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Agenda para o Século XXI

Outro dia vi na televisão a nova “onda” dos americanos, dos moradores de Nova York: pela internet obtém um endereço na cidade, onde devem ir pegar uma “senha”. Esta “senha” nada mais é do que um novo endereço e uma atividade a ser desenvolvida num horário pré-estabelecido. A atividade é um completo “non sense”; no caso da reportagem específica, as pessoas deveriam ir a uma loja, ajoelhar-se diante de um dinossauro de brinquedo e gritar como se estivesse em adoração e espanto, durante alguns minutos e depois ir embora.

Tal atividade não tem cunho político, reivindicatório, social, religioso, moral, tribal; simplesmente milhares de pessoas participam de uma atividade cujo propósito é participar da brincadeira. Tudo aquilo é meio e fim em si mesmo.

Peguemos um túnel do tempo e voltemos para a década de cinqüenta.

Após a Segunda Guerra Mundial o mundo estava dividido em dois blocos de poder: o capitalismo e o comunismo. Por conta destas duas ideologias vivenciamos ações violentas em quase todos os continentes. Lutas de independência e regimes autoritários no mundo inteiro, passeatas estudantis e ações de repressão. Ditaduras e macartismo. Stalin, Mao, Fidel, etc.

Todos nós fazíamos parte de uma grande meta-história, um conjunto de acontecimentos históricos que nos levariam à construção de um futuro melhor. As pessoas estavam dispostas a pagar um elevado preço, assumindo riscos pessoais, crendo estarem participando da edificação de uma sociedade mais justa, democrática, de inclusão, etc.

Dependendo da turma que nos encontrássemos, aquela era a “turma do bem” e os outros eram os “comedores de criancinhas”.

Até mesmo a escatologia cristã evangélica trouxe “verdades dogmáticas” sobre o bem e o mal, lendo com os olhos da guerra fria. Qual de nós não ouviu falar que Israel, o então chamado “povo de Deus” seria invadido por um povo perverso, gente hostil, exército do “anti-Cristo”, Gogue e Magogue, que viria com todo seu exército do norte e se acamparia em Armagedom. Fomos ensinados a olhar para um mapa mundi e traçar uma linha vertical, norte-sul, ligando Moscou a Jerusalém.

Quem ousaria a dizer que aquilo não era a Palavra de Deus?

As pessoas realmente acreditavam que eram peças importantes e fundamentais para a conquista da liberdade e da qualidade de vida. Alguns criam que isto se daria pelo modelo liberal de Adam Smith e outros criam nas proposições de Marx e o socialismo. Esta palavra: “criam”, não retrata a forma apaixonada e insana como os protagonistas se enfrentavam. CIA x KGB, Stasi e SNI. Clichês e propagandas políticas em meio aos assassinatos e guerras: jovens idealistas dando a vida em prol da ganância de poderosos.

A filosofia encerrava tudo sobre o modelo da Dialética de Hegel e sua tríade de tese-antítese-síntese. Mas por volta da década de setenta/oitenta entra em cena a pós-modernidade e o fim das meta-narrativas, o fim da meta-história e o triunfo do empirismo de Hume e o fim da metafísica: o fim do discurso baseado na premissa de que há um absoluto e que estamos construindo um futuro melhor. Sobre o empirismo inglês, vem o pragmatismo americano e a verdade passa a ser sobre os discursos e jogos de linguagem e não mais sobre fundamentos ontológicos.

O sujeito moderno - de Decartes, Kant e Hegel - sai de cena e entra a pessoa pós-moderna de Pierce, de Foucault, de Habernas e de Rorty.

Neste momento nos vemos em Nova York em frente a um Tiranossauro Rex de 4 metros de altura, e que a cada rosnada nos ajoelhamos e com o rosto no chão, o adoramos. Pra que? Para nada! Por diversão, passa-tempo, prazer, forma de estar inserido neste mundo que está aí e onde estou, ainda que temporariamente.

Trabalhamos doze horas por dia, no período noturno fazemos MBA, os fins de semana passamos concentrados num hotel para cursos de treinamentos, temos computadores em casa para podermos trabalhar remotamente em nosso Home Office, quando não estamos na empresa. Pra que? Para pagamos o MBA, para comprarmos um carro novo, uma casa maior, passarmos férias no Caribe, comer no Fasano, sustentarmos um bom psicanalista para superarmos a angústia gerada pela possibilidade da perda do emprego, pagarmos um personal trainner e cirurgiões plásticos para esconder o fato de que estamos nos quarenta e podemos ser considerados obsoletos para o mercado de trabalho.

