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A velhinha do Mississipi

Para a geometria euclidiana a menor distância entre o ponto A e o ponto B se obtém por uma reta; na natureza a distância otimizada entre o ponto A e o ponto B se dá pela curva de menor energia potencial.

Para entendermos isto, basta olharmos para um rio; a melhor distância entre a nascente do rio e o oceano, vem de um desenho sinuoso na busca de vales, depressões, quedas, declives, a busca de uma rota continuamente descendente para a água.

Para o ser humano o caminho possível entre o ponto A e um ponto futuro é construído num labirinto.

É claro que a figura de um labirinto é uma simplificação excessiva para a questão da vida, principalmente da vida humana, do sujeito pós-moderno.

Todos nós, independente das bases de crenças, aceitamos um dia a existência de um ponto B, para onde a vida fluía inexoravelmente, como um rio para o mar, para um lugar pré-determinado pelas forças metafísicas. Não me refiro aqui somente à crença religiosa e às expectativas escatológicas, paraíso, luta do bem e do mal, etc, mas está incluso na sentença: Platão, Hegel, Adam Smith, Marx, Freud, Darwin, etc.

A sociedade moderna ocidental teve como coluna de edificação as premissas de um destino, seja lá como entendemos este termo; quer ele fosse realizado pela dialética humana, hegleiana e marxista, quer fosse estabelecido pelo mercado, “senhor das sociedades”, quer fossemos animais em evolução que desembocaríamos num ser aperfeiçoado, ou ainda se víssemos a aparição de um ser humano que encarnasse o “anti-Cristo”, culminando numa grande batalha campal entre o “Bem Supremo” (Cristo e a Igreja) e o “Mal Supremo” (Satanás e seus aliados), as teorias ou as teologias apontavam, direcionavam, para uma visão de um lugar melhor.

Nesta construção humanista de nossa cultura moderna, adentramos na pós-modernidade!

Uma coisa é perceber que a “Moral Morreu”; não precisava ler Satre, nem Nietzche, nem Foucault, era só dar ouvidos às palavras da nossa avó, ou da nossa mãe, quando horrorizadas viam as cenas de novelas e a forma como os netos/filhos namoravam, comparando com seu tempo, suas normas prévias, e como, agora, nem falam mais nada, apenas assistem.

Mas então vem mais esta; entramos na internet e somos informado que no labirinto onde estamos não há ponto B, ponto futuro: apenas o labirinto. Seus caminhos, as escolhas entre direita e esquerda, as paredes retentoras, o ir sem retorno, o som das portas se fechando atrás, ao lado e à frente, solidão, contatos breves, subir, descer, transcender. O passa tempo está no tempo que passamos entrando em novos recintos simulados, com muitas nenhumas portas.

Um labirinto desumanizado, desalmado. Um labirinto hipertextual, polidimensional, transdisciplinar, ultra-molecular.

Este labirinto nos lembra a música de Renato Russo, quando diz “na verdade, futuro não há”. É como se a cada nova porta que abríssemos, um novo ambiente se formaria, se faz e é criado num instante, conseqüência do fato em si e das bilhões de portas que se abriram e fecharam, ao nosso redor: a teoria do caos e o vôo das borboletas amazônicas.

Abrir uma porta, tão pouco é fruto da existência prévia de pelo menos uma porta, do desejo íntimo em abri-la, da capacidade de escolha da porta que nos levará ao atingir do ponto B e dos esforços em girar a manivela e empurrar a porta. Enfim, de um conjunto de regras prévias que delimitam nosso escopo de ação e decisão.

A questão que se levanta na pós-modernidade, que a faz ser quase surreal, é migrar de um espaço para espaços, sem portas e conexões entre eles, aonde as regras do ir não estão nas mãos de ninguém, mas do via-e-vem dos debates e ajustes de poder: as regras são como o futuro, são construídas passo a passo. O movimento não se dá pela expressão de uma fórmula da física clássica, newtoniana, antes, pela física quântica e das probabilidades: dos blocos de energia que salpicam no vácuo. A verdade é construída pelo debate e pela lógica comunicada.

