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Viu Deus que tudo quanto tinha criado era bom.

A Bíblia traz em seu início o relato da criação, o que além de não nos parecer óbvio causa-nos certa estranheza, pois seria mais óbvio o escritor se apresentar e relatar a experiência da revelação de Deus sobre a criação e, posteriormente nos falar desta revelação. Mas o texto é inaugurado com as palavras que nos dizem que no início criaram Elohym os céus e a terra. Este relato culmina com a frase: E viram Elohym que tudo quanto tinham feito era bom. Tudo fora criado, muito bem criado e tal criação era boa e benéfica, ou seja, a matéria é boa como coisa criada. A criação não é má, a matéria não é má. Com isto devemos nos distanciar daquele mundo gnóstico e maniqueísta em que uma Deus mal criou a matéria e um Deus bom criou o espírito. O relato continua nos dizendo que aadaam e sua contra-parte, a fêmea, viviam em meio a um jardim, do Éden, isto é, Jardim das Delícias. Quem não gostaria de habitar num Jardim do Éden, de Delícias? A resposta penderia para o positivo até que nos déssemos conta que tal Jardim também era habitado por outras criaturas de Elohym, dentre elas a serpente, a mais astuto de todos os animais selváticos. Ficamos a perguntar: ou a serpente é de fato, segundo o relato de gênesis, uma criatura de Elohym que como o restante da matéria era uma coisa boa, ou a serpente era uma criatura imaterial, portanto, criado por Deus, mas não possuidora do estatuto de ser uma boa coisa, ou ainda a serpente, tal qual Elohym, seria incriada, não tendo início: habitante da eternidade. Poderíamos ainda pensar que a serpente passou a habitar o Jardim de Éden em momento posterior ao término da criação, ou seja, após Deus ver que tudo que havia criado era bom. Assim, tudo era bom antes de ser habitado pelo mal.

Cabe aqui um parêntesis, para nós que gostamos tanto de patchwork bíblico, isto é, este corte e cole tão facilitado pelas novas tecnologias cibernéticas e informáticas, esta manipulação teórica dos textos que nos possibilita qualquer conclusão apressada. Cabe aqui lembrar o que Jesus nos falou: Sejam astutos como a serpente e simples como as pombas. Uma amiga nos lembrava que a astúcia da serpente está posta em primazia à simplicidade das pombas, ainda que andem juntas. È como aqueles casais de japoneses tradicionais (pelo menos segundo certa caricatura que nos fazem deles o cinema) em que o homem e a mulher andam juntos, ainda que ele esteja a alguns passos à frente dela. Estranha esta fala de Jesus, associar a astúcia da serpente à simplicidade da pomba na proposição da ordem dos valores que regeriam nossas determinações. Podemos ainda pensar nesta dupla presença da astúcia e da simplicidade como a ordem dos shows de rock, onde primeiramente abre o show uma banda menos expressiva e depois a banda principal. Mesmo que possamos pensar a partir destes dois prismas, é surpreendente imaginar num show musical uma banda de rock e um quarteto de cordas compartilharem o palco sem que isto implique em ajustes forçados. A estranheza se avilta quando ressaltamos o uso da figura simbólica da serpente. Devemos ainda pensar se o próprio Jesus estaria propondo aos seus amigos um procedimento que ele mesmo não estaria disposto a viver, ou se ele mesmo era astuto como uma serpente e simples como uma pomba? Ou seja, se nele havia esta habitação harmônica da serpente e da pomba? Do animal rastejante e daquele que voa.

