Há coisas que nos fazem prestar atenção, com mais atenção. Neste instante percebemos que as leituras que fazemos da vida, baseados em inúmeros elementos interiores e exteriores, diferem substancialmente das leituras de outros. Algumas leituras de terceiros, embora divergentes, antagônicas, conflitantes, colidentes, são tão verdadeiras quanto a verdade que está naquilo que vemos. Mas, há outras, que embora pareçam iguais, similares, tendo o mesmo fundamento e ponto de partida, aparente, são inconciliáveis, transitam em mundos, que os físicos diriam, da anti-matéria: anti-verdade.
De fato, há ideologias que ressoam com o que o povo quer ouvir. A “verdade” dita por homens, fluem quase que sem restrições, pois assumem o papel de apenas tradutores de “verdades” interiores, reveladas através da boca de um ícone sócio-cultural, que agrega por seu carisma e por suas armas, o desejo de toda uma nação. A “experimentação” das teorias de David Ausubel. Aprendem o que eles querem aprender, ouvem o que querem ouvir, valoram o que já tinha valor.
Nações - assim interpreto sem haver dados sustentadores – que haviam passado por períodos históricos de desarranjo estrutural: pós-guerras, governos incompetentes e relapsos, crises institucionais, perda da noção de valor e auto-estima nacional, ou seja, desesperança generalizada. Quando se levantam líderes catalisadores de esperança popular, já não se julga mais a ética de suas ações, como quem busca códigos de valores supremos (moral metafísica), mas aceita-se a ordem sugerida ou imposta, à luz da moral local (doutrina das virtudes), ou o bem-estar proposto pelo “senhor das luzes”: o sistema filosófico e ideológico.
Apenas um homem com uma tecnologia eficiente, conduzindo milhares a uma anti-verdade, cujo propósito e promessa é o bem-estar nacional, mas que a práxis é Ninrode.
Ainda estava “fresco” em minha memória o programa do Discovery Channel sobre o hitlerismo e sua ideologia, quando ouvindo o rádio, deparei-me com um programa de um sujeito “entendido em escatologia cristã scofieldiana”. Neste programa o “patrono” exibia uma propaganda de fitas sobre “o fim dos tempos”; a cena era de um homem de voz grave, que dizia: “ou vocês se dobram à imagem da besta, ou morrerão!” Algumas pessoas então clamavam pelo nome de Jesus e logo depois eram mortas a tiros. Seguidamente a isto o “patrono” falava que na vinda do “anti-Cristo”, serão instalados chips GPS em toda população mundial e assim este ser das trevas controlará a vida de todos os habitantes da terra, exigindo total e irrestrita submissão à Satanás. Toda esta lógica tem sua sustentação em interpretações da Bíblia e pela tecnologia (interpretadas por eles como sendo anti-cristã) da informática, telecom e bélica.
É claro que esta teologia (teo-ideo-logia) prega que o bem-estar de alguns salvos promoverá a destruição de bilhões de ímpios. Uma meta-história muito bem articulada, baseada no medo, na moralidade, na culpa, na desesperança, nas “verdades” suportadas por desejos de vingança e felicidade ilimitada.
Neste quebra-cabeças que mistura Ausubel, Discovery Channel, Programas Radiofônicos Escatológicos, demências pessoais, veio-me as mãos um livro editado a primeira vez em 1930, escrito por, ninguém mais do que, Martin Heidegger, filósofo alemão, niilista, nazista, cujo título “Sobre a Essência da Verdade”, trata da discussão sobre a verdade e sua essência. Obra e culpa da indicação de um amigo, que, como eu, busca conhecer Deus nas entrelinhas e rodapés.
Adiando um pouco a discussão sobre a verdade, de fato, lançando este desafio para um tempo mais propício, há algo neste livro que se destaca e que incrementa o entendimento pessoal que tenho buscado a respeito da inserção da Igreja* na lógica moral pós-moderna. Discussão esta que é premente e inadiável.
Em linhas gerais podemos dizer que a proposição de Heidegger, e de tantos outros filósofos, é de que a verdade, ou o verdadeiro, se dá na conformidade da coisa com o que se pensa sobre ela e do enunciado com a coisa, isto é, quando vamos comprar 5kg de açúcar, cremos ser verdade a respeito do produto o que se apresenta na embalagem, pois podemos comparar o açúcar com um padrão prévio do que determinamos ser o açúcar, assim como podemos averiguar os 5kg. A coisa é verdadeira, pois há um padrão prévio que define o verdadeiro e a não-verdadeiro.
Mais adiante é que ele faz uma proposição relevante para a questão atual: “a essência da verdade, entendida como correção do enunciado, é liberdade...a liberdade é a essência da própria verdade.” E acrescentando, ou desenvolvendo este enunciado, diz: “a liberdade descobre-se agora como o deixar-ser dos entes.” Por fim destacamos: “a essência da liberdade, vista à luz da essência da verdade, mostra-se como a exposição ao desvelamento do ente.”
A interpretação desta proposição acima gostaria que fosse feita como um ampliar do tema sobre a “Morte da Moral” e pela fundamentação em textos extraídos da Bíblia, tal como o dito por Jesus: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”**
Ora, desvelar significa tirar o véu, tirar o pano. A figura do véu é um elemento muito importante na cultura religiosa judaico-cristã, pois traz à memória o véu que separava, no Templo de Israel, o lugar onde estava a “Arca da Aliança” e que era permitida a entrada de apenas um homem uma vez ao ano (o Sumo Sacerdote), e do lugar onde eram feitos os ritos e sacrifícios, que podiam ser vistos por todo o povo de Israel. Havia o lugar público, o pátio, o lugar restrito aos sacerdotes onde se processavam os ritos e o lugar privado a Deus e a um Sumo Sacerdote, tendo como fronteira limítrofe, o véu.
