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O Casamento do meu amigo.

Apresentamo-nos a esta celebração, na qual cada um trás um convite de uma dádiva de um ágape aguardado e festejado. Estamos hoje aqui congregados, em fé a Deus do qual esperamos sua graça, pela memória e tradição de nossos familiares de quem trazemos as marcas mais profundas que nos provê as primeiras referências, e em meio aos amigos, os quais nos são como uma família ampliada, para festejarmos com a Renata e com o Álvaro Arthur, estes que pelo amor mútuo e singular esperam que deste ato inaugural se dêem, não apenas mutuamente, mas solidariamente, em uma caminhada que nomeamos casamento.

Vale lembrarmo-nos de como chegaram aqui, e, talvez, esta lembrança suscite em nós a questão do convite mútuo, extensivamente múltiplo, que nos acolhe e que nos coloca a todos congregados nesta celebração de vossa alegria singular e festiva. A alegria, a esperança e a fé que vocês retornam é o presente em nós neste momento, e ao nos convidar, torna-nos guardadores de um convite recíproco. Nosso convite vos diz que nossa presença, neste momento que a vocês pertence, há profundos laços de amor, amizade e compromisso. A dádiva de um compartilhar, de um tornar comum do que é vosso a nós e do que é nosso a nós. E, de certo modo, a celebração na qual estamos congregados como dádiva mútua, expõe-nos a uma dívida nunca plenamente passível de quitação. É esta dívida que a alegria festiva, a esperança irradiante e a fé num caminhar solidário, os quais os dois trazem à presença como convite de uma festa, que gostaríamos de falar.

Trazemos as marcas de memórias particulares e comuns, aquelas que nos lembram de como chegarmos até aqui, mas que talvez não sejam suficientes para, sozinhas, nos conduzir para além deste momento. A tradição se faz indispensável, mas o que aguardamos, ao nos pormos neste caminhar chamado casamento, reclama por algo que nos permita um ir além. O que está no centro desta festa é uma nova família na qual se cruzarão memórias e tradições, desejos e sonhos individuais que se partilharão e serão afetados pela presença do outro, de tantos outros. Mas ao dizermos “nova família” já percebemos que o centro se move de um velho lugar para um novo e a tradição já não pode ser o fundamento único e absoluto deste espaço que se abre. Por isso invocamos a fé, a esperança e a alegria como complemento da memória.

Paulo, o apóstolo, diz-nos que “não vivemos por vista, mas por fé”, e em outro lugar lemos que a fé é certeza de fatos que não vemos e é a convicção da esperança. A fé não é a certeza de que nossos planos e as projeções de futuro, feitos partindo de nossos desejos ideais, idealizados pelo romantismo e por uma memória falaciosa de uma era de ouro, serão confirmados e realizados num tempo por vir. A fé é a certeza, não de uma ante-visão paradisíaca de futuro em que o tempo se fecha e não há mais futuro, mas tão somente reproduções doentias. Mas há a fé de que nada ou quase nada podemos nos certificar deste tempo que se nubla e se oculta num aberto infinito, da impossibilidade de olharmos para ele e visualizarmos qualquer coisa concreta ali, a não ser esperarmos operantemente que os sonhos se realizem enquanto caminhamos. O futuro, assim, é aquele que se abre a cada momento de decisão, a cada passo, a cada acaso. Lembramo-nos de Renato Russo que nos diz que “devemos amar como se não houvesse amanhã, mas se pararmos para pensar, de fato não há.” Tal futuro não está sujeito ao controle das leis descritas pelos nossos desejos, mas à esperança de que ele apenas se abra a nós e possamos passar pela porta desta abertura de fé. A esperança de futuro seria um convite para a fé! A esperança na fé e a fé esperançosa como um não ao não.

Neste ponto em que uma dupla negação se nos apresentou, convidamo-nos a ler um pequeno texto de Franz Kafka, intitulado “Desista!”:

Era de manhã bem cedo, as ruas limpas e vazias, eu ia para a estação ferroviária. Quando confrontei um relógio de torre com o meu relógio, vi que já era muito mais tarde do que havia acreditado, precisava me apressar bastante; o susto desta descoberta fez-me ficar inseguro no caminho, eu ainda não conhecia bem aquela cidade. Felizmente havia um guarda por perto, corri até ele e perguntei-lhe sem fôlego pelo caminho. Ele sorriu e disse:

- De mim você quer saber o caminho?

