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Sobre ovelhas e lobos

Conta um mito do povo filoteu, antigo e suposto extinto povo que habitou o intermédio do crescente fértil, entre os grandes rios na região próxima ao mar, contudo ocupado pelo Império do Norte, que certo dia primordial e original seu deus supremo, Abagape, disse-lhes as seguintes palavras-convite, escritas com o próprio sangue de sue filho, em papiro virginal:

“Assino, e torno irrevogável tal ato-convite, com sangue que é meu, neste papiro ainda não escrito que entrego a vocês apenas com minha marca, no qual vocês podem acrescentar o perdão incondicional de todos os vossos pecados e falhas. Todo pecado que até então tinha o efeito infernal, agora com tal documento tem o efeito suspensivo. Cancelo com ele o inferno, destruo suas grades, ferrolhos e mantenho em minhas mãos as chaves das portas abertas. Com este documento eu revogo o pecado, o juízo, o sacrifício e o inferno. Todas as vossas transgressões não mais redundarão em culpa e penas eternas, mas em responsabilidades pessoais sobre vós mesmos. À minha imagem e semelhança torno-vos, isto é, recrio-vos e como eu vós sois legisladores de vossas próprias vidas, o que atares na terra será atado como se eu tivesse atado no céu, e o que liberardes na terra será liberado como se eu tivesse liberado no céu. A lei e a ordem não mais vos será imposta dos céus à terra, conforme fiz com vossos pais no passado, mas, de hoje e para sempre, será escrita por vós segundo os princípios que julgardes precisos, para a promoção da liberdade e justiça, da igualdade e amor entre todos vós. A lei que regulará vossas relações não mais estará escrita em pedras, inflexíveis em imutáveis, mas em vossos corações, que refletirá as nossas demandas e urgências próprias dos tempos que advirão. A lei não vos será dada, e imutavelmente será mantida acima e diante de vós; a lei será por vós escrita e rescrita indefinidamente à medida dos novos momentos e circunstâncias. O maior entre vós será aquele que mais servir a estas causas, como podereis perceber. Ninguém mais conhecerá a deus, a mim o deus Abagape, buscando-me nos céus, mas conhecer-me-ão ao conhecer-me nos seus próximos, ou seja, não mais me buscareis na distância do céu, mas na distância que há entre vós e os outros, entre a injustiça e justiça, entre a exclusão e o amor, entre a lei e a misericórdia.”

Aqueles filosteus receberam a carta com alegria e consternação. Mas, inicialmente pensaram, a partir da carta-convite de Abagape, em viver de maneira dissoluta, já que nenhum mal pairava sobre suas cabeças, nenhuma condenação havia para aqueles que criam no teor destas palavras. Mas perceberam, após algumas experiências, reflexões e debates, que agora algo ainda mais crucial se impunha como desafio a suas existências: apregoar aos cativos a liberdade, mas ao fazê-lo à existência haveria de se impor uma determinação divinizada. A divinização da vida, da existência não deveria ser entendida como um excluir-se do mundo, mas liberdade frente ao mal. Não mais aguardariam de Abagape a Lei, mas como que na posição de fé de serem eles herdeiros de uma filiação divina deveriam legislar como o pai amoroso o fez. Então, cônscios desta nova, desta incumbência proclamatória, passaram também a se auto-denominar huiosteus. Os huiosteus ou filosteus se encontravam em comunidades de irmãos, e como tais, iguais e livres. Mas em cada cidade estes encontros tinham características próprias, segundo as pessoas achavam a melhor maneira de realizar suas assembléias. Tais assembléias se davam em meio ao espírito da alegria, do serviço mútuo, e de um senso de responsabilidade comum, e isto quer dizer que eles enfrentavam seus problemas de maneira resoluta, firme, determinada, mas justa e amorosamente.

Um destes huiosteus, homem dotado de grande sabedoria e experiência, disse certa vez que do meio deles, surgiriam falsos enviados, filhos da escuridão e contrários à liberdade e às assembléias igualitárias. Homens avessos ao encontro por justiça, que imporiam uma língua, novos sacrifícios e extratificariam as relações. Homens que se apresentariam como filhos da luz e que se auto-proclamariam representantes de Deus, mas que se imporiam sobre os demais, como lobos se lançam sobre as ovelhas. Estes homens, seguidores das idéias anti-democráticas, estes que se opõem a uma igualdade de poder distribuído liberalmente a todos os filosteus, indivíduos que se apresentam como separados por deus, mas que de fato falam em nome de uma República estratificada e monárquica, tiranizada por um filósofo-rei. Homens que tecem acordos mesquinhos e noturnos e que se aliaram ao Império e submeteram os huiosteus à heresia. Reescreveram seus documentos, dando novos sentidos e significados às palavras ali contidas. Re-impuseram a lei, a transgressão, o pecado, o julgamento, o juízo e o inferno. Dizendo-se representantes de Abagape, impuseram idéias superiores ao mundo da vida, que apregoaram como falso e sensual. Paganizaram as palavras de Abagape e profanaram o templo, levantando ídolos nos lugares do vazio. Templos, que para os filosteus era a reunião comunal de todos os irmãos, o templo como os corpos reunidos em assembléia, em unidade de fé, de esperança e de amor. Os homens passaram a olhar para cima, no aguardo de uma redenção e esqueceram de que a salvação se dá no encontro justo e amoroso, que os huiosteus chamavam de “charis”.

Enfim, os arqueólogos, historiadores e filósofos não sabem se este mito é verdadeiro, ainda que seja verossímil. Os teólogos atestam a inverossimilhança deste relato, O fato é que até hoje os lobos comem as ovelhas. Há lobos que falam grego, outros falam latim e ainda há aqueles que falam alemão, francês e inglês. Às pessoas prometem vida após a morte, providência celeste e um mundo espiritual que não se realiza. A carta-convite foi esquecida, antes, soterrada por livros e escritos próprios da ortodoxia hegemônica dos lobos, dos anjos de luz, e a justiça divina se tornou heresia. Os anjos de luz verificam Nietzsche, o qual parece que tinha razão: é do lobo natural comer as ovelhas. Parabéns apóstolos da ordem tirânica da República Eclesiástica, vocês continuamente comem da carne fresca do Cordeiro, dizendo amá-lo, vocês de fato amam o sabor da carne dos cordeiros, irmãos daquele Cordeiro.