Desnudados e desarraigados.

Chegamos num lugar e logo nos perguntamos: “por que vim para cá? Para onde vou agora?” O sentido deixa de ser o lugar onde se está e passa para a migração contínua. Migramos de revelações velhas, para novas revelações; de conhecimentos obsoletos, para conhecimentos pragmáticos; de igreja, de emprego, de parceiro sexual, de casa, de carro, de roupa, de máscaras...

A migração não se faz pelo intento de ir para, como quem se dirige a um propósito existencial, mas num ir para, como quem deseja maximizar a condição presente e imediata de estar. Não há futuro e não há meta proposital, apenas a garantia de que gozaremos plenamente a relatividade em que estamos.

As relações caóticas se estabelecem das miríades negociais que somos instados, ou melhor, obrigados a estabelecer. Os graus de liberdade são estabelecidos pelos âmbitos de poder relacional. Caos aqui não se refere à ausência da ordem, como é relativo à semântica de caos, mas adotamos o valor conceitual da teoria do caos, onde uma micro interferência pode afetar o equilíbrio do todo.

Para não dizermos que estamos falando de coisas que transitam no mundo incompreensível das idéias, lembremo-nos da velhinha do interior do Mississipi, que entregou sua poupança para ser administrada por um Fundo de Pensão sediado em Manhathan, que aplicou parte da soma total de seus recursos financeiros em Letras do Tesouro Nacional do Brasil, que remunerava a aplicação muito acima daquela oferecida pelos papéis de outros países, mas que por conta de rumores e manipulações de informações, as aplicações em papéis chineses tornou-se mais atrativo; em conseqüência o dólar dispara no Brasil, o Bovespa despenca, o Risco Brasil vai à estratosfera e, num click do mouse, aquele capital volátil e volúvel é transferido para o outro lado do mundo. Os exportadores festejam, os importadores choram, os trabalhadores vão vender amendoim nas esquinas.

Uma borboletinha no Mississipi...

A velhinha não está preocupada com a fome no terceiro mundo, o desemprego, a desnutrição e o crescimento das favelas, antes, está preocupada em que sua poupança aplicada em papéis rentáveis, onde quer que seja, garanta-lhe o pagamento das contas do mês.

Bem-vindo à pós-modernidade surreal!

Sabendo que, pela teoria do caos, a borboletinha que voa sobre o Rio Amazonas é co-responsável pelo desencadear de uma série de eventos que culminam num furacão no Caribe, matando dezenas de pessoas e causando o prejuízo de milhões de dólares. Perguntamo-nos se é correto propor a extinção destas borboletinhas para que possamos reduzir a probabilidade de furacões no Caribe e minimizar o desastre e a morte de inocentes? (Antes que sejamos processados pelo Green Peace, devemos ressaltar que estamos falando de uma condição fictícia, surreal e absurda).

Em outras palavras, como devemos tratar a questão da “velhinha do Mississipi” e a sua legítima reivindicação em obter melhores rendimentos, mesmo que esta demanda esteja atrelada a uma lógica do capital fluídico globalizado, que põe contra a parede economias frágeis e dependentes de investimentos externos? É plausível pedi-la para por em risco a poupança de 35 anos de trabalho, a fim de pressionar os agentes especulativos internacionais a buscarem rentabilidade com justiça social? Ou melhor, justiça social com rentabilidade?

Tratar da “velhinha do Mississipi” como forma de perceber as facetas de nossa migração neste labirinto surreal pós-moderno é fácil, mas se acrescentarmos os “jovens do Alabama”, os “senhores do Arkansas”, as “meninas da Califórnia”, os “latinos do Texas”, etc, cada qual com sua peculiaridade e demanda. Cada um com uma verdade própria, local, legítima e contextual. Cada uma das verdades não metafísicas, não inclusas numa meta-narrativa. Como tratar esta teia pós-moderna surreal, este labirinto contemporâneo, sem a hipocrisia da moral das virtudes que está sendo extirpada de nosso convívio e sendo substituída por um desvelamento e um desnudamento do ser?

