Platão quando escreve “A República”, exclui do poder sobre a “Polis Grega” os
escravos, os estrangeiros, os menores e as mulheres, e claro, os animais. Todo o
pensamento ocidental, iniciado por eles, os gregos, é proveniente do trabalho
filosófico de homens.
Não saberíamos citar a fonte, mas há estudos que demonstram que as mulheres
de Roma não tinham “nome próprio”. É claro que elas se chamavam "Ester", “Ana”,
“Alexa”, “Júlia”, “Aline”, “Michele”, “Marina”, “Márcia”, “Míriam”, “Cristina”,
“Noemi”, “Evelyn”, “Rute”, “Luciana”, etc, entretanto elas não tiveram “marca”,
não deixaram póstumos, não legaram pensamentos, não contaram histórias. Em suas
lápides não foram registrados seus feitos, suas idéias, as contribuições que deram à
sua geração e como afetaram a vida dos maridos, filhos, amigos e da sociedade.
Também à título especulativo, dizem que na ortodoxia islâmica mais fundamentalista,
na sociedade regida pelo peso desta religião, a hierarquia social é encabeçada pelo
homem (ser humano do sexo masculino), vindo em um segundo nível de importância
social o cavalo e em terceiro a mulher. Vale a pena conferir.
No Brasil a mulher obteve direito ao voto, a ter vida política, por volta de 1930!
Voltando um pouco para a mitologia grega, foi Hércules, o super-herói masculino que
enfrentou desafios homéricos, quem teve a incumbência de enfrentar as Amazonas.
Quem seriam elas se não um sistema de governo feminino sobre a “polis”, que expunha
a “polis” masculina grega a um confronto de valores e métodos?
Neste transbordo asistemático de pensamentos, lembramo-nos de um “papo de
botequim” que tivemos com um psicólogo, onde ele tentava traduzir um modelo
elementar de sucesso. Dizia ele: “há três caminhos para se obter sucesso. O primeiro
é ser menos incompetente que os demais concorrentes, o famoso: em terra de cego
quem tem um olho é rei. O segundo é trabalhar duro para convencer os outros que
eles são mais incompetentes que você. O terceiro é trabalhar duro pela excelência e
busca da maximização do potencial e eficácia da dinâmica operacional”.
Aqui, gostaríamos de propor dois tempos para este “dialogismo de boteco”:
inicialmente buscar uma alforria e posteriormente contextualizar esta “mea culpa”
escravagista.
Propomos que todos os leitores homens, e também os machos, casados, solteiros,
viúvos e divorciados - todos os “Adões” - dessem uma carta de alforria para as suas
“Evas”.
Sei que nesta proposta os homens entenderão e as mulheres darão suporte, mas os
“machos” – “Adão” – dirão que somos heréticos e as “Evas” imaginarão que somos
idealistas utópicos. Na frente de seus maridos dirão que estamos falando sem “base
bíblica”, mas que no íntimo suspiram para que os “Adões” sejam menos machos.
Alguns “Adões” dirão que somos controlados por nossas “Evas” e que desejamos
perverter a ordem das “Escrituras Sagradas”. De fato, devemos confessar que temos
um instinto elementar que nos conduz à perversão da Lei Dogmática: uma heresia
sistêmica. Assunto para outro dia.
Primeiramente, para entendermos o que nos propomos ao dizer: “dar uma carta de
alforria”, precisamos imaginar um burro de carga (macho por excelência) carregando
nas costas uma peso que vai muito além de sua capacidade, quando falamos ao seu
ouvido virtual: livre-se deste monturo insuportável, ele não mais pertence a você!
A “carta de alforria” dada a “Eva” quebra os grilhões de “Adão”. Esta carta de
alforria bumerangue é endereçada para “Eva”, mas escriturada para “Adão”. Não é a
“Eva” que está subjugada ao “Adão”, antes, é ele que se encontra escravo do ser
errático.
Adão, que era apenas “homem” antes de errar o alvo, deu o nome de Eva àquela que
era apenas “mulher” antes de escolher o fruto errado.