Mas, retornando ao Éden, devemos notar, também, que lá é o lar da serpente! Caso mantenhamos nossa propensão metodológica ao pachtworkismo, então podemos propor outra explicação para a presença da Serpente no Éden. Podemos ir até o livro das Revelações de Jesus Cristo e ler que houve uma batalha nos céus e a antiga serpente foi derrotada e lançada à terra, juntamente com um terço das estrelas dos céus. Esta perspectiva nos aproxima da hipótese de que tudo era bom até que o mal foi precipitado sobre a matéria. Temos daí inúmeros problemas, um deles é que embora saibamos o destino da serpente, não sabemos nada de sua origem, segundo, como pode a serpente ter habitado anteriormente o céu, terceiro, porque YHWH permitiu que a serpente viesse trazer o mal para um lugar em que tudo era bom? Não importa se a serpente seja tomada como um habitante da terra com escritura de posse, ou apenas um posseiro, o fato é que ela está na terra, rastejando, espreitando, observando, falando coisas aos ouvidos dos homens e mulheres que os fazem querer algo mais do que o Éden. Mas o Jardim das Delícias sem a serpente não é o Jardim do Éden. De fato, o Éden além do Éden não é a escolha pelo conhecimento, como que se estivéssemos numa trincheira moderna em que o religioso digladia com o positivismo científico, pois ambos participam de um mesmo conflito que não é o de Jesus. Mas tal escolha passa pela determinação da auto-suficiência deste trio terrestre, isto é, o banimento de tudo o que ultrapassa e denuncia os limites de nossa existência e o apoderamento da terra por um pretenso poder infinito e total. Podemos suspeitar que tal relato não aponta, como querem nos fazer crer os positivistas e seus descendentes, assim como os religiosos e seus discípulos, a um embate entre religião e ciência, entre a fé e o conhecimento positivo, entre a superstição e o saber. Não! Ciência e Religião são apenas dois nomes das cabeças de uma mesma Hidra, ou, caso queiramos, do dragão do Apocalipse. Antes, suspeitamos podermos ler este relato como uma crítica ao nascimento da metafísica, ou seja, de uma saber transcendente, de uma pretensa possibilidade humana de, pela razão, dar conta de toda a existência por meio de elaborações dentro da linguagem. Uma coisa é o homem usar a linguagem para viver em meio às coisas e nomeá-las, e outra é o homem usar a linguagem para ser semelhante a Javé, e conhecer o bem e o mal, ou seja, transcender seus limites e imaginar sereias e musas.

O certo é que nós, que nos chamamos de humanos, adoramos o poder. E, como já nos falou Bacon, saber é poder. Nenhum saber é maior do que aquele que escapa ao sensível, que exige que observemos atentamente como uma serpente para o supra-sensível e vejamos o que somente os deuses vêem. E não há nada mais metafísico e transcendente que o poder. Somos como aquele desenho, “Pink and the brain” e acordamos todas as manhãs e nos perguntamos: o que faremos hoje neste imenso laboratório da vida? Já sei. Conquistarei o mundo! Elaboramos discursos no interior de um determinado saber para dominar o mundo.

Mas, tudo isto ainda nos parece ser apenas uma parte de um jogo infantil, mesquinho. A questão são as conseqüências. Aqui cabe um segundo parêntesis. Há pessoas financiando pseudo-pesquisas arqueológicas que visam determinar o exato local geográfico (latitude e longitude) do Jardim de Éden. Poderíamos dizer que nos aproximaríamos mais rapidamente deste local, de um Jardim onde qualquer um pudesse se deliciar, caso direcionássemos tais verbas para a melhoria das condições trágicas de vidas de bilhões de pessoas. Mas este é outro assunto.

De fato este não é outro assunto, mas apenas a mesma face de um mesmo assunto, como lados de uma mesma moeda. Vivemos num momento crítico de nossa existência como civilização em que nos parece que a lógica do Éden se inverte, isto é, enquanto este era um Jardim das Delícias, criação de Deus, mas que habitava nele uma serpente, uma possibilidade de mal, hoje parece que vivemos o Mal Total e, aqui e ali, deparamos-nos aleatoriamente com luzeiros da Graça. Cabe-nos, mantendo a metodologia de pachtwork, lembrarmos as palavras de Jesus: vós sois luz num mundo em trevas. Existe aqui e ali lampejos que nos fazem lembrar da possibilidade de luz, mas são as trevas que predominam nossa existência. As trevas têm primazia sobre a luz, como a serpente sobre a pomba. Parece que o homem e a mulher saíram do Jardim de Éden às 18 horas e hoje vivemos em meio a um lugar árido à meia-noite.

