Sobre desertos e ilhas
Em meio ao deserto brotou uma mina d’água e pelas correntes que
se formaram deu-se folhagens, árvores, frutos. Entrelaçada ao chão
esbranquiçado, o verde marca a paisagem, quebra a monotonia, esculpi a
diferença, oferece ao passante um momento de repouso, de saciar-se. Cada um que
por ali passa, cada pássaro ou cada caravana que tem
ali seu percurso, seu caminho, sua rota para, respira, embebeda-se, repõem seus
líquidos, deixa um pouco de si. Uma pequena semente que cai a ermo. O livre ir
e vir, chegar, ficar e ir. Tomar da porção de água que dali brota sem impô-la
um regime outro que não o próprio do oásis. Deixar aquela ilha em um ritmo de
vida não marcado pelo estar permanente de uma determinação. Os homens, os
meninos, os camelos, os cavalos, as mulheres, as meninas, os cachorros, e mesmo
os pássaros, todos usufruem por um tempo daquele espaço aberto em meio ao dever
de trânsito. Não fazem casas e nem canais. Caminhar pelo deserto é preciso,
fazer plantio não é preciso. Alcançar do que se oferece livremente à medida do
preciso.
Em torno desta vida brotada fixaram outros homens
moradia, habitação, vila. Homens e pássaros cansados de transitar, de caminhar
por lugares desconhecidos, sem fronteiras e referências. Esgotados de procurar
sombra e água. Estes que viram, pela primeira vez, naquele lugar ilhado entre
desertos, espaço para cravar estacas, fundar habitações, sombrear, deixarem-se
levar pelos ritmos absolutos das estações a serem descobertas pelo olhar. Homens
que deixaram a peregrinação em prol das estrelas. Sedentários
que estocaram o direito de olhar para o céu enquanto fixavam suas cidades
ilhadas. Uma cidade com suas casas, ruas e palavras fixas. Crianças correndo e
mulheres prenhes. Por cima o sol exigindo sombra, refúgio, proteção. A olaria,
a marcenaria e o tear. Homens trabalhando no forno o tijolo, cerrando a árvore
que será viga e lenha, e mulheres tecendo. O barro como argamassa. Não há chuva
em momento algum. Isto é, nenhuma gota d’água chega ao chão, mesmo que chova. O calor
evapora a esperança que vem do céu. O sol é soberano, mesmo à noite. A cama
arrumada na laje para respirar a brisa noturna e fugir do forno. A chuva não
vem nem mesmo quando o sol está ausente, ela não rompe com o descanso. Corpo
cansado de um dia de luta contra a secura, a temperatura, a fragilidade.
Do veio cristalino esquia-se a água que alimenta a
vida. As plantas a absorvem, os animais a bebem, a areia a suga, o ar a
evapora. O homem trata de retê-la, de canalizá-la, de impor seu destino, de
minimizar sua perda, de maximizar seu uso. Os moinhos, os canais, os açudes, os
diques, as plantações, as baias, os poços. O trabalho diário de tratar a terra,
de oferecer a justa medida de água às plantações, ao gado, à
si. Não mais a semente trazida pelo estrume do pássaro, germinada de um bebericar sedento após um vôo
longínquo, mas a semente determinada para o consumo do homem, do gado, das aves
domésticas. A troca útil. O pai arando a terra, o filho lançando a semente, a
mãe colhendo o fruto e a filha carregando a colheita, a mãe e a filha
segregando o fruto, o pai e o filho estocando e trocando-a. O pai no mercado,
na praça, sob o olhar atendo e o ouvido pronto do filho. A mãe em casa
guardando o fogo, tecendo a roupa, olhando a prole com o auxílio da filha.
Os camelos vêm! A sede chega à cidade e reclama sua
porção garantida por gerações. A água não é livre, o fruto não está à mão. A
cidade cercou o oásis e ilhou a ilha. Entre o oásis e o oásis havia o deserto,
agora entre o deserto e o oásis há a cidade, o muro, a distância, os impostos, o preço que traduz o
esforço do trabalho de repartir a água segundo o seu uso. O homem sobre o
animal não entende esta língua, a língua do homem econômico, do agricultor. O
homem do animal, magro e cansado, irrita-se, exaspera-se, enerva-se, ameaça:
tem nada a perder. O homem por trás dos
tijolos, gordo e seguro, espanta-se, precavê-se, agita-se,
protege-se: tem tudo a perder. A liberdade e a técnica, o nômade e o citadino,
o mercante e o agricultor, o magro e o gordo, em fim, sentam-se e procuram
palavras para conversarem.
Procuram
símbolos, metáforas, palavras que encontrem amizade, hospitalidade, tradução.
Dão-se mutuamente às trocas: água por vinho, pão por azeite, repouso por seda, sombra
por especiarias, palavras por novas palavras. A cidade encontra a cidade pelas
caravanas.