A Máquina e o deserto
O homem
desejou sair cedo daquele lugar no qual está vive ao longo de anos. Deixar a
cidade previamente ao amanhecer antes que fosse cedo, antes do primeiro beijo e
ir para um lugar sem nada, novidade. Para ele seria deixar aquela máquina que
faz funcionar tudo ao tic-tac de um relógio atômico. O
tempo feito para dar ritmo e medir a produtividade, a fim de não deixar ninguém
descompassado. Mas hesitou dar o primeiro passo, pois se lembrou daquela aula,
daquelas lições que aprendera em seu curso de engenharia. Desde sempre tem sido
o hesitação que lhe furta o êxito, o êxodo. O primeiro passo não dado teve,
antecipadamente, o peso do retorno inaugural a uma rotina original. Lembrou-se
do professor que lhe deu a lição de casa, dizendo, desafiando: “pense na rotina
matinal individual, aquilo que cada um faz desde o momento em que sai da cama
para vir à faculdade, aqueles minutos em que se arruma. Pense na normalidade de
sua rotina, isto é, sair da cama, dirigir-se ao banheiro, ir a
cozinha, trocar de roupa, pegar os livros e cadernos, e deixar a casa em
direção à universidade. Pense nesta rotina segundo o cronograma preciso que
você apontará e medirá. Agora, pense em como otimizar suas atividades, em fazer
em menor tempo e com menos ações repetidas. Calcule a economia de tempo e
atividades.”
A
máquina que faz funcionar e que reclama ao homem que faça com menos energia e
menos tempo, com mais qualidade e com mais produção, a um custo menor. Esta
máquina e seu funcionamento foi-lhe ensinada desde daqueles anos, desde sempre.
Herança da máquina desde o aprender dizer “mãmã”. A
nomear o lugar do prazer bucal. Herdeiro da máquina, a qual reclama a
matéria-prima ainda precisa. Mas a máquina funciona a despeito do homem que está
ali pensando faze-la funcionar. Não é o engenheiro que produz a máquina, mas é
a máquina que produz o engenheiro, o médico, o cientista social, o pastor. Não
é o capitalista que diz ao capital onde ele dará maior lucro, mas é o capital prenhe
de lucratividade que diz ao Manager o que fazer para
que venha à luz o rebento esperado. A instrumentalidade humana em prol da
maquinaria. O Manager é administrado pelo capital que
o diz como fazer com menos recursos a maior lucratividade, como quem otimiza seus primeiros passos matinais, antes que seja
tarde.
Não
importa o nome do Manager, se é Carlos ou William,
não importa se o negócio é financeiro ou petroquímico, se fala espanhol, inglês,
hindu, francês, português, ou mesmo chinês. A máquina pôs-se a funcionar a
despeito do homem que representa um dado papel, do indivíduo que atua, do
produto que se apresenta, pois o resultado da máquina é seu funcionamento
eficaz. A máquina busca a eficácia como o crente busca a verdade. A verdade é a
eficácia. A crença lubrifica a máquina fazendo fluir com menos atrito enquanto
o homem entrega-se irrefletidamente a ela. A crença sombreia a verdade. A
máquina opera para a preservação de si mesma, apenas de si mesma, prometendo e
fazendo promessas. As ciências sociais, as filosofias e as religiões servem de
instrumentos delicados que promovem os ajustes finos para o aumento da produtividade,
escamoteando, velando, ocultando a máquina e prometendo o que não está disposta
a entregar a ninguém. Tudo se integra à máquina, tudo é tematizado
pela repetição e pela normalidade. A ordem ritualizada
do cotidiano faz um bom cidadão, como nos fala Chico:
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Mas há
o trabalho para tornar o homem dócil, aquele que é realizado pelo pastor,
professor, policial, papai e mamãe previamente docilizados,
que dizem: se você for bonzinho e fizer bem a lição de casa e for obediente,
então você será acariciado; mas se for desobediente, Deus, a sociedade, a lei o
castigará. O homem é adestrado na docilidade e suas crenças apontam para uma
quietude diante da máquina, soberana.
O homem
não teve coragem de dar o passo para fora da cidade em direção ao deserto.
Lembrou-se das lições do curso de engenharia e com o mínimo esforço, mínimo tempo e mínimos recursos, arrumou-se e, depois de um
beijo com o mesmo gosto de hortelã, fingiu dirigir a máquina que o dirige ao
escritório; fingiu escolher o caminho que o conduz ao endereço imóvel. Ali leu
os e.mails de sempre, respondeu alguns, deletou aqueles inúteis spans,
deixou para depois os que não contribuem para o ganho de eficácia. Fez tudo
para combater a entropia cotidiana e aprender com os erros a fim de não
repeti-los. Chegou em casa, beijou a mulher, sorriu
para os filhos e deu comida para o cachorro, como sempre. Tudo esteve em paz
novamente segundo a ordem natural das coisas.