Claro, não apresentamos nenhuma conotação escatológica-escapista a esta metáfora. Apenas ressaltamos a face negra de nossa existência no início do século XXI. A segregação étnica, a violência religiosa, a desesperança política, a falência dos sistemas de saúde e de segurança públicas, a ausência da amizade como elo cívico, a preponderância dos interesses nas relações, a manipulação dos corpos, a materialização da vida, a sistematização técnica-matemática do mundo, a obsolescência do animal humano, a desreferenciação ética, etc.

Neste contexto a Igreja discute fórmulas e formas de tomar do poder, de se inserir no campo do poder, aquele que foi perdendo desde há quatrocentos anos atrás. Oram a Deus para tomar os montes altos do poder sobre as mídias, as artes, a economia, a ciência, a política, a religião e a família e esquecem, sintomaticamente, que Daniel profetizou que a rocha (ainda pachtwokismo) poria abaixo a estátua, ou seja, o poder. A rocha que sai da terra não edifica uma estátua nova ainda mais sublime, mas põe abaixo a que existe e deixa tudo ao nível do solo. A Igreja tem estado, ao longo dos séculos, imbricada ao Poder, portanto, a única grande heresia que subsiste é a ortodoxia hegemônica que eclipsa os luzeiros que teimam brilhar à meia-noite, caso aceitemos que o mirada da rocha é feita na estátua do poder. O Mal Absoluto avança enquanto discutem uma maneira de radicalizá-lo.

Vemos cada vez mais próximo de nós, ocorrências que atestam o mal se radicalizando. Maníacos que promovem assassinatos em série; filhas que matam os pais com golpes de canos de metal, enquanto eles dormem; pais que assassinam suas crianças, precipitando-as ao vazio; homens que matam jovens oferecendo suas partes esquartejadas aos cães; crianças arrastadas por veículos, e tantos outros exemplos aqui sonegados. Antes o mal radical era encontrado nos loucos ou nos bárbaros, agora os sãos e os civilizados radicalizam-no. Somos quase que impotentes diante dos tsunamis, terremotos, rios que levam cidades, etc, mas somos protagonistas ativos, tanto da violência pública, quanto do descaso com que tratamos as vítimas dos desastres naturais. A fome na África Negra, acompanhada pela miséria e guerra pelo poder; a exclusão social promovida por um sistema econômico injusto; a mentira pública cínica e eficiente; e miríades de outros exemplos nos fazem perceber como as trevas são hegemônicas.

Contudo alguém poderia nos dizer: mas percebamos os avanços na ciência, os medicamentos, a informática, a ciência aeroespacial, a nanotecnologia, a engenharia genética, a robótica, as telecomunicações, etc. Notemos o aumento da perspectiva de vida. É aqui que talvez o mal se radicalize e se torne extremo e sombrio, o sombrio negativo, o eclipse da crítica. Permitamo-nos, aqui, uma breve digressão e recordemos Santo Agostinho e a gravidade de seu pecado. O Santo nos lembra de Catilínia, cidadão romano combatido por Cícero por ter cometido toda sorte de violências e atrocidades contra Roma e os seus, por volta do ano 40 a.C.. Mas nos fala Agostinho que o seu próprio pecado excedia os de Catilínia, pois que ainda era mais radical. Qual seria este seu pecado? Conta-nos que em certa noite, seus amigos e ele, perambulando pelas ruas de sua cidade deparam-se, num jardim interior de uma casa, com uma árvore frutífera e seu fruto pronto para a colheita. Pularam o muro, apossaram-se do fruto e fugiram, sem que consumissem posteriormente o fruto. Aquele ato não tinha motivo: nem a fome, nem alguma forma de vingança, nenhum agente motivador, nada, apenas a vileza. Roubar um fruto pelo simples fato de que ele estava ali para ser pego. Este é o Mal Radical, o Mal em si desprovido de razão e interesse. O que devemos ressaltar com esta história é que o Mal Radical não traz, para Agostinho, um sentido, uma razão, um motivo, por isso é radical. Retornando de nossa divagação, podemos perceber que o Mal pode estar ocultado sofisticamente por um Bem Radical: a Técnica é o ópio do povo. Enquanto uma parcela mínima da população mundial se beneficia das técnicas, esta população que tem acesso aos recursos quantitativos e qualitativos de saberes e benefícios, embriaga-se com tais delícias e deixa de perguntar sobre o Mal Radical que assola a esmagadora maioria do planeta. Não apenas as pessoas assoladas, mas o planeta assolado: terra arrasada.