- Sim – eu disse -, uma vez que eu mesmo não posso encontrá-lo.

- Desista, desista – disse ele e virou-se com um grande ímpeto, como as pessoas que querem estar a sós com o seu riso.[1]

Podemos interpretar o que Kafka está dizendo aqui, pela perspectiva desta festa de alegria, esperança e fé da qual comungamos. Lemos que é cedo, portanto aquele homem pode programar seu futuro sem atropelos, percebendo que não há impeditivos e que sabe para onde vai e qual via deve tomar. Ademais, tem algo nele que o permite balizar, controlar seu tempo: o relógio que informa sobre o eterno presente, marcando o compasso de sua vida. O tempo que está sujeito à máquina de controle, o tempo já é o tempo controlado, marcado, ritmado. Mas há um outro relógio, uma máquina de controle universal, que dita a todos os relógios o tempo correto, e o homem confronta e afere seu relógio com este Grande Relógio. O homem no tempo, tal qual a hora se divide em minutos e estes em segundos, é controlado pelo equipamento que divide e secciona suas respostas em cada tic e tac. Este Relógio afere seu compasso ao compasso de um tempo que se impõe a todos, não o tempo, mas o tempo controlado pela máquina: o tempo controle. Aquele Grande Relógio está acima de todos os relógios particulares, individuais e é parâmetro universal do tempo que rege todos os tempos.

Por isso aquele relógio o assusta e traz insegurança, pois seu ritmo pessoal não é segundo os tics-tacs daquele. Está sempre atrasado, quando acreditava ser cedo! Então, dirige-se àquele que representa a norma, que sempre torna presente a lei e afere seu cumprimento e, sem fôlego, pergunta-lhe pelo caminho correto. Haveria, pensa ele, uma saída quando se descompassa: encontrar a lei do caminho. A lei do tempo e do espaço, dispositivo que o antecede e está acima de todos, universais apriorísticos, ainda que a todos policie nas ruas, somente fala sobre a conformidade de cada um até aquele momento, mas nada diz sobre as decisões e do futuro. A lei somente pode dizer para que o homem desista de futuro e conforme-se ao relógio que sempre marca o presente do atraso de todos e se circunscreva ao mesmo espaço que a todos contém. Dito isto a lei se retrai, rindo daquela busca. Não é no Grande Relógio que o homem encontra o que busca e que não pode ver, e Kafka, aqui, não nos fornece qualquer pista deste tempo presente e passado, deste espaço aqui e acolá, que possa ser norma de projeção de futuro e de encaminhamento. Procuremos-la em outro lugar, assim convido-os a outra leitura.

Na primeira carta de João aos seus amigos podemos ler:

...sim, o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que o nosso gozo seja completo. E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e nele não há trevas nenhumas.Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, mentimos, e não praticamos a verdade; mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus seu Filho nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.[2]

Pensamos: que momento inadequado para se falar em pecado, mentira, lei e controle! Que paradoxo, pois enquanto a leitura de Kafka nos conduz a um ponto em que as normas universais e os parâmetros legais vigentes indistintamente a todos não nos fazem outra coisa a não ser repetir sempre: “Desista!”; por outro lado o texto de João parece trazer um peso sobre nós. Um peso de culpa pela qual devemos, como se fossemos um torturado, confessar a dívida, sempre e sempre, desistindo de nossa inocência. Dupla desistência! Somos confrontados por uma dívida impagável do atraso e do desvio e por um controle absoluto de um olhar divino que nos faz cair em terra e repetir incessantemente: perdoa-me Deus, pois pequei! Nosso relógio pessoal que se encontra em desconformidade com o relógio divino, diz-nos: desista, é tarde! E isto num casamento?