A verdade concebível, neste novo arranjo, passa a ser fruto, ou subproduto dos jogos de linguagens, dos embates democráticos, das razões comunicadas, das negociações humanas, dos arranjos? Um grande fórum onde as verdades individuais são transacionadas para a construção de uma verdade grupal? Seria o sobre-homem um deus capaz de decifrar o bem e o mal, projetando uma verdade sem Deus, sem propósito, sem fundamentos?

Mais perguntas do que respostas, entretanto nada pode ser mais contemporâneo do que dizer: “ninguém há que clame pela justiça, ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam no que é caos(1) e andam falando mentiras; conhecem o mal e dão à luz a iniqüidade”(2).

Poderíamos, então, propor que o caos, entendido agora como a ausência da ordem, seja concebido e gerado pela negação de fundamentos e de propósito e que, portanto, se dá pela ausência de uma linguagem única, de um conjunto de crenças compartilhadas que permitam o trânsito da comunicação. “Para-verdades” distantes, sem pontos comuns de referência, que inviabilizam o relacionamento e a unidade.

Também é plausível dizer que este caos tem como fermento a falta de uma visão compartilhada: inexistência de um ponto futuro. Como se ouvíssemos o eco daquele que diz: “onde não há visão o povo se corrompe”.(3)

O arquétipo do caos é a Torre de Babel, aquele espaço, aquela terra aonde há uma impossibilidade de estabelecer uma linguagem comum, a capacidade comunicacional, o poder de transacionar “verdades”, então a conseqüência é a confusão.

Cada Fernandinho-Beira-Mar, cada Cartel, cada Bush, cada Sadan, cada Fidel, cada religião, cada grupo de interesses, cada IRA, cada Palestino, cada Judeu Ortodoxo, cada grupo dogmático, cada Ninrode que não aceita verdades que não sejam as suas próprias e não dialogam por não terem pontos comuns de referência.

Há de se levantar gente com o espírito de pacificador, edificador de pontes, construtor de estradas, gente dialógica, com forte fundamento, não dogmático, e claro discernimento de propósito, de busca de unidade, não obtida pelo terror e pelas armas, mas pela graça e ética metafísica cristã.

Sabendo que Deus não formou a terra para ser um caos(4), devemos como agentes divinos, luz e sal, em meio ao labirinto de nossa existência, não aceitar passivamente a imposição da influência surreal pós-moderna da inexistência e negação de nossos fundamentos (5), e da realidade de um propósito para nossa existência (6).

O fato é que nós estamos no labirinto e somos, nós mesmos, parte deste labirinto, viabilizamos ou impedimos migrações, geramos novos espaços e destruímos espaços: estamos no mundo. Somente somos humanos enquanto estamos na terra, o espaço do saber. Nossa posição não é para deixarmos de ser humanos e transcender o material, antes, estando em condições similares ao de nossos parceiros de labirinto, conduzir a jornada a partir de paradigmas distintos e prevalecentes, no mundo.

A proposta para o povo que é chamado de Igreja é de reproduzir a postura de um homem chamado Cristo, que se misturando ao mundo, não se tornou mundo, mas divinizou a terra. Cristo amou o mundo de tal forma que se lançou à terra. Assim, em cada novo espaço deste espaço chamado labirinto vivamos intensamente o propósito, como se de fato tivéssemos chegado ao ponto futuro, sabemos que a jornada não é qualificada pelo espaço que ocuparemos, antes pela excelência de ser: o propósito não é chegar num lugar, mas ser um ser.

1 – A palavra em hebreu para caos é “Tohuw” que também é traduzida por sem forma (Gn 1: 2 e Jr 4: 23), caótica (Is 24: 10), nulidade (Is 40: 23), vácuo (Is 41: 29), vaidade (Is 45: 19) e caos (Is 45: 18 e 59: 4).
2 – Isaias 59: 4
3 – Provérbios 29: 11
4 – Isaias 45: 18
5 – I Coríntios 3: 10 a 17
6 – I Coríntios 9: 26