Somos como um exército invasor que enquanto avança em seu projeto técnico de dominação da natureza, solapamos e arrasamos aquele que a nós é submetido. A técnica posta hegemonicamente e soberanamente acima da vida do planeta promove pelos menos duas conseqüências: primeiro o de causar efeitos colaterais ao nível global e irreversível; segundo, de submeter o indivíduo a um sistema totalizante e homogeneizante que faz com que o animal humano seja descartável e substituível. Substituível não apenas por outro animal humano, mas, expansivamente, por uma técnica, por uma máquina. O homem naturalizado é, igualmente aos demais seres naturais, objetivado e dominado pela técnica. A técnica embriaga o humano tirando dele a capacidade de crítica a esta engenharia de dominação. O Mal é Radical pois de um lado é entorpecente e de outro é excludente. Aquilo que se nos apresenta como luz, de fato é droga, é pharmakon.

Mas a terra é boa!

Não nos cabe aqui a posição leviana e hipócrita de sugestão de um abandono das técnicas, de uma revolução sangrenta como a dos tiranos ateus Robespierre, Stalin, Hitler, Pol Pot, etc. Mas de um retorno às criticas que nos são oferecidas por Jesus que em sua oração diz ao Pai: não vos peço que os tire do mundo, mas que os livrai do mal. O mal que devemos enfrentar não é o das técnicas, dos saberes, mas o da entorpecência. Poderíamos parafrasear Jesus, segundo uma dada perspectiva contemporânea dizendo: não peço que eles deixem tal ordem minimamente harmonizada de saberes e culturas, mas que eles sejam libertos do torpor causado pela embriagues redundante da auto-suficiência ilusória dos saberes e culturas. Não são os saberes e a cultura que nos são o Mal Radical, mas o fruto que daí viremos comer, a ilusão da autonomia. Uma autonomia que nos conduz à ilusão da soberania e esta à falácia do poder de dominação e subjugação da natureza. O que de fato está em processo de subjugação, dominação, obsolescência e extinção é o animal humano. Não a extinção pela morte, mas por substituição. De certa maneira já fomos substituídos pela máquina econômica, da qual somos coadjuvantes e operadores secundários.

Quero pontuar aqui um exemplo enfadonho, mas aplicável. Ao comprarmos um produto ou contratarmos um serviço e constatarmos uma inadequação entre o prometido e o entregue, buscamos uma área da empresa fornecedora que nos deveria facilitar a solução do problema. Discamos para um 0800 qualquer. Este 0800 nos dá acesso a uma voz que faz a interface entre nós, consumidores, e um computador. Esta voz nos fará uma série de perguntas e digitará as respostas no computador. Ao fim a voz nos dirá: sua requisição foi cadastrada e direcionada ao departamento competente que procurará dar uma solução. A voz pode ser a de qualquer um: homem, mulher, gay, lésbica; Maria, Paula, Joana, Felipe, Manuel, Robson, etc., não faz a mínima diferença. O que opera é o computador, ele quem diz à voz e ao consumidor quais perguntas devem ser respondidas para que a solução possa ser buscada e providenciada. Se um dia obtiverem eficazmente uma voz que imite perfeitamente a voz humana e um reconhecedor de voz eficaz que preencha corretamente os campos dos questionários, os operadores de telemarketing serão inexoravelmente substituídos pela técnica. A técnica permanece.

Enquanto a Igreja procura sua origem no Éden e seu destino no paraíso, acovardando-se e excluindo-se da responsabilidade de tornar a vida boa por uma crítica radical ao Mal Radical, este, como um vírus da SIDA, se alastra como bomba-relógio. Não se pode esconder a luz debaixo no porão, mas no centro da sala para que todos se beneficiem. Amém.