Mas será que é este o convite que nos faz João? O evangelista que mais adiante nos dirá, “Deus é amor”, estaria apontando para o pecado como uma transgressão à lei, à lei como moral? Estamos tão conformados com o tic-tac da lei, da norma, que moralizamos o pecado. O pecado nos tem sido a norma de um Grande Relógio que nos diz: agora isto, depois aquilo, mais tarde aquilo outro. Como escapar deste som que a todo tempo nos faz olhar para o alto e verificar nossa dívida, nossa culpa, nosso atraso, nossa perda?

Naquele tempo, sem relógios, em que nos escreve João, tempo em que o tempo deixa de fazer sentido, pois que é tempo de fim de tempo, a palavra pecado significava “errar o alvo”. Ao dizermos “errar o alvo” pretendemos apreender o significado de o ato pelo qual nós olhamos para o Grande Relógio, que a todos declara o tempo ideal e faz-nos certificar que nosso relógio nos mantém em atraso permanente. “Errar o alvo” é olhar para o lugar que é um não-lugar, lugar algum, deslugar, paranóia coletiva. Este lugar que mesmo não havendo relógio, a máquina de controle do tempo, há um Grande Relógio, um controle que nos dita o Ideal, a Idéia da qual somos devedores inadimplentes e martirizados. Há um ideal que sobre todos paira como padrão e verificamos em nós, como polícia de nós mesmos, uma realidade aquém. Este Relógio está sobre mim e sobre você, sobre nós. Este relógio que está sobre nós, também está entre nós, certificando que olhemos para o alto e nos conformemos ao seu tic-tac, na mesma medida em que diz: “Desista!”, você não poderá pagar a dívida.

Mantendo nosso olhar para o alto, idealizamos nossas vidas. Desejamos casamentos ideais, cônjuges ideais, filhos ideais, casas ideais, trabalhos idéias, sociedades ideais, governos ideais, níveis ideais, etc...Olhamos para cima e percebemos nosso pecado, confessamos nossa culpa, incansavelmente, até que percebemos que desistimos de viver. Desistimos de que vida? Desistimos de nossos casamentos, nossos cônjuges, nossos filhos, nossos sonhos, nossas profissões, nossos prazeres, nossa vida. Em grande parte seria a crença neste Grande Relógio que nos faz estabelecer relações de culpa, pecado, juízos, dominação, normatização, desistência.

De fato desistimos de perceber que não há este Grande Relógio, isto é, ele existe para aqueles que crêem que ele apresenta e representa um padrão de tempo absoluto e universal e que rege o ritmo de todos igualmente apontando sempre o verdadeiro caminho. Erramos o alvo quando cremos no Grande Relógio, que um relojoeiro produziu para ordenar nossa vida, face o risco do caos. Erramos o alvo quando mantemos o olhar fixo para cima e pautamos nossas relações nos ideais aos quais devemos nos conformar e forçamos os outros a serem conformados. A crença no relógio é nosso erro de alvo, pois enquanto estamos olhando para cima, não vemos aqueles que nos cercam.

Ao dizermos isto, percebemos que podemos entender das palavras de João da seguinte maneira: se dissermos que não temos pautado nossas vidas com falsos e impossíveis ideais, aqueles que não podemos cumprir e impingimos isto aos outros também, como representantes legais deste verdugo e portadores desta chave que nos prende a esta masmorra escura e desprovida de luz, mentimos e torturamos uns aos outros com um peso impossível de carregar; mas se, como o Cristo que se fez homem e habitou entre nós, olharmos o nosso próximo e a nós mesmos como habitantes de um mundo em que cada qual tem seu próprio relógio e seus caminhos, mesmo estando desprovido de uma máquina de controle individual e, sobretudo, quando estamos desprovidos deste equipamento, e que devemos buscar ajustar nossos ritmos uns aos outros e fazer cruzar nossas múltiplos caminhos uns pelos outros, então, poderemos ter tempo para nos aplicar a uma vida em comum, termos comunhão uns com os outros.

