Cada cultura, num tempo, traz em sua linguagem um conjunto de significados e símbolos que procuram traduzir a forma como vêem a realidade ou como se compõe seu conjunto próprio de valores. Alguns verbetes, em especial aqueles que tratam das linhas mestras do caráter de um povo – o que poderíamos chamar de valores éticos -, espelham a leitura da realidade, o como se projetará o entendimento do que é real.
O povo Hebreu entendia sua relação com Deus a partir do entendimento das Alianças. Desta forma a história, que é pano de fundo da Bíblia, se desenrola em elos de alianças que o Senhor vem estabelecendo com Homens durantes as eras e tempos. Deus estabeleceu alianças com Abel, Noé, Abraão, Jacó, Moisés, Josué, Davi e outros. Uma aliança era um pacto entre um Homem, ou um povo e Deus; neste pacto eram definidos, com base em declarações e ritos, direitos e deveres, onde Deus apresentava o que esperava daqueles com quem estava estabelecendo a Aliança e expunha um conjunto de promessas com as quais Ele Se comprometia a cumprir.
Outro elemento imprescindível da cultura e da religião de Israel era sua esperança e expectativa messiânica. Havia, naquele povo do Velho Testamento, uma forte certeza e convicção que Deus cumpriria Sua promessa em enviar à Terra o Messias, aquele que iria redimir o Homem ao seu estado de pleno relacionamento com o Eterno: com Deus.
Em meio a este modelo de Alianças e esperança messiânica, temos a palavra hebraica para verdade: “emunah”. “Emunah”, que é a “verdade”, para os filhos de Israel, traz como significado a capacidade de tornar real uma promessa. Relaciona-se com a idéia de que a verdade é uma promessa que irá se tornar realidade. É uma palavra que conecta o futuro ao presente; traz a certeza presente de que o futuro prometido, por um pacto de Aliança é inexorável. A palavra “emunah” tem a mesma origem da palavra “amém”, que significa “assim seja”.
Com este entendimento é que podemos compreender a preocupação dos escritores do Velho Testamento em descrever certas situações que envolviam promessas e seus respectivos cumprimentos. Por exemplo, Deus em Sua Aliança com Abraão, promete um herdeiro (Isaque, filho da promessa) e uma herança (a terra de Canaã). Embora Abraão tenha andado na terra de Canaã, ele não a possuiu plenamente; a possessão governamental somente se concretizou centenas de anos mais tarde no reinado de Davi, quando Deus pode dizer que sua “emunah” havia se cumprido.
Os gregos empregavam a palavra “aletheia”. A “aletheia”, ou a verdade, é dizer sobre o que de fato está na realidade manifesta, em oposição ao que está oculto, não manifesto e no engano; o verdadeiro é o evidente ou plenamente visível para a razão. Aristóteles, filósofo grego, propondo uma teoria da verdade, disse que a verdade é dizer sobre algo aquilo que de fato ele é, ou dizer aquilo que ele não é. Quando dizemos: a água é translúcida. Estamos falando a verdade, pois estamos dizendo da água aqui que lhe é próprio e podemos verificar experimentalmente tal qualidade.
João, o apóstolo, transcrevendo as palavras de Jesus, escreve: “e conhecereis a aletheia e a aletheia vos libertará”. Mais tarde Jesus diz: “eu sou o caminho, a aletheia e a vida...”. Agora Jesus, o Cristo, não se encerra mais na verdade que se espera como promessa – “emunah” –, Ele transcende este conceito e passa a ser a verdade verificável, Ele é discernível pela razão humana, quer seja pela lógica teológica (o estudo minucioso das Escrituras), quer seja pelos sentidos da alma. Jesus é aletheia de Deus: a verdade presente.
João está demonstrando, a partir da linguagem, que Jesus é o Messias, aquele por quem o povo de Israel e a humanidade aguardavam e que naquele tempo se manifesta corporalmente, portanto, para este escritor, Jesus é a aletheia de Deus.
Por sua vez os romanos falavam o Latim. Verdade em Latim é “veritas” que significa a exatidão entre o relatado e o ocorrido. A “veritas” está na capacidade de alguém em descrever com exatidão, no âmbito exclusivo da linguagem, o que ocorreu. A mentira passa a ser uma descrição errada. A verdade passa a depender exclusivamente da exatidão e precisão com que um relato ou enunciado é apresentado. A “veritas” trata de descrever precisamente o passado.
