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A oração que fiz...

...quando criança nos tempos de desejos: Fecho meus olhos e digo: meu Deus! Mas ao dizê-lo determino em meu movimento ao teu encontro tua imobilidade e meu exercício de fé. Deus único, tu ali, impassível, imóvel, aguardando que eu me vá a teu encontro e o reconheça! Que eu salmodie: alegrei-me quando me disseram, vamos à Casa do Senhor! Minha decisão de nomear-te Deus e meu movimento para encontrar-te são os motivos de minha oração a ti. Quando te chamo, como se eu fosse o carcereiro que percorre o pátio e faz a contagem na certeza da presença do encarcerado, sei que hás de responder ao som de teu nome, pronunciando: Eis-me aqui! Deus, hás de estar presente quando digo: meu Deus! Não podes faltar, não podes silenciar, não podes esquivar, pois existes e és real, além de verdadeiro e presente. Deves estar presente como algo que é meu, e como meu Deus responder ao meu chamado. Deves estar presente como o que centra, funda e organiza minha vida. Tenho a minha vida, aplico-me em minhas decisões e, tu, Deus é meu Deus verdadeiro, em ti não há mentira e falsidade. Deus, estás contido no conjunto das coisas que chamo minhas.

Cada coisa que chamo minha tem um nome. Meu cachorro chamo de Vox, pois late o tempo todo. Meu quarto chamo de “Camarim”, pois é lá que me encontro no mundo. Minha namorada chamo “Anjinho”, pois não importa se está no céu ou na terra, sempre está ao meu redor. Quando fecho os olhos e penso nas coisas que necessito, chamo meu Deus. Eu necessito comida, saúde, roupas, emprego, ser reconhecido em meus talentos, ser admirado, e tantas outras coisas, e sei que meu Deus tem todas estas coisas para me dar, pois de antemão me fez promessas. Meu Deus é dono do ouro e da prata, tudo é tesouro seu para os que o ama. Para falar com meu cachorro e para entrar no meu quarto, abro os olhos. Quando penso em “Anjinho”, ou mesmo quando estamos juntos, por vezes tenho os olhos abertos, e em outras os fecho. Para me dirigir a ti, Deus meu, porém, sempre fechos os olhos.

Meu Deus, tu és minha lâmpada, és como o meu abajur, mas que no lugar da lâmpada está o Sol. Quando estou em um lugar escuro ligo tal abajur e sua luz se acende, ascendo-me. Mas quando a luz se faz notar devo fechar os olhos, pois sua claridade é muito forte para mim. Eu toco no botão do meu abajur e se faz luz, “fiat lux”, e toco novamente e ela se apaga. Assim é quando digo: “meu Deus!” Assim é quando não digo: “Deus meu!

A ti, Deus, lembro teus feitos do passado. Lembro Moisés e suas vitórias contra os inimigos. Lembro Josué e a posse de Canaã. Lembro dos Juízes e seus livramentos dos violentos. Lembro Davi e como prevaleceu contra seus opositores. Lembro Josafá e os espólios obtidos sem esforço da guerra. Louvo a ti, Deus, pois sendo o mesmo ontem, hoje e eternamente, aquele que não pode mentir, deves me dar segundo minhas necessidades e segundo o teu Todo-poder e tua verdadeira promessa. Louvo a ti, Deus, pois sou cabeça e não cauda. Louvo porque por uma via virão contra mim, mas sairão em debandada por sete. Louvo porque me colocaste em lugares altos e destruíste aqueles que contra mim armaram ciladas. Louvo porque és único entre muitos deuses. Louvo porque sou chamado de filho do Altíssimo.

Também o meu louvor se dirige a vós, Deus, pois do nada criou o tudo, menos a vós mesmos, tendo gerado vosso Filho, primogênito dentre muitos irmãos, em meio aos quais me encontro. Por meio de vosso Todo-poder manténs a criação e a sustenta. É vossa mão firme quem segura a esfera celeste e não permitis que ela se desfaça. Todo o cosmos, todo, foi criado, é fundado e mantido por vosso Poder. Poder este, o qual somente vós possuís, que se alinha ao vosso todo saber, com o qual conheceis todas as coisas. O futuro e o passado são, e tudo está diante de vós em contínuo. Nada ocorre sem que vós ignoreis; antes, sem que as permitais, ademais, sem que as determine. Tudo é necessário em vós. A existência é necessária a partir de vós e vossa existência é necessária a nós. Por isto vos louvamos.

