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Que tempo esplendoroso este que vivemos!
Que tempo desafiante no qual estamos inseridos! Alguns se põem a crer, a se permitir estar impregnados de paradigmas mentais fatalistas e terminais, eu, porém, ouso a crer além das circunstâncias. Eu me vejo no tempo mais sublime da história da humanidade.
Este é um defeito que já carrego comigo por algum tempo, nunca olho para trás e sinto que os tempos que se foram tenham sido melhores do que os que estão aí, e não temo que no futuro as coisas piorem. Acho magnífico estar onde estou, estando sujeito às coisas fora do meu controle. Quem disse que temos recursos em nós mesmos para controlar alguma coisa?
Muitas vezes paramos para ver os acontecimentos, os fatos do cotidiano e ficamos, de certo, assustados, perplexos, atônitos, diante de barbáries, de como estas barbáries nos são contadas e como esperam que estabeleçamos as verdades sobre as notícias, segundo a conveniência de um sistema de valores. É onde estamos; não estávamos no que foi e nem no que imaginamos que será, mas estamos no que está sendo, durante nossa caminhada existencial. Inclusive, está sendo construído com nossa participação, quer conivente, quer opositiva, quer reativa, quer participativa, mas somos cooperadores disto que está aí.
Que tempo magnífico onde nos encontramos. Alguns, desesperançados, aguardam e profetizam seu fim e o fim daqueles que o construíram; alguns desesperançados lançam-se no hedonismo contemporâneo, em busca de fuga do inevitável. Mas quem o construiu? Não vejo dentro da história um tempo mais poderoso do que este, onde pessoas comuns podem construir deliberadamente novos valores, não porque alguém disse que era assim, mas porque intuiu e concluiu, enfim, obteve conhecimento precioso, aprendeu na experimentação.
É daí que consigo ler a parábola do filho “Pródigo” e de seu irmão “Certinho”.
Um Pai tinha dois filhos, que eram co-herdeiros de seus bens. Certo dia o Pródigo falou ao Pai que desejava sua parte na herança. O Pai concedeu-lhe o pedido. No outro dia, o Pródigo, arrumou as malas, tomando rumo de uma jornada ao inusitado, a fim de viver suas próprias experiências e usufruir a herança, em seu tempo próprio, longe do controle e peso da presença paterna. Partiu para uma terra distante, longe da vista o Pai, onde, depois de um tempo de regalias, tendo dissipado tudo que tinha, começou a passar fome, tornando-se servo de um cruel senhor que o fez compartilhar da comida dos porcos. Neste ínterim, o Certinho ficou em casa trabalhando para o Pai, fazendo tudo o que tinha que fazer: tratando da lavoura, do rebanho, do governo das coisas do Pai, etc.
O Pródigo, estando ali com os porcos, pensou consigo mesmo: “o que estou fazendo aqui? Na casa do meu Pai os empregados são mais bem tratados do que eu estou sendo neste lugar; vou até lá, pedirei perdão e me colocarei como servo dele.” Partiu, então, em sua viajem de retorno à casa daquele generoso Senhor.
Quando se aproxima da casa do Pai é avistado por este, que corre a seu encontro e mesmo antes que viesse a pedir perdão pelos desatinos e colocar-se como quem pede emprego, o Pai o recoloca na posição de filho, calçando-lhe os pés, trocando-lhe as roupas, pondo-lhe um anel e oferecendo-lhe um cordeiro para refeição. Enquanto isto, o Certinho arrazoava consigo: “como pode? Eu estive aqui, fazendo de tudo certo, e nunca recebi nada deste meu Pai!”
Aquele desmiolado do Pródigo tinha novamente alterado o arranjo do sistema de valores da casa, pois primeiramente havia pegado em adiantamento a herança, abandonando sua posição na casa do Pai, dissipando todos os recursos e voltado como se pudesse resgatar algo daquele Senhor. O Certinho, por sua vez, tinha ficado ali, trabalhando, sendo obediente, cuidando das tarefas domésticas, se esforçando em agradar o Pai, e no fim de tudo o outro vem e é recolocado na posição de filho?
Gostaria de poder entrar, um pouco, na mente daquele Pai, imaginando poder pensar todas as coisas que Ele pensou, todos os sentimentos, emoções, racionalizações, desejos, vontades, certezas e angústias. Imagino meu filho pedindo em adiantamento a herança, é como quem diz: “quero abdicar de ser teu filho e viver a minha vida fora de Seu domínio.” Um filho, de certo, representa a continuidade, o elo entre a minha geração e as próximas que virão; um filho são sonhos e projetos a serem realizados, planos que não pudemos cumprir em nossos dias e que eles cumprirão em sua própria existência. Um filho é a esperança de um futuro; sou eu, indo além do meu tempo e espaço, carregado pela força da genética e pelo conteúdo do caráter.
Aquele filho dizendo que queria romper com as amarras e buscar seus ideais, longe dos olhos do Pai, poderia irromper de súbito um impulso controlador, uma gana protetora, uma ação ordenativa visando impedir o curso imaturo daquele jovem e irresponsável Pródigo; entretanto o Pai se cala neste instante, concedendo-lhe o desejo de herança fora do tempo e não impedindo sua opção aventureira. O Pródigo parte em sua jornada de independência.
O tempo passa e aquele Pai não recebe notícias; nenhum e.mail, telefonema, carta, telegrama, recado, pombo-correio, nada. Será que meu filho morreu? Será que se perdeu? Pegou AIDS? Tornou-se um delinqüente?
O Pai não pega um carro, avião, trem, ônibus, navio, etc e vai atrás daquele insensível garoto, somente aguarda. Tudo está sob controle. Tudo está correndo conforme o script. O Pai tem toda a situação em suas mãos e sabe que ao fim de tudo, reverá o filho Pródigo. As opções do filho não alterarão o final da história, embora alterem substancialmente todo arranjo de relacionamentos da casa, a partir de seu retorno.
O Pai sabia que o filho, quando retornasse, não somente seria um filho consciente de sua herança e filiação, mas também da força da relação que teria com o Pai. Sua estada na casa do Pai não mais seria por obrigação genética, mas por opção convicta. O Pai sabia, que o filho Certinho, que ali esteve por limitação obrigatória, por reverência, temor, responsabilidade, vendo a relação do Pai com o Pródigo, reveria sua própria condição. O Pai teria um filho Certinho que não mais estaria ali por serviço, mas por aliança, executando o serviço por ser co-participante da herança.
Que tempo fenomenal que estamos vivenciando! Quando a humanidade dissipa suas últimas forças e valores próprios e vê esgotados os recursos de uma ciência que não mais oferece soluções gerais. No existencialismo vê-se desesperançada e nos seus ícones percebe o mesmo vazio, assim, começa a ver que os porcos têm mais que ela mesma. Como diz o historiador americano Jacques Barzum: “A palavra decadência expressa uma perda de energia. Transmite a idéia de que as chaves mestras da cultura já não têm poder de abrir novas portas, de inspirar avanços. No lugar das possibilidades há repetição, estagnação e tédio. Há sinais de sobra que isto está acontecendo no Ocidente.” Ou como disse o filósofo francês Jacques Derrida: “Salvar a honra da razão vale dizer que estamos diante de um fracasso iminente, o anúncio de uma perdição... Trata-se de um momento que, o fracasso confessado, devemos salvar a honra, no final de uma batalha perdida, por uma causa justa, por uma causa nobre, a causa da razão, que acabamos de saudar por uma última vez com a melancolia de uma filosofia em luto.”
O Pai não perdeu o controle da situação, não está angustiado e nem mesmo prefere ver o filho morto a estar perdido. O Pai sabe o que está acontecendo e aguarda que os acontecimentos culminem num inevitável fim.
O Pai aguarda que o Certinho (Igreja) deixe de se mover pela obediência e medo, e faça por razões mais nobres de herdeiro real.
Não estamos vivendo num tempo onde o gestor perdeu controle administrativo da história e dos fatos, antes, estamos vivendo um tempo onde a herança está sendo dissipada e a história caminhará, embora o Pródigo rejeite as metanarrativas, para o cumprimento do projeto divino. É um tempo de convicções e posicionamentos alinhados a um modelo operativo que redundará na restauração de todas as coisas.
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