A Bíblia é um livro que, dentre tantos assuntos, trata de genealogias; o Novo Testamento inicia com a genealogia de Jesus.
Certa vez ouvi um homem falar que nas entrelinhas das genealogias há um discurso em andamento. As pessoas, que estão ali retratadas, contam uma história e a história daquele que se quer observar. Não se trata apenas da genealogia, mas do conteúdo meta-histórico do personagem que ali é apresentado.
Por vezes na narrativa genealógica, onde, por excelência, pontua-se a seqüência de geradores e gerados, de pais e filhos, numa infinidade de ocorrências traçando uma meta-história, há um hiato explicativo, um parêntesis cronológico, que visa dar destaque e relevância a um, que seria obscuro, mas passa a ser alvo de indagação: porque torna-lo menos igual, mais visível?
Um dos personagens que tem seus “segundos eternos de fama” é Jabes. Este homem está inserido na genealogia apresentada no livro de 1 Crônicas 4, e nunca mais aparece. Quando de sua ocorrência naquele momento bíblico, há um parêntesis, um chiste de sua relevância no relato eterno, mas logo o texto volta ao que era.
É como se houvesse uma interrupção neste devir, mas que rapidamente volta à sua dinâmica primeira. Esta pausa traz questionamentos involuntários e buscas por explicações e revelações.
Esta metodologia de intromissão histórica não é algo que se inicia em Jabes, mas outro, dentre outros, personagem carrega este estigma de quebrar seqüências quase monótonas, que é Ninrode. A palavra “ninrode” significa, segundo alguns estudiosos, rebelde, ou aquele que se rebela. Por isto e isso, fiquei pensando e intui:
Ninrode é rebelde!
Mas rebelde contra o que?
Contra o que? Contra nada! Pois ele não se rebela contra o “status quo”, contra a ordem e as instituições. Não se rebela contra as leis e a moralidade. Ninrode não vai contra a ordem, os costumes, as normas.
As instituições, as leis, a moralidade, a ordem, os costumes, as normas simplesmente são incipientes, inócuas, embrionárias.
Antes, Ninrode é o próprio sistema, é o edificador de um império; a sombra imperial sobre a qual se erguem impérios em série. É o construtor de metrópoles. Ele estabelece a ordem, estabelece a lei, estabelece domínio e sobre o poder se estabelece: perpetua-se.
Então não é contra “o que” que ele se rebela, antes é contra “quem”! Devemos refazer nossa pergunta e indagar: “contra quem Ninrode se rebela”?
Rebela-se contra a vida!
Não a sua própria, mas a do próximo. Ninrode oprime, saqueia, suprime, domina, invalida, mata! Usa de força, de poder, de violência, para submeter a vida alheia à sua tirania. Ele é o além-do-homem, o ser que é perverso, pois somente lhe cabe a perversidade. É o forte que se impõe sobre o fraco, pois ele é forte e o fraco é, simplesmente e somente, fraco. É o lobo que destroça a presa tendo em vista que é lobo; está nele a natureza de ser predador e na ovelha em ser ovelha.
Rebela-se contra a lei suprema do direito a vida.
Ninrode é Hitler, é Stalin, é Mao, é tantos outros vivos-mortos e mortos-vivos que des-andam por ai e pintam o sete neste caldo saqueado da violência legal, televisiva, marquetiada...Ele é Ninurta, deus da guerra e da caça. Guerra contra os pares e caça aos homens.
Ninrode chega ao poder, sem se ater na legitimidade e se preocupar com a legalidade, e auto-conferindo poder para destruir, cessa o direito alheio. É a crença bélica do mais forte sobre o menos armado.
Ninrode é o direito que o mais forte se dá, para que este venha a eliminar o direito à igualdade, à paz, à vida de todos, em liberdade. O direito que se dá em oprimir o oprimível, mais frágil.
É o adultério, antes, o estupro, da razão da liberdade e da justiça, em seu sentido cristão, pelo enfoque sacro, homo-cêntrico, homo-sacro-cêntrico, de seu direito “divinamente” conferido à expansão e domínio, tendo em vista sua segurança e eternização.
Seu deus é sua ideologia; seu deus é suas crenças; seu deus é seu partido; seu deus é sua moral; seu deus é o self. Ele é deus-homem, que quer sentar no trono do Deus que se fez homem, como um que se encontra de pé onde não tem direito de estar.
Ninrode crê na eternidade que é conferida pelas feridas que faz na história, que não mais será contada pelos esquecidos, mortos: a história alheia.
Os contos, os mitos, as lendas que se fazem sobre o tempo, para contar a história daquele que quis varrer da história, toda a história que não é a sua própria. Deslegitimando a versão do destituído do tempo e desarraigado do espaço. Versando, sem poesia, sua leitura maquiavélica do direito à intervenção, para que ao fim sua “pax” sobreviva, se interponha, goela abaixo.
Sua gênesis vem do desrespeito às alianças, aos acordos, ao respeito paterno. Seu pai é Cão, que profanou seu patriarca, Noé, e expôs sua nudez, invalidando a premissa primordial da cumplicidade, da co-responsabilidade, da irmandade. Sua obra aponta para Babel, auto-suficiência, desejo de ser Deus, confusão, desunião, separação, interesses desencontrados, desentendimentos, incompreensão, desligamento. Sua missão é Babilônia, que é religiosamente sincrética, que é adultera, que é sensual, maliciosa, arrogante, violenta, implacável, atéia, ainda que pós-moderna, politeísta centrada no deus-rei-homem-ninrode. A Babilônia dos Hebreus, que nega o direito à existência. A Babilônia de João, que persegue o direito à vida.
A Babilônia da eternidade, filha de Ninrode, que traz no coração a morte de Deus. A Babilônia de Nabucodonosor, com a cabeça de ouro e os pés de barro, que surgiu nos Césares e se prolonga na infâmia contemporânea.
Enfim, nos perguntamos porque somos pela paz, pela inclusão, pelo homem, incondicionalmente. Porque nosso Pai é outro, é aquele que nos deu o ministério da reconciliação. Porque o Filho também é outro, é aquele que morreu pelos fracos e se deu pelos destituídos; não oprimiu a ovelha, antes se fez ovelha, mesmo sendo Leão. Nossa cidade também é outra, um lugar que reina justiça, paz e alegria.
Obs.: o hiato genealógico onde se encontra a figura de Ninrode está em Gênesis 10: 8 a 13.