Mais adiante dirá João: “Deus é amor”. Podemos desviar nosso olhar do Grande Relógio, produzido por nossa crença, e reconhecer a proximidade daquele ou daquela que faz ombro conosco e trabalharmos empenhadamente para ajustarmos nossos ritmos. A possibilidade não reconhecida, não visualizada por Kafka e não apontada pela lei do Relógio, talvez nos abra novos e inusitados caminhos. Assim, retomando João, podemos indagar: o que é Deus? Lembramos de Santo Agostinho que por volta do ano 400 d.C. nos diz: “Que consegue dizer alguém quando fala de ti? Mas ai dos que não querem falar de ti, pois são mudos que falam?”[3] Nada podemos falar de Deus, mas nada podemos falar se a fé, a esperança e o amor divinos não moverem nossas palavras. Desistimos, pois é tarde. É tarde para falarmos de Deus, ele está morto e seu jazigo está nas catedrais, mas não dizemos nada se não falarmos de Deus.

Ainda restaria a questão: o que é o amor? Na língua usada por João e Paulo, amor deve ser traduzido como a alegria na presença do outro, festa diante daquele que se aproxima! O amor não é um Ideal, um Grande Relógio, impossível de acompanhar seu ritmo. Por isso usamos sempre as palavras festa e alegria anteriormente. O Deus silencioso em nós é a alegria na presença do outro e o festejar do próximo que se aproxima, do qual nos aproximamos. Não é a festa de Deus em nós na presença do outro e nem a alegria na proximidade do humano, mas, a nossa festa diante e entre nós e pelo que se nos torna próximo, movido pelo espírito divino que é o Emanuel: Deus conosco. É a nossa festa comum! A festa, isto é, o amor, é a suspensão da lei e da norma, um desviar do olhar que se fixava no grande Relógio e vê o outro e se torna a vigência da alegria e do encontro. A festa é o liame, a estreita passagem que ficamos nesta porta aberta entre o controle normativo e o caos. Se a fé nos permite perceber o futuro como esperança, o amor nos faz olhar o próximo não sob o peso de um ideal, mas conforme a nossa própria humanidade rica e finita. E o amor, como festa na presença do outro, que este casal que se ama e nos inspira, nos faz desejar ir além das badaladas do Relógio. Congregamo-nos nesta festa e estamos em dívida de amor.

Por este caminho encontramo-nos de volta no lugar de onde saímos, mas esperamos que este lugar já seja outro. Voltamos ao convite a um casamento e a festejar a alegria de nossos dois amados. Festejamos esta união não como quem sabe das bênçãos que os aguardam o futuro, ou como conhecedores das estações e dos caminhos, como guardiões dos ritmos alheios, mas como quem espera que a fé mútua os dinamize para além das vozes da desistência, e o amor comum e renovado a cada presente mantenha seus olhares postos não apenas num no outro, mas entre todos que estão próximos e que se aproximam.

Resta uma última palavra, para a Renata e para o Álvaro Arthur: não há normas, leis, regras, grandes relógios e relojoeiros, alguém que indique caminhos curtos e fáceis para o casamento, criação de filhos, enfim, para um mito chamado felicidade que sobre nós flutua como um fantasma sugador de vidas. Contudo há próximo, quando lhes faltar fôlego, policiais que lhes dirão, “Desista!”. É neste momento que podemos lembrar das palavras de Paulo que nos fala: resta a fé, a esperança e o amor, porém o maior dos três é o amor. Diante das trevas de um futuro incerto face um presente incontrolável, resta uma esperança que nos faz ir além das circunstâncias visíveis e a alegria indizível de um caminho memorável trilhado e o gozo festivo da companhia daquele ou daquela que na noite mais tenebrosa e escura, em meio a qual tateamos seu rosto marcado e dizemos: como é bom estar como você sempre!

Por fim diríamos sobre a dívida impagável, trazendo à lembrança novamente a Paulo, diz ele: “a ninguém deveis coisa alguma, exceto o amor a que vos ameis uns aos outros.” Amém!



[1] KAFKA, Franz; Desista! (in) Narrativas do espólio; São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pg. 209.

[2] I João 1: 6 a 10

[3] AGOSTINHO, Santo; Confissões; São Paulo: Paulus, 1984, pg. 18 e 19.