Quando Lucas, discípulo de Paulo, médico e historiador, faz a introdução do evangelho que leva seu nome, tem a preocupação de buscar a “veritas” entre testemunhas oculares e ministros da palavra, e depois de uma apurada investigação, colocar tudo em ordem e escrito, para que os leitores tivessem plena convicção da verdade. Sabemos que Lucas, assim como Paulo, tinha uma pregação direcionada para uma sociedade cuja cultura era grego-romana.
Tivemos os três grandes entendimentos sobre a verdade: a “emunah”, que trata da verdade prometida em Aliança, principalmente a messiânica. A “aletheia”, que trata da verdade que é, do fato, ou da coisa em si. E a “veritas”, ou o relato do que foi. Assim formou-se a cultura judaico-cristã, dizendo sobre a verdade que se esperava (de Adão até o ano zero), dizendo o que é (do ano zero até 90 d.C.) e dizendo o que foi (do ano 90 d.C. até 1.400 d.C.). Hoje falar sobre a verdade é um pouco mais complicado.
Há algumas teorias sobre a verdade, entretanto vamos ressaltar aquela que diz que “verdade é aquilo que é útil acreditar”.
Outro dia vi um programa que relatava a história de uma reportagem publicada na National Geograph, sobre um fóssil pré-histórico que seria o suposto elo entre os dinossauros e as aves. Há uma profunda expectativa da comunidade científica mundial em provar que os dinossauros não foram extintos, antes, eles “evoluíram” para se tornarem aves, entretanto faltam os tais elos perdidos, aqueles “bichinhos” que seriam parte dino, parte ave.
Em certo momento, no interior da China, alguém encontrou incrustado numa rocha um esqueleto de um animal ainda não catalogado, que presumivelmente seria o tal elo perdido e o enviou à National Geograph. A mais importante revista do gênero contratou os mais renomados cientistas para que estudassem aquele fóssil, a fim de verificar a veracidade do importante achado.
Após meses de investigação e milhares de dólares, a revista, com o respaldo dos cientistas, publicou reportagem de capa sobre a prova de que os dinossauros não desapareceram, antes estão vivos em forma de aves e cujas provas eles as tinham em mãos.
Um dos cientistas, porém, continuou sua investigação, mesmo após a publicação da revista e constatou que aquele fóssil era o encaixe superficialmente perfeito de duas placas que continham dois animais distintos: da cintura para cima era uma ave pré-histórica e da cintura para baixo era um dinossauro.
A National Geograph veio à público retratar-se e iniciou uma averiguação das razões de seu erro. Por traz de tudo não estava negligência, má fé, incompetência, irresponsabilidade, antes estava o profundo desejo de que aquela história fosse verdadeira. O desejo latente e profundo em crer camuflou, ainda que temporariamente, a verdade.
Pensando sobre verdades contidas na Palavra de Deus, veio-me a frase: “entregar os dízimos à igreja produz prosperidade financeira”. Duas coisas precisam ser ressaltadas neste ponto: primeiro que esta frase não foi intuída sobrenaturalmente, antes faz parte deste limbo que é a cultura massiva do neo-pentecostalismo brasileiro contemporâneo e segundo que esta é a frase menos problemática que tenho para apresentar.
Num país com IDH comparável ao dos países mais miseráveis do mundo, PIB e renda per capta descendo a ladeira, elevada taxa de desemprego, distribuição de renda desumana, guerra civil não declarada nas grandes metrópoles e no campo, impostos na estratosfera, corrupção, classe dominante irresponsável, etc, qual discurso religioso, ou sobre Deus, obteria sonoridade de verdade para este povo sofrido e desesperançado?
Uma teologia lucubrada no estado mais rico do país mais rico do mundo, dizendo ao povo de países pobres que há uma relação de causa e efeito simples entre os dízimos e a prosperidade financeira, chancelado por Deus, que O faz refém de Sua “emunah”. Esta teologia diz que se você trouxer dez por cento de sua renda mensal e entregar na igreja local, então Deus passa a estar comprometido em te prosperar na razão de dez por um. Esta teologia toma substância quando um líder religioso respeitado em sua comunidade diz que a Palavra de Deus traz uma promessa de verdade (“emunah”) e apresenta testemunhos de como esta verdade (“veritas”) se processou na vida de pessoas comuns e que pode ser atestado sua exatidão pelo patrimônio atual verdadeiro (“aletheia”) daqueles que ousaram crer nela.