Quando Jesus Cristo morreu na cruz, diz a Bíblia que este véu é rasgado, desvelando o ente: o lugar da “Arca da Aliança”, privado a Deus. Jesus inaugura a liberdade de acesso ao que era mistério, configurado pela exposição ao desvelamento do ente: a essência da liberdade.
Deus promove a liberdade em Si mesmo, para demonstrar, revelar a verdade: o mistério é corrompido. Qual o mistério que é corrompido? Deus não está no Templo! Deus está no homem: primeiro em Jesus, agora na Igreja*.
A “Arca da Aliança” continha dentro dela as Tábuas dos Dez Mandamentos, escritos por Moisés: a Lei. A Lei era o instrumento divino que determinava a moral da doutrina das virtudes, ou seja, por causa da Lei se dava a conhecer a transgressão. A Lei definia o que era certo e o que era errado, justo e injusto, santo e profano.
A Lei estava na Arca, ela estava no lugar privado e este no Templo. Deus rasga o véu, corrompendo o mistério, trazendo liberdade à verdade e destrói o Templo, a Lei torna-se ilegal: Deus mata a moral, pela primeira vez.
A verdade, que é Cristo, somente pode ser reconhecida quando Deus propicia a liberdade, ou seja, desvela o ente, caracterizando o deixar-ser do ente. Antes o Senhor era visto a partir das coisas que compunham o composto ritualístico: o Templo, os móveis, os ritos, as solenidades, o sacerdócio, a nuvem, etc. Com o advento da “emanuelização” do Logos (Jesus o Cristo), Deus é visto como Ele de fato é. Não mais pelo sombrear, mas pelo real.
Antes Deus era visto por reflexão de imagem distorcida, agora pode ser visto face-a-face: Cristo. Deus rasga o véu para ser visto; liberta-se para Se dar a conhecer. Deixa-ser para a verdade. Desvela o ente.
Desde então, o Senhor deixa Sua habitação temporária, virtual e passa a habitar no homem, casa eterna, real: inicialmente em Jesus Cristo, agora na Igreja*.
Naquele tempo havia o Templo de Israel, hoje há nossa carne, nosso corpo. Havia a Lei de Moisés, hoje temos a lei que está nos nossos membros***. Havia os ritos e os sacrifícios, hoje temos a religiosidade vazia. Havia o véu do Templo, hoje há as máscaras da moralidade.
Entretanto Deus matou a moral há dois mil anos atrás, pelas mãos dos “ímpios romanos”, que usurpam o poder e destruíram o Templo, que, como dissemos, traz a ilegalidade à Lei: morte da moral.
Agora, o mesmo Deus, pela voz de um ensandecido permite a declaração se Sua própria morte, para que o véu da moralidade seja rasgado, desvelando a verdade, pela liberdade. Já não mais há a imposição da Lei do clero, dizendo qual o código seguir, antes, há a exposição ao desvelamento do ente, o deixar-ser o ser: o homem.
A liberdade, como essência da verdade, que traz à luz o ser sem véu!
Ah! Pode-se ainda levantar um arauto em defesa da moral, da doutrina das virtudes, como um israelita que chora no muro das lamentações, dizendo: restaura Senhor! Pode-se alardear o juízo de Deus, dizendo que o Senhor não tarda e vem, para destruir o mundo e seus amantes! Pode-se criar teo-ideo-logias da não-verdade, apregoando o bem exclusivo da elite santa e beata! Todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam.
Devemos, no entanto, nesta transmutação de valores, fomentado, patrocinado e determinado por Deus, como o foi no ano 70 d.C. com a destruição do Tempo de Jerusalém, buscar os valores essenciais da verdade, que se podem somente obter pela liberdade, que desvela o ser. Estes valores não são mais construídos pelo que se faz ou deixa de fazer, mas pelo que se é e deixa de ser. É o ser, em sua essência, que esta sendo desvelado, sendo desnudado, sendo visto como se é.
O indivíduo não é mais protegido, ou punido, pelo código moral social, nem mesmo com o seu alinhamento à meta-história grupal, antes, sua integridade é obtida nos valores internos que são demonstrados num ambiente hostil.
Como figura e seu simbolismo, percebemos que o véu que está sendo rasgado não é o véu da ignorância, do desconhecimento, do não revelado, pois sabemos, e esta é a crise da teologia e da filosofia dentro da pós-modernidade, o não haver o mistério, antes o véu sendo rasgado é aquele do não querer saber, do desejo ao desconhecer, da determinação à ignorância: a essência da não-liberdade dogmática. As crenças nas meias verdades, sofismas, não-verdades, que trazem violência, exclusão, ira, anti-idéias. As anti-idéias que escravizam pela moral.
O dogma monástico é a moral da doutrina das virtudes.
Assim, a verdade, cuja “definição” foi transferida para outro momento, será fruto de um enunciado estabelecido sobre a essência da liberdade: o desvelamento do ente.
* Igreja: deve haver sempre a distinção entre a instituição para-eclesiástica, formada pelo patrimônio econômico-financeiro, suas doutrinas e dogmas, sua hierarquia clerical, seu sistema religioso, etc e a Igreja. A Igreja é aquela instância declarada por Jesus: “pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mateus 18: 20) A palavra “onde”neste texto significa “em qualquer lugar, a qualquer hora, desde que seja baseado num sistema chamado nome de Jesus”.
** João 8: 32.
*** Romanos 7: 21 a 23.