Eles não sabem o que fazem
Em Babel encarcerado
Persona, altista falante
de um cosmos cúbico.
Solipsista de olhos abertos,
contemplador de paredes.
Masturbador lógico,
Narciso monolingue
Adão ptolomáico
Instrumental instrumento
Anti-entrópica machinnes
Descer as escadas, paralisia da obra
Negociar minhas palavras
Aprender a traduzir
Fechar os olhos
Transpassar a suficiência
Encontrar você
Amar você
Hospedar você
Perceber o infinitésimo descentrado
Desfazer fortalezas
Arriscar uma nudez impossível
Rasgar o roto, tecer o linho
Odres sem couro, gotas em nossa terra
Sacrifício sacrificado e último
Na imolação da tirania
Abandonar o sangue coagulado
Suprimir a violência
Em seu império derrotado
Tatear para a justiça
Salvação dos bodes.
A quem fala o que submerge?
No deserto, aos nômades, aos gafanhotos, à
areia!
Quem é este que vêm a ti?
Andarilho que atravessa o córrego num
mergulho!
Não sou digno de tua submersão,
Te tua subversão.
Como falar aos que se encastelam?
E se isolam nas ilhas? Marcam fronteiras?
Como imputar-nos a verdade
Se não sabemos o que fazemos?
Quem é o pedagogo de uma nova esperança?
Onde se dará o acontecimento de sua
presença?
A quem se dá o anúncio da natividade?
Quantos estarão aos pés
de seu derradeiro sacrifício?
Por quem virá a boa-nova de sua ressurreição?
Como crerão se não têm quem pregue?
Como pregarão se não caírem ao chão, à terra?
Qual batalha lutarão senão àquela
contra o império?
Os que dominam? A tirania?
Haverá ainda fé na justiça?