O outro discurso prega que prosperidade bíblica não é algo que se mede necessariamente pelo patrimônio e conta bancária, que não se obtém por uma relação de causa e efeito simples entre dízimos e bênçãos, antes é proveniente de um conjunto de ações coordenadas, tais como: trabalho árduo, disposição, integridade, inteligência, motivação, amor, planejamento, ações efetivas e eficazes, etc e muito mais trabalho duro, e que ao fim de tudo, ainda existe a probabilidade de que não se alcance o objetivo integralmente, fiando o Homem sujeito à graça soberana de Deus. Esta pregação diz que no processo de semeadura há uma infinidade de ações e fenômenos controláveis ou não, que se forem executados corretamente e não houver impeditivos exteriores e o Senhor abençoar, a colheita será profícua. Muitos “sis” para ao final de tudo comer o pão que penosamente granjeaste.
Não sei quanto a vocês, mas eu vou crer na teologia texana, pois eles falam inglês, são muito crentes (dá pra ver pela riqueza deles), são ricos (porque são crentes) e estão tentando me ensinar a ser rico e crente (nesta ordem, é claro): coisas do espírito. O outro discurso é feito em português, por um pobre, nem sei se é tão crente assim (já que é pobre como eu) e complica muito nossa fé com palavras difíceis e filosofanças: coisas da alma.
A “veritas” é que no Novo Testamento a palavra dízimo não é aplicada em contexto que trata de riqueza e prosperidade, antes, o verbete que este no contexto da prosperidade é semeadura; no Velho Testamento as palavras dízimo e prosperidade nunca estão no mesmo texto. Quando a Bíblia fala de dízimos, no Velho Testamento, está tratando de uma questão legal para a manutenção do sistema religioso, político e social da nação, via imposto, chamado dízimo. Quando a Bíblia fala de prosperidade, no Velho Testamento, está tratando do desejo de Deus para o Homem, do resultado do esforço e trabalho humano e de desenvolvimento do caráter e integridade divino, no Homem.
São ambientes distintos – dízimos e prosperidade - da verdade divina para o Homem, que, como tudo na Palavra de Deus, está interconectado.
A “emunah” é que o Homem que passa a crer na Palavra de Deus como fonte revelatória de vida, torna-se herança de Deus na Terra, e como tal, manifesta o caráter de Deus trazendo prosperidade para toda a comunidade na qual está inserido. O propósito de Deus é que cada um de nós, e para todo o Ser Humano, é que nos tornemos pequenos cristos, “emanuelizando” a presença de Deus manifestando o peso de Sua glória. A prosperidade bíblica é a medida da excelência do caráter de Deus que se está formando no Homem.
A “aletheia” é que homens e mulheres do Reino não podem mais se calar diante de discursos que tem o intuito de cegar e sedar o discernimento espiritual do povo de Deus. Estamos em meio a um processo conflituoso, penoso e incessante de construção da verdade de Deus em nós. Receitas infantis tem produzido uma igreja inoperante que tem crido em contos de fadas.
O Homem que vive na dimensão da “aletheia” de Deus é cooperador com o Senhor na edificação deste caráter e co-autor de uma excelência existencial próspera: para ele e para a sociedade.
Este exemplo, como tantos outros que poderíamos estar trabalhando neste texto, visa nos incitar, como formadores de opinião, líderes comunitários, seres que afetam seus pares a partir de sua própria vida, a não sermos receptores infantis e reprodutores irresponsáveis de dogmas que são como canto de sereias. Somos chamados a sermos luz, mas se esta luz é trevas, as trevas serão ainda mais profundas.
A verdade não é necessariamente algo que minimiza a relação custo/benefício, que agrega discípulos e produz manifestações tangíveis de sua eficácia. Homens como Jeremias, João Batista, Paulo, Pedro e Jesus pagaram com a solidão, perseguição e a vida pela exatidão das verdades proferidas.