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Nem sempre um caminho liga duas cidades

O caminho não faz parte da cidade; apenas perpassa e liga uma cidade à outra, ainda que possa apontar para coisa alguma. Uma cidade não é feita de caminhos, mas de delimitações, fronteiras, em que o caminho cruza os marcos das cidades possibilitando, abrindo a cidade para um não lugar. Não está lá e nem cá, está num lá e cá, num de lá pra cá, de cá pra lá, num de lá para lugar algum. O caminho, muitas vezes, margeia, tangencia a cidade, por outras cruza em meio a ela. Mas o caminhante não é desta cidade, pois não seria caminhante, mas o que regressa ou o que parte. O caminhante pode ter nascido na cidade ou por ai, mas vive a um passo por vez. O caminho é o lugar de passagem. Quando o passante deixa a passagem e fixa, constitui a cidade, o lugar de chegadas e partidas, de estar. O caminhante fala com o sotaque próprio, talvez com uma linguagem própria, um dialeto que reúne falas de muitas cidades e de nenhuma cidade. O caminhante ao estar de passagem numa cidade aceita falar próximo ao dos citadinos, traduz sua fala, ou suas falas, ou a fala mais atual que não alcança parada num falar traduzido a fim de manter negócios como estrangeiro, mas, mantém-se estrangeiro na cidade. O caminhante é pentecostal, mas o Pentecostal é citadino: este acredita no forte fundamento de suas crenças que lhe conferem certezas e estabilidade. O caminhante sempre tem novas palavras, novos mitos, novos dizeres; o Pentecostal grava suas palavras e as repete, reproduz , re-edita. O Pentecostal deixa de dizer mesmo quanto continua a falar; o pentecostal diz mesmo em seu silêncio e ausência. Paulo era caminhante, pois dos romanos tirava as metáforas das centúrias, dos gregos as metáforas das olimpíadas, dos hebreus o messianismo. Mas das centúrias expurgava a guerra; das olimpíadas o aristocratismo; do messianismo a espera de um porvir. O caminhante não se liga a uma cidade, a uma língua, mas sua tradição é ir e vir deste para aquele lugar. Ser caminhante, em última instância, é não completar, nunca, um circuito: impossibilidade. Ser caminhante é ser estrangeiro e peregrino cujo lar é encontrado entre os caminhantes. Jamais retornar a um mesmo lugar e ao deixá-lo não prometer encontros futuros. Ser caminhante, radical, é nunca permitir sulcos rastreáveis: em torno destes se formarão pequenas vilas, cidades, castelos. Babel é a cidade edificada por aqueles que se cansaram de caminhar: levantaram a torre e falaram a mesma linguagem. Pentecostes é o lugar de partida daqueles que nunca mais retornaram, e como os filhos de Jafé e Sem, habitaram as ilhas e os continentes, cada um segundo seu modo próprio de falar. Ser citadino é amar o ritmo, o retorno, o controle, o método, a rotina, a hierarquia, as normas, as formas, o poder, a acumulação, a gordura. Estar à caminho é deixar-se ir como um balão ao vento: o vento sopra e não se sabe de onde e para onde. O citadino ama sua casa e sua cama; o que está a caminho não sabe onde vai dormir. O citadino vai à casa do vizinho ao domingo, trabalha no centro comercial, estuda na escola pública e é chamado às audiências de conciliação. O peregrino e forasteiro não sabe ao certo onde estará amanhã, desde que saiu a caminhar.