Mas quando deixo de ser criança já não mais desejo o que antes chamava de necessário. Percebo que minhas palavras já não dizem o que expressam minhas encruzilhadas, o cárcere de minha busca e indagações. Percebo-me como que ao largo, como um mendigo encavernado, o qual sussurra em sua prece. Espanto-me e de mim, e quase sem forças me sai a exclamação: “Pai!” Em minha cela de agonias percebo a companhia de um ensangüentado que me conduz às questões: “quem és tu?”, “que fazes aqui?”. Mas não ouço sua resposta. Sua dor parece abarcar minha dor e todas as dores de todos que ecoam por ali. Sua face inocente, doente, suscita-me dúvidas: quem te colocou aqui no inferno? Qual tua dívida? Responde-me com um olhar, silencioso olhar de misericórdia. Ele não é o carcereiro, pois sangra e sofre; tampouco é prisioneiro, pois porta chaves em suas mãos. Companheiro de minha prisão. Como o escravo que tendo a liberdade renova seu serviço, ele fura as orelhas a meu favor. O Senhor se deixa tornar escravo, e, assim, assenhora-se do meu algoz. Se faz servo sofredor compartilhando nossa dor. Ele veio a mim, estando eu preso, sem poder mover-me.

Como o esquecido, o largado, o abandonado que vê entrar no espaço de sua angústia a vida, diz: Deus Pai! Como quem se espanta por ver adentrar à casa um inesperado desejado, como quem se maravilha pela companhia sublime, deixo escapar de meus lábios: Pai! Sem escrita de injúrias, sem sentenças de juízo, sem determinações de punições, sem buscas e apreensões, chegas graciosamente, tu que dás de comer e repartes do vinho. Quando a morte me visita e o desespero me alcança, e de minha boca sai o clamor: “Deus meu! Deus Meu! Porque me abandonaste?” Então, e somente então posso rememorar uma sua voz, que de contínuo diz: Não temas, pois estarei contigo todos os dias, até o final. Pai és tu que te moves a mim como meu irmão de dores, meu amigo de angústias e vens até minhas cadeias, minhas dores, minhas trevas e as compartilha comigo. Sabes que não tenho forças para aplacar o abismo que suga minhas esperanças, e desde este sem fundo profundo tu vens como igual, como homem. Das trevas abissais tu vens a mim dizendo: te chamo de amigo e não de servo.

Não me torno próspero e famoso por tua providência, mas tu tomas as minhas chagas como tuas. Minhas chagas foram as tuas e tuas chagas devem ser as minhas. Mas que Pai és tu? Seria o Pai dos órfãos? Nada sei. Que irmão é este? Quem tomaria para si minhas questões e em silêncio compartilharia da negritude se minha noite? Quem se faria fraco na minha fraqueza, doente na minha enfermidade e encarcerado nas minhas correntes? Nada entrego, nada dou. Não tenho cajado que possa se transformar em serpente, ou abrir o mar. Não tenho moedas com que posso depositar segundo a crença na restituição. Tampouco estou nu, mas sou visto como quem traspassa minhas intenções. Estás ali mudo, olhando e permanecendo. Sei, pelo teu olhar, que devo tomar a dor, o cárcere, pois tomas os meus.

Não ordenas meu mundo. Não fundas meu cosmos. Não crias novidades. Não garantes a existência. Tu mesmo não estás presente e em ausência se faz junto, solidário. O silêncio marca tuas palavras. Não requisitas nada e nenhum louvor aguardas. Não reclamas adoração e nenhum salmo demandas. Não olhas para ti mesmo, mas estás sempre te movendo para o outro. Na angústia, na solidão, na dor, no encarceramento, no abandono, na exclusão encontramos-te. És a voz da justiça que se quer calar pela injustiça. És a chave que escondem na escravidão. És o fogo que arde em mim, que sem culpa me instiga ao mesmo caminho. Caminhar como que pelos passos de um felino. Produzir sem o salário. Imitar a presença ausente da graça.

Pai! É a exclamação que desejo ouvir de um pequenino quando pelas mãos, tu, me pegares em me conduzires aos porões do amor. Emanuel! É a revelação que anseio ver de um faminto que comendo o pão e bebendo do vinho, saber estar restituído de sua dor. Quero gozar como vento cristalino que sopra a vela da embarcação perdida no oceano. Amigo, quero aprender contigo que és manso e humilde de coração. Amigo, tenho aprendido que as palavras não dizem plenamente o que se há de dizer e que a expressão de ser, de mover-me para o centro de seu amor, para onde teu amor tem como destino, que não é a ti, mas ao outro, transforma minha oração em ato de misericórdia, de compartilhar a dor. Entendo que orar é colocar a ti, Pai, aquilo que traduz o que de fato passa ser objeto de nosso amor. Orar é amar o que tu amas, pois quando amamos o que tu amas sabemos que somos ouvidos e sabemos que obteremos o que temos pedido: a justiça graciosa que é proveniente do amor. Quando criança orava por mim e pelos objetos de meu desejo; mas, enquanto deixo de ser criança, percebo que minha oração funda e destina no movimento do teu amor.

Minha oração se torna silêncio e apenas espero me mover no mundo que tu amas.