O que fazer? Ficamos imaginando se abraçássemos a “Teologia da Libertação”, nos filiássemos ao MST e participássemos ativamente da luta de classes, não daríamos um sentido objetivo a nossa existência e construiríamos um futuro onde todos os iguais fossem iguais. Mas como, se não gosto de dormir em barracas, fazer as necessidades em pinicos e levar chumbo de jagunço?

Outra alternativa é me debruçar sobre o entendimento escatológico, místico, de batalha espiritual, crendo que sou um peão do tabuleiro de xadrez, que forças cósmicas estão determinado cada decisão que pensei pudesse tomar, que devo me submeter indiscutivelmente a este jogo de poder no qual não sou nada, onde Deus e Satanás deverão se confrontar nesta luta na eternidade e que me resta ficar na expectativa do triunfo inexorável do bem sobre o mal. Mas como, se sou um sujeito lógico, não místico, formado no conhecimento científico, pós-graduado em pragmática, doutorado em empirismo?

Com certeza a Palavra de Deus é eterna, isto é, foi concebida, habita, é discernida e manifesta-se numa dimensão para fora do tempo, e que tendo sido verdadeira para os pré-modernos e para os modernos, há de ser verdadeira para nós, pós-modernos.

O que há de se alterar? Nós, e não a Palavra; como nos diz: “seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso.”(1)

A Igreja deve confrontar-se com uma Agenda para o Século XXI e, embora, não seja conivente com a não fundamentação sistêmica da pós-modernidade pragmática e empírica, não se põe como um ermitão, numa redoma de falsa espiritualidade e santidade retrógrada e conservadora, procurando manter-se pela mitologização do kerygma.(2)

Tal qual homens de um tempo, que foram sintonizados a gerações futuras, urge-nos rever paradigmas que forneçam elementos de nossa relevância e inserção neste mundo. Homens como Abel, que entendeu o sacrifício, num tempo sem acesso; como Abraão que entendeu a fé, estando em meio a uma cultura da antropomorfização das divindades; como Moisés que viu o sonho de liberdade, contra o poder secular; Josué que ousou enfrentar a instituição estabelecida; João Batista que foi voz discordante diante do clero e do rei; Paulo que foi gracioso diante da exclusão; Lutero, o arauto contra a religião institucionalizada; John Wesley, justiça social diante da opressão do capital; Martin Luter King, com a igualdade entre os diferentes; Desmon Tuto e o fim do apartheid.

Urge estabelecer uma Agenda da Igreja para o Século XXI, diante da morte de Deus pela religião e da inexistência de Deus na sociedade, buscando os recursos divinos em Sua soberania, sabedoria e inteligência.

Uma agenda que tenha como elemento estratégico a relevância da Igreja em meio à cultura dos povos, num mundo que vê as trevas do ceticismo e relativismo estar polarizada com a cegueira da intransigência religiosa. Uma Igreja que tenha o “corpo” na “terra” e o “coração” no “céu”, concomitantemente. Uma Igreja que seja luz graciosa de Deus aos seres humanos e toda a criação.

Ser relevante é abdicar de seu direito exclusivo de almejar o céu, tal qual Moisés e Jesus o fizeram, e sacrificar-se em prol de trazer o “céu” à “terra”. Assim, tal agenda deve trazer efetividade tecnológica: capacidade de transformar o Logos divino em Aletheia humana, transformar o dito por Deus em praxis social. “Emanuelizar” o Verbo em meio a nossa existência. Fazer valer o exemplo divino, quando Ele mesmo demonstrou Seu amor por ter Jesus Cristo morrido na cruz. Precisava Deus demonstrar alguma coisa?

Relevância e efetividade operando sobre a dinâmica da aliança. Na agenda estar priorizado as conexões por aliança, descartando toda premissa ideológica e denominacional. Andar juntos por entendimento corporativo e complementaridade funcional e não por preconceitos religiosos. Entender os recursos divinos disponíveis na “terra”, a partir de seres humanos e discernir que o propósito de nosso trânsito se efetiva num “corpo” plural. A aliança passando a ser o meio de estabelecer vínculos para a efetividade.