Dar nome aos bichos foi o desígnio de Deus para o homem, no Jardim do Éden. Estava
ali, o homem, naquele lugar paradisíaco, rodeado de seres a quem Deus submeteu a ele.
O Senhor havia dito: dominai, subjugai, estabeleça seu mando sobre eles. Então, o
ato de dar nomes é a ação de determinar a soberania, o mando, o domínio. Um exemplo
“politicamente incorreto”, mas eficiente, é as Ilhas Malvinas. Todo argentino que se
preze chamará aquele lugar de Ilhas Malvinas e todo inglês chamará de “Falklands
Islands”. O nome é estabelecido a partir do poder que se exerce, ou pretende exercer.
Mas, num belo dia de sexta-feira, por volta das seis horas (da manhã), o casal, que
era um, decidiu ser Deus, decidiu quebrar esta tri-unidade e romper com a
possibilidade de mixar definitivamente o céu e a terra. Disseram para si mesmos:
quero mais é ser deus e vou comer este fruto libertador. Pimba! Viram-se nus. Nus e
amedrontados! Nus, amedrontados e ocultados! Foi num piscar de olhos que estavam
se acusando, gerando rupturas e a quebra desta unicidade paracósmica, assim, quando
Deus pergunta a ele sobre os seus atos, o homem fulmina: “a mulher que tu me deste”.
Em outras palavras: Tu, Senhor, decidiste fazer a mulher, ela decidiu comer do
fruto e ainda por cima me enganou! Sou a vítima neste processo, por que o Senhor
fala comigo agora, neste tom?
A mulher, por sua vez, mais que depressa, usando o mesmo artifício do homem,
exime-se da responsabilidade pessoal do ato e atira a pedra na primeira serpente
“desavisada” que por ali ia passando: a serpente me enganou!
Imagine esta cena em nossa mente cinematográfica: o tempo congelado, holofotes
apontados para Deus, ao homem, à mulher e à serpente. Os holofotes do homem e da
mulher se apagam e o Senhor fala à serpente: você fez algo que não deveria, vou
acabar com teu vício em mentir e enviar a luz da verdade sobre tuas trevas.
Nisto a serpente deixa o palco, seu holofote se apaga e o facho de luz é apontado
para a mulher e ouve-se a voz de Deus: porque você fez isso, mulher? A vida que
deveria preencher a Terra não mais virá pelo estender de suas mãos e pelo comer do
fruto da vida, mas em meio à lutas e dores, e, agora, algo que se daria por aliança e
igualdade se dará por hierarquia, mando e subversão da ordem original, que vocês
chamarão de utopia.
Há trevas e escuridão e o holofote da mulher reduz seu brilho, tornando penumbra,
o do homem se acende e o Senhor fala: Eu tinha posto você para escolher, reproduzir
e preservar. Escolheu mal, perdeu o acesso e o padrão. Suas futuras escolhas estarão
viciadas e embriagadas pela tua soberba, nudez, medo, ocultamento,
irresponsabilidade e violência, gerando espinhos e abrolhos. A Terra se torna
maldita por sua presença divinizada por você mesmo.
O holofote da mulher torna a brilhar, fazendo par com o do homem, e Deus cala-se
esperando por um ato de coragem, da parte deles, em assumir a responsabilidade,
uma voz sussurrada, que seja, dizendo: Senhor, errei! Cura-me, transforma-me,
livra-me, dai-me pelo menos acesso ao Senhor. Não! O homem vira-se para a mulher e
dá à mulher o nome de Eva.
Agora o homem é macho e olha para a mulher como se fosse mais um animal e
chama-lhe: Eva! Eva era o nome da mulher que o homem do pecado tinha diante de si.
O nome dela, agora, era fruto da escolha maldita e amaldiçoada, do homem por si
mesmo e o conseqüente desejo de domínio e subserviência pelo pecado. Você agora
me pertence, poderei violentá-la, espancá-la, ignorá-la, oprimí-la, usa-la, engravidá-la,
abandoná-la, sem que sua voz faça eco, seja percebida, defendida, a não ser pela dor
e sofrimento, luta e confronto, pelos séculos e séculos.
A Eva passa a ter dupla jornada. A jornada de sua própria responsabilidade na
escolha maldita, gerando vida em meio às dores e a jornada do peso do carrasco
que a usa como expiação por seu erro.
O carrasco, que não vendo nela incompetência, posto que foi feita da mesma natureza
e excelência, lança sobre ela a mentira da inferioridade intrínseca: Eva é mais fraca,
menos inteligente, mais insegura, mais dependente, por isso, eu, deus-macho,
graciosamente a tenho sob minha proteção.
Eva é o nome do animal que pertence e que se acasala com o deus-macho!
Mas, por volta de meio-dia de sexta-feira, a Eva fica grávida de um menino. Mas
Adão não tocou nesta Eva, pois ela é Maria e o Adão se chama José. Deus exclui este
Adão e diz a ele: este filho é meu, estou redimindo a mulher e a humanidade; estou
fazendo cessar a dupla jornada de Eva. Deus dirige-se para a mulher e diz: será um
menino, pois estou redimindo o Adão em sua humanidade.
Este Adão, nascido da virgem, crava na cruz a maldição, fazendo-se maldito no lugar
da mulher e do homem. A maldição produzida, fomentada, estabelecida pela escolha
errada no Éden é desfeita, impugnada na cruz de Cristo. Na cruz a mulher não se
chama Eva. Não terá o nome que Adão lhe der, antes aguardará da parte de Deus um
novo nome, uma pedra branca com seu nome. Na cruz o homem se chama Emanuel.
Da mulher virgem que carregou no ventre o próprio Deus, até a mulher prostituta
que foi o primeiro ser humano que viu o Deus-Homem Jesus Cristo ressurreto, Deus
demonstra Sua ação de recondução à ordem verdadeira, ainda que vista, pelo Adão e
Eva, como herética e utópica.
Retomando ainda mais uma vez. Crendo ser a cruz o recurso de Deus para
reconduzir o ser humano ao projeto central e à libertação da escravidão ao desejo
de ser Deus, e sendo este erro de alvo genético, a razão de estabelecer uma ordem
hierárquica nas relações mulher-homem, então não seria esta mesma cruz uma
re-condutora da ordem verdadeira, onde homem e mulher são um, sem mando, sem
subserviência, sem opressão, sem chefes, senhores e servas?
Algum macho-crente (ainda que seja Eva) poderá nos responder: “mulheres sede
submissas aos seus maridos...”. Porém respondemos com a cruz de Cristo.
Mais nos importa estar à sombra da cruz do que na luz da religião.
Nós, novas criaturas em Cristo, onde ficamos diante desta carta de alforria que nos
foi dada pelo Adão-Jesus, diante desta possibilidade de um novo céu e uma nova terra
em nossas vidas conjugais? De fato, onde ficamos diante deste novo arranjo nas
relações de poder entre homem e mulher, ou mulher e homem?
O fato é que cremos que a cruz significa a possibilidade de zerarmos as contas de
passivo e ativo, surgidas pelas agressões e dissimulações, via mudança de direção e
perdão, e, olhando-nos face-a-face, reconstruirmos a vida à luz das alianças, onde
somos agentes complementares que atuam ombro-a-ombro para a manifestação de um
mundo onde reina paz, justiça e alegria, proveniente da ação do Espírito de Deus, em
nós e a partir de nós.
É um tempo onde podemos sentar diante de nossas esposas, ou de nossos maridos,
mulher e homem, e, descartando o peso da Lei da hierarquia, revermos a condução de
nossas famílias e vidas, com o firme propósito de que sejamos agentes pró-ativos e
complementares do Corpo de Cristo.
Homem e mulher não são, assim, pólos conflitantes e soldados de uma guerrilha
silenciosa que se dá pelo poder de governar sobre, mas pólo negativo e positivo de
um mesmo imã, cuja força atrativa restaura a criação de Deus.