre a trindade, sobre a vida eterna, sobre o que vem depois da morte nos distanciam da vida, embora entretenha os disputantes. Vestes tão bem elaboradas, roupas fabricadas com fios entrelaçados com tanta destreza.

Aquele homem cujo corpo não encontrei no buraco feito na rocha, selada com rocha, suou sangue quando confrontou com a perda da vida. A vida lhe era preciosa e pedia ao Pai que não a tirasse. O cálice da perda da vida lhe era amargo. Aquele homem solitário disse aos que garantem a ordem pacífica pela aplicação da lei: vocês não atentam, não tratam com cuidado o cerne da lei, a saber, a justiça, o colocar o coração na miséria alheia e a fé, coisas que concernem à vida. Eles lhes deram o texto da lei, o rito, o sacrifício, a morte.

Neste momento o Imperium lhes disse: não vejo mal algum neste Homo Sacer, seus delitos então fora de meu corpo cívico, da minha legislação, então, quem o matar não comete injúria contra a ordem instituída: lavo minhas mãos, pois este não é um assunto imperativo, mas religioso. Aqueles que costumam saber da Lei, das corretas interpretações das Escrituras, que reconhecem e atestam a Verdade, que podem dizer: assim está escrito, não matarás, disseram: este animal blasfemo é digno de morte ritual, este azazel é perfeito para o sacrifício. Confundiram os animais para fazer fundir a sentença. Os poderes se reconciliaram por meio da imolação: o rei, o clero e o império cantam em uníssono. A reconciliação do poder apaziguou o povo. O sacrifício apazigua e faz reordenar os contrários que digladiavam. A paz ordeira vem da morte sacrificial: joga pedra na Geni, ela é boa de cuspir.

O fora-da-lei, mas que é perfeito, mais que perfeito para a ordem sacrificial, é pronto para trazer a paz. É perfeito porque é fora-da-lei, e fora-da-lei que é perfeito. Seus amigos o deixaram e ele foi só. A solidão esvazia o caminho que se tem de trilhar. Enquanto o poder congrega pela força gravitacional que exerce sobre os indivíduos ávidos de pertencimento e sentido, a solidão é o lugar vazio que de longe permite vislumbrar a harmonia estrelar, sem se desejar reluzir com ela. O sacerdócio adora o poder, pois o poder os congrega e lhes dá a voz, como a de Deus para conformar cada fora-da-lei em sacrifício santo, puro e agradável.

Enquanto o céu escurecia e a terra rasgava em fendas, este animal sem pudor mostrava seu corpo nu. Plenamente desnudado e sem recato. Sem vergonha e sobre o alto de um monte, suas indecências todas ao olhar, como o do poder. Festa sagrada de sacrifício e o desnudado sem-vergonha como protagonista. Desde o Éden até o Gólgota toda nudez posta diante dos olhos do poder será castigada com a morte. Esta, porém, em especial dará cabo ao sacrifício. Morte original e derradeira que acaba o sacrifício sangrento. Nenhum animal verterá sangue em prol do homem nu, para velar a nudez do homem envergonhado. Antes, o homem nu desfará o sacrifício por completo, desnudando toda a lei e a religião. A religião agoniza enquanto seu irmão mais poderoso ainda não sabe de sua falência intestina, de seu câncer terminal. Não se sacrificará mais ao Imperium, ao Sinédrio, ao poder local. Homem e mulher reconciliado aos pés da nudez exposta, um frente ao outro, nus e sem vergonha. Pedro nadará nu e ninguém há de lhe dizer: não te envergonhas?

Creio se o tocar, somente? Mas, só creio! Tento traduzir minha crença num buscar que preencha o túmulo. Corro ao túmulo na esperança de vê-lo cheio, ainda que de morte, com teu corpo morto envolto em linho fino. Corro a um túmulo cujo vazio que já se antecipa e impõe-se no meu ir. Minha fé me põe no vazio e solidão. Creio só. Morri para a lei e sem dizer nada me esvazio. Estar vazio, e só depois ver o corpo nu. O corpo nu dele é a crença de minha própria nudez. Minhas roupas delicadamente produzidas por tantas mãos, que teceram com tanto esmero e costuraram com tanta finura, tantos fios de linho, prata, ouro que foram utilizados nesta técnica de tessituras, e eu ali nu. Roupas empilhadas nas araras dos shoppings e que traduzem a reprodutividade técnica dos teares e das confecções, que nos fazem falar a mesma língua de todos em todos os lugares. Roupas que uso para viver no mundo são deixadas de lado, pois as minhas roupas estão largadas no chão batido de terra, na escuridão do inverno. Estou nu, trêmulo, só e vazio. Um animal nu na escuridão do inverno. Não ouço as vozes da multidão que gritava em meus ouvidos: sacrifica-o! Não ouço a voz do coro de três vozes que cantava sublimemente: homem fora-da-lei sem mácula. Nada ouço, nada vejo, tremo sem-vergonha, amedrontado pela solidão. Meus sentidos me deixaram . Tantas questões que não sei formular.

Corro a um túmulo que não sei onde está. Para onde corro? Corro num vazio que não sei onde pisar. Como corro? Corro para um túmulo vazio. Porque corro? Paro e no silêncio turbilhante de um buraco negro que me quer tragar, envolto pelo qual tremo amedrontado de ser engolido sem esperança, ali mesmo talvez tenha ouvido um sussurro, um pré-dizer mais original. Deixo de correr e aceito o vazio tumular da noite fria. Ou seria uma manhã sem sol? Deixei de correr, mas estou só, e vazio. O sussurro vem como um vento, uma brisa que me não leva a lugar algum. Sou um homem e como tal sinto-me envergonhado pela nudez. Não tenho vergonha da vergonha, mas vergonha de não vir ter vergonha e catar qualquer roupa da arara e vesti-la para ficar belo. Não quero a beleza, quero o som inaudível que creio me alcançar. Quando deixei de correr me veio a brisa: “antes conhecemo-lo como homem, mas agora não mais o conheceremos assim.”

Não há o que tocar. O milagre que nos faz possível não é reencontrar o túmulo e lá ver seu vazio. O milagre é não encontrar o túmulo e nada ver a não ser o vazio. Deparar-me com o vazio frio do túmulo do túmulo, e crer. Crer no milagre mais absoluto e radical que seria a fé sem sinais, sem certeza, sem respostas, sem prontidão. Apenas a fé que interroga, que desfaz a solidez como um ácido lançado no orgânico. Antes houve os que puderam conhecê-lo a caminho do túmulo. O túmulo que nunca antes esteve vazio, pois já se preenchia da expectativa de conter o defunto. Mas o morto não ficou ali. O túmulo se esvaziou e com isso, esvaziou-me, desfez-se como a minha referência, desfez-se como referência, desfez-se como túmulo, é um não-túmulo. O túmulo que era a referência para um corpo que ali se colocaria, deixou de ser túmulo, pois não reteve a vítima do sacrifício. Para qual túmulo correr? Para nenhum túmulo, não há túmulos. Não há túmulo a correr, então não corro, espero o homem nu caminhar ao meu lado, apenas espero por fé. Mas já não posso vê-lo, mas tenho fé que estará comigo todos os dias. Não posso tocá-lo, mas sei que ele sofrerá meu sofrimento. Não posso ouvi-lo, mas sua brisa sussurrante aponta para a justiça sem sacrifícios.

Estou só e vazio na noite fria. Sou um homem envergonhado das cruzes que plantei. Quero olhar as minhas roupas, aquelas que por conta do medo e do frio catei no chão e nas araras e as vesti, e quero me envergonhar de tê-las vestidas. Em minhas mãos estão os dados que joguei a sorte para possuir suas roupas. Eu tenho frio, mas a solidão vazia desta noite fria me traz a fé que ainda posso esperar no homem ressurreto.