A agenda deve inexoravelmente trazer o tema da desconstrução do mito institucional. Desde Mateus 24: 1 e 2, Atos 2 e principalmente no ano 70 d.C.(3), o templo, o sacerdócio levítico e os ritos foram ilegitimados e ilegalizados por Deus e desde 350 d.C. as basílicas, o clero e os dogmas religiosos cresceram como cataratas nos olhos da cristandade. Toda ação, revelatória e operativa, de Deus deixou de ser no Templo, pelos sacerdotes em meio aos ritos e passou a ser no ser humano para a criação, via Espírito de Deus e pela Palavra efetivada por fé. O templo é a existência humana, o sacerdócio é exercido por todo o corpo e o rito é um ato de vinculação graciosa de amor.

Sobre as proposições acima, devemos acrescer o trânsito, o entendimento de que somos uma geração de trânsito, tal qual foram as gerações de Abraão, Moisés, Josué, Paulo, Lutero, John, Martin, Desomond e outros. Uma geração de trânsito é agraciada pelo esgotamento de um sistema que não mais oferece respostas à existência humana e com a possibilidade de projetar, profetizar, por fé um ponto futuro, ainda que oculte em seu discurso o entendimento proposital. Palavras e conceitos que denotem absoluto, tais quais, perfeição, salvação, verdade, devem ser substituídos pelo entendimento da migração, assim teremos maturidade, salvação progressiva, construção da verdade, etc.

Mais do que apenas incorporar o trânsito no posicionamento eclesiástico, é mister re-arranjar a linguagem do sujeito cristão diante de uma nova demanda de interlocução, a menos que tenhamos a intenção de nos tornar os Amish do século XXI. A agenda deve apontar para a busca de uma nova linguagem de inserção e comunicação com o mundo. A Igreja deve entender o que os povos estão falando e sermos entendíveis. O novo paradigma filosófico é a linguagem. A linguagem eclesiástica, que tardiamente e hereticamente insulta nossos entendimentos e a verdade de Deus, mantendo crendices maniqueístas e mitologias pagãs, deve ser transposta por um sistema de valores verdadeiros que expressem nossa posição real no mundo.

Embora minha lista não seja fechada e nem tão pouco conclusiva, é, entretanto, para mim, limitada, assim proponho um item de fechamento para a Agenda que é o Propósito de ser Igreja. O ser humano, em certos momentos no entendimento do crente, foi feito para ser salvo, outros diziam que era para ir para o céu, outros diziam que era para ficar cantando louvores a Deus, muitos dizem que é para ser próspero, e assim vão rolando as idéias. Entretanto estou convencido que fomos feitos para sermos iguais a Deus, para plenamente refletirmos o caráter de Deus na “terra”. Isto somente é possível quando olharmos de fato para aquele que é de fato a imagem expressa de Deus: Jesus Cristo.(4)

Uma vez que a Igreja crer que Ele, Jesus Cristo, é o homem segundo a imagem de Deus e que nós fomos feitos para sermos a imagem dEle (5), então estaremos aptos a iniciarmos o processo migratório de construção de Deus em nós e assim sermos co-participantes da natureza divina.

A natureza divina é relevante no tempo e no espaço, ainda que habite na eternidade, sendo percebida na história, cultura e sociedade humana via manifestação de Seu caráter por meio de atos. Deus convida, estabelece e efetiva alianças com seres humanos, em quem deposita fé, em todo tempo e lugar, rompendo com as amarras da legislatura institucional, como fez com Raabe, Noemi, etc, visando sempre resgatar o ser humano para o Seu propósito genético, conduzindo gerações em migrações constantes de revelação, conhecimento, maturidade e desempenho. Por fim, ainda que o Senhor fale de coisas eternas e profeticamente, traz a revelação a partir de um código lingüístico que permita o entendimento daqueles para quem Ele, historicamente, está falando.

(1) Romanos 3: 4
(2) Kerygma: proclamação, pregação em grego
(3) 70 d.C.: ano em que as tropas romanas invadiram Jerusalém e destruíram o Templo
(4) Hebreus 1: 3
(5